24.12.12

Um conto natalício


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvikMI180PJYgmmttVE6gDQgr913uuW_JLRQska5XhcLuCYeGBJJj700SrgOv-in_xJPk-RJyaVdlAhsEK3LMxaBiNRn5hqY-8k2uw5TDN6VHVzlrE713_Uj5xP3O3zv3eV6UMKA/s1600/cantata_natal.jpg
Crianças:
Estejam em alvoroço. Mais logo chegam as prendas. Dizem, talvez aproveitando-se da vossa inocência, que o pai natal é que as traz. Vem montado em trenó com a força motriz de renas árticas. O pai natal, rival de deus no atributo da omnipresença, há de descer pela chaminé e depositar as prendas em cada sapatinho sem se enganar nos destinatários. Ato contínuo, fazendo jus ao tirocínio de alpinista, trepa o túnel da chaminé e, exemplar na fatiota (que não se emporcalha de fuligem), prossegue a exaustiva função noutras paragens.
Há um problema: uns tiranetes que querem apreender os sonhos infantis espalharam o rumor que o pai natal não existe. São uns invejosos, não lhes passem cartão. Se puderem, assim que esbarrarem nestes presunçosos, atirem-lhes um pontapé nas canelas. Não há direito. É gente sombria que persegue vestígios da maldade. Parecem abutres ansiosos por tirar dos rostos felizes os rudimentos dessa felicidade. Sabotadores, dir-vos-ão que o pai natal é uma fantasia. Não se demovam dos sonhos. Digam-lhes que não são os estudos que dão lastro à autoridade com que se passeiam. Ensinem-lhes que os sonhos são o aluvião de onde vêm as fatias mais saborosas da existência. Sobretudo quando a existência é um fulgurante ocaso em que se demitem os prazeres que deviam ser dados à existência.
Sabem? Vocês, os mais novos que acreditam no pai natal, é que têm lições para oferecer. Conseguem ser deste mundo vivendo enfarpelados nas fantasias em que se refugiam. O pai natal é apenas um intérprete. Que interessa se existe? É o símbolo dos sonhos que vos deixam em êxtase durante uma temporada inteira antes dos relógios assinalarem a noite da orgia de brinquedos. Que mal vem ao mundo quando dele fogem, se ele é uma alvorada que não apetece ver?
Ensinem aos mais velhos que mais vale um sonho irreal do que a realidade tingida com as sombras pesadas de onde parece não haver fuga qualquer.

21.12.12

Em formato Kusturica


In http://www.dvdtimes.co.uk/protectedimage.php?image=NoelMegahey/underground2.jpg
(Para desanuviar, e porque dizem que o mundo acaba hoje – se já não tiver acabado devido à diferença do fuso horário)
Estava toda a gente na festa. Toda a gente que importava. Meteram nos GPS as coordenadas da aldeola perdida, a aldeola deserta onde apenas sobrava um casarão que pertencera a uma quinta abandonada no restolho da reforma agrária (a terra a quem a trabalha não vingara, coitada). O mestre de cerimónias recebia os convivas, na sua farpela circense, com os folhos vistosos engalanando o pescoço mais parecendo a bandeira do orgulho homossexual, tal a policromia.
Ninguém recusara o convite. Acreditavam a sério na profecia apocalíptica. A gente toda queria celebrar o disparate. Sua alteza, o presidente, não quis saber dos achaques da primeira dama e veio disfarçado de Tarzan. O chefe do governo trazia duas barbatanas como acólitos – uma em formato de relvado de golfe deslizando a sua gelatinosa, mas falaz, simpatia; o outro esboçando trejeitos efeminados a compasso com a fatiota de travesti especializado em performances de desnudamento enquanto se enrolava num alto objeto cilíndrico. De Paris veio, em especial cortejo (com direito a avião privado fretado com fatura enviada para os contribuintes da nação), o “maior”. Vinha disfarçado de si mesmo, o que já não é coisa pouca.
No palco havia um farsante cantor, primeiro nome David e último Fonseca, podando uns acordes enquanto os bacantes, depois de uma primeira incursão às casas de banho, e já devidamente municiados de uma primeira linha de cocaína, esbracejavam coreografias risíveis. O camarada Jerónimo era exceção: lia o livro mais famoso de Milton Friedman, alheio à algazarra. Queria perceber como podiam os neoliberais pensar como pensam. Em apoteose, Anacleto Loução aceitou exceção ao retiro académico e regressou à atividade pública – tinha de deixar a sua marca no dia do juízo final, não sabia bem com que propósito, que depois ninguém ficava para contar os seus feitos às gerações vindouras. Vinha enfeitado de Alberto João Jardim, o que motivou sonora gargalhada do soba madeirense, agrilhoado em fantasia Dupont & Dupont a Jorge Sampaio.
Nas cidades, em suas praças centrais, o povo assistia à desbunda final – e os bacantes nem sonhavam que as suas tristes figuras eram testemunhadas pelo povo em força. Mas já ninguém se interessava. Era um assalto às lojas, a bebida jorrava livre, as drogas transacionavam-se sem preço, havia promiscuidade à vista desarmada sem acosso das patrulhas dos costumes. Assim como assim, amanhã já não seria amanhã. 

