23.7.26

“Não sei a quantas ando”

The Fall, “Hit the North” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=-ZPRpWXIQxw

Os cornos do mundo querem uma pega de cernelha e não me intimido com a empreitada. De vez em quando, o sol conspira e os azimutes ficam trocados. Não adianta falar de norte, para não cair em desnorte. Alguém começa uma frase: “às tantas” (...); e eu já não ouço a parte restante – incomodam-me as expressões idiomáticas que, se forem bem espremidas, deixam um deserto de significados.

Matar o tempo é outra frase (naturalmente) assassina. Da forma como é dita, e com o propósito com que é atirada para a oratória, é uma contradição de termos (a menos que seja o seu autor um pessimista incorrigível que já se fartou do tempo antes do tempo). Se corremos atrás do tempo (mais outra), como o podemos matar? Sempre que se matar tempo sobra um nada que não valida a existência. Matar o tempo, à laia de quem faz o tempo passar até que seja tempo de outra incumbência, não deixa de ser o seu assassinato. 

Por isso é que os cornos do mundo não são de confiar. Parecem antenas prontas a sacrificar os dissidentes que não se revejam nas andaduras oficiais decretadas pelos inorgânicos gurus do momento. Tudo depende das circunstâncias que tutelam um certo momento. No momento a seguir (que tem duração variável), os gurus já são outros e as coordenadas passaram a estar niveladas por outra bitola. O norte pode passar a ser oeste. 

Os supersticiosos, confrontados com os humores etéreos dos conspiradores de serviço, dirão, para se protegerem, “o diabo seja cego, surdo e mudo”. Eis como um anátema sobe ao invulgar púlpito da irrisão: o diabo não é companhia recomendável e, para não sermos assolados pela sua presença, são-lhe imputadas, para nosso indecoro, a cegueira, a surdez e a mudez. Julgamos a mefistofélica personagem por defeito. Quem garante que um diabo cego, surdo e mudo é menos diabólico do que um diabo na plenitude dos sentidos? 

A páginas tantas (uma variante do antes identificado “às tantas”), o sul torna-se norte e o leste metamorfoseia-se em oeste. E eu, desorientado e com a vontade de me auto-comiserar à frente dos outros (se não execrasse o género), diria (já) “não sei a quantas ando”.

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