28.11.06
O destempero dos lugares-comuns
27.11.06
O Big Brother chegou e vem com a capa cor-de-rosa do socialismo
Pela parte que me toca, dispenso a lupa vigilante. Prefiro ser inundado de telelixo e que as televisões continuem a nivelar a qualidade por baixo. Prefiro ter o direito de manipular o comando da televisão e mudar de canal, quando um programa qualquer provocar o vómito. Prefiro tudo isto a censores que pairam sobre nós, com a superioridade moral e estética que ninguém lhes encomendou. Prefiro a má qualidade das televisões, sobretudo se tiver à disposição o supremo cutelo de me recusar a ver determinados programas. E sinto-me incomodado pelos pequenos passos que limitam as liberdades.
24.11.06
Polícias embuçados: efeitos de uma democracia paradoxal
23.11.06
Os risos enlouquecidos
Tu também fazias parte dos transeuntes que testemunhavam esse sentimento estranho. À medida que os minutos avançavam, os sorrisos esboçavam-se mais largos. Os lábios estendiam-se, rasgavam as bochechas; as pessoas não conseguiam reprimir um riso sonoro. A gargalhada colectiva. Tu eras a única pessoa que assistia anestesiada ao espectáculo sorumbático. Teria que haver motivos para a contagiante gargalhada que ecoava pelas avenidas e que vinha repousar no alcantilado dos ecos mais sombrios.
As pessoas riam alto e não detinham a marcha. Abordavas as pessoas com interrogações. Que ficavam sem resposta. Ou melhor, que tinham num riso libertado com uma gargalhada enfática a reacção dos interpelados. Até os polícias, tão circunspectos e diligentemente militares na postura, não conseguiam reprimir a sonora gargalhada. Dir-se-ia, um festim de alegria contagiara a cidade. Onde antes havia os tons acinzentados que entristeciam as faces fechadas, agora apenas pétalas perfumadas com os risos loucos de quem andava na rua.
Até os cães vadios e as pombas esboçavam os seus risos. Ninguém parava para perceber porque estava a rir. Todos seguiam o seu caminho. Todos percebiam que aquele riso espontâneo e incontrolável era um manancial de bem-estar; para quê estancá-lo? Tu eras o único sisudo. Inquietado com a orgia de risos que te cercava, sem resposta para a sinfonia de gargalhadas que gritava pela cidade. Sentias-te invisível. As pessoas seguiam o seu caminho sem sequer abrandarem quando as interrogavas. Porventura por seres o único que não havia sido contagiado pela febril gargalhada colectiva, pairavas incólume e invisível.
De repente, uma aragem mais fresca soprou de algures. O céu escureceu e de seguida limpou-se de nuvens com uma rapidez inusitada. O sol parecia brilhar como nunca. As folhas, que instantes antes esvoaçavam anunciando a brisa súbita, emudeceram. Tudo se silenciou. Não ouvias o ruído dos automóveis, nem o barulho dos passos apressados que martelavam a calçada, ou os martelos pneumáticos das constantes obras que esventram as ruas. Apenas um silêncio demorado. Já nem o barulho da entontecida gargalhada colectiva. Até as pessoas se tinham evaporado. Nem sinal dos automóveis que àquela hora enxameiam as avenidas e as ruas. Só tu, entregue a ti mesmo, mergulhado numa profunda viagem solitária.
Em segundos, anos a fio passaram à tua frente, como se fitasses uma tela onde se reproduzia o filme da tua vida. Parecia uma retrospectiva necessária para a ordenação dos sentidos. Por vezes, percebias que certos episódios eram repetidos, por breves instantes, numa enfática mensagem: os sinais do passado eram um roteiro. Estavas entregue a ti próprio, sozinho num mundo que parecia ter parado, ou desaparecido, à tua volta. Já não os sorrisos ensandecidos que te perturbavam. Apenas um silêncio gélido, mortiço, que trazia o sabor da solidão.
Naqueles momentos ficaste sem perceber o que sentir: dividido entre a voragem dos risos incompreensíveis que te cercavam e a ausência de tudo em que estavas agora situado, nem sabias qual dos cenários reter. Temias que a normalidade, a rotina diária que tanto te exaspera, não regressasse. Nem os risos enlouquecidos, nem a voragem da solidão. Apenas o regresso ao tempo habitual, com as faces imperturbáveis aos mendigos andrajosos que se acotovelam nas escadas do metro, a insensibilidade à velhinha que tombou ao descer as escadas, as pessoas ausentes mergulhadas no livro enquanto o metro galga o percurso prometido. Naqueles instantes, o tempo tinha parado. Os risos enlouquecidos eram o prenúncio da suspensão do tempo.
