30.9.26

Pesca à linha

 

Grinderman, “Worm Tamer” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=mxKDsQlxGNc

O chef explicava que o atum é pescado à linha e deve ser imediatamente morto. O pescador espeta meticulosamente uma agulha no lóbulo frontal do peixe, para morrer sem sofrimento. Hoje chama-se pesca ecológica. O chef acaba por se descair: assim que é pescado, o atum não tem tempo para se amedrontar com o destino inevitável e não entra em espasmos musculares. A técnica está pensada não para amputar o sofrimento do tunídeo, mas para o animal não entrar em stress, o que diminuiria a qualidade dos músculos que depois são servidos em sashimi, sushi, tártaro, ceviche, crudo, etc.

A argumentação finge-se ética, mas obedece a uma lógica comercial. O atum que não chega a ter tempo para ter medo da morte é de qualidade superior. Os biólogos explicariam que o peixe a quem é oferecida a morte imediata não chega a pressentir que está fadado para a morte, não entregando ao pescador uma carne enrijecida e fibrosa como vingança por ter sido extraído ao seu habitat natural. A ética vem a reboque das exigências do comércio. Não deixa de ser ético poupar o atum ao sofrimento que antecede a morte. É uma ética todavia instrumental aos desígnios do negócio e à soberania do ser humano, que prefere degustar tunídeos poupados ao sofrimento por causa da sua qualidade superior e não porque foram poupados ao sofrimento atroz que precede a morte.

Acontece muitas vezes na vida. Escolhemos algo porque nos apraz e depois torcemos a argumentação para encontrar uma cobertura ética para a nossa ação. Quando este é o critério para lidarmos com os dilemas morais em que tropeçamos, os outros só conseguem intuir a nossa escala de prioridades – e se elas obedecem a imperativos éticos – se formos vítimas de distração e deixarmos vir à superfície as nossas intenções. 

Os exemplos são abundantes: oferecemos esmola para ganhar um lugar no céu (os que nisso creem), ou para apaziguarmos a consciência, sem nos importarmos se a esmola é útil para o mendigo; contamos mentiras piedosas para não incomodar os que seriam vítimas da verdade agressora; contribuímos para a ajuda alimentar periodicamente organizada em grandes superfícies comerciais porque temos vergonha de não devolver cheias de mantimentos as sacas entregues pelos voluntários; defendemos que roubar aos ricos não é crime nem moralmente censurável porque não lhes faz falta e continuam a ser muito ricos, mas não toleramos se for nossa a propriedade extraviada por mãos alheias; não travamos a língua quando censuramos a promiscuidade dos outros, mas a consciência não deixa esconder os lúbricos desejos sobre a circunstância; somos capazes de jurar pergaminhos democráticos, para à primeira oportunidade sermos intolerantes com os que querem bombardear a democracia; somos expeditos a tomar o lugar de julgador dos costumes alheios, mas não admitimos que sobre os nossos padrões morais seja exercida sindicância.

E por aí fora.

Sem comentários: