The Cure, “One Hundred Years” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=V0K9wbvHTxs
Aprendemos na escola: quando vamos a jogo, podemos ganhar ou perder. Temos de aprender a saber perder como a saber ganhar, para que o jogo seja um exercício cívico.
Depois crescemos, levamos sucessivos banhos de realidade e a realidade teima, muitas vezes, em ser um choque térmico semelhante ao de um balde de gelo despejado sobre um corpo febril. Chocamos de frente com essa realidade que os despossuídos de um módico de lirismo apelidam de “pragmática”: como entender que os fins justificam os meios (em transgressão do que foi aprendido na escola)?
No fim de contas, parece que desaprendemos tudo. Gostamos de ir a jogo quando é para ganhar. Elogiamos os que vão a jogo quando ganham. Quando perdem, merecem a nossa indiferença (na melhor das hipóteses) ou a acrimónia intratável dos que não perdoam a inclinação para a derrota. Desaprendemos tudo o que foi capitalizado na escola ou em inúteis esforços pedagógicos que recomendam uma abordagem cívica do jogo. Pois tanto se pode ganhar quanto perder – e, pelo caminho, convém lembrar que, num jogo, não jogamos sozinhos.
Nas competições mais populares, o jogo mobiliza o público. Constroem-se esperanças com base nas promessas dos atletas e na sua correspondência com as probabilidades de vitória, como se da vitória dependessem o pão e a saúde do público. Quando as esperanças estão em alta e o jogo se salda por uma derrota, os apoiantes desertam. Uns remetem-se a um silêncio assassino: o silêncio é o ónus da desilusão, o custo de não quererem criticar os atletas que não cumpriram as esperanças. Outros dedicam-se à crítica verrinosa. Onde outrora havia um rosário de elogios, entre a bazófia dos “melhores do mundo” e a sobranceria de um estatuto que entrou a jogo mas que ficou por cumprir, estes críticos são os primeiros a cair no esquecimento de que um jogo, qualquer jogo, é para ganhar, mas o resultado pode ser uma derrota.
Se o público não tivesse esquecido o que aprendeu com os que hoje são vistos como ingénuos, acolheria os atletas derrotados numa cerimónia discreta e respeitosa. Mas o público só se mobiliza quando as vitórias são cumpridas e lhe apetece gritar, a plenos pulmões, que são os maiores do mundo. Essa lição maior de qualquer jogo deveria ser resgatada de um túmulo sem paradeiro: jogar é perder e ganhar. E reagir da mesma forma se o jogo for ganho ou tiver sido perdido.
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