27.7.26

O que se faz à mentira quando ela é gramática política?

The Swans, “Love Will Tear Us Apart”, in https://www.youtube.com/watch?v=dp017Crrx7I

É um novo ethos: a mentira esbracejada deve dar lugar à mentira esconjurada, numa perigosa deriva que leva a uma polarização que parece não ter limite (ou que tem o limite que aprendemos – os que aprenderam – da História). 

Uns mentem deliberadamente e outros têm como causa mostrar que uma mentira é uma mentira. Para estes, o significado do silêncio como consentimento tácito deve ser combatido. Quem se calar, valida as mentiras que, de tanto serem apregoadas, se tornam verdades todavia adulteradas. Para piorar o azedume em contínuo movimento, às vezes as mentiras são desfeitas com mentiras de sinal oposto – quando o silêncio do passado verbera uma verdade que fica amputada pela mentira anuída pelo silêncio. 

O populismo é a geografia habitual da mentira, segundo os que se mobilizam para travar a marcha triunfal dos populistas. Estes mentem sem pudor. Viciam factos e adulteram palavras ditas para cinzelar a verdade pela tear onde se enreda a sua verdade. Aproveitam-se do aumento do séquito e de os seguidores serem acríticos: as mentiras nunca são tidas como tal, porque a confiança cega legitima automaticamente, e sem direito a recurso crítico, as palavras ditas. Os factos não são como são: são como são contados pelos populistas, que não hesitam em martelar a verdade em forma de mentira até que a mentira, de tão insistentemente percutida, se transfigure em verdade.

Do lado oposto, estão os que abraçaram como causa a participação das mentiras que servem como gramática aos populistas. Segundo eles e elas, são os tutores da verdade e sempre que tropeçam numa mentira ecoada pelos populistas têm o dever cívico de a identificar e depois desmontar. E assim o mundo servido por este tempo acentua as clivagens, torna-se cada vez mais dicotómico: de um lado, os mitómanos incorrigíveis; do outro lado, os apóstolos da verdade; os maus são confrontados pelos bons, respetivamente. 

Um terceiro grupo vegeta emparedado entre os fazedores de mentiras diárias e os santos protetores da mentira: são os que se mantêm calados quando sobe a maré de mentiras. São apedrejados pelos populistas por não corroborarem as verdades mentidas, sendo encostados a uma radicalidade que só existe na sua imaginação patológica. E são abjurados pelos zeladores da verdade por serem cúmplices dessas mentiras, ao preferirem o silêncio em vez da denúncia das mentiras exuberantes.

Como o mundo é complexo de mais para se abrigar sob dicotomias simplistas, os populistas que arrotam mentiras diárias são renegados quase em mesmo grau que o são os sacerdotes que esgrimem superioridade moral ao hastearem a bandeira da verdade por deposição daquelas mentiras. Alguns distinguem-se por uma forma diferente de contar mentiras, que é a omissão de factos passados que lhes são desconfortáveis se forem assumidos como verdade. Outros, que não carregam esta nódoa, servem-se das mentiras ostensivas para treparem à árvore da arrogância, constituindo-se nossos procuradores irrecusáveis. Não entendem que não é com arrogância que se desfazem mentiras de qualquer calibre. Não entendem que ao exibirem a pose de procuradores irrecusáveis lesam a liberdade dos outros, que aderem à sua causa ou são acusados de cumplicidade com os populistas mitómanos.

As mentiras, de acordo com o adágio popular, têm perna curta. Não se pressente que as mentiras tenham outro destino quando são cristalizadas na política. As mentiras insinuam-se como vírus que se contagiam entre os que dormem em pé. Só são verdades para quem não tiver o espírito crítico ativado. Como têm a perna curta, acabam mancas, mais tarde ou mais cedo. Deixemos os populistas entretidos com as mentiras sistemáticas. Elas qualificam-nos. Quem não se revê nessas mentiras dispensa o paternalismo invasivo dos que arrogantemente ocupam um lugar excessivo na extração de mentiras.

O que se faz à mentira quando ela é gramática política é deixá-la medrar. Os mentirosos acabam a tropeçar nas suas próprias mentiras. 

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