30.11.23

As boas notícias primeiro, ou as más?

Moderat, “Numb Bell”, in https://www.youtube.com/watch?v=0pccVRlp6Ak

É só uma questão metodológica: é preferível saber primeiro das boas notícias e deixar para depois as más notícias? Ou o contrário?

(E como se pode saber, antes de sobre elas saber, se as notícias são boas ou más?)

O critério depende da forma de ser? Se somos propensos ao otimismo, que venham primeiro as más notícias para ficarmos a celebrar as boas que sobram para o fim das revelações. Se temos tendência para o pessimismo, pedimos que as boas notícias precedam as más. 

Se ser otimista é o lema, gostamos que a última impressão seja das coisas boas. Corremos o risco de fingir que as más notícias não foram contadas; ou, inebriados com as celebrações imputadas às boas notícias, vamos adiando a exigência de lidar com as más notícias e tendemos a deixá-las para núpcias tardias, ou até a deixá-las desertas, como se não tivessem acontecido. 

Se propendemos para o pessimismo, queremos um laivo de conforto garantido pelas boas notícias que são contadas antes de as más notícias desabarem sobre nós. Seremos arrastados pelos dias, arqueados pelo peso excessivo das más notícias. Confundimo-nos com elas e perdemos a bússola que habilita a encarar os pedaços desagradáveis que enxameiam o mundo.

E se uma só boa notícia pesar mais do que uma dúzia de más notícias, como definimos a prioridade? Todas as más notícias de uma vez, com o devido inventário para memória futura ou para simples conhecimento, impacientes pela divulgação da boa notícia que nos fará exultar? Ou decidimos intervalar a procissão de más notícias com a boa notícia prometida, para mear o ónus com o regozijo? Se metermos a boa notícia pelo meio, não corremos o risco de ela ser asfixiada pelas más notícias que a cercam por todos os lados? 

Os critérios só podem ser avulsos. Variam de pessoa para pessoa e, para a mesma pessoa, pelo tempo em que o desafio é levantado e as circunstâncias que são o contexto. Nos dias em que não há notícias, isso pode ser uma boa notícia se formos estruturalmente pessimistas: o dia saldar-se-á pela ausência de más notícias, o que já é uma boa notícia. Pode ser uma má notícia se formos exigentes e o olhar estiver virado para um horizonte despido de espectros: nesse caso, a ressaca da ausência de boas notícias é como se uma má notícia se abatesse sobre o dia; estamos viciados em boas notícias, o que é uma má notícia.

Sem comentários: