20.7.26

Manifesto anti Calimero

Pond, “Daisy” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=wsZys428FGU

As pessoas adoram vítimas. Algumas, sabendo dessa preferência enquistada, tornam-se mestras na engenharia da vitimização. Assim apanham as pessoas que se amiseram quando estão diante de uma vítima, independentemente da vítima ser uma vítima legitimada ou um farsante que se faz passar diligentemente por vítima. 

Tornou-se uma especialidade de uns quantos que já perceberam que o papel de vítima traz proveitos que, de outro modo, não conseguiriam obter. Para o efeito, fingem. Recorrem à usura dos sentimentos. Multiplicam por muitas vezes as consequências de pequenas moléstias que, de outro modo, seriam consideradas cicatrizes normais do viver. Quem se apresenta como vítima depende da audiência que o consome – em bom rigor, que se predispõe a exibir uma solidariedade comprometida com os estados de alma que o atiram para o papel de vítima. 

A simbiose entre a vítima e os que dele se comiseram é a prova de que ser vítima é uma especialidade que medra como nunca. A larga audiência que consome as depressões e angústias das vítimas profissionais não hesita em mostrar a sua comiseração porque sabe que, se chegar a altura de serem eles a ocupar o lugar de vítimas, outras pessoas – temporariamente à margem de serem vítimas, ou outras que estejam em luto decorrente de um qualquer estado de alma que legitima a sua entronização como vítima – cuidarão de as abrigar no refúgio preparado para apascentar as vítimas. 

De acordo com um adágio, temos de ser uns para os outros. O enlaçar de sucessivas vitimizações é o fermento necessário para que haja um grupo numeroso de vítimas. Uns credenciados, por já terem cadastro enquanto vítimas; outros são vítimas promitentes, sabendo que se amanhã for necessário terão a solidariedade de outras pessoas quando chegar a sua vez de se exibirem como vítimas. 

Deviam-se chamar todos Calimero. E ostentar em público sinal identificativo de Calimero.

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