The Chemical Brothers, “Do It Again”, in https://www.youtube.com/watch?v=UVrwzjtBHq0
O corte raso averba as palavras austeras. Ditas do abrigo do crepúsculo, as vozes parecem anciãos recolhidos no vagar da decadência. As sombras dançam, baixas, como lençóis de linho despenteados pelo vento marginal que se aproveitava da janela distraidamente aberta.
A manhã esbelta pousou no meu peito. Queria-se demorar em novelos de ternura, como se os poemas tivessem invadido o quarto e assentado como esteios inamovíveis. Contávamos as vírgulas que repousavam entre as palavras sem ser ao acaso: testemunhavam as bocas artesanais que se saciavam na saliva aberta, deixando uma promessa de suspensão da manhã.
A luz não se intimidava com as sombras coreografadas. Dividia-se em braços, estava mesmo a pedir para ser um delta em vez de estuário. Pedimos às palavras franquia para reter aqueles instantes como quem inventa o adiamento do tempo para demorar o eclipse. O porte imperial colonizava os fragmentos da manhã que cresciam avulsos. Não demos o tempo por perdido quando nos fizemos seus procuradores. Dissemos: é deste mecenato que somos alcateia; podemos arranjar as palavras que forem a despropósito, torná-las no lar que passamos a habitar.
Depois fomos sufragados pelo dia. Os olhos avivavam as paredes que ocultavam desenhos pressentidos. Aos nossos olhos, aquele quarto era um amontoado de arte escondida dos olhares intrusos. Sabíamos ser assim. Sabia-nos a iguaria irrepetível, esbracejando contra o dolo da rotina.
Encontramos um promontório onde as mãos fruíam do vento ousado. Ficamos extáticos, à espera de que os segundos fossem emoldurados na paisagem que os nossos olhos desenhavam. Mentimos aos deuses: tínhamos sido os arquitetos daquele lugar, ele haveria de ser cunhado com a fusão dos nossos nomes. Antes que o luar disfarçasse o vento frio, metemos o lugar à mercê das memórias que não se entregam ao olvido.
Fomos nós que inauguramos a noite, que ficou a saber, pelas nossas vozes uníssonas, que era noite. Alguém sussurrou que havia fantasmas à espera de vez. Não demos ouvidos. Se entrassem na casa, esses ou outros fantasmas seriam esconjurados só de esgrimirmos os poemas avulsos recolhidos das paredes. Os fantasmas, convencidos, foram dormir à espera dos sonhos ausentes. E nós ficamos a contemplar os rostos acordados enquanto enfeitiçávamos a noite magistral.
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