22.11.06
Da valentia
21.11.06
A procriação médica assistida segunda a hierarquia eclesiástica: “adultério consentido”
A hierarquia eclesiástica insiste em dar provas vivas do mundo diferente em que vive. Ainda não perceberem que de cada vez que se soltam das ameias (mentais) onde vivem aprisionados e sentenciam sobre temas mundanos, a asneira flutua. Na semana passada, os senhores bispos estiveram encerrados em concílio. Passaram em revista os assuntos da vida corrente, sobretudo onde a moral e os costumes, assim o pensam, obrigam a uma zelosa intervenção em sua defesa. Estes ouvidos que têm um sentido auditivo de primeira água escutaram as palavras límpidas do bispo porta-voz: “a procriação médica assistida é adultério consentido”.
Talvez a reacção de quem me lê seja a mesma que eu tive ao escutar as beatíficas palavras: boquiaberto, ao que se seguiu um cínico sorriso. Convém demorar um pouco nesta sentença da hierarquia católica. Primeiro, a expressão “adultério consentido”. A menos que se confirmem as suspeitas que alguns curas de província são mestres na arte de desfazer famílias mercê do adultério a que conduzem certas senhoras do rebanho paroquial, não alcanço o que percebe a igreja de adultério. A remissão ao celibato e à castidade faz com que este seja um assunto que não é do domínio prático dos homens que outrora trajavam a sotaina. Ensina a ciência que só podemos alvitrar da teoria quando a podemos testar na prática. De contrário, apenas especulação acientífica. É especialidade da igreja para quem o relógio parou no tempo.
Segunda objecção: se é adultério não pode ser consentido; se é consentido, não é adultério (por muito que desagrade à igreja). A palavra carrega a conotação social negativa de quem engana a pessoa (supostamente) amada, deixando-se resvalar para as delícias da poligamia. A hierarquia eclesiástica devia fazer uma peregrinação pelo dicionário antes de espezinhar a gramática. Ao abrir o dicionário na palavra adultério, aparece o seguinte (na Infopedia, só para assinantes): “facto de uma pessoa casada ter voluntariamente relações sexuais com uma terceira pessoa; violação do dever recíproco de fidelidade”. Falar em “adultério consentido” é como imaginar que podemos descer para cima. Por mais imperativos de consciência ditados pelo totalitarismo católico, não há volta a dar ao dicionário. A menos que queriam reproduzir alguns tiques da odiosa inquisição e refaçam o significado da palavra “adultério”. Só para a igreja ficar dona e senhora da razão.
Desconto a mania da igreja invadir a consciência dos fiéis e não fiéis. Que haja alguns fiéis que aceitem pacificamente a intrusão, é um direito que lhes assiste. Mas seguem-se algumas interrogações pertinentes: ocorre aos senhores bispos que alguns católicos encontraram na procriação médica assistida o único meio de alcançar a paternidade e a maternidade? Um filho não é a prova maior de amor? Não é o amor que a igreja prega? Ou um filho gerado no “pecado” do “adultério consentido” deixa de ser repositório do amor filial? Não seria novidade ver a igreja a caucionar discriminações entre filhos nascidos dentro do casamento e fora do casamento.
O que tem a igreja a dizer se duas pessoas casadas mantêm relações paralelas, com ou sem conhecimento recíproco? Pode a igreja invadir a esfera pessoal e decretar comportamentos, sancionar os que desalinham da dogmática comportamental? Pode a moralidade da igreja substituir-se à liberdade individual, ainda que desta resultem comportamentos que chocam a consciência cristã, algo que pertença ao domínio da promiscuidade?
Em rigor, estas interrogações nem sequer se levantam a propósito da procriação médica assistida. Considerá-la “adultério consentido” é fruto de uma imaginação doentia, de uma perversão de espírito de alguém que vê o mundo detrás de uma lente muito desfocada. Esta é a igreja que ergue o dedo acusador contra as condutas pessoais dissidentes da ortodoxia fabricada nos concílios bispais. A mesma igreja que condena a masturbação masculina, decerto: é seiva de vida desaproveitada num acto egoísta, na glorificação do prazer egoísta que contraria o espartilho da fé cristã.
20.11.06
A burka proibida: a voragem da intolerância
17.11.06
Coincidências que só lembram ao diabo (um texto reaccionário)
Por coincidência – e apenas por coincidência, vamos acreditar que sim – no mesmo dia em que professores tinham sido escalados pelos sindicatos para estacionar à porta do ministério da educação. No exercício do direito constitucional de protesto, em dia de negociações entre o ministério e os sindicatos que podem destruir regalias dos docentes (tradução, na linguagem contemporaneamente correcta: bulir com “direitos adquiridos”).
Por mim fiquei descansado com o futuro deste país: temos uma geração dinâmica, imaginativa, com capacidade de encaixe para esquecer inimizades com o inimigo de sempre quando há um inimigo mais forte pela frente. Finalmente, haveremos de seguir o caminho certo quando entregarmos o leme nas mãos desta geração. Que será a tão prometida ínclita geração, decerto. Com semelhante capacidade de mobilização, que de um dia para o outro espalhou uma bem organizada operação de boicote às aulas e emparceirou milhares de alunos ao lado dos professores acampados à porta do ministério, podemos estar descansados. Há aqui vestígios de uma capacidade de organização que, se for posta ao serviço da governação da coisa pública e da gestão dos impérios privados, fará de nós a nova Irlanda, a nova Finlândia.
Convém não acreditar em coincidências notáveis. Não vamos supor que há alguém por trás desta súbita mobilização dos adolescentes. Não vamos acreditar que há interesses políticos, eles sim muito bem organizados, a acirrar as manobras dos petizes. Não, os jovens são imaginativos, dinâmicos e pensam pela sua própria cabeça. Todavia, quem os apanha à saída do ensino secundário sabe, ano após ano, que a qualidade média decresce. Ora, algo não bate certo. Ou os milhares de jovens que ontem se reuniram em protestos de norte a sul são uma colheita de excepção, rompendo com a mediocridade vertiginosa a cada ano que passa; ou decerto há alguém, bem mais adulto, a instigar os jovenzinhos no boicote ao ministério da educação.
16.11.06
Além do Outono
Haverá no Outono o travo decadente das estações. Haverá no Outono a sensação rebarbativa dos corpos esfriados que buscam agasalho. Haverá no Outono os ventos transtornados que semeiam as tempestades danosas. Mas são ventos amenos. Não emprestam à atmosfera um fingimento árctico. Ainda assim, as pessoas antecipam a estação mais fria. Vão aos armários recuperar a roupa de Inverno, como se os ventos amenos fossem o prenúncio de uma neve que raramente é visita.
15.11.06
Só um ensurdecedor silêncio
Entre íngremes subidas e descidas, entre pedregulhos calcados e regatos atravessados, desdobram-se os montes que desnudam a serrania. Há um Gerês que não se imagina da acalmia das estradas traçadas nos mapas. Agora sei-o, é apenas uma amostra do Gerês frondoso que os turistas conhecem no conforto dos automóveis. O Gerês verdadeiro, esse onde a mão do Homem não curou de tocar, esconde-se nas alturas dos montes escarpados. O que, ao longe, parece uma extensa mancha de promontórios, esconde recantos admiráveis, ribeiros de água cristalina e fresca, prados verdejantes semeados no meio das escarpas. Prados onde pasta o gado. Ali, nos fios de água que escorrem das alturas, as reses vêm dessedentar a canícula.
À medida que os montes e planaltos são palmilhados, redobra a oxigenação do espírito. Num isolamento que faz regressar a um estado natural que a civilização corrompe. Assim nos sentimos ao seguir os caminhos dos pastores, emoldurando a pureza da paisagem. Onde não há dedo humano a não ser nas pedras que se amontoam nos trilhos, marcando o caminho aos viajantes que não se querem perder na imensidão da serrania. Os meus amigos que lá vão há vinte anos devem sentir a recompensa do regresso não marcar a paisagem mudada. Não como nas vilas e cidades, na mudança constante da paisagem urbana: prédios que crescem, localidades que se estendem para fora dos seus limites, mais uma rotunda aqui e ali, jardins que se diluem no meio do cimento, novos caminhos que irrompem onde outrora repousavam verdejantes campos. O sinal da modernidade.
Por aqueles montes impera a virginal natureza. A mão humana é limitada na sua acção. Quase inexistente. Limita-se a melhorar os abrigos de montanha onde pernoitam os pastores, que eles também zelam pelo seu bem-estar, perdidos dias a fio na solidão de quem apascenta o rebanho. Uma paisagem que mostra a singularidade da natureza, a sua força indomável: pedregulhos que pesam toneladas e que se amontoam em equilíbrios instáveis, ladeiras que empinam em inclinações impossíveis de dominar, precipícios assustadores por onde deslizam os ribeiros, ora tímidos quando o estio preenche os dias, ora caudalosos quando as nuvens descarregam a sua ira em forma de chuva inclemente.
14.11.06
Perigosos socialistas que refazeis a História
A “boa memória” anti-fascista é uma campanha dos socialistas espanhóis, que se aproveitam do governo para limpar de vez os restos sujos do regime deposto em 1975. Os socialistas espanhóis especializaram-se na revisão da História. Quando se pensava que refazer a História fosse exclusivo dos hediondos funcionários do partido comunista da União Soviética, que retocavam fotografias para eliminar traços de pessoas entretanto caídas em desgraça (e ainda não dispunham do Photoshop…), afinal as manobras estalinistas têm seguidores nos tempos modernos. São os socialistas que se reclamam feitores da modernidade. Sinais dos tempos…
Não consigo entender energias gastas no supérfluo. Acaso alguém acredita, de boa fé, que o ressurgimento de ditaduras de direita é ameaça credível? Os socialistas espanhóis não se conseguem desprender do registo histórico. Dir-se-ia que vivem aprisionados pelos fantasmas da ditadura franquista, como se Franco se pudesse erguer da tumba e, com um cavernoso grito de ordem, chamar os fiéis para derrotar os democratas. Um povo que vive preso aos fantasmas enterrados no passado é um povo mesquinho, receoso do futuro, descrente dos dias que hão-de vir.
Que fique bem entendido: como qualquer ditadura, a do Generalíssimo vindo de Ferrol, Corunha, foi um exercício deplorável que enegreceu as páginas da História. Quando vejo as sumidades socialistas entregues a estes actos de revisionismo histórico, há um cínico sorriso que não consigo reprimir: é então que me lembro que estes artífices do politicamente correcto reproduzem os execráveis actos de censura do passado em que os próceres comunistas se especializaram. E só temo que a evolução destas mentalidades distorcidas não faça dos socialistas os repressores de amanhã. Os precedentes vêm da História – da mesma História que se afadigam em reescrever. Os nazis eram ideologicamente influenciados pelo socialismo (nacional-socialismo, era a doutrina). E agora os socialistas modernos parecem os discípulos dos torcionários comunistas.
As páginas da História estão emolduradas, para o bem e para o mal. Pois o tempo só apaga as memórias, não os acontecimentos. Se há lição a reter – para além da perigosa deriva revisionista que traz o fétido odor a Moscovo tingida de vermelho – é a seguinte: quem vai deslizando para a intolerância dúctil não é credor de confiança. Temo que esta leva de socialistas seja coveira da liberdade de expressão, dos valores que eles se dizem penhores acima de qualquer suspeita.
13.11.06
Cartilha infantil: do espírito Noddy (ou devíamos ser todos escuteiros?)
Lamentavelmente – para as crianças; e para a humanidade – as criancinhas crescem e esquecem as mensagens bíblicas de Noddy e companhia. Não sei se é na altura que se entregam aos devaneios da adolescência, quando interiorizam a ditadura da idade adulta. Ou quando começam a escrever a linguagem cifrada das mensagens SMS que assusta os progenitores no final do mês (não pelo português arrevesado, mas pelas facturas gordas que chegam das operadoras de telemóvel). Não sei quando se dá a mutação. Quando elas se esquecem das lições de moral cuidadosamente ensinadas nos desenhos animados a propagandear o bem e a vituperar o mal. Algures, perdem a inocência e o espírito deixa de ser tenro.
A candura das personagens benévolas dos desenhos armados é desarmante. Quando escuto os diálogos de Noddy e companhia nas minhas costas (porque estou de costas para a televisão quando a minha filha se enternece com mais um episódio da comandita), pergunto-me: o que está mal, a bonomia ingénua de Noddy e companhia, ou a malévola veia que embrutece a espécie humana quando chega à idade adulta? Como somos crianças num curto espaço da nossa existência, fôssemos levados pelo espartilho do quantitativo e diríamos que Noddy e companhia são uma representação de um mundo idílico que sabemos, já adultos, não existir.
10.11.06
O meu Porto: mais das coisas que das pessoas
Podemos elogiar a nossa cidade pelas pessoas e pelas coisas. Os cultores do Porto têm escrito páginas e páginas exaltando o espírito das gentes portuenses. Muitas vezes apressados em desvendar a idiossincrasia de um colectivo irmanado pela cidade que os abriga, não dão conta que alguns desses traços não são exclusivos dos portuenses. Nem sequer percebem que há nos residentes de outras cidades, em doses variáveis, o mesmo orgulho pela pertença comum, até aquelas mesmas características apresentadas como exclusivas dos portuenses. É a compulsiva tendência para sublimar a pertença a um grupo, enaltecendo as características que se dizem comuns a essa pertença, mas exclusivas dela. Não passam, as mais das vezes, de uma mistificação. Um espartilho que apouca a individualidade de cada um.
9.11.06
Os bancos, o demónio em instituição
Como a gente que nos governa tem sido acusada de uma deriva de direita – mesmo entre alguns correligionários que fogem à tendência dominante e criticam o rumo seguido – havia que enviar uns sinais que transpirassem algum esquerdismo para apaziguar as hostes e calar os mais radicais à (extrema) esquerda. Os bancos são um alvo apetecido. Simbolizam o capitalismo diabolizado pelas esquerdas que, por estes dias, destilam uma aguda azia antecipando o que se comemora no dia de hoje (o décimo sétimo aniversário da queda do muro de Berlim). O ataque aos bancos teve dois actos separados por poucos dias. Primeiro, as novas regras de arredondamento das taxas de juro dos empréstimos à habitação. Depois, o anúncio de que os bancos vão passar a pagar mais impostos.
Não me interessa o que se esconde detrás desta estratégia do governo. Decerto, apenas imperativos de imagem, mais uma vez. Espantoso é o coro que veio escudar as decisões do governo. Aposto que era esta a intenção dos estrategas de imagem do governo e da turba socialista: encostar os bancos à parede, por serem um alvo fácil da inveja do povo rasteiro.
Ao anunciar que os privilégios dos bancos vão ser cortados, o governo sabia que os bancos iam reagir. Ninguém gosta de ver privilégios cerceados. Quando os representantes dos bancos vêm para a praça pública defender os seus interesses, estão no exercício de um legítimo direito. O modo não foi sensato. Por vezes perde-se a razão pelas infelizes palavras proferidas. O presidente da associação portuguesa de bancos teve o seu momento infeliz ao comparar estas medidas com peronismo retardado. Por mais incompetente e desnorteado que este governo seja, é excessivo acusá-lo de peronismo.
(Aliás, esta acusação só veio acicatar a esquizofrenia política dos nossos queridos governantes. Coitados, emparedados de um lado e do outro: à esquerda, acusam de praticarem “políticas de direita” – vá-se lá saber o que isto significa; do outro lado, escutam a acusação de peronismo. O centrão político tem destes males.)
O coro que se levantou contra os bancos é sintomático da inveja e da ingratidão que faz de nós um povo pequenino. Uma voz quase em uníssono, colando-se às absurdas posições da extrema-esquerda. Por estes dias somos um povo de extrema-esquerda, para gáudio da Soeiro Pereira Gomes e dos folclóricos espécimes do Bloco. Eis o raciocínio esclarecido: os bancos têm lucros avultados. Exploram os cidadãos que não têm recursos para adquirir habitação própria. Hipnotizam as incautas pessoas obrigadas a contrair empréstimos para saciar a fobia consumista. Se não houvesse crédito ao consumo, as pessoas resistiam às tentações do consumo supérfluo. A culpa é dos bancos: emprestam dinheiro, levam-nos ao endividamento sufocante e lucram pornograficamente com isso. Impõe-se vergastar os bancos com regras que retirem privilégios imorais, forçá-los a pagar mais impostos para que os lucros que os engordam sejam menores.
Inveja em estado puro. Ingratidão sem sublimação: não fossem os empréstimos da banca, quantos de nós seríamos proprietários das habitações em que residimos? (Ou, então, a propriedade será um pecado?) Os bancos são acusados de seduzirem as pessoas na tentação do consumo fácil, porque agora tudo e mais alguma coisa se compra com as imensas possibilidades do crédito fácil. É o costume: a invocação da ausência de livre arbítrio de cada pessoa, como se fôssemos autómatos comandados pela vontade demoníaca dos bancos.
8.11.06
Bichos são os Homens
Parece incompreensível a comparação com as pessoas que convivem pacificamente com os inomináveis sacrifícios de animais indefesos. A comparação faz-se com a prosápia de quem se acha feitor da superioridade moral e depois não percebe a indignidade dos actos que sacrificam inocentes animais. Num caso como no outro, a moralidade desmascarada.
