9.5.11

Nem que a vaca tussa


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Um epitáfio das teimosias todas?
Eram preconceitos. Ou apenas uns olhos embaciados pela menagem solar, vidrados pelas lágrimas que secavam na embocadura das pestanas. As ideias eram todas feitas, pré-fabricadas. Assertivas, as certezas, sobrepunham-se às interrogações despejadas desde todos os pontos cardeais. Os mesmos olhos vidrados resistiam aos ângulos diferentes que se ofereciam. Declinava-os, como aquelas donzelas briosas que não dão o flanco às investidas de atrevidos rapazolas.
Quando os desafios esbarravam com os olhos, uma súbita cegueira. As algemas que se vestiam sobre os espelhos amordaçavam das ambições. Não havia lugar para um pedaço de conhecimento que não pertencesse às páginas amarelecidas. Preferia as rotinas. Os olhos de sempre eram a âncora pretendida pelos curadores das verdades imutáveis. E se vivalma houvesse a atiçar as teimosias sobre as quais repousa a densa poeira, era merecedor de um olhar fulminante e de um raspanete. As escotilhas não se podiam estilhaçar por acção das dúvidas de um punhado de gente que só tinha dúvidas.
Proclamava, pondo a mão no peito, “nem que a vaca tussa”, quando cáfilas andantes ciciando a sua cicuta desembainhavam as máscaras do insondável. Não interessava perceber a linhagem daquelas ideias. Só de as saber nos antípodas das consagradas infalibilidades cultivadas com primor era razão de sobra para lançar os seus mastins. Enervava-se quando os diabretes insistiam nas profecias insolentes que passavam de raspão, arranhando os cromados que alindavam os perenes atributos das inteirezas insofismáveis.
Um dia, foi como se o mundo tivesse acordado do avesso. Os parafusos dos preconceitos mandaram perguntar pela ossatura das exactidões. À volta, só as pedras frias da praça estranhamente vazia (para aquela hora da manhã). Um beleguim donairoso com farpela anacrónica e impecável chapéu do coco despontou do banco do jardim com a loquacidade a que se habituara:
- Não dês corda à tentação. Olha que os diabretes das mentiras apoderam-se de ti se decaíres num momento de fragilidade. Não cedas. Tu tens a linhagem dos escolhidos.
Não era virgem nestas advertências. Das vezes anteriores, quando um singelo arrebatamento apenas ameaçara um desvio da linha cervical, a admoestação sobrara para afugentar os fantasmas que ousaram levitar sobre si. Agora era diferente. Andara dias a fio espartilhado em dois hemisférios que eram o oposto um do outro. Eram de uma simetria matemática – o que mais fermentava o alçapão onde os dilemas pernoitavam. Obrigava-se a repetir (em voz alta quando estava sozinho; ecoando pensamentos quando estava rodeado de gente): “nem que a vaca tussa”. Podia ser que a frase mantivesse os poderes mágicos. Era habitual ter predicados que desanuviavam os olhos da presença dos amaldiçoados malandretes.
Agora tudo se ensaiava na sua diferença. As vozes que pressagiavam o lado obscuro eram entoações mudas, os lábios em amplos movimentos que davam a entender uma vozearia desatada. Os ouvidos, herméticos à gritaria. E os sacerdotes dos hábitos passavam diante dos olhos como se fossem forasteiros (e bem os conhecia de ginjeira). Depois de meia dúzia de dias com a cabeça feita em água, depois de ter esticado as resistências todas à metamorfose, sucumbiu. Já não dizia “nem que a vaca tussa”.
E mal se abriram as portadas que sempre estiveram lacradas, o vento fresco que penteava o rosto era um cicatrizante das feridas que nunca notara. Não era capitulação. Era um promontório de onde avistava a largura da tela.

6.5.11

Como se explica a morte de um terrorista às criancinhas?


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Os maus afocinham no fim da história. Porque a maldade não pode triunfar. Os homens bons não perdem a esperança e montam operações que acabam com a derrota do mal, deposto diante da personificação do bem. A justiça pode demorar, mas num belo dia a maldade deixa de emprestar a sua tez macilenta aos dias que assim deixam de ser tristonhos.
Os maus de todo o mundo deviam aprender a lição. Que não se metam com os todo-poderosos com um arsenal inigualável e sofisticada tecnologia que não deixa ninguém às escuras por todo o sempre. Que não massacrem inocentes com a sua hipocrisia. As bombas que detonam sem olhar às vidas que arrastam consigo são a maior vergonha que é dado a uma criatura humana. E ai deles que tenham no cadastro um numeroso rol de vítimas, um populoso cemitério nas pontas dos dedos ensanguentados, que logo ficam no ponto de mira da implacável justiça que a civilização move contra a barbárie.
Quando os malandrins são apanhados no covil, ou são abatidos ou são trazidos à justiça para depois serem abatidos. O temível Bin Laden fez malfeitorias deploráveis. Destroçou tantas vidas que só eram culpadas por terem nascido (ou por estarem) na terra que ele e os fanáticos que o seguiam marcou como território blasfemo. Os bons da fita, arautos da civilização, deram-lhe caça. Vivo ou morto. Se fossem arautos de uma civilização que se gabasse de o ser, os caçadores cunhavam “vivo, de preferência”. Para o trazer a tribunal, que nestas terras que se reclamam epicentros da civilização é dado aos tribunais curar da administração da justiça. Mas foram os falcões que voaram mais alto. A divisa era “de preferência, morto”.
E assim foi. Tardou, esta – por muitos reclamada – justiça poética. O diabrete foi descoberto no seu covil. Os registos oficiais (que, por terem o cunho de quem montou a caça, deixam no ar dúvidas de veracidade) rezam que o terrorista não se entregou. Ripostou às balas dos caçadores. Sitiado, morreu deposto perante a superioridade do bem. O que as criancinhas precisam de saber não são estes pormenores sórdidos. Nem sequer precisam de receber nos braços um legado de incerteza e de insegurança, que esta decapitação do pior dos maus não ceifou a cabeça da hidra que espalha, com indiscriminada malvadez, um terror cego.
O que as criancinhas precisam de saber é que nas terras ungidas pela civilização há gente de mais (e muita com responsabilidade política) que proclamou, em frenesim, que a justiça tinha sido feita. Afinal, esta civilização é um patranha. Ela joga as mesmas cartadas dos inimigos que ainda estão nas trevas. O que distingue uma morte perpetrada pelo terror hipócrita, de um contentamento quase geral pela morte na ponta da baioneta do mandante desse terror? Nos bancos da escola, onde as criancinhas travam conhecimento com o conhecimento formatado que convém, dirão que há uma diferença que capacita: as maldades dos perversos são caóticas, deslegitimadas; mas as maldades dos bons, porque são praticadas pelos bons, aparecem embebidas numa aura de rectidão. Como pode uma morte sem a caução de quem foi inventado para assegurar a justiça (os tribunais – só para recordar) representar a justiça?
O que é feito da justiça? Às tantas, regressámos ao “olho por olho, dente por dente”. Talião no século XXI. Em plena “civilização” com tiques de barbárie.

5.5.11

Como derrotar uma neura


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Uma neura daquelas, opaca, que nos deixa misantropos. Quando se atiram olhares faiscantes sobre toda a alma que se cruze no caminho. Daqueles estados de espírito que, de tão tristonhos, atraem mais do mesmo mal. Como se fosse uma espiral indestrutível. Imersos na irrazoável fervura dos sentidos, a desconfiança de que o mundo inteiro conspira contra nós.
Essas neuras carecem de travão. Ou o corpo entrega-se a um desvario ainda mais perigoso – o de se deitar num divã de psicanalista. (Juízo sem experiência própria, a não ser por interpostas pessoas que padecem destas maleitas e que, depois de se levantarem do divã, exibem patologia ainda mais refinada.) O receituário vem de dentro. Das veias que escaparam à aspereza alcalina. Não tem serventia o estertor das veias cauterizadas pelo solimão espalhado.
Os segredos são cultivados pela interior higiene pessoal. É na força interior que se encontra o sal que enxota os maus presságios que sobejam para os dias futuros. É como se a cabeça tivesse canais onde mentalmente pudéssemos mexer. Com pinças, somos cirurgiões das entranhas por onde se movem os arquétipos da irritação. Usa-se um maçarico para domar os neurónios intumescidos, os que se entregaram às sombras que acabrunham um dia inteiro.
Como auxiliares, como se fossem alavancas de uma disposição diferente, os olhos andam como se fossem radares a que nada escapa. Há filtros que decantam as excrescências abundantes que, se alguma utilidade teriam, era a de arrastar a prostração. Podem ser as ondas do mar, a espuma na crista da onda, as árvores que esvoaçam lambidas pela brisa vespertina, os carros eléctricos que emprestam um ar sedutor e anacrónico à modernidade em redor, uma criança debitando ledice enquanto desce o escorrega, um cão vadio a lambuzar-se nas sobras deixadas a um canto do lixo, o louco em correrias desenfreadas enquanto cantarola melodias ininteligíveis. E anedotas inteligentes. Os olhos, os belos olhos, de uma rapariga que vinha do lado contrário. O velhinho trôpego a saciar-se no fontanário público enquanto, às escondidas, os galfarros preparam as mortalhas onde um chocolate diferente terá leito. Ou o tracejado esbranquiçado que um avião deixa atrás de si ao sulcar os céus enquanto mergulha no Atlântico, convencido que esse destino não seria lugar melhor para aparcar a existência. Podem os olhos revirar-se no passado, nas inúteis mas por vezes balsâmicas recordações. Ou deitarem-se numa peripécia que especula o futuro, esquadrinhando oráculos de onde saia um Aladino na adivinhação do porvir. E pode tudo alcançar-se na singeleza das palavras de um poema. Ou apenas nas palavras ditas ao ombro de um amigo próximo. Ou através de uma insólita confabulação com uma desconhecida operadora de caixa de supermercado, desatada por ela ao exibir uns laivos de salacidade no olhar atirado de soslaio.
De repente, é como se um céu ocupado por nuvens densas se começasse a desembaraçar das adjacências que poluíam o horizonte. Depois de pestanejarem, os olhos descobriam que tudo era radioso. E nem lembrança da neura sobejava. Nem atrás do horizonte.

4.5.11

A uma filha

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(Em jeito de carta aberta)
Que importa se sou acordado quando há pesadelos nocturnos que interrompem o teu sono a meio da noite? Não tem mal que o meu sono fique prostrado. Só por saber que os teus temores levam a abraçar-me, amarrotando a minha cabeça na almofada, e todas as compensações se levantam ao alto. Não, não me interrompes o sono. A tua chegada é um bálsamo que embarga um sono tumultuoso. Assim que o teu corpo habita a minha cama e sinto os teus braços firmes à volta do pescoço, é como se o mais pujante dos calmantes se apoderasse de mim. O sono que vem depois é uma quimera.
Este sentimento filial é um pedaço de céu. Às vezes, quando uma insónia coalha o sono, espreito na luz embaciada do teu quarto (aquela luz que afugenta os fantasmas que alisam os pesadelos) só para contemplar a expressão serena vertida do teu rosto. Os lábios suavemente cerrados, que às vezes decaem em esgares, são a pauta onde se compõem os teus misteriosos sonhos. Só de saber que entro nesses sonhos fico repleto.
Demoro o tempo que for necessário ao pé da tua cama. Demoro-me a olhar o teu rosto, um imenso mar de serenidade onde apetece repousar. Pego na mão que deixaste fora dos lençóis. A mão fria estremece quando nela repouso a minha. E depois estremeço eu quanto a tua mão aperta a minha com a suavidade da tua existência. E ali fico, ajoelhado diante da cama, enquanto as insónias irrompem pela noite dentro. E nem os joelhos que já gritam em dores dissolvem o amplexo de sensações indizíveis que navegam, em arrebatamento, pelas veias.
É toda uma ternura singular, este sentimento filial. Já que há um dia do pai e outro da mãe, só uma injustiça do tamanho do mundo perdoa a ausência de um dia do filho. Não é que mudasse muito na perene homenagem que um pai dedica à sua filha. Era mais pelo simbolismo. Era como se nesse dia houvesse uma bebedeira de carinho deposta na filha. Esse dia haveria de calhar sempre à semana. Para não haver escola e o pai ser dispensado do trabalho só para passar um dia inteiro a amimar a filha. O dia em que todas as vontades da filha eram satisfeitas. O dia da mais sublime das homenagens que são merecidas todos os dias pela filha. Um dia, aliás como todos os outros, em que o pai se despoja em entrega.
Há este encantamento que se funde com um orgulho, o maior orgulho que desfralda a proeza singular de uma existência. Um remoinho de afectos onde nada se esgota, onde a cada dia que te vejo crescer se agiganta um amor ímpar. E mesmo naqueles dias em que a rispidez se enquista nos raspanetes que caem em cima de ti, são raspanetes preenchidos por um carinho único. Repara bem: por que me haveria de entregar à indisposição de uma descompostura se ela não viesse pelo teu bem?
Olho para ti e sacio a minha existência. Deixa-me dizê-lo com todo o oportunismo: és o resgate de uma solidão. 

3.5.11

Muitas camas


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Levava uma vida confundida com uma narrativa de promiscuidade.
(A atestar pelos cânones conservadores – e ele tinha que observar os cânones, por mais que os desprezasse: era o seu meio, tresandava a conservadorismo de sacristia. Ai de quem se desviasse dos preceitos da moral cristã. Era escorraçado para os meios residuais, onde vegetam os dissolutos e os que nem sequer conhecem deus.)
Ao início, quando começou a visitar a vida tresloucada, tentou a discrição. Queria uma vida paralela, obscura, a lascívia a fermentar por todos os poros. A timidez de outrora, caução das miragens de que padecera, revezada pela voragem dos acontecimentos. Uma espiral imparável. De tanto se atravessar na frente de tantas mulheres, a discrição fora denunciada. Amigos, alguma família até, ficaram de queixo caído quando travaram conhecimento com as proezas. Ainda esboçou justificativas. Por mais que, meio a medo, esbracejasse o celibato irremissível, os próceres do conservadorismo de sacristia não se demoviam. Não lhe perdoavam ter destruído meia dúzia de lares.
Trintão, não se comovia com convocatórias de alguns familiares e amigos mais pacientes. Acenavam-lhe com as virtudes da família. Ele tinha que arranjar alguém, alguém que fosse, para “constituir família”. Um amigo mais chegado confessara alguns desvarios pré-matrimoniais. Levou-lhe, como uma pedagogia, a sua experiência pessoal: “o casamento doma os instintos”, disse. Deixara-se daqueles delírios. Com a autoridade de um argumento moralista (o amigo estava convencido), rematou a conversa: “verás que já nem tens idade para saltar de cama em cama”.
Era disso que se tratava. Havia dias seguidos que não metia a chave na porta de casa. Não que houvesse mister de namorada estável; eram noites seguidas a pernoitar em camas diferentes. Em companhia diferente. Às vezes, a meio da manhã, a cabeça teimava uma inclinação a acompanhar as leis da física (por causa de noites claras e das alvoradas precoces) e nem se lembrava da companhia da véspera. E tanto os frontispícios da moral cristã o renegavam ao saberem da profusão de conquistas, como ele acelerava a colecção. Era um duplo prazer. O carnal, acima de tudo. E o da contradição, colidindo contra as vetustas vozes que defendiam a honra dos bons costumes.
Tinha um estatuto – como dizer? – sublime. Junto do sexo feminino, não havia quem o quisesse agrilhoar ao tempo futuro. As histórias corriam céleres. Houve quem o tentasse fazer. Nunca mais se deitaram na mesma cama dele. Como a fama corria, deixava os prazeres irem atrás da fama. Uma roda dentada que se tornara colossal. Das muitas camas visitadas não retinhaa, as mais das vezes, senão remotas lembranças.
Havia dias em que se prometia recolhimento. Não que se deixasse enamorar pelos encantos da família formada, com uma roda de descendentes e visitas frequentes à família da consorte. Guardava em si um anátema qualquer, para o qual não encontrava expiação. Talvez fossem as sobras da educação cristã (de que se divorciara). Ficava inquieto com os remorsos que o assaltavam quando caía no rescaldo do êxtase. Todavia, continuava sem saber (nem conseguir) resistir aos encantos do sexo oposto. E a persistir na visitação de muitas camas. Umas atrás das outras. Assoberbado pelos remorsos indomáveis, soerguia-se um castrador pecado. Sem causa que afivelasse a existência de um pecado.
(E logo ele que, tão senhor das certezas, proclamava a carência do pecado.)

2.5.11

Os jarretas


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Há algo de enternecedor quando quatro senadores que passaram pela presidência da república aparecem como carpideiras. Como se adejassem sobre os malandros da classe política que descomandaram o estado da república de que se acham tutores. Dois deles estiveram tempo de mais à frente de governos. Como podem dizer que o caos de agora se deve à inépcia dos mais tardios? Como pode o anterior inquilino teimar naquela pose de superioridade moral, receitando soluções que todos devíamos ter a notável capacidade de perceber e que só ele, ó invejável mente brilhante, conseguiu diagnosticar?
Houve um que puxou lustro à seguinte sentença: se estamos nesta profunda crise, tanto que até foi preciso convidar uma trupe de estrangeiros para pôr em ordem os desarranjos domésticos, é sinal de que todos somos culpados. Quis este senador garantir que tão culpados são os que tomaram o leme nas mãos como os que foram transportados pelos capitães tresloucados. Era o que mais faltava. Se não houver por ali umas entrelinhas a meter um segundo sentido em jeito de provocação (e se eu tivesse tido o leme nas mãos nos últimos quinze anos tinha ficado com as orelhas a arder ou muito indignado com o ex-presidente), uma perplexidade esvoaça em jeito de (indignada) interrogação: eu, que nunca votei nos partidos Dupont & Dupont, os tais a que os politólogos chamam do “arco da governação”, como posso ser convidado a assumir o meu quinhão de responsabilidade pelo desnorte actual?
O general que soltou este raciocínio só podia estar a provocar. Quero acreditar que denunciava os que têm conseguido desmentir a profecia de que já batemos no fundo do poço. Podia lá o general que entretanto ganhou uma grisalha barba rala se dirigir àquela minoria que nunca (ou poucas vezes) escolheu os tais “partidos do arco do governo”. Tenho a impressão que o general que não sabe rir estava a dar um tremendo raspanete à imensa maioria que costuma votar naqueles partidos. Ou seja: um ex-presidente endereçou um convite público à sublevação das gentes contra os partidos que por sistema dominam o sistema. E não é que depois da perplexidade que isto me causou, até assino por baixo as palavras do general?
Pode ser do meu mau feitio, mas incomodam-me estes anacoretas que se elevam a um Olimpo de onde arrotam lições de moralidade escoradas num estatuto de superioridade. Parece que não aprendemos nada com os trambolhões da idiossincrasia. O respeito pelas veneráveis personagens colocadas no tal Olimpo de onde sopram as suas pérolas de sabedoria é afim ao respeito que a antiguidade exige. Não nos esqueçamos, a antiguidade é um posto.
Dizem muitos, aqueles que surgem com um ar de gravidade, que o momento complicado exige união. E agora que os de fora estão a passar a xafarica a pente fino, as divergências são uma heresia. Vai daí fez-se um ajuntamento de presidentes da república. Ai de quem se escamugir ao “consenso” que os senadores tanto prezam. Quem o fizer afronta o labéu de “antipatriota” para baixo. Pois se todos os presidentes da democracia pensam da mesma maneira, quem pode ousar a dissidência...

29.4.11

Dia de S. Casamento


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Caminho pela rua enquanto o sol primaveril resfolega temperatura estival. Ao cimo da rua, a passo de caracol, desce um carro velho, a pintura desbotada pelas muitas horas de sol e correspondente falta de garagem. Transporta um casal de velhinhos (diria septuagenários) que gesticulam com abundância. Como o estio antecipado convidava às janelas desembaraçadas para receberem o frescor, notei que os velhinhos iam numa refrega acalorada. Deu para entender o chorrilho de impropérios que ela disparava, ao que ele ripostava com vozearia e esbracejar que perigava a segurança da condução.
Hoje o mundo amanhece com uma excitação colectiva por o herdeiro da coroa britânica esposar uma plebeia. Gostava de compreender o que leva tanta boa gente a deitar os olhos a um casamento que não seja o próprio. Descontando as fantasias febris de umas adolescentes com rosto embebido em acne e as fantasias inofensivas de trintonas, quarentonas e cinquentonas que parecem resgatar os tempos áureos de matrimónios exauridos, ainda estou à espera que me expliquem a algazarra que por aí vai. Ou pondo a interrogação em tom menos coloquial: qual é o contributo desta boda real para o avanço do mundo?
Que os súbditos da coroa britânica (os que ainda ajuramentam fidelidade canina à monarquia) andem extasiados com a boda, é coisa natural. Que os de fora percam minutos e horas e dias inteiros a desenovelar os detalhes mais ínfimos da festança, é algo que transcende o meu entendimento. Qual é a serventia desta boda? As dondocas militantes – as solteironas que não conseguem soltar âncora do celibato e as tias vaporosas que se entretêm com bodas luminescentes dos outros para compensar as decepções do matrimónio próprio – entram numa torre de marfim que é um mundo repleto de ilusões.
Dizem-me que as quatro televisões generalistas vão transmitir a boda. Não há alternativa para os comuns dos mortais sem televisão por cabo. É casamento real, ou casamento real. Ou televisão apagada. Lá pelo meio da função, quando todas e todos estiverem no auge do encantamento com as imagens que fazem lembrar fadas que distribuem regalias pelas desaventuradas, talvez haja muitas cabeças na lua. Muitas cabeças a sonharem acordadas. Não estou a insinuar que os sonhos sejam coisa ruim. Mas tanto sonho em uníssono é falta de imaginação.
As monarquias, essa coisa arcaica, mostram serviço de actualização à contemporaneidade. Dantes, os príncipes e as princesas só podiam casar entre si. Era uma coutada fechada à ralé. Agora as monarquias desembestaram a poeira dos sótãos mentais e admitem que os seus percam aquela apetência para o quase incesto e troquem fluidos com gente plebeia. O povo encanta-se com o modernismo. As regalias sanguíneas (como é sabido, a nobreza distingue-se por trazer nas veias sangue azulado) já não servem para excluir. Os mais jovens membros das realezas também querem experimentar as delícias plebeias. É a inflação das fantasias de muita gente enamorada pela tremenda abertura mental das realezas. As monarquias também se democratizam!
Um salto em frente no tempo, até a um dia daqui a quarenta anos. Só para um mirone, testemunha de uma desavença conjugal entre o casal do momento, vir do futuro até ao dia presente para narrar o episódio. Descontando a grosseria do casal de velhinhos que discutia com fúria dentro do velhinho Renault 5, haverá outras diferenças?

28.4.11

As criancinhas têm que saber as entrelinhas


In http://www.sepleu.pt/images/literatura-infantil1.jpg
Um livro infantil. Os protagonistas: quatro personagens que retratam diferentes formas de imundície. Fogem a sete pés do asseio. Os quatro protagonistas não são – não se pense – os maus da fita. São mercenários da rebeldia, os dois olhos sempre atentos às brigadas que vasculham todos os lugares na repressão da sujidade que semeia doenças e espalha a desagradável anti-estética.
Travei conhecimento com o livro numa recensão na Rádio Universitária do Minho. Por desatenção inicial, não fixei o nome do autor e do título da obra (e as mãos ocupadas no volante não deixaram registar os dados do livro numa mnemónica). Nem memorizei os nomes infantilizados dos arremedos de porquidão que eram os heróis da historieta. Fiquei a saber – porque o especialista em literatura que desfolhava a recensão o ensinou – que os petizes depressa vão entender que a mensagem está no oposto do que se supõe ao reter a literalidade do livro. As criancinhas, tão lúcidas quanto a maturidade já admite, vão ler a narrativa e depressa tiram as conclusões como deve ser. É tudo no seu contrário: os maus da fita é que vêm coroados com a sacra aura e os bonzinhos são diabretes da sujidade que os pequenos leitores combatem no quotidiano.
Agora há, no género da literatura infantil, histórias que encerram segundos sentidos. Pior: que cogitam uma “lição de moral” (que as histórias infantis adoram pregar “lições de moral”) nos antípodas das revelações da narrativa. Compete aos pequenos leitores perceberem que a história não é para ser seguida à letra. Admita-se que os petizes nascem com especiais dons, desconhecidos das gerações anteriores. Admita-se a sua proficiência – vá lá – pela informática, a destreza com que mexem em computadores e consolas de jogo e afins. Daí a fazer de cada criancinha uma sobredotada vai uma diferença abismal. Se os petizes ainda estão no tirocínio da leitura, como são capazes de descobrir as entrelinhas do texto?
Dirão que é para isso que serve a leitura acompanhada. Os pais, avós, ou irmãos e primos mais velhos estão ao lado de uma criancinha quando ela se aventura em leitura infantil elaborada. As leituras orientadas têm essa serventia: o narrador não se limita a reproduzir as palavras escritas no livro; é o condutor da narração, com as exclamações devidamente enfatizadas, pausas que expliquem o que merece contextualização, um intervalo quando aparecem palavras dispendiosas que só na cabeça dos autores de literatura infantil são vocabulário comum dos leitores de tenra idade.
Desconfio que muitas vezes nem com leituras acompanhadas a coisa lá vai. Há tanta iliteracia funcional por aí, tantos doutores e engenheiros incapazes de tirar o sentido de um texto, que até os que se prestam a serem guias de leitura em histórias infantis mergulham em tristes figuras. O mal é que, convencidos da lhaneza da história e que o seu sentido só pode ser o que se subtrai da literalidade da narrativa, nem dão conta das tristes figuras por que passam.
Assim como assim, nota-se (agora que a Primavera trouxe as primeiras temperaturas com sabor a Verão) que a higiene pessoal não é predicado farto, sobretudo quando frequentamos locais apinhados de gente. Como pode o especialista em literatura abonar que até os progenitores dos petizes sabem aclarar a mensagem daquela narrativa sobre hábitos de higiene? Às duas por três, teríamos muitos adultos (em pose de guias de leitura) a ensinarem às criancinhas que aquela historieta destrói o mito urbano da higiene e da salubridade. 

27.4.11

Com punhos de renda, a boçalidade


In http://barbaranonato.files.wordpress.com/2011/02/garcon1.jpg
(Para ser lido com a entoação que Mário Viegas emprestava às declamações de poemas)
Naquele fim de tarde, um pipi emproado aterrou na mesa do lado. O nariz virado ao alto, as golas da camisa em pose negligente, já sem a gravata vistosa que anelara aquelas golas, a farpela toda ela donairosa. Até trazia botões de punho na camisa de cerimónia. Amesendou. Em estando o estaminé a meia casa, o distinto exemplar de uma elevada casta incomodou-se com a demora no serviço. “Homessa!” – pensou com os seus doirados pergaminhos – “estou aqui sentado há quase dois minutos e nenhum empregado se dignou perguntar pelo serviço que queria encomendar”.
Contrariado, uns sopros de azia soltando-se entrementes, o pipi garboso estendeu a mão ao alto e com um gesto intempestivo chamou o imediatamente acabrunhado garçon enquanto os olhos percorriam os passos de uma loura vaporosa que passeava uma negra e curta minissaia. Interpelado pelo empregado de mesa, o pipi dos punhos de renda disfarçou indiferença. O rapaz ficou inerte, sem esboçar uma reacção, não fosse atraiçoar o segundo mandamento das relações públicas da casa (“não incomodarás o cliente”). O distinto homem de meia idade disparou com voz seca, sem olhar para o servente: “traz-me um fino e tremoços”.
A mãezinha ensinara que os tratos de polé de uma educação refinada, que exigem a expressão “por favor” quando se pede um favor a alguém, só têm serventia quando são destinados a gente da mesma igualha. Os de condição inferior, como decerto o são os que servem à mesa, não merecem tamanha regalia. Os serventuários foram feitos para trazerem os pedidos dos clientes à cozinha e regressarem com as encomendas na sua diligência.
Não passaram três minutos e a personagem toda empertigada, enquanto lambuzava os dedos depois de enfiar no bucho os primeiros tremoços, chamou o empregado de mesa com distinta arrogância. Outro gesto autoritário, a mão farsante a arquear o humilde servente até à mesa. Outra vez a voz afirmativa em tom despótico: “estes tremoços estão insossos. Traz-me sal.” Nem o terceiro fino demoveu a pesporrência. E o empregado de mesa afundando-se na pequenez a que era acantonado pela nobreza resplandecente do ilustre de alpaca.
No fim da função, ergueu a mão com o desdém rotineiro e requisitar a conta. Antes de pegar no dinheiro, inspeccionou a factura com minúcia – como se uma malga de tremoços e três finos equivocassem as contas. Como tinha que terminar a tarde incomodando alguém que estivesse na base da pirâmide da religiosa hierarquia social que tanto prezava, esperou que o rapaz viesse recolher o dinheiro – o dinheiro bem contado, sem um cêntimo para amostra de gorjeta. Só para o altaneiro representante de uma superior casta deixar a derradeira impressão digital, enxovalhando o pobre rapaz que já não sabia onde se meter de cada vez que era chamado à aziaga mesa. Os nós dos impacientes dedos batiam na mesa enquanto o rapaz arrastava, a medo, os sapatos. Para ouvir estas palavras troarem da boca encolerizada da donairosa personagem:
- Diz ao patrão que os tremoços têm que ser salgados. E a cerveja que me serviste estava choca e tépida. Diz ao patrão: que o estabelecimento já teve os seus melhores dias.
No dia seguinte, sensivelmente à mesma hora, lá compareceu o idiota da superior casta para afogar as angústias de um dia de trabalho enfadonho. E as angústias da sua vidinha, da miserável vidinha que levava.

26.4.11

O cadastro do ADN canino através da merda expelida


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Um naco de escatologia. Canina. Numa localidade do País Basco (Hernani), os donos de cães apanhados em contravenção – os que se esquecerem dos dejectos dos animais na rua – serão identificados, perseguidos e multados. As proezas da nova engenharia social são imparáveis. O que se segue é uma forma romanceada de narrar o episódio.
Um crânio terá sussurrado aos ouvidos da autarca que os cagalhões de cão espalhados pela rua são um terrível desconforto público. O poder alvitrou uma campanha de educação dos proprietários de cães. Que não terá corrido bem. Um belo dia soalheiro da autarca foi perturbado por uma momentânea distracção que fez a senhora colocar o dispendioso sapato em cima de um dejecto canino, deformando-o. Em saltando raios e coriscos da enfurecida senhora, a decisão tomada ali mesmo: a educação dos donos dos cães não tinha sido conseguida com profusamente ilustradas campanhas e pontos de recolha de sacos de plástico para subtrair a merda canina ao chão público. A educação requeria meios estrepitosos. A ordenança foi esboçada em duas penadas a caminho do automóvel, enquanto um zeloso lacaio escorria a mistela viscosa e acastanhada do delicado sapato da poderosa senhora.
Esta sequência inventou uma leva de empregos. Decerto bem remunerados, tendo em conta a especialidade da função e a relevância social da tarefa – quem alguma vez já pisou em cheio um pedaço de bosta canina sabe do incómodo.
Foram abertos concursos públicos para habilitar a ordenança. A começar (na base da pirâmide) por agentes apenas incumbidos de passarem a pente fino as ruas da cidade à cata de dejectos esquecidos numa visita higiénica do cãozinho. Munidos de armamento especial (sacos de plástico higienizados, uma pá de precisão e vestuário protector incluindo máscara contra as inalações indevidas), estes agentes recolhem os cocós deixados ao deus-dará por donos esquecidos ou distraídos (ou desconhecedores da implacável ordenança).
Nas instalações da autarquia, uma ala reservada para o tratamento científico dos restos bolçados pelos intestinos caninos. Uma brigada de especialistas (analistas clínicos com conhecimentos de zootécnica) deita na lente do microscópio um vestígio laminado do dejecto trazido pela brigada de recolectores. Vão em demanda do ADN correspondente. Três passos atrás no calendário: nos primeiros seis meses da vigência da ordenança, os donos de todos os cães foram intimados a levar os animais para cadastramento. Amostras de sangue recolhidas para sequenciação do ADN. A ordenança mandava que todos os cães nascidos entretanto fossem ao cadastramento na primeira vacina. Estava feita a base de dados ADN dos cães da edilidade. É contra esse cadastro que os dejectos caninos são comparados. A identificação dos prevaricadores (os donos, que os animais têm que soltar as excrescências algures, à falta da invenção de sanitários específicos) é imediata.
A última fase deste CSI canino decorre noutro gabinete. Jovens advogados contratados apenas para a contravenção da merda canina instruem os processos que desaguam em multas que enchem os cofres da autarquia. Foram treinados para uma abordagem agressiva em tribunal, caso os teimosos donos enxovalhados pelo CSI canino recorram da multa.
Como é idílica a nova engenharia social! Que educa à força os boçais que ainda não perceberam que as sobras intestinais dos cãezinhos de estimação não devem emporcalhar as ruas da cidade. Só é pena que, com o tempo, a educação forçada mostre resultados. À mingua de cagalhões caninos espalhados pelas ruas, toda aquela brigada de especialistas começa a ser perfumada pela inutilidade. 

