23.8.17

Desmentido


Toro Y Moi, “Don’t Try”, in https://www.youtube.com/watch?v=4CvCJokwLMY    
Que azáfama nos veios mais fundos do ser: há acusações que prometem ser perenes, acusações caixa-forte da vergonha que, a condizer com a perenidade das acusações, ficará pespegada ao rosto para a eternidade.
Vítima do passatempo preferido de quem não sabe matar o tempo com empreitadas condizentes com uma honra que lhes é, por essas e outras razões, desconhecida: a maledicência impúdica, montada no dorso do rumor gratuito, o rumor incendiado por gente que tem tempo a mais em crédito (em devendo, todavia, estar em débito por crime de seu desbaratamento), gente que se alimenta do vómito por onde expele as inverdades. As mentiras que sobre a pessoa se abatem podem querer dizer muito, ou nada. Depende de quem dá alvará de circulação às infâmias. Depende das mentiras e de quão lesivas são. Depende do estado de espírito por alturas do conhecimento das mentiras. Se elas têm o condão de despertar um urso da invernal hibernação, fermenta o imperativo do desmentido. Se às mentiras se deve dar o mesmo crédito que aos seus proponentes (o grau zero da reputação), que não seja desperdiçado um minuto a pensar no desmentido.
Às vezes, confluem impressões divergentes. A decisão fica refém do embaraço, sem saber para que lado se deve alçar. Concorrem motivos a favor do desmentido e outros que aconselham o silêncio como sinal da indiferença em que devem ser afundados os rumores e os respetivos fautores. Em sendo semeados por gente que, por covardia, esconde o rosto no manto baço do anonimato, os rumores merecem o mesmo crédito que uma qualquer musiqueta malparida (e que, em assim sendo, fica destinada ao alfobre do olvido).
O lugar-comum ensina que é frequente as inverdades sobre alguém terem paternidade anónima. E, mesmo assim, há gente que, confrontada com a poda cheia de podridão de mentiras improváveis, quer prestação de contas do destinatário (melhor se dirá: da vítima) da mentira pespegada. Deviam saber que os cânones endossam a quem acusa o dever de documentar com provas a preceito e confiáveis (sem o opróbrio da dupla mitomania, a que forja provas para transfigurar uma mentira em verdade). Como pode ser isto feito quando a acusação vem da casa da partida do anonimato, roça a impossibilidade. Atiram-se essas mentiras para o baú onde jaz, putrefata, toda a matéria dolosamente inverídica.
Se as inverdades trazem assinatura reconhecida, o ónus continua a pesar sobre quem dispara os rumores. Convém recordar. Para não caucionar entorses aos cânones. Caso contrário, as vítimas de indocumentadas aleivosias ainda são atiradas para o púlpito enodoado de onde têm de rebater, uma a uma, as famélicas inverdades que são como ar poluído despejado sobre si. Um desmentido contraria-se na sua lógica, pois o desmentido só deveria ter fiança se as provas da mentira fossem admitidas.

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