O contexto: ontem recebi um e-mail que apelava à subscrição de uma petição (em http://www.petitiononline.com/ftmlopes/) para afastar a estilista Fátima Lopes das passagens de moda enquanto teimar em utilizar peles de animais nas indumentárias por ela criadas. O texto que introduz a petição tenta sensibilizar os destinatários, explicando o que se passa no doloroso cativeiro a que estão remetidos os animais que têm a desdita de trajar apetecíveis peles:
Os activistas dos direitos dos animais por vezes conseguem mobilizar alguns representantes do mundo da moda, os manequins que passam as vestes criadas por estilistas, no protesto contra o uso de peles de animais na indústria da moda. Há um elemento folclórico que deve ser descontado: os manequins desfilam nus. A mensagem enviada é clara: eles e elas despem-se das suas roupas, sinalizando um esboço do sacrifício imposto aos animais selvaticamente despojados das suas peles, para comprazimento pessoal de dondocas. Que ou são insensíveis ou estão desapossadas de mínimos de inteligência para perceberem a vilania de trajarem vestuário ornamentado com as peles roubadas a animais entretanto mortos.
7.11.06
O elogio da “razão cómoda”
De quinze em quinze dias, vou buscar ao artigo de opinião de Mário Pinto inspiração para renegar o conservadorismo bafiento, nas palavras beatas do flagelado católico que se julga alvo de impiedosas perseguições de seitas diversas. Como é aprazível ler as palavras de um pobre católico clamando por comiseração: pela sua lente desfocada vê adversários que exercem sobre os católicos militantes uma feroz intransigência. Não cultivo a vingança histórica. Como qualquer tipo de vingança, é um sentimento abominável. Gostava que Mário Pinto percebesse que, no passado, o monopólio católico julgou, censurou, asfixiou à dissidência os que ousaram desalinhar dos cânones.
6.11.06
O euro em desintegração (a história de uma conspiração)
Acontece na Alemanha. Misteriosamente, notas de euros desintegram-se nas mãos de pessoas atónitas. Apanhadas de surpresa, testemunhas de um estranho processo químico, como se as suas mãos acabassem investidas de um súbito poder mágico. Onde elas tocassem, as coisas tornavam-se matéria evanescente pela acidez de poros que tudo envenenam com o seu toque. Atónitas, nem davam conta como a riqueza se evaporava através das células sudoríferas destiladas pelas suas mãos.
A polícia pôs-se em campo. O mistério não seria acaso. As autoridades não concebiam o mistério. Os agentes alemães começaram por investigar sozinhos. Orgulho alemão: da segurança doméstica curam eles, que as polícias chegam para as encomendas. Semanas seguidas sem encontrar fio à meada. Tempo para o orgulho pátrio ser engaiolado. Pedido de colaboração às entidades congéneres de outros países. Fazia todo o sentido: o euro é uma moeda impressa em doze países. As notas degradadas, prova da conspiração, estavam em tão mau estado que nem os números de série estavam legíveis. Impossível saber onde aquelas notas sido emitidas. Ou se seriam falsas.
3.11.06
Ambientalismo terapêutico: o ambientalismo individualista
Não digo que sejamos insensíveis à protecção do ambiente. No fundo, é o equilíbrio do lugar que nos acolhe. Há gestos que podemos fazer honrando a preservação do ambiente: a separação do lixo, o acto cívico de não emporcalhar as ruas com papéis e outros dejectos. Ou quando o povo acampa nas matas para os piqueniques de Verão, não deixar o local num caos de lixo. As indústrias são incentivadas a procurar métodos de produção que atenuem o impacto no ambiente. Entraram na moda as estações de tratamento de águas residuais. Os catalizadores são adereço obrigatório para tornar menos poluente a circulação de veículos. Nas grandes cidades, estimula-se o uso de transportes colectivos e, de preferência, aqueles que usem energias limpas.
Um dos grandes males ambientais é a poluição atmosférica. A emissão de gases poluentes encontra uma parcela importante nos tubos de escape dos veículos. Daí que a indústria automóvel comece a experimentar novas soluções para tornar os veículos menos poluentes. Se é acto de expiação das culpas pela poluição acumulada ou apenas manobra de marketing, o futuro o dirá. Algumas marcas comercializam modelos híbridos: ao tradicional motor a combustão adicionam um motor eléctrico que entra em funcionamento quando o automóvel está parado numa fila de trânsito, ou quando a condutor tira o pé do acelerador numa descida, ou quando a condução é tão suave que basta uma ligeira pressão no acelerador para fazer mover o carro.
