29.7.26

O costume do suspeito (short stories #516)

Mogwai, “I’m Jim Morrison, I’m Dead” (at BBC 6 Music Live), in https://www.youtube.com/watch?v=IHN-OiKp9ww

          Os chapéus saem à sorte, sua é uma sorte avulsa. O que respira superstição protesta contra a desdita: se o chapéu devido lhe tivesse calhado, seria sorte em vez de azar a nomenclatura do dia. Acossado pelos maus espíritos que não soube esconjurar, aceita o estatuto de suspeito do costume. Todavia, nada foi o que encomendou aos costumes para serem seu suspeito predileto. O mesmo se diga dos costumes: não foram indagados sobre a existência de suspeitos que em seu nome falam, nem lhes foi pedido para confiscarem os ardilosos embaixadores. Numa tentativa de gorar os propósitos dos costumes enraizados (de que é franco oponente), o suspeito de alguma coisa interiorizou o estatuto. Um suspeito, quando é suspeito, perdeu o benefício da dúvida. Ao contrário do ensinado pelos esteios do Estado de Direito, só por ser suspeito carrega o ónus de provar que é como tal erradamente considerado. Se não se incomodasse com o estatuto, com ele andaria de dia em dia o encargo de ser o procurador de um costume qualquer. Mas não se revê em costumes, independentemente do seu jaez. A menos que, virando o dia do avesso, quisesse roubar as bainhas da análise e pelos bolsos propositadamente puídos saíssem os costumes impostos para serem substituídos por costumes da sua privativa lavra. Nesse caso, passaria o cenário a ser retratado como o costume do suspeito. Continuaria a não ser suspeito do costume, por não acolher em seu seio qualquer costume. Daria lastro aos costumes a si ligados. E como não deixaria de ser suspeito – uma vez suspeito, para sempre suspeito – ostentaria em público, com o garbo devido, os costumes que são seu paradeiro. A menos que, na distribuição dos chapéus, lhe tenha sido indevidamente sorteado o chapéu errado e ele fosse suspeito de nada. 

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