15.7.26

Dois minutos de silêncio

Interpol, “Iron City”, in https://www.youtube.com/watch?v=wzCMFpzbywg

Dois, os minutos de silêncio. Não apenas um, como ficou estabelecido quando, por luto, se homenageia um falecido. E dois minutos podem ser escassos: prolongue-se o silêncio, estes lugares são gongóricos pelas vozes ruidosas e abundantes, e o ruído é sempre poluição. Um anticlímax despoético.

Por que não se instituem horas certas para o silêncio? Porque devemos ser contra as obrigações que derivam de lei; porque é preciso toda a oposição à desarte estatal que se insinua entre os ossos e se infiltra nos poros. Os minutos de silêncio não precisam de convenção que se imponha aos relógios das pessoas. Seria suficiente que as pessoas aderissem espontaneamente, quando lhes aprouvesse. Podia ser que se desse o efeito de contágio: a pessoa ao meu lado, mergulhada nos seus dois minutos de silêncio, seria o mote para eu aplicar os meus dois minutos de silêncio diários.

Seria o silêncio sem ser um luto por alguém desvivido. O silêncio como terapia. As pessoas falam de mais. É só andar nos transportes públicos e nem precisa de ser hora de ponta. Parece que têm medo do silêncio. Os mais otimistas advertem que a fala contínua é um sinal de que somos gregários. Precisamos de comunicar para fazer jus à condição gregária. Estarmos presentes e armadilhados de silêncio é mal visto pelas pessoas dominantes.

O silêncio deve ser receitado por médicos e outros engenheiros sociais com competência para as lides em coletividade. As pessoas têm de aprender a ouvir-se. O que não é compatível com o ruído exterior, nem com o ruído interior debitado pelas suas muito audíveis vozes. Não seremos uma espécie condenada à extinção se dedicarmos alguns minutos por dia ao silêncio profundo.

O silêncio, nos seus dois minutos higiénicos ou na duração que as pessoas quiserem, não é uma fuga interior nem uma agressão composta pela recusa em falar. Quem não quer falar tem direito ao seu tempo de silêncio. Sem serem necessárias sinaléticas exteriores que substituam a fala como sinal de comunicação. 

O silêncio também é comunicação. Comunicação poética.

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