The The, “Slow Emotion Replay” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=PrPp4WC2V5U
O tempo em pedaços, fungível como se fosse feito de intervalos e entre eles perguntamos o que é feito da vida. O que foi feito do futuro? Temos a vaga impressão de que o futuro foi extinto. Uma impressão que se arrasta, desmentindo a sua própria profecia.
Se há malefício do pensamento é o de obrigar a pensar sobre o significado do tempo e de como exerce uma tirania sobre as vidas das pessoas (pelo menos daquelas que se sentem amordaçadas pelas texturas do tempo). O tempo dança entre as suas dimensões e atira uma enciclopédia de convenções para cima de nós. E nós, impreparados para darmos coutada ao que não nos angustie, caímos na armadilha. É como se as vidas se esvaziassem por dentro se não estiverem ancoradas no tempo que voa de um lado para o outro, ora atropelando-as com o passado enquistado, ora desassossegando-as com a promessa do porvir.
Quando são arrependimentos que rimam com o passado, o futuro é um lampejo que acorda do torpor para prometer redenções que navegam na imaterialidade. O futuro joga-se como perdão do passado, mesmo quando o passado perdoado é apenas uma fração de todo o passado representativo. Somos o nosso próprio lobo, sopesando mais as contrariedades do que os instantes gravados no passado. Mesmo que as contrariedades sejam episódicas, elas pesam toneladas. Ultrapassam a matéria emoldurada que parece ser tão frágil como os poucos gramas que pesa.
Quando a fuga do passado pesa sobre o presente e o vai adiando para futuros sucessivos, tudo se congemina de forma a ficarmos com a impressão de que o futuro não existe. Não se trata apenas de cuidar da tradução literal do futuro: o rigor obriga a consentir que o futuro se extingue automaticamente, assim que é alcançado deixa de ser futuro. A efemeridade do tempo, nas suas variadas danças, acaba por instruir a inexistência do futuro. Ao contrário do passado, que fica sempre com a impressão digital do seu próprio rasto, o futuro abraça-se a uma impossibilidade.
Esperamos pelo futuro, que pode acontecer daqui a um minuto, a um dia, a um mês, ou um ano, ou nunca. Quando o futuro assim aguardado chegar, consome-se na sua própria realização. Só faz sentido quando, em retrospetiva, se concebe no formato do passado. Mas o passado é onde a coreografia do tempo é desarmada: o passado é irrepetível, deixou de existir assim que foi verbo conjugado no passado. O futuro não vai mais longe. É sempre um vento que se dissolve entre os dedos quando se converte em presente que, todavia, se extingue no segundo seguinte que deixa de ser futuro.
O futuro não existe, está morto desde que o tempo foi criado. O futuro é a anestesia que nos desliga do presente e mantém reféns do tempo tirano.
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