30.10.26

Acrobatas perpétuos

BADBADNOTGOOD ft. Baby Rose, "Weekness", in https://www.youtube.com/watch?v=0_DyHd5hegg

Os idiomas servem para não sabermos dos outros. É como dançar numa pista de gelo em patins sem o tirocínio exigível. Quando a comunicação é amputada pela falta de vontade de tecer as pontes necessárias, a indiferença pode afivelar as bainhas da não diplomacia, o fermento que sopesa uma beligerância em esboço. 

O quotidiano pode ser um sacrifício contínuo: a indiferença dos demais, muitas vezes contagiada para quem nos é conhecido; a carestia de vida que exibe a modéstia dos proventos; a boçalidade que se arma na desconfiança metódica; a falta de arnês para lidar com os contratempos nunca inscritos na agenda; a mentira entronizada como (simulacro) da verdade que, de tão repetidamente percutida, se exibe como verdade indiscutível; a letargia que convida as pessoas a ficarem apáticas e não serem senão pessoas pela metade; o tempo que se arrasta às costas das pessoas e as condena a serem errantes enquanto estão sitiadas pelo tempo. 

Temos de ser acrobatas perpétuos. Temos de desconfiar, mesmo que a desconfiança pertença ao diagnóstico. Não ter medo de arremeter pelo limiar da falésia, só para sentir, em nome próprio, o sobressalto de quem está no precipício. Fazer um seguro pessoal contra os ultrajes do tempo e do lugar. Nunca ser negligente e evitar um oráculo interior que saiba tratar da incerteza dogmática. Estes são equilíbrios precários, muitas vezes entropias desconhecidas que, por o serem, apenas toleram atitudes espontâneas. Temos de ser acrobatas perpétuos, porque estas e outras são impurezas de que o mundo não se desliga.

Somos acrobatas sem arnês. Não há matéria válida que convoque a experiência quando o passado está ausente de experiências. Os passos dados são tentativas que não garantem soluções diligentes. Somos reféns da tentativa e erro. Sem medo de errar, porque o erro é parte importante da gramática pessoal. Quando aprendemos a ser acrobatas, a pele vira-se do avesso para se dar aos contratempos que desassossegam. Aprendemos sem experiência pretérita; aprendemos à medida que vamos fazendo.

Esta aprendizagem perpétua, sem compêndios que ensinem a atuar, obriga a vestir a indumentária do acrobata que vai saltando de dia em dia à mercê do desconhecido. Se não formos acrobatas, somos as vítimas preferidas dos algozes devotos da contingência.

Sem comentários: