11.4.13

As estações errantes


In http://alunos.esffl.pt/16336/images/ESTAES~1.GIF
Outra lição do tempo que levava embarcado na marinha mercante. Não fazendo o navio rotas habituais, tivera de se habituar a uma contingência que desarranja o relógio biológico. As estações do ano tinham perdido calendário. As rotas que eram errantes, pois as encomendas ao armador assim mandavam, levavam o navio a percorrer a distância entre duas estações antípodas em poucos dias. A indumentária era metodicamente preparada quando as coordenadas da próxima ancoragem eram conhecidas. Os marinheiros estão sempre preparados para os reveses que se agigantam do nada – ouvia da boca dos mais experimentados na arte. Como não estava acostumado ao improviso quando era dono da sua vida sedentária, aprendeu a estar acompanhado pelo cálice da sobrevivência em mar alto.
Nos meses que levava embarcado já conhecera as estações todas. Andara pelos mares azuis nas proximidades dos trópicos, crestando com um calor que escorria em forma de suor pelo corpo cansado. Andara pelo Pacífico na América do sul, quando por lá era outono e o mar agreste trazia um bafo fresco que pressagiava os rigores do inverno daí a um lustro de semanas. Andara pelas monções no Índico e vira chover como julgara não ser possível. Fora até ao Ártico quando o inverno já dizia adeus e um punhado de icebergues obrigava o navio a ziguezaguear entre eles.
Este nomadismo, que era uma impossibilidade se viesse atrás no tempo, não o cansava. Andarilhava pelas sete partidas do mundo, com pouco tempo para ir a terra nos muitos cais, em tantos lugares diferentes, a que o navio aportara desde o começo da emigração nómada. Como dantes com o mar fundo, congeminou um pensamento simbólico que viesse de parelha com o ausente calendário das estações do ano. E ele, que tanto fora escravo do tempo quando ainda fora o tempo sedentário, soube que a autenticidade das coisas não autoriza que os seus intérpretes as forcem. Um calendário forjado anuncia o provável decesso das coisas, que perdem a espessura da autenticidade. Mas depois logo se abraçou a outras interrogações: e como sabemos que o calendário das coisas embota a sua autenticidade? E como sabemos que o calendário que tecemos vem a destempo?
Mas nem a ausência de calendário das estações para os embarcadiços que sulcam os oceanos todos, serviu de lição para oferecer resposta às interrogações.

10.4.13

Altos e baixos


In http://postmania.org/wp-content/uploads/2009/08/tempestade.jpg
Os vestígios da tempestade que sobressaltara o navio nos últimos três dias ainda coloriam as cartas marítimas. O mar estava num suplício que já não quadrava com o sol que parecia uma impossibilidade a ver pela borrasca que se pôs antes. O mar de fundo era o selo tardio da tempestade.
Fazia o tirocínio no mar de fundo. Os marinheiros experimentados apregoavam que quem passasse com distinção no exame inicial ao mar de fundo, estava preparado para as piores intempéries que estivessem por vir. O navio adornava enquanto o chão do mar ia ao seu fundo e depois se levantava, ocultando o fio do horizonte. Era um movimento vagaroso, mas violento. O navio era sacudido quando o mar de fundo chegava ao auge e o chão do mar apontava para o fundo. O navio era então embrulhado com fereza nas águas, a proa descendo vertiginosamente com o movimento descendente do mar de fundo. Recordou outra vez a voz da experiência dos marinheiros mais velhos: em sendo o tirocínio no mar de fundo, os que souberem reprimir as agonias mereciam comenda da confraria dos deuses que tutelam os oceanos.
Mas não eram os enjoos da montanha russa em mar alto que o inquietavam. Era o equilíbrio precário, pois as habituais tarefas dos embarcadiços não podiam parar porque o mar se tinha indisposto. Os marinheiros tinham de se agarrar ao que pudessem. À cautela, os coletes salva-vidas abraçavam o dorso. Podia sempre uma onda rebelde arremeter contra a embarcação e fazer-se convidada no convés, levando na despedida um, dois, três marinheiros desprevenidos. Enquanto perdia a conta das vezes que o navio fora abaixo e depois ao cume do mar chão, pensamentos esparsos foram convocados para acompanhar o labor que ainda estava por fazer. Foi lá atrás, quando a meninice acabou e principiou a existência controversa, cerzindo uma história instantânea que percorreu todos esses anos.
Foi quando compreendeu que o mar de fundo, nos seus altos e baixos, é a metáfora perfeita da vida.