20.12.12

Colonialismo às avessas


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiqhSPzcaRDrZu83PpsRoZx7qAqYqmtylnVZHjOW19PJjbNIAGKyIBzDDoWoUjfdrrF4e6FuRbNW0Hpyo80Z7AGiEapEMpFnNr2RKanac4phavUA9UT233yC2qqyJYMT1A0O8s2-Q/s1600/vendetta.jpg
Deus, se existisse, seria a autoridade mais respeitada na política  internacional. Se existisse (o que ainda carece de prova), seria caso para dizer que a política internacional faz jus à justiça divina. Pois foi ela (justiça divina) que fez o favor de colocar a abundância de importantes recursos naturais em países que foram ungidos pela pobreza durante grande parte da sua história. Aliás, ecoando a conjeturada omnipresença do deus cuja existência está em processo de comprovação, ele já tinha dissipado a sua inata bondade quando congeminou as vontades que autorizaram a independência das terras que eram colónias. Umas décadas mais tarde, alguns desses jovens países já andam em bicos dos pés, resgatados às cócoras pela intervenção divina. Deus deitará um olho mais atencioso aos que fraquejam na relação com os mais fortes. Incapaz de lidar com injustiças, a entidade divina repõe a ordem com favores aos mais fracos. Afinal, a discriminação positiva tem selo divino.
Uma parte da história não bate certo. Deus, dizem, imerso na sua infinita bondade, não abona maus instintos. A infinita bondade, dando lastro à discriminação positiva que abriu alas a jovens países ao altar dos poderosos, não quadra com a pose altiva, arrogante até, que deixa na atmosfera um odor a vingança. A vingança não é um sentimento acarinhado pela doutrina de deus.
Os calhamaços divinos, com a ajuda da hermenêutica dos teólogos, fornecem explicação. As boas ações dos homens são entranhadas por deus. Foi deus, pois, que convenceu os lutadores pela independência a morderem nos calcanhares dos colonizadores. Tanto levaram a água ao moinho que, a bem ou à força, chegaram ao desiderato. Mas o deus de suposta existência não pode domar os maus instintos que afloram à epiderme dos homens. Ou, se quisermos embarcar numa versão heterodoxa da ação divina, a vingança dos ex-colonizados, agora transformados em neocolonizadores pela batuta dos seus investimentos, é o preço que os neocolonizados pagam por terem tanto tempo aproveitado do sono de deus.
Às tantas, a sobranceria vingativa dos neocolonizadores devia ser virada contra o deus da suposta existência (por causa do longo sono de deus). Ou deus não controla a política internacional e nós nem desconfiávamos. 

