28.9.22

Dicionário das “polícias da moralidade”

Cocteau Twins, “Heaven or Las Vegas”, in https://www.youtube.com/watch?v=6KnYw4EwYGc

Algum dia haveriam de ter serventia, os serviços secretos – e não se pense naquela parte imprestável de os serviços secretos espiarem o mundo inteiro e até se espiarem reciprocamente. Os serviços secretos descobriram o dicionário dos polícias da moralidade que enfeitam ministérios de idêntica designação em países tão diligentes no tratamento do estatuto moral dos súbditos. A mente sã nunca se deve desprezar, é o melhor tributo à dignidade de uma pátria que se reveja numa grandeza que está para além das vacuidades materiais. E funciona para gáudio dos tiranetes, que não abdicam de tutelar a vida dos súbditos, por (quase de certeza) a sua se ter tornado tão desinteressante.

Num destes países foi libertada informação confidencial, na posse dos serviços secretos de um país que solicitou anonimato (mas que é do conhecimento de todos os envolvidos no meio). Ficou-se a saber como os polícias dos costumes são gente castrada, sem dar o flanco, disfarçando a eunuca condição (em sentido metafórico) com a força bruta que sobre os outros exercem. Exigem dos súbditos que sejam o que eles sabem que não conseguem ser – e fazem-nos sem corar ou sequer tergiversar. Os manuais da moralidade e dos bons costumes costumam corroborar o adágio que fala em fazer e em falar e de como são entes dicotómicos, mas apenas para os outros.

Os milhares de páginas relevadas davam para encher um rio com o impudor da autoria dos polícias que policiam a moralidade. Convencidos de que são epígonos dos grandes teorizadores dos costumes, os pais de família dos volumosos calhamaços contendo as minuciosas proibições para fazer constar sobre os costumes, sentindo-se cobertos pela farda que ostentam, dedicam-se à travessia por um abundante catálogo de atos que nos súbditos são reprovados e reprimidos. 

Ele é o agente que gasta dois salários e meio em alucinogénios, alimentando o estado lisérgico com doses não homeopáticas de corrupção passiva; o comparsa que contrata prostitutos para seu deleite (ativo e passivo), mantendo uma coutada reservada onde os ditos são preservados da dura espada da lei que, fora daquela fortaleza, os pune sem contemplações; o general com hábitos S&D, preferindo, pela frequência da variedade, estar na posição do dominado; o alferes que ainda não passou dos insidiosos hábitos do jogo, exaurindo quatro salários mensais; um dos mais velhos, que rompeu, desde longa data, as proibições legais e está a ser tratado a uma cirrose; um dos mais incorruptíveis, que filma outros em filmes pornográficos (e soube-se, por testemunhos diretos, sofre de impotência e de incontinência); o ministro que, às escondidas, recruta noviças a escolas através de um catálogo metodicamente mantido numa das salas dos fundos na sede dos serviços secretos; outro operacional, que contrabandeia – com a cumplicidade da alfândega – cigarros fabricados no inimigo predileto; e um sacerdote do topo da hierarquia, onanista de imberbes rapazes e voyeur do auto-prazer de adolescentes raparigas.

Oxalá os súbditos tivessem conhecimento do rol do que, neles, é punido como intolerável desvio de comportamento. Nem seria preciso atear uma revolução, que se faria por si mesma. Mas os serviços secretos continuam a manter reserva dos documentos que seriam terramotos para as tiranias. Afinal, os documentos continuam a jogar às escondidas.

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