9.4.13

Dos predicados do afastamento


In http://mochileirodasmaravilhas.files.wordpress.com/2009/03/caverna-pranang-321.jpg
Três meses desde que dissera adeus à terra-mãe. (Não se achava minado pelo complexo de Édipo, mas metia-lhe impressão que tanta gente gastasse na boca a palavra “pátria”. E metia-lhe impressão porque a terra era mãe, a terra é uma fértil divindade feminina que nos acolhe, seus frutos.) E três meses haviam passado sem um laivo de saudade do que deixara para trás depois do navio ter zarpado para distantes paragens.
Dera consigo dias a fio sem qualquer vaga lembrança da terra-mãe e de seus prósperos arcaicos – a família, os amigos, os lugares, a língua, a música, as notícias que dessem um ar de como andava a terra-mãe nas consumições com a crise. Três meses refugiado em mar alto não eram guarida suficiente para o sentimento de falta – convencera-se. A desconfiança vinha reforçada com o bafo da memória, pois partira em desacordos com a terra-mãe. Três meses eram um espasmo que não deixava resgatar os alvores da perda. Era tudo ao contrário: o tempo embarcado, na exaltação oceânica que continuava a ser experiência retemperadora, confirmava a justeza da emigração com destino incerto.
Quando a distração se entronizava no céu que se fundia com o mar, outras interrogações levavam de regresso mental ao que deixara na partida. Perguntava se a crise já tinha comido os ossos da terra-mãe; quem, dos seus conhecidos, tinha vestido a aprumada fatiota do desemprego; se havia discos novos e livros de novos autores para descobrir; se havia novos amores e velhos desamores, crianças deixadas ao acaso das dores de uma terra-mãe dilacerada por uma bubónica crise. Depressa arrematava as interrogações. Penitenciava-se logo a seguir. Se não temia a consumição das saudades, por que reprimia interrogações que denotavam perda pela terra-mãe? Debatia-se neste paradoxo. Até que uma empreitada ditada pelo ajudante do comandante, ou uma tempestade que obrigava ao atento plantão noturno que tirava uma noite de sono, apagavam do pensamento o contrafeito paradoxo.
Uma noite, ao deitar, aldrabava uma insónia contumaz quando outras interrogações espaçavam o sono mais para diante. Em jeito de introspeção, admitiu que a ausente identidade com a terra-mãe levara-o para fora, mal se congeminou a oportunidade fatal selada com a desocupação a que fora entregue. Ficou-se a debater com estoutras interrogações: e se a força da distância, em rima articulada com o tempo sedimentado, fosse um ardil para devolver o sentimento de pertença com a terra-mãe? Teria ela, em arranjo com capitalistas desapiedados que despejam hordas no desemprego, cozinhado a emigração forçada com o propósito final de nos emigrados resgatar a pertença através do sentimento de perda? 

8.4.13

Sereia negra

In http://www.fotografodigital.com.br/trabalhos/full/76666.jpg
No resto do tempo não saiu do navio. Dentro do exíguo camarote, a ventoinha aligeirava o peso do ar tépido e húmido que arqueava os corpos num cansaço mortiço. Deitado no beliche, com o teto branco onde sobressaíam os rebites metodicamente aparafusados, esforçava-se por resgatar lembranças de todo o tempo gasto em terra de que não tinham sobrado memórias. Só podia ser de alguma bebida envenenada, ou que alguém tivesse oferecido umas substâncias alucinogénicas que varreram toda a memória. 
De repente, contava os rebites aparafusados no teto, uma reminiscência fez-se à superfície: ao entardecer, o corpo repousava numa sombra onde sentia o vento quente, o olhar alcançou um vulto que fez notar a atenção. Era uma menina. Ao que a distância deixava perceber, uma menina quase a despontar para a adolescência. Os gestos eram graciosos. Uma leveza no andar que, diria, tinha pergaminhos de bailarina. As mãos eram toda uma linguagem gestual, tão expressivas. Brincava com outras crianças, negras como ela. Com o encanto genuíno de quem não sabe ainda o que são as acrimónias da existência, mais a mais numa terra onde as necessidades espreitavam nas ruas frequentadas por turistas (e o que diria se se embrenhasse nas ruelas esconsas onde tropeçavam, umas nas outras, as casas insalubres que eram hospedagem do povo médio?).
As crianças achegaram-se. Pareciam ir no sentido oposto ao do ocaso, como se quisessem apressar a noite que era desinquieta. Ou, possuídas por uma inteligência espontânea que escapa a tantos adultos, iam para o lado contrário do sol sobrante sabendo que a penumbra albergava o ar mais fresco. Limpavam o suor dos rostos, os pés descalços encardidos por uma substância gordurosa que se decompunha em poeira, suor e os detritos apanhados na caminhada estroina pelas ruas. Viram-no, imóvel e derrotado pelo ar tépido que não desarmava. A rapariga tinha ar de sereia. As feições perfeitas davam enchimento a uns olhos negros, grandes e redondos, que tomavam conta do rosto. Quem para ela olhasse, só via aqueles olhos tamanhosos que irrompiam do rosto e que pareciam falar. As crianças queriam moedas, uma garrafa de refrigerante que ainda fosse fresco, uma recordação qualquer que, era de antanho, sabiam recolher da generosidade dos marujos desembarcados na ilha.
Falavam em dialeto. E pelo meio do dialeto ele ainda agarrou um punhado de palavras esparsas que eram de um francês esforçado e com sotaque típico. A pequena menina tomou-o pela mão mal se ouviu, vindo não se sabe de onde, uma música estridente. Convocou-o à dança – logo ele, desde que se lembrava da existência, zangado com a dança. Dançaram todos aquele recorte de reggae ilhéu, repetitivo e hipnótico.
A menina que era o desenho de uma sereia segredou-lhe um rumor, um rumor qualquer no dialeto cerrado. Jurara que era uma feiticeira que lia a sina, enquanto lhe tomava a mão com o calor exuberante que saía da sua. Nas noites seguintes, sonhou com a meninice que tinha como a única época de que irradiara contentamento espontâneo, genuíno. Talvez fosse a sina da pequena sereia negra. 

5.4.13

Ar tépido


In http://sicnoticias.sapo.pt
Entre a escala técnica, o desembarque de mercadoria e uma revisão à casa das máquinas, sete dias de descanso numa ilha exótica no mar das Caraíbas. Os marinheiros tinham ordem para irem a terra. Podiam gastar aquele tempo como lhes aprouvesse.
Ainda o navio não lançara âncora e ouvia os planos dos outros marinheiros. Uns perder-se-iam na bebida. Outros iriam à procura da fortuna num casino. Outros queriam puxar galões ao Casanova que o espelho neles sobredimensionava por causa das semanas a fio sem descer pé em terra – e, assim como assim, havia turistas que iam em demanda de romance. Outros, mais pragmáticos ou não tão confiantes nas capacidades, consultavam manuais sobre prostíbulos nos arredores da cidade. Outros aproveitariam o porto franco para gastar dinheiro em mercancias a preço de saldo. Ele, que não fizera grandes intimidades com os outros marinheiros, escutava daqui e dali mas não bebia a excitação dos demais. 
Quando as tarefas dos embarcadiços findaram e a ordem para ir a terra veio pela voz do ajudante do comandante, foi vê-los a descerem as escadas do navio em passo apressado. Ele não perdeu a calma. Arrumou o quarto, pôs uns objetos na ordem a que pertenciam (a noite anterior fora de tempestade e o mar fizera-se agitado), tomou banho e só depois saiu. Não sabia o que mais estranhava: se meter pé em terra depois de tanto tempo com o mar por companhia, se o ar tépido e insuportavelmente húmido que era exalado das entranhas. Não fez planos para a visita à ilha. Quase todos os outros marcaram quartos em pensões perto do bairro da prostituição. Deitou-se a adivinhar: deviam ser casebres insalubres. Preferiu o relativo conforto do que lhe era dado a conhecer – o exíguo quarto na subterrânea parte do navio.
Meteu os pés ao caminho, sem sequer as mãos e os olhos se deitarem num mapa local. Já sabia que não precisava de bússolas para haver orientação – ou nem havia mercê na orientação do que fosse. Era sem destino, o passeio. Comeria onde calhasse, quando a fome cuidasse de fazer falar o estômago, nos sítios de onde viessem aromas que fizessem cobiça ao paladar. Teria tempo para ir à praia, experimentaria as águas mornas que o mar tinha na ilha. À noite, perder-se-ia entre a animação local. Sem planos. Se quisesse mais animação, levantaria a cancela ao álcool. Pela amostra das primeiras horas, viesse o que viesse, aqueles dias seriam a combustão do suor por causa da atmosfera tépida que nunca aliviava.
Ao terceiro dia ainda não tinha regressado ao navio, tanta a farra que deixava a noite juntar-se ao amanhecer, como se nunca houvesse fronteira entre a luz e a sua ausência. Lembrava-se de pouco. Talvez tivesse consumido muita bebida. Talvez tivesse caído em encontros fortuitos. O ar tépido tinha-se colado ao corpo, que deixava o mesmo odor pestilento que vinha dos nativos no ocaso do dia. Regressou ao navio. Nos restantes dias não ousou vir a terra. As convulsões foram tantas que tinha medo de lá voltar – e mais medo ainda de conseguir recordar por onde andara e o que tivera a feição de tanto mal-estar lhe causar. 

4.4.13

Nenhures


In http://hipervitaminose.com.br/wp-content/uploads/2012/05/radar.jpg
A estatura do navio metia respeito. Sempre se fascinara pelos milagres da engenharia: como era possível pôr a navegar um batelão de tantas toneladas? 
O tempo de embarcadiço era entediante. Estava avisado. A rotina diária incluía triviais operações de manutenção, tirar a água que o mar amotinado tivesse atirado para o convés, inspecionar a parafernália de equipamentos na casa das máquinas, colaborar na limpeza quando o turno fosse esse. Por saber da rotina entediante, metera muita literatura nos haveres embarcados. Era o preço pela emigração nómada que era ao mesmo tempo sedentária: ia de lugar em lugar confinado à estatura do navio que no meio do oceano se fazia exígua.
Não se perturbou com o que mais o incomodava quando pensava nos meses, ou porventura anos, de emigrante na marinha mercante: a solidão da imensidão dos oceanos rasgados. Habituara-se a ter o mar como única paisagem. Descobriu que o mar não era uma paisagem única. Havia diferentes mares, os diferentes estados de espírito que combinavam com os dias trajando a meteorologia que se pusera. Aprendeu que as correntes marítimas determinam a climatologia. E aprendeu a ler cartas oceânicas, a entender a linguagem cifrada dos boletins meteorológicos, a escutar, na torre de comando (por cortesia do comandante), as comunicações por rádio e a ler os sinais do satélite. Era a costela de engenheiro que andara reprimida.
À segunda viagem, fez questão de não ler o manifesto que acusava o destino. Havia por dentro uma pulsão de se sentir passageiro do acaso. Queria saber qual seria a cor dos sentidos se a bússola interior fosse desativada e apenas mareasse pelo leme do navio, os dias que fossem sem avistar o cais de destino. Talvez fosse à procura de um equinócio que a servidão do tempo e do espaço amordaçara no tempo pretérito. Fartara-se das vezes que olhava para o relógio como ritual repetitivo. E cansara-se de ter de saber onde estava, sobretudo quando tratava de travar conhecimento antecipado com lugares desconhecidos pelas bissetrizes de um mapa e do prontuário turístico local. Queria saber o que era sentir-se nenhures. Para se reencontrar com um eu qualquer urdido no cárcere do tempo e do espaço.
Despojou-se do relógio e deixou de espreitar, na torre de comando, para as coordenadas bolçadas pelo satélite. Sem deixar de cumprir as tarefas que se pediam a um embarcadiço, não perguntou por horas nem pelo destino que haveria de ser ancorado. A singularidade da desorientação demandada depressa se entranhou. Ao segundo dia deixou de interrogar a que paragens se deitava o navio. Ao terceiro dia, sentiu uma leveza que jamais conhecera. Ao décimo primeiro dia, quando o navio pediu vaga no porto de destino, tomava-se por um homem novo. Era medicinal saber-se nenhures. 

3.4.13

Astrolábio


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTErX4-DEoE_IQhIhTKYj9kO2_6EPoCU7ofwznP4TRFaUOtyjmIbKet6frr4QTt1NvMlW9tEO2VWJQzvL2KUIKvg6YK3-wXkFovyr-6E3mU0Hdu3rG-RBNCjikEdUz7BxleA66ig/s1600/amarras.jpg
Fora tudo súbito. Como já acontecera antes, uma decisão no rubor do momento abria a porta para degolar o impasse. Podia ser repentina, talvez até impensada. Podia ser que mais tarde houvesse arrependimentos a bater à janela pela resolução arrematada no fulgor do instante. Mas perante o precipício que se acusava por diante, o pior que podia vir era a estrepitosa queda no vazio.
Não houve tempo para dizer adeus. Não houve tempo para pegar no telefone e anunciar a resolução aos mais próximos. Mal conseguiu desfazer-se do arrendamento do andar, deixando instruções ao senhorio para licitar os pertences pela melhor oferta, sem pressa no leilão. Passou o tempo derradeiro com burocracias irremediáveis e a deixar procurações a quem o pudesse fazer por ele quando ele já fosse ausência. Na azáfama dos dias derradeiros na cidade que fora seu cais, queria acender uma vela pelos lugares marcantes, pelas pessoas a quem queria deixar um afeto, num último olhar pela luz clara que tomava conta dos dias que amanheciam emprestando uma cor singular à cidade. Mas fora tudo tão súbito que os planos foram abortados à boca de cena dos pensamentos que ainda conseguiam vogar antes da partida. 
Não era má ideia partir sem os adeus da partida. Não queria incendiar a nostalgia. Não era – precisava de o ajuramentar, como convencimento interior – pela terra que estava a deixar; não era pelos sinais de pertença que são o cimento da identificação, que esses andavam ausentes já nem se lembrava desde quando. Não queria ser consumido pela nostalgia quando aportasse a lugares que trouxessem parecenças com a cidade que sempre fora a sua. Para essas dores chegariam (adivinhava em antecipação) as memórias que não podem ser diluídas. O derradeiro tempo na cidade sua hospedeira fora tão voraz que os temores da resolução não chegaram sequer a ponto de banho-maria. A efervescência com a mudança devolvia ao esquecimento a melancolia que, a ser viável, sê-lo-ia antes do tempo. Ainda bem que não havia tempo para abotoar os adeus que seriam devidos noutras condições.
No dia marcado chamou um táxi e meteu os pertences emalados na bagageira com a ajuda do taxista. “Para o porto, por favor”, ordenou. O taxista não demorou a saciar a curiosidade: “o senhor vai ser embarcadiço?” Depois de anuir enquanto olhava de esguelha para as ruas que iam até ao porto, desinteressando-se da conversa com o condutor, meditou na emigração que escolhera. Não seria emigrante num sítio só, que os meses transatos foram bons conselheiros para a canseira que seria aportar a um só sítio novo. O nomadismo dos embarcadiços na marinha mercante seria a sua emigração. E nem a solidão dos mares sulcados por dias a fio, sem vestígios de terra firme sob a mira do olhar, o intimidou. 
O nomadismo pelos oceanos, sem saber a que portos ancorar, era a digressão interior que sentia precisar.

