Pond, “Terrestrials”, in https://www.youtube.com/watch?v=2ZgxqzNY3nA
Ah!, aqueles desafortunados que carregam o peso inteiro do mundo às costas sem ficarem corcundas. São coevos militantes nos céus carregados de plúmbeas nuvens, sem nunca o sol ter força para romper o teto de nuvens, assim condenando os gentios a um padecimento que só não é imorredoiro porque tamanho fado é cerceado com o desviver.
Não pedem favor à desventura para tornarem qualquer contratempo num raio espectral que depressa se transfigura em apocalipse. Parece que estão cansados do mundo como é e pressentem a sua finitude para um prazo que ainda coincidirá com o seu viver. Se ao menos tivessem um laivo construtivo, propondo uma alternativa ao mundo que caminha a passos largos para o abismo irredimível, a teoria do apocalipse teria serventia. Não é o caso (da serventia da teoria e do sangue novo (que não é) injetado pelos estafetas desta teoria).
O apocalipse esbracejado como um fado aterrador transtorna os seus próceres e torna-os amargos. Desaprendem o que é o sorriso, a beleza, desaproveitam toda a beleza poética de um mundo carregado de defeitos, é certo, mas que não esconde as muitas facetas que o expõem como paradigma de sortilégios vários. O apocalipse só tem vencimento entre os seus teorizadores porque eles estão viciados no negrume típico de quem tem lucidez seletiva para identificar as muitas fragilidades de que o mundo e as pessoas são compostas. Eles vivem sitiados pelo seu apocalipse privativo.
Os embaixadores contínuos do apocalipse são pródigos numa teoria que se esgota no seu próprio enunciado. No dia em que o terrífico apocalipse vingar e o mundo desabitado se tornar, findam as angústias existenciais dos que tão diligentemente contribuíram para o enquistar de uma teoria geral do apocalipse. Deviam varrer toda esta pressão existencial para o armazém dos desperdícios: se a demonstração do apocalipse for irrecusável, essa é a medida da sua própria incapacidade.
Não podendo evitar a extinção do mundo, a teoria do apocalipse extingue-se ainda antes da extinção do seu objeto, pois o resultado é transcendente à vontade humana.
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