28.6.23

Achados (duas vidas)

Placebo, “Running Up That Hill” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=HPBFSdpH7yo

Uma alminha instalada na berma da estrada. Alguém encontrou naquela estrada, naquele preciso marco quilométrico, o seu algoz. Se por algoz se ajuizar o vulto severo que vem cessar uma vida. A alminha como cemitério onde aquela vida deposta se expõe às lágrimas de quem continua a alimentar metodicamente as flores que a homenageiam. Como se as flores enxugassem o sangue que continuamente é vertido para o asfalto puído.

Se as dores não fossem uma consumição, a pessoa perdida ficava esquecida nas brandas do nevoeiro que se acumula na contagem dos dias. É preciso avivar a memória, prolongando a dor da ausência de que uma morte é procuradora. Uma ausência que se contagia por dentro, como se a própria vida se tivesse dissolvido com a extinção de outra vida. Duas vidas gémeas que se prolongam na agonia de uma que ficou a entoar prantos pela ausência da outra.

O luto exige um luto, todavia. Não é perene. Se a amargura da ausência for tão corrosiva, é como se hibernasse num mundo paralelo onde as ilusões tomam conta de tudo, até da vida que ficou. O luto é uma luta, necessária. Mandam os costumes: a indiferença do luto é a desonra da vida tornada ausente pela morte algoz. Noutras latitudes, os funerais não são um funéreo desfilar de melancolia, como se a morte não tivesse lugar na geografia humana, como se não fosse visitação de todas as almas vivas em momento a determinar pelo acaso que ela quiser. Nesse lugares, o funeral é celebração. Uma vida conta pelo que ela foi, não pela imensa tristeza que coloniza os que se sentem perdedores com a partida sem volta. 

Seria preciso mudar os costumes. Para que ninguém vertesse uma lágrima, ninguém se deixasse contaminar por uma melancolia a atravessar calendários a eito. Pudesse isso não ser entendido como uma desonra da pessoa que partiu; pudesse a vida ser consagrada no peito de todos os que ficam para homenagear a pessoa que deixou de figurar entre os vivos; e a morte não era (para além da angústia que em si encerra) o pressentimento da morte de quem fica para contar a história. 

A morte seria um achado: as duas vidas, a defunta e a de quem a sua partida encara, e a obrigação de quem fica de a consagrar com o resgate de memórias que celebram a vida, em vez do cortejo fúnebre em que parece adivinharmos a nossa vez de morrer.

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