2.4.13

Em sangue quente


In http://up-brasil.com/wp-content/uploads/2011/10/anjos3.gif
Era a noite das facas longas. A noite dos olhos desassombrados, o amanhã marcado para ser dia do tira-teimas. Era proibido dormir naquela noite. Ela estava a jeito da boémia. Temia que a embriaguez ocultasse a clareza que seria convocada para a função. Ou talvez não. Podia ser que o álcool destravasse os freios que não deixavam as decisões ser decisões. Não podia persistir no adiamento do porvir. Teria de ser fautor do seu próprio amanhã. De que adiantava esperar que um qualquer amanhã chegasse, consagrando o que lhe aprouvesse, se depois as mãos atadas não deixavam reação?
Não queria ser sequestrado pelas circunstâncias. Queria ser o domador das circunstâncias, ir para cima do palco e cinzelar todas as tábuas do chão, uma a uma. Queria ser o autor do guião por onde se move o seu corpo, tirar as peias que adiavam tudo para um incerto amanhã. Aquela noite seria o rompimento com os freios que, a páginas tantas, mais soavam a embainhamento da covardia. E se o incomodava saber que o fantasma da covardia adejava como se fosse um corvo enlutado a pressagiar o seu luto.
Meteu-se pelas ruas fora na companhia da pluralidade em que se decompunha o seu eu. Foi de bar em bar, àqueles que resistiam de portas abertas na quietude noturna de um dia de semana. Fazia-lhe bem a noite que parecia fúnebre, tanta a ausência a tomar conta das ruas. Bebeu. Até perder a memória. Tinha uma vaga recordação de meter conversa com outros boémios que haviam mergulhado no fingimento da bebida. Não se lembrava do que fora o falatório.
Quando voltou a si, estava numa terra estranha. Ouvia falar numa língua ininteligível. Estava um frio que não sabia o que era. Envergava roupas grossas a condizer, luvas a proteger as mãos das frieiras que se poriam se elas estivessem entregues ao frio glacial. As casas tinham um traço diferente. Fino e ao mesmo tempo cru, as fachadas pintadas com cores desmaiadas que rimavam com o sol acanhado. Estaria anestesiado há quanto tempo? Como fora aterrar num sítio tão diferente, num sítio de que nem sequer sabia o nome? O que estaria ali a fazer, se um buraco negro era o reviralho da memória vinda aos dedos refugiados nas luvas de lã?
O colapso do tempo, medido na porosidade do tempo esquecido que não sabia contabilizar, selara a decisão que andava a ser escusada. Pelo ar que as coisas tinham, estava em roupagem de emigrante. Porventura a noite boémia fora a sagração das circunstâncias tomadas em suas mãos. Ou, não podia renegar a hipótese, era apenas ator num sonho. Fosse o que fosse, o sangue estava quente. Os minutos que viessem a seguir tratariam de decifrar o enigma. Acordou rodeado de gente trajando bata branca. Afinal era um sonho. Um sonho cheio de presságios.
A decisão ficou tomada ali, na maca da urgência do hospital. Só faltava que lhe dessem alta que trataria de tratar da vida alinhavada pelo fuso do porvir.

1.4.13

A mentira tem perna curta


In http://www.fisiostore.com.br/images/product/INDA-00E23_298.jpg
A mentira tem perna curta. Apregoam moralistas que enchem a boca com a moral da verdade e outras virtudes do mesmo carácter. Nunca contaram uma mentira (suponho). E, todavia, continuam a contar o conto do vigário, o da mentira com perna curta – que é como quem avisa, na curva da estrada a mentira encontra um alçapão, desmascarada pela verdade beatífica. Talvez a maior mentira que se pode pregar no dia das mentiras, é certificar que a mentira tem perna curta. Quem pode assegurar o volume de mentiras que foram sepultadas como o seu contrário?
Mal dos mitómanos, que o primeiro de abril lhes é consagrado. Mas será só a eles? Que ponha o dedo no ar quem nunca entoou uma mentira, não interessa se das grandes (se é que a mentira tem graus) ou das pequenas, ou daquelas que passam pela omissão das coisas como elas foram. O dia das mentiras é o dia de todos nós. Tiramos daqui os mitómanos. O dia das mentiras não pode ser o seu dia. Esses são os outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano (se ele não for bissexto).
Hoje apetecia começar o texto com a seguinte proposição: “hoje não há texto, não encontrei assunto para a escrita diária, vou deixar as linhas do papel em branco”. Estas palavras eram a negação do meu enunciado. Eram mentira. Pois as palavras anunciando a ausência de texto eram um texto, nem que fosse um texto a avisar que não haveria outro texto se não o que se compunha nas estrofes da anunciação da preguiça. Podia ser um pretexto para iludir a falta de inspiração. E do nada, da implausibilidade de um tema, disso fazer inspiração para um texto a negar um texto. Era apanhado na curva traiçoeira da estrada onde se pretende provar que as mentiras têm perna curta.
O mal é quando a neblina que embacia o olhar é tanta que não se consegue saber onde começa a mentira. A confusão mental cava fundo. E há quem minta sem dar conta, tão assoberbado pela ilusão em que é acantonado que não lhe é dado a saber que a realidade construída é uma miragem. É a mentira não consciente. Pode ser por falta de lucidez, pode ser doença, ou uma abstração de tudo que oculta as vagas frias que são pedidas para aclarar as nuvens pesadas diante dos olhos.
As mentiras não são todas criminosas. Nem todas são aceitáveis no dia das mentiras. E as patranhas ensaiadas para fazer jus ao dia delas são inocentes açoites na verdade sem que sejam profetas de uma inverdade qualquer.
O primeiro de abril é o único dia em que os mitómanos só contam verdades.