21.7.26

Virtudes (um descompasso)

Ladytron, “In Blood”, in https://www.youtube.com/watch?v=4fkdizZ1lBw

As virtudes procuram a sua vertigem até se tornarem sonhos. A madrugada estima o crepúsculo que se amotina enquanto as vozes sonolentas vão desmaiando até ao silêncio. Para afastar a fuligem que adormece à conta do fim da noite, quando as pessoas se desembaraçam do sono e deixam a noite por conta de uma véspera.

A compostura das almas não se mede. Quem são as pessoas para se porem no lugar de juízes dos outros, se nenhuma admite ser réu em processos de intenções? As virtudes são sempre areias movediças que se desencontram dos fados prescritos. Uma propaganda estulta que coloniza os espíritos distraídos. Neste idioma não há santos que levam as comendas dos deuses.

São assim as virtudes: assembleias desertas, com tantos lugares por ocupar, mas as pessoas desconhecem o paradeiro desses lugares e ficam a terçar as suas vozes noutros parlamentos sem nome nem geografia. Se viajassem pelos lugares por conta das mentiras hibernadas, seriam vetustos antes do tempo por causa de tantas palavras esgotadas na deslucidez.

Há um mercado para as virtudes, dizem. Só não sabem dizer onde é esse mercado, quais são as virtudes mercadas, como são delimitadas. Parece o vento que se tenta agarrar com os dedos, o vento sem ser represado pelos dedos a continuar o seu caminho e as mãos possuídas pela invasão de um nada que fica agarrado aos dedos. 

Afinal, ainda está por existir um dicionário das virtudes que delas faça um inventário e estabeleça conceitos. Quem se propuser a ser seu procurador é um farsante, um navegador de doca seca, aprendiz tutelar dos piores fingimentos. 

O nó fingido aperta a jugular, mas a tirania das convenções impede o seu alívio. Temos o peso do mundo a abater-se sobre as costas e todo um mar de fingimentos a cobrir a pele. Para que servem as virtudes se não acreditamos nelas, nem sequer em nós mesmos?

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