7.7.26

Sobre a megalomania

Interpol, “Set Out Loud”, in https://www.youtube.com/watch?v=GoQ5f1lYmLM

Há sempre aqueles casos de alguém que de si tem uma imagem multiplicada por cem ou mil quando se contempla no espelho. Querem realizações à medida, para confirmarem a sua estatura que se projeta para o exterior – pois aos outros é que se impetra a validação da imagem ampliada, depois de cumpridos os preceitos internos de validação. 

O que fica da megalomania militante são os estilhaços para memória futura. A megalomania nunca é de graça, mesmo que sejam invocados milagres ou, num esforço suplementar para somar mais alguns pontos a favor da pompa, a ideia ou o projeto seja embrulhado num verniz de milagre para convencer as pessoas de que a megalomania, se não é gratuita, não anda longe disso.

Mas a megalomania resulta sempre em elefantes brancos. E os elefantes brancos pagam-se a peso de ouro – o que, tratando-se de paquidermes de elevada tonelagem, veda o caminho à teoria da megalomania de baixo custo por determinação da vontade dos seus curadores. O pior é que a megalomania distrai os ingénuos e estes, anestesiados pela grandeza da empreitada, esquecem-se de indagar sobre a sua utilidade. O que fica, para a memória futura não sindicada a tempo, é um desfile de monos e o destempero financeiro. 

A megalomania tem bons embaixadores: são os seus procuradores, os tais que de si têm uma noção superior à devolvida pelo espelho, os mandantes que enganam os súbditos com o engodo dos elefantes brancos que ciciam uma espetacularidade estonteante quando são anunciados, contribuindo para a anestesia que contamina a maioria. É fácil enganar os tolos, adverte o povo sem, contudo, não conseguir ser o primeiro a cair no logro. A megalomania é ateada pelos falsos visionários, mas só tem seguimento se uma larga maioria de destinatários aderir à impostura (sem dar conta de que se trata de uma impostura, não se tenha a ralé em tão reduzida conta).

Quando se chega à memória futura e a prestação de contas da megalomania é devida, os responsáveis já não constam do inventário dos vivos, e aqueles que caucionaram as empreitadas também seguiram o mesmo caminho. As gerações futuras são chamadas a cotar a utilidade dos elefantes brancos, percebendo então que se trata de elefantes brancos dispendiosos. Aos mortos já não se pode pedir essa prestação de contas. 

A megalomania é barata desde o ponto de vista do tempo em que é decidida.

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