20.6.23

E se lhe dessem uma cauda para ele andar atrás dela?

The Black Angels, “History of the Future”, in https://www.youtube.com/watch?v=IDFOwm2-FQk

Mote: Homem dispara acidentalmente contra si próprio depois de sonhar com um intruso em casa

Já não se pode confiar nos sonhos. Eles são invadidos pelo seu próprio sonambulismo e os procuradores dos sonhos nem sabem onde é a terra queimada, o lugar onde os sonhos são desaprovados por ser terra infértil. Do lado de cá da barricada, os reféns dos sonhos, os que deles conseguem tirar uma bissetriz que seja, não podem confiar nas sombras projetadas pelos sonhos.

À exceção dos poetas e de uns quantos aluados, poucos dependem dos sonhos para se manterem vivos (ou com ânimo para vida). O trono dos lugares-comuns dirá, insuspeito do lugar que ocupa, que não devemos dar asilo aos sonhos. Se formos seus hospedeiros, não demora a sermos colonizados por eles. É como se passássemos a levitar e não soubéssemos do paradeiro do chão onde acontece a realidade. “A realidade”; e o que é “a realidade”? Não será um pesadelo que se insurge contra a bonomia dos sonhos?         

Se pela tarde virmos uma rã sentada à mesa da esplanada ostentando feéricos óculos de sol enquanto beberica um gin tónico (está na moda) e aprecia os transeuntes, não se estranhe que a rã esteja a classificar a estética do que o seu campo de visão alcança. Se a rã fosse à casa-de-banho (não precisa, consegue reter os líquidos), corria o risco de ser calcada por um camionista boçal que viesse descarregar a bexiga do litro de vinho que acompanhou o almoço, ou por um cidadão desprevenido que, com horror a répteis, se assustasse com o batráquio e instintivamente o pisasse até atestar o esmagamento total (e fatal, para a rã). Ninguém contaria à imprensa. O camionista, por distração etílica. O outro, horripilado pela sua brutalidade (e a abjurar os malditos instintos, que a meio da viagem já estão a fazer mal a quem a eles se entrega).

Não se diga da rã burguesmente na esplanada que é surrealismo. Para o campeonato do surrealismo entrou há dias, e diretamente para o top, o canguru que corria velozmente (ou não fosse canguru) pelas ruas vizelenses. Os de Guimarães é que a sabem toda: os vizelenses quiseram a autonomia e conseguiram ser município. Os vimaranenses não queriam a vergonha de saber um canguru a desfilar pelas ruas que antes foram domínio do município. Essa bizarria fica por conta dos de Vizela, que é destas rivalidades absurdas que a gente meã ocupa o tempo (à falta de uma vida própria devidamente condimentada). Um canguru fora do habitat, nos antípodas do seu habitat, já cá canta para o bornal das coisas surreais. Agora, os de Guimarães podem escarnecer dos vizelenses. Talvez, até, apodá-los cangurus.

O pobre homem atraiçoado pelo sonho teve o azar de um ricochete mal calculado. O sonho estava potente. A bala que acerta na perna afinal doi tanto. O pior, é que as autoridades redigiram um auto porque o cidadão atraiçoado pelo sonho ardiloso não tinha licença de porte de arma. Ó ironia maldita, que encomendaste um sonho lisérgico com fantasmas pelo meio e ainda alinhaste os astros de modo que a bala disparada fosse autoinfligida. E o pobre homem, duplamente pobre, na condição simultânea de agressor e de vítima de si mesmo.

Antes se pressinta o passear com uma cauda acoplada aos fundilhos das costas num rodopio incessante, a tentar apanhar a cauda com os dentes. Talvez não vá tão alto na escala do risível.

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