Sigur Rós, “Var”, in https://www.youtube.com/watch?v=DNYQHC-jyZw
A fornalha crepita nas veias à medida que as paisagens constituem fragmentos retidos na memória. Em ebulição, como se o corpo tivesse sido ateado numa fogueira semeada por druidas, as palavras levitam ao acaso, são o seu próprio fruto caótico.
Ouço em surdina lamentos de viúvos perenes, que estavam fadados para a melancolia e nunca se desenlutaram. Dou-me desta poção como antídoto da gélida solidão que pesa como escombro. Uma matilha ronda, ao longe. Um povoado isolado no meio da serrania, uma das chaminés sopra um fumo próprio de quem cozinha. A manhã ainda não é adolescente e parece que o entardecer murmura a sua vez.
Mal acordado – a noite tem sido malsã – os pensamentos que se sobrepõem na desordem mental escorraçam os predadores. De tão cruzados e incompletos, esses pensamentos atordoam quem se achega. Ao longe, vejo um piano corroído pela usura. Imagino músicos ao acaso, encomendados a este lugar ermo, sentados sobre a pedra improvisada que serve de assento, os seus dedos hesitantes a matraquearem as teclas, as brancas e as pretas pela ordem pedida pela pauta que trazem decorada na cabeça. Ninguém os ouve.
Às vezes, passam-se horas e horas e eu sou a única pessoa neste descampado. Sento-me no miradouro onde começa o planalto. Abaixo, o precipício extingue o medo herdado. Não vejo a voz a esconder-se das multidões e, todavia, prefiro o silêncio de quem guarda para si as palavras por serem tesouros.
Deixo o precipício onde, rezam as lendas, muitas vidas errantes foram abreviadas. Agora tenho o planalto diante de mim. O terreno já não é espinhoso, torturado nas suas inclinações espantosas. O chão aplanado convoca um mito por revelar. Os segredos não se escondem de mim. Nem eu sou refém da sua servidão. A noite há-de ter o seu lugar e não sei se tenho sono para ser dormido. Cativo da incorrigível sede de saber o que tinha por incógnito, empenho-me na insónia metódica.
Qualquer dia, o planalto diz-me que já não tem chão por onde andar. Depois decido. Se quero inventar outro planalto num mapa que habita em mim, ou se desço à cidade e deixo de fugir das pessoas.
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