The Smile, “A Hairdryer” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=iZiV0I6F9Ec
Grandes vultos descobriram que as árvores morrem de pé. Não era preciso ser iluminado para descobrir esta originalidade das árvores. Elas dispensam cemitérios. Umas alinham-se na sua decadência, deixam de ter folhagem quando a primavera se instala no calendário e vão apodrecendo se ninguém as abater, não destinando a madeira sobrante a fogueiras avulsas. Se ninguém abater as árvores, elas são o seu próprio cemitério. Para os distraídos, é como se estivessem vivas. Levam vantagem sobre as pessoas e outros animais.
O que ninguém disse (apesar de ser tão banal) é que as árvores dormem em pé. Dispensam camas porque não se deitam à noite quando o sono as assalta. Ninguém sabe quando estão a dormir, pois estão sempre em pé, estejam acordadas ou enfeitiçadas pelo sono. Também levam vantagem sobre as pessoas e os outros animais, que não conseguem esconder o sono. Evitam o embaraço de quem é apanhado a dormitar em público – e o embaraço maior, já testemunhado por muitos, de figuras públicas apanhadas nos braços de Morfeu durante cerimónias públicas.
As árvores têm muitas vantagens sobre as pessoas e os outros animais.
Como as árvores estão sempre em pé, ninguém pensou em instalar cadeiras num bosque. O que poupa algumas árvores ao abate, pois seria necessário reunir muita madeira para construir as cadeiras que serviriam para as árvores se sentarem. As árvores são as primeiras a cuidar da sua sobrevivência. Antes de todos sabermos o que eram cadeiras e camas, as árvores souberam ficar isentas do descanso formatado à imagem das pessoas e dos outros animais. Poupam-se a ser lobos de si mesmas. As pessoas e os outros animais podiam aprender com as árvores.
Estando sempre em pé, as árvores vivem de pé. Como não têm costas nem ganham varizes, podem dar-se a esse luxo. Aposto que as pessoas que flageladas pelas dores crónicas nas costas e pelas dores causadas por varizes têm muita inveja das árvores.
Ele há tanta gente que gostava de viver sempre em pé, como as árvores.
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