PIL, “This Is Not a Love Song”, in https://www.youtube.com/watch?v=Az_GCJnXAI0
Tinha o olhar inquisidor – nos melhores modos que a inquisição podia ter, sem a pejorativa conotação que lança as redes no pior que a História tem para ensinar: era um caçador de paisagens. Não se limitava a descobrir paisagens que merecessem um lugar especial no olimpo das paisagens; retinha-as no seu olho humano e depois capturava o instante em que as paisagens ficavam fulgurantemente destacadas como fragmentos que mereciam pertencer à História. Das paisagens e da fotografia.
Há filmes feitos de paisagens filigrana, com demorados planos que se detêm em paisagens magníficas. É como se fosse uma procissão de paisagens, em desfile telúrico, as paisagens sem roupagens. O filme, ao desembaraçar as paisagens, deixa-as nuas. Há as paisagens remotas, as que são epílogo de roteiros turísticos, mas que são reveladas através de ângulos singulares ou depuradas com uma luz invulgar, as que parecem extraídas a lugares extraterrestres, para logo a seguir se ampliar o inventário de paisagens para acolher as que seriam assim consideradas se não fossem reveladas pela lente de um filme, e as que vêm somadas de rostos humanos marcantes, marcados pela turbulência da vida, que pode ser tão árdua quanto as movimentações geológicas que deram origem a uma paisagem nos seus moldes atuais. São os olhos que interpretam essas paisagens. São os seus tutores.
O que seria das paisagens, remotas ou não, inéditas ou banalizadas pelo conhecimento turístico, se não fossem tuteladas pelo olhar? Seriam apenas paisagens sem a decifração que as pessoas delas fazem, paisagens porventura excluídas do conhecimento – paisagens potenciais, mas ausentes por não terem sido caucionadas por um olhar. Ou talvez apenas fossem paisagens já expostas ao olhar de uma pessoa ou de uma casta composta pelas poucas pessoas que tiveram acesso a essa paisagem privilegiada, sem terem sido cristalizadas numa moldura que as deixe à mostra apenas para quem as emoldurou, ou para todos os que vierem a ter conhecimento dessa moldura. As paisagens dependem de um olhar que seja seu embaixador.
A mesma paisagem pode ter tradutores diferentes. Se fosse pedido às pessoas que retrataram uma paisagem que a traduzissem em palavras, os diferentes ângulos, as diferentes camadas de luz às quais foram expostas e os diferentes momentos do ano em que foram visitadas dariam origem a diferentes guiões. É possível que a diversidade seja tanta que o leitor dessas traduções pense que está perante diferentes paisagens.
A mesma paisagem sujeita-se a diferentes olhares. O que a multiplica por uma diversidade que quadra com a subjetividade dos olhares. Quase como se fosse possível que a objetividade da paisagem (pois ela é como é) fosse desconstruída pela subjetividade dos olhares e que a mesma paisagem se tornasse diferente de outras paisagens.
Somos todos realizadores de paisagens.
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