3.7.26

Só me saem duques

Max Richter, “On the Nature of Daylight”, in https://www.youtube.com/watch?v=InyT9Gyoz_o&list=RDInyT9Gyoz_o&start_radio=1

Na mão que veio parar à mão, um punhado de duques. Franzido o sobrolho, na espontânea reação de quem não consegue esconder a desfeita de ao jogo vir de amparo um naipe do menor valor possível. Não podia haver pior jogo. Não se vê como transformar esta mão numa arte de vitória. 

A manha que cresceu com a experiência ensina a arte do fingimento. Ao voltar atrás na fita do tempo, os parceiros do jogo não conseguiram discernir um esgar correspondente à presença de uma mão cheia de duques. Conseguiu emudecer a espontaneidade que teria mostrado o franzir do sobrolho, que logo seria interpretado como sinal de um jogo condenado a ser um fiasco. 

Os duques nunca foram amigos de quem se mete a jogo. São a extensão da experiência de vida quando se tropeça naquelas personagens que correspondem à pedra no sapato que incomoda o andar e até pode ferir o pé se os seus efeitos forem prolongados. O que se faz com as pedras no sapato pode ser aplicado aos duques em excesso que comprometem o jogo? Até ao que for possível pelas regras do jogo. É possível sanear a pedra no sapato, se a sua persistência agravar os efeitos adversos da sua existência. Quem representar a pedra no sapato (o duque de serviço), deixa de contar para o universo das relações pessoais sempre que se sentir amolgado pela persistência da pedra no sapato. 

Quando a mão está cheia de duques, às vezes as regras do jogo admitem a sua substituição (até um certo limite no número de cartas a trocar). A troca só pode compensar. A probabilidade de as cartas prescindidas serem trocadas por outros duques é baixa. Com a ajuda da sorte – pois então, é de jogo que se trata –, uma mão fadada à capitulação pode ser transformada num jogo cheio de hipóteses. 

Os duques substituídos deram lugar a outras cartas que se tornaram trampolim para um jogo diferente. Se não fosse por esses duques, a mão a jogo não seria triunfante. Caso em que seria injusto dizer, com aquele tom entediado de quem se sente vítima de uma conspiração da autoria do universo, “só me saem duques”.

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