19.12.12

Contrabando


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgfmYKdjvwxveCccIwPzqrVmx9rMfjjkzGN5xHb4N7Fxfv8gevUXPESDR_Hc27uVq7NrJSBoeOaSt2GUd0VJyple6mevWZzq_9jTeXPo9349k3UdjC9xfBrA0toOdPBuUCNFj6C/s1600/Luz+e+sombra.jpg
Temos de fugir a salto? Para que ninguém nos veja, julgando que transgredimos uma lei qualquer. Se damos por certo que olhares outros são nossos julgadores, e se por eles se empunhar a batuta a que nos julgamos obedientes, teremos o arrependimento do contrabando. Até parece que transacionamos objetos roubados, ou que metemos na fronteira coisas que as leis não deixam entrar. Acaso é o que fazemos?
Não queremos ser reféns de uma moral qualquer. Não importa o que condimenta essa moral – que as há rançosas e outras que não nos importaria tolerar. Mas apenas tolerar. Pois a rebeldia é a coreografia por onde andam os nossos corpos, pelo punho do pensamento descomprometido, desipotecado de sobressaltos que vinham de fora. Aprendemos com o tempo. Às voltas do tempo tivemos o tirocínio que fabricou uma serenidade intemporal. Os olhos já só se marejam quando somos tutores das lágrimas vertidas. Enquanto os dedos se entrelaçam em estouvadas demandas, sendo nós os tutores das demandas, o resto perde importância.
Pois que seja: contrabandistas seremos. Damos o peito às balas. O penhor da ignomínia fica entregue a juízos alheios. De resto, esse penhor pouco importa. Se servisse para sitiar a nossa liberdade, seria um pedaço larvar de infâmia. Mas nem a isso pode aspirar, que a grandeza que em nós habita cauciona a indiferença. Passamos ao largo da gente madraça que é parasita da existência dos outros. A grandeza em que prosperamos é como um espaço de levitação, ou como se transitássemos por um planeta desabitado pelos outros. 
Que seja contrabando. E mesmo que às convenções dissermos nada, que se não abata sobre nós o peso da vergonha. Só transgredimos as leis que em nós medram, não as leis que outros julgam sobre nós impor. Se isto é contrabando, vamos erguer um cálice na enseada onde aportam as barcaças que trazem as mercancias proibidas. 

18.12.12

Em carne viva


In http://www.iwalkdisconnected.blogger.com.br/mao%20guache%20flor.JPG
Carpir as lágrimas todas quando o sal maliciosamente cai sobre as partes do corpo descarnadas? Sim, és humano e a ninguém é dado negar a dor quando a dor arranca das entranhas gritos aflitivos. Ou não, ambicionando à mesma a humana condição, mas emproas um estendal de sobre-humanidade só para te verem como uma parecença com super-herói?
Não interessa a destrinça. A dor é a dor, exibida ou não, com lágrimas ou sem elas, subam as cicatrizes à pele exposta ou sejam remetidas ao recato interior. Quando na carne viva se deitam os sais maliciosos, como se o perpetrador quisesse enfiar uns toros incendiados em lacre de carne, a quem se pode erguer o dedo se um esgar pungente subtrai as cores avivadas do rosto? À carne viva, ainda sem as cicatrizes que hão de durar, sente-se odor queimado quando os sais acidulam na sua reentrância. Torturadores cobertos por um capuz densamente negro prendiam-te as mãos, os movimentos imobilizados. E tu, com a carne a arder, berrando com os decibéis que podias, lutavas com a dor excruciante.
Na alvorada seguinte desembainhaste os sentidos. Como gastaste tantas preces a suplicar que caísses em coma! Os algozes mantinham os teus sentidos em vigia. Era a tortura que te aplicavam, o sono agora proibido. Queriam a confissão que nem da carne viva conseguiram arrancar. Passaram os dias. Não sabias quantos, perderas a noção do tempo metido em masmorras escondidas da luz natural. Até que o figurão todo importante, imponente na sua farda luzidia, pôs os encapuçados em respeito à sua chegada. A tua debilidade distorcia o olhar, não conseguiste saber quem era o mandante de tantas atrocidades. Segredaram, o chefe e os subordinados. O comandante, com um gesto autoritário, deu ordem de livramento.
Largaram-te à beira de um pântano nauseabundo. Não sabias onde era. Mas sentias o prazer do ar gélido a cauterizar as cicatrizes do que outrora fora carne viva. E sabias-te herói: nem à força tanta conseguiram achar a chave dos teus segredos.