Nine Inch Nails, “Starfuckers, Inc.” (live Mexico City), in https://www.youtube.com/watch?v=huiy87xmr40
Os olhos treinados não se intimidam com as muralhas do tempo. Convocam a lucidez avulsa quando a manhã desponta turva, como se nela medrasse um crepúsculo a destempo.
As estrofes entram na carne, intrusas. Começam por se entranhar nos tecidos e deixam no sangue um ar de princípio dos tempos, como se a qualquer momento o remoçar fosse audaz. Procura-se o horizonte à espera de demorar o tempo. Ainda não é entardecer – o entardecer junta a espera pela luz desmaiada como prelúdio dos poemas válidos.
Os pensamentos agigantam-se no úbere do pensamento. Fazem apostas exuberantes, como se quisessem ir além dos limites e inventar uma nova gramática. O olhar vadio persegue os fragmentos do dia torrencial, ele é o juiz que encena os palcos onde as coisas centrípetas se congeminam. Os murmúrios da noite entram no estuário do dia como se o quisessem levar féretro. Que tremendo erro pensar assim. O dia nunca acaba. Logo a seguir vem outro, seu sucessor. O dia tem uma linha contínua que ultrapassa as fórmulas gastas que sequestram o tempo em convenções usurárias.
Depois de amanhã, as promessas voluteiam como uma maré-viva. Pedem sangue às estrofes que o tempo amarrotado deixa inscritas em lousas imaginárias. Pego no xisto restante e elevo-o a estirador. Ao longe, o ciciar da cidade parece distante, um rumor apenas que se torna um motim se deixar o corpo aproximar-se desse lugar. O refúgio exige que o diálogo seja feito na cadência do silêncio. Para que as rodas dentadas que enfeitiçam o porvir não fiquem de fora, para dizer: esta é a casa da partida até à eternidade.
Da eternidade alguém disse tratar-se de uma corruptela. Queria dizer, essa pessoa, que a eternidade é um logro. Antes que venham confirmar, e antes do tempo, que ela estava certa, quero que se saiba, do lugar em que me encontro, que a eternidade se confirma nas mãos que separam os sonhos e os tornam o húmus onde medra a estrutura do tempo e o sangue que se aviva nos lugares que vierem a participar do inventário inacabado. Porque esta é a casa da partida que me separa da eternidade.
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