Heaven 17, “Let Me Go” (live at Popcorn 1983), in https://www.youtube.com/watch?v=_PgvjTmq14Q
Há artistas (no sentido metafórico do termo) que gostam de falar de si mesmos, mas fazem-no como se outros o fizessem. Usam a terceira pessoa do singular. Deve-lhes saber bem entoarem o próprio nome como se estivessem a falar de outra pessoa, sabendo, contudo, que é de si mesmos que falam.
Os filólogos, no rigor da análise semântica, desvalorizam: trata-se de uma figura de estilo, aliás documentada na literatura (e depois estariam prontos para fornecer exemplos). O uso adulterado da fórmula exige análise: por que usamos o nosso nome como se estivéssemos a falar de outra pessoa, se estamos a falar de nós mesmos e usamos o nosso nome como se de terceiro estivéssemos a falar?
Pode dar-se o caso de o artista em causa sentir uma pulsão para sair de si mesmo (ou pelo menos fazer de conta), sem de facto sair, para simular a situação em que se consegue ver de fora de si, como uma antena parabólica que transmite o sinal de satélite sem estorvos desnecessários. É como se tivesse encomendado a oratória a um procurador, que é um alter ego seu com o mesmo nome. Serve para reforçar a persuasão do que é dito: não é apenas ele, é também o seu nome, fazendo-se de conta que se trata de outra pessoa. Trata-se de um argumento fundado na autoridade de um terceiro, que, não por acaso, é o seu outro eu verbalizado na terceira pessoa do singular.
Ou então, ao falar de si na terceira pessoa do singular, o artista vira-se do avesso e admite que o sujeito que transporta o mesmo nome é um clone exato. Dá jeito quando é preciso dar explicações por um acontecimento que deixa muita confusão pelo caminho: a justificação fica mais confortável se for endossada ao nome dito na terceira pessoa do singular.
A explicação favorita para o recurso estilístico é a vaidade. Narcisistas deste tamanho adoram falar de si mesmos. Uma falsa modéstia cobre-os de um módico de vergonha quando se ufanam de si próprios. Para não parecer um exercício descarado de narcisismo, usam a terceira pessoa do singular. Assim como assim, não são eles a falar; é alguém (o outro, a terceira pessoa do singular) que fala em seu nome. Uma vaidade disfarçada de encomenda.
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