Trentemøller, “Swerve”, in https://www.youtube.com/watch?v=FpZ6J8bR0rQ
Contam-se espingardas como o mesmo despropósito que um colecionador de vinhos é um colecionador de vinhos. Oxalá assim fosse – logo se intuindo que a comparação fracassa ao testar os termos das metáforas.
O colecionador de vinhos armazena-os esperando que o tempo os faça ganhar valor. Pode nem ser alguém que goste de beber vinho; é um investimento. Ao abrir uma garrafa vetusta, o conteúdo pode ter avinagrado e lá se extingue o excedente económico do colecionador. Quando o colecionador aposta na valorização de uma garrafa de vinho, a garrafa preserva a sua virgindade e o vinho não será provado (pelo menos pelo colecionador; se transacionar o vinho, é incógnito o destino dessa garrafa). É aqui que se desfaz a possível comparação entre o colecionador de vinhos e o contador de espingardas.
No atual estado do mundo, armazenar armas dá uma vantagem sobre os outros, sobretudo se estes vierem a ser nomeados como inimigos e a beligerância atingir o ponto de rebuçado. Quem conta espingardas não o faz como mnemónica para atrair o sono em noite de insónia teimosa. A contagem das espingardas não é um exercício lúdico. Quando as armas são usadas, o ónus conta-se em vidas abreviadas ou em vidas estropiadas. A rivalidade na contagem de armas pode ser o abismo que falta para sepultar a humanidade.
Quando o vinho vai ganhando teias de aranha e envelhece, poupam-se estados ébrios e o fígado a maleitas sisudas. Mas ao menos, na eventualidade de o vinho, algum vinho, ser usado, a ebriedade em doses controladas semeia boa disposição, estado lisérgico que não é identificado quando as armas são retiradas dos silos e uns endemoninhados se entretêm a contá-las. Diga-se: antes contar garrafas de vinho nas caves escuras onde os vinhos são inventariados do que sacar a bazófia do coldre e, com ar farronqueiro, entregar o relatório da contagem de espingardas.
A menos que as garrafas de vinho, algumas das garrafas de vinho entretanto mercadejadas para outro proprietário, sejam servidas como arma para tirar vidas, as dos próprios que exageram no consumo de néctares tão bem notados em bolsas de valores específicas, e as de outros, lamentavelmente apanhados como vítimas inocentes do consumo desaforado de vinho.
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