22.7.26

O decrépito iminente

Talking Heads, “Take Me to the River” (live in Rome), in https://www.youtube.com/watch?v=Sz5a05NKBLo

O crepúsculo pressente a finitude do dia. A sua decadência. Do dia irrepetível. Ninguém faz o luto, um diário luto, a cada dia senescente que se atira para o estertor. É quase meia-noite e o dia, transformado em noite funda, está na sua agonia. A seguir virá outro dia, ainda no parto que se congemina durante a sempre demorada noite. Ninguém assoa as mágoas pelo dia vincendo. A seguir, cuida-se de tirar partido do dia seguinte. 

O dia que percorre a sua decadência não esconde as cãs. Outras vezes, a calvície (depende dos contratempos que cicatrizam o dia masculino que já encomendou a sua saída). Precisa, o dia decadente, de gritar as cãs ou a calvície, para o caso de um punhado de distraídos ainda não ter notado que aquele é um dia quase extinto. Para o caso de serem agitados com a finitude do dia e de que o porém breve tempo de sobra ainda pode ser recrutado.

O entardecer é o primeiro sintoma. A luz desmaia. Esconde-se no fio do horizonte, dá para sentir nos poros a entrada de um verbo decrépito que passa a comandar o tempo. A decadência não veio instalada com marcha-atrás. (A menos ao entardecer se embarque num avião de leste para oeste, para sentir o que é a tardança do tempo que não passa de um fingimento.) Quantas vezes somos os algozes do tempo quando só vamos a tempo de anotar a sua finitude enquanto o crepúsculo se sacia do dia em vias de extinção?

O dia a caminho do seu abismo é o decrépito iminente. Não foge da armadilha que se repete todos os dias. Sem se incomodar com o fado inadiável: a um dia decrépito sucede um dia nascente, o dia promitente está à espera de que as pessoas façam dele o máximo que ele promete. Um dia envelhecido pode não escapar à decrepitude. Nós escapamos assim que os ponteiros do relógio ultrapassam a dobra da meia-noite e o dia vincendo toma o lugar do dia decrépito. Temos essa vantagem sobre a forma do dia. 

O dia vincendo ainda cheira os primeiros aromas e torna-se a flor eminente que percorre os ossos de quem o espera. O dia decrépito já deixou de ser iminente, sepultado na urdidura da memória.

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