Não vejo que se possa censurar aquele homem por fazer contas às finanças pessoais. Há algum mal se ele decidiu comprar aquele carro com a expectativa de diminuir a rubrica orçamental do combustível? Dizia o purista da ecologia: desmascara-se a intenção do homem, que apenas olha para o seu bolso e não para o bem comum, para a melhoria do ambiente. Daí a acusação de egoísmo, que punha a nu a sua falta de sensibilidade ambiental. Um falso herói, como todos os que se deixaram seduzir pela novidade dos automóveis híbridos apenas por saberem que poupam na factura de combustível. Para ser um comportamento genuinamente ambiental – prosseguia o exacerbado ambientalista – os proprietários destes automóveis deviam estar orgulhosos por menos gases poluentes serem emitidos para a atmosfera.
A ingenuidade fanática do empenhado ambientalista mostra como esta espécie vive noutro mundo. Erra ao lançar a acusação de egoísmo. Não percebeu que podemos ser individualistas sem sermos egoístas. É verdade que aquele homem estava entusiasmado com o automóvel híbrido porque lhe permitia uma poupança de vinte euros mensais. Há algum mal nisso? Essa poupança pessoal não é sinónimo de um pequeno contributo para melhorar a qualidade do ar que respiramos? Pode o desgostoso ambientalista insurgir-se contra o individualismo de quem comprou carros híbridos. Nem percebe como se insurge contra a sua própria causa. A desorientação é tanta que nem percebe quando algo vai ao encontro das suas preces.
2.11.06
Dá-me a tua mão
Em todos os lugares. Houvesse a necessidade de sentir os poros suaves da tua mão, mão quente sobre o meu corpo que grita por afecto. Quero a tua mão, tal como ela é: uma candeia que descerra a luz, derrotando a escuridão. É pela tua mão que me guio entre as pedras afiadas que ferem os pés. Indica o caminho dócil, uma repousante expedição até beijar o destino procurado.
Dá-me a tua mão para sentir o pulsar que se encerra em ti. Para, através da tua mão, ser um pouco do que és. E dar-te um pouco do bom que há em mim. Paramos diante de um campo imenso, onde as flores tecem uma cama violeta. A brisa refresca as nossas faces, tiritamos do frio que juramos nem sentir. Que interessa se atrás de nós arde uma pira onde se incensam os demónios que deixámos? Diante dos nossos olhos estão as flores, dir-se-ia, o túmulo onde não importaria imortalizar o resto dos nossos dias.
Há nas tuas mãos o rumorejar das águas que sobem desde as profundezas e irrompem numa fonte escondida entre a frondosa vegetação. As gotas que salpicam os arbustos em redor, toda uma vida alimentada pelo manancial que surge das entranhas. É assim que me sinto entre as tuas mãos. Renascido. Preparado para as adversidades que poisarem com um ar ameaçador. Basta um gesto dos teus dedos, uma viagem na ternura da tua mão pelo meu cabelo, e nada, mesmo nada, será força indómita para vergar o vigor que nasceu em mim.
Repouso, deitado sobre a tua mão. Sinto o odor, o calor, teus. Consigo discernir todos os poros da palma da tua mão. Abres as mãos e selas um beijo que avigora. Aí, todas as portas que pareciam hermeticamente cerradas abrem-se de par em par. Apaziguam-se os ventos que silvavam violentos urros. O sol, que teimava escondido detrás das nuvens plúmbeas, solfeja raios admiráveis. O mar sossega as ondas, tornando-se chão espelho onde apetece levitar. Tudo pela magia das tuas mãos, que atrevem a contemplação dos sentimentos maiores reprimidos pelas pedras que perecem, intemporais. E, contudo, há uma pulsão irreprimível que brota das tuas mãos. E sabemos que pela força delas conseguimos mover até as raízes mais fundas de árvores centenárias.
As tuas mãos são um bálsamo. Há nelas um frémito que redobra a intensidade das coisas, revigora os sentimentos que parecem apenas adormecidos. Eles latejam, lá no mais íntimo do ser, com a bênção da cumplicidade que soubemos instruir. As tuas mãos esvoaçam enquanto falas, fazendo desenhos no ar, elipses e outras coisas indescritíveis, enquanto preenches o discurso com a expressividade das mãos dançantes. Movimentos que inebriam pelo sortilégio que empenham. Enfeitiçado, tomo-te por uma maga que soube dar sentido a um nomadismo desorientado.
As tuas mãos são os meus olhos. Nas tuas mãos me entrego, de olhos fechados, e sigo por onde elas me levarem. Não interessa se vendado ou até cego, pelas tuas mãos calcorreio todas as veredas – das mais íngremes às que tragam o terreno plano, das sinuosas às rectas que encurtam planícies sem fim, as pedregosas e as que se fazem caminhos aveludados.
Vou, por onde as tuas mãos me quiserem levar. Confio que não há encruzilhada que faça demorar, nem caminho errante debulhado. Se as tuas mãos são como candeias que alumiam entre o breu da noite profunda. Se as tuas mãos são uma bússola entreaberta, o mapa que leva ao tesouro que trazemos bem junto ao peito. Escuto o rumor do mar alteroso que chega a terra, soprado pela tempestade. Não há que temer. As tuas mãos, poderosos diques que contêm a fúria dos elementos. E por isso te digo: dá-me a tua mão. O altar onde fazemos a sagração da nossa cumplicidade.
1.11.06
Um hino à anti-publicidade
Vem isto a propósito de uma campanha publicitária do óleo Vêgê. Na televisão passa um anúncio espartano: do fundo branco perpassa o tom asséptico do anúncio. Uma rapariga inexpressiva vai debitando umas palavras com pouco sentido. Os mentores da campanha preferem sublinhar os predicados do que vendem em vez de gastarem rios de dinheiro em campanhas que recorram ao último grito da tecnologia. Dir-se-ia que a opção foi a de apresentar o produto sem a maquilhagem da publicidade sofisticada. A rapariga põe uma pedra no assunto: a Vêgê reconhece que o produto é bem melhor que o anúncio.
Este spot minimalista faz pensar. Aposto que a comunidade de publicitários deve andar às voltas com este anúncio. Por o considerar herético, porquanto a simplicidade do conceito deixar entender que a profissão de publicitário passaria a estar aberta a qualquer aprendiz que soubesse conjugar as palavras num português escorreito. Temendo a banalização da sua função, não me admiraria ver a comunidade de publicitários a flagelar sem piedade a campanha da Vêgê.
Ao ver o anúncio televisivo ao óleo Vêgê, mais os cartazes espalhados nas paragens de autocarro, surge uma interrogação: do alto da sua simplicidade desarmante, será esta campanha um hino à anti-publicidade? A resposta depende da contextualização da publicidade. Se o que interessa é orientar a bússola pelos padrões estabelecidos, em que a publicidade é cara, sofisticada, utilizando os recursos tecnológicos mais avançados – aí temos que ver a campanha da Vêgê como protótipo da anti-publicidade (pelo menos da moda publicitária enraizada).
Todavia, há uma maneira diferente de olhar o assunto. Se a publicidade é feita da mesma evolução que o tempo regista nas mentalidades e nas preferências do público e dos mentores das campanhas, porventura a campanha da Vêgê não ilustra a antítese da boa publicidade. No spot televisivo e nos cartazes afixados em paragens de autocarro destaca-se a simplicidade do conceito, a mensagem lapidar: a preocupação está em enfatizar as qualidades do produto publicitado, não da publicidade que o divulga. Não sei se estou errado na interpretação desta campanha: enviar um sinal claro, à comunidade de publicitários, de que mais importante que vender o embrulho (a publicidade) é destacar o conteúdo (o produto publicitado).
No domínio da publicidade atingimos um patamar de tanta sofisticação que difícil é conceber a simplicidade. Há na mensagem minimalista da Vêgê uma tentativa de evitar que o veículo publicitário seja uma agressão para o destinatário. Em vez de entrarem pelos olhos imagens coloridas, uma sucessão frenética acompanhada por uma música que entra facilmente no ouvido (mas que é uma xaropada musical), ou – como acontece com assiduidade nas campanhas de produtos dirigidos às donas de casa – um anúncio ridículo que não é primoroso para o quociente intelectual das donas de casa, os anúncios da Vêgê optaram por um caminho diverso.
Também se pode dar o caso da escolha do minimalismo conceptual ser uma estratégia preconcebida dos publicitários contratados pela Vêgê. Para chamarem a atenção do público pelo teor diferente da campanha, que aposta num direito à diferença em relação aos padrões estabelecidos e que, assim, poderá ter a potencialidade de seduzir a audiência – e, logo, atingir o objectivo final, o aumento das vendas do óleo Vêgê. Falta saber se a intenção foi mesmo a de romper com o estabelecido e enveredar por um novo paradigma de publicidade, ou apenas um engodo aos consumidores que ficam atraídos pela simplicidade da campanha.