25.4.11

Tréguas


In http://2.bp.blogspot.com/_odKiK-j3dQQ/SwqgpkknSBI/AAAAAAAAACk/eUVQXMzvaMw/s1600/RAIVA.jpg
As inquietações que ferviam as palpitações ao rubro tinham um freio à medida. Já não sobejavam os sobressaltos em coreografias selvagens com punhais a adejarem. Já não havia o tempo tomado pelas angústias assolapadas que desviavam os sentidos para desvarios inconsequentes. Era como se uma tempestade medonha dissolvesse as nuvens plúmbeas num céu luminoso.
As mortificações, inúteis como são todas as mortificações, tinham o seu próprio ocaso. E se todos os lugares pareciam salas frias onde se compunham paredes estéreis, os dias curvavam a aridez que povoava os pensamentos. As paredes ganhavam uma espessura colorida, as tonalidades irrompendo com a timidez esperada. Deixavam de ser lugares gélidos onde não pareciam medrar os sentimentos sem serventia. Lá por dentro, um intenso processo depurativo. Tudo se decantava após a longa digressão pela aridez atormentada. Às voltas com os fundilhos do ser, como se a escassez de forças buscasse na profundidade mais remota uma réstia, uma réstia que fosse, para reacender uma chama.
E a candeia sobressaiu. Vingou a chama que a certa altura parecia apenas uma longínqua promessa. Os olhos despertaram para a beleza das coisas, para a exiguidade das palavras que contudo soçobravam diante da grandeza de quem as proferia. Os olhos, diletantes, partiam incessantemente em demanda do desconhecido. Não é que o vocabulário dos prazeres fosse reaprendido, os prazeres de outrora remetidos a uma remota lembrança que deixara de importar. Não: a esses juntavam-se outros tantos, outros mais, numa vertigem imparável. Era como se cada dia dobrado contasse por três dias de uma era anterior.
Todos os detalhes continham a preciosidade do ouro. O voo de um pássaro que arremetia contra a nortada furiosa. Os meninos a cirandarem à volta do areal, descompondo as areias alisadas pelo vento agreste. Ou um castiço estrangeiro na mesa ao lado, chapéu e botas de cowboy, uma camisa florida e um colar de flores a fazer lembrar o hula hula havaiano, enquanto degustava cada gole do enregelado vinho branco e falava sonoramente em inglês americanado ao telemóvel. Ao longe, como miniaturas mar adentro, a miudagem desafiava o sol que se ausentara e a água habitualmente própria para refrescar garrafas de vinho branco. A gente profusa na avenida junto ao mar, irradiando alegria pela primavera que depôs a vagarosa invernia. E os olhos que se demoram nas observações do tudo em redor, enquanto ao longe nuvens carrancudas, pressagiando trovoada, espreitavam o descerro de nova tempestade.
Os contornos dos dias passaram a ser embelezados pelas cores que emprestavam a sua radiosa feição. A depuração anunciava-se completa. E nem a trovoada que se acercava parecia desatar os nós dos sobressaltos que teimavam em errar (emudecidos todavia) pelo córtex. Os temores pareciam entregues no rescaldo da história. Que demência podia refulgir outra vez se havia panos novos, alvos panos novos, preparados para receber um aluvião de cores garridas deposto pela sucessão dos dias inteiros?
Os dias não se perdiam nas demoras em ininteligíveis vigílias interiores. Os dias presentes (os que contam) sabiam que essas demoras estavam fadadas à sorte bastarda. 

22.4.11

O pudor e os palavrões


In http://osdiasdopisco.files.wordpress.com/2010/10/palavr1.png
Li, já não sei onde, que uns cientistas descobriram que proclamar palavrões solta a tensão acumulada. É uma terapêutica. E uma cilada: se não estamos tensos, por que proferimos turpilóquios?
Ao reler a notícia, lembrei-me do último filme que vi no cinema (Tropa de elite 2), um filme brasileiro que retrata a luta contra o narcotráfico nas favelas do Rio de Janeiro. Não se passa um minuto sem que um dos actores não dispare um palavrão dos feios. Vem isto a propósito dos tratos de polé que a língua merece do lado de cá do oceano. Como é por demais sabido – porque o ouvimos na rua e em certos meios mais reservados onde se pratica a desenvoltura do calão – os palavrões são correntes. Todavia, não passam para as artes com a mesma frequência que me foi dado a ver naquele filme brasileiro (e noutros de que fui espectador). Serão os bons costumes a falar mais alto? Ou apenas um pudor entaramelado em hipocrisia? É que reservamos a linguagem de caserna para certos meios, para as circunstâncias adequadas. Quando envergamos traje de gala coramos de vergonha se escutamos vernáculo de tasca.
A literatura sempre teve menos pudor. Há páginas a eito carregadas de calão, personagens – ora populares, ora das elites – que não se ensaiam para debitar o vocabulário indecoroso. Mas no trato pessoal, manda a educação que a linguagem não escorregue para o chinelo. Deve ser outro trauma das sotainas que habitaram tempo de mais na educação dos petizes, quando havia aquela confusão entre igreja e educação oficial (que ainda a há, por sinal – e em escolas públicas).
Se a comparação se fizesse com outras línguas, os exemplos de que me recordo (em inglês, francês, espanhol e italiano) atiram-nos para as catacumbas do puritanismo. Tive aulas em Inglaterra em que os professores escorregavam com facilidade para o “fuck” ou para o “shit”. E ninguém corava, nenhum de nós ficava boquiaberto a olhar para o lado. Talvez o problema seja nosso, que nos duplos standards que aplicámos à língua (à que se fala na coloquialidade que a circunstância exige e à que se liberta de freios num ambiente descontraído) nos prendamos ao sentido literal do calão. Em solenidades, ou quando o recato o impõe, palavras proibidas. Senão solta-se o estigma da calúnia.
Ai de quem mande f***r outrem, que é tido como ofensa que desqualifica. O que só será o caso das frígidas ou dos que se incomodam com a prática do acto sugerido pelo palavrão em causa. Mas se estivéssemos a toda a hora a captar o sentido literal da linguagem obscena, coitadas das mães dos árbitros de futebol – as maiores meretrizes de que haveria conhecimento, pelo menos na boca dos monos embebidos na excitação desportiva que abusam da verborreia calaceira. Não sei se algum sociólogo, ou antropólogo, ou mesmo filólogo, alguma vez estudou a correlação entre palavrões e sexo. É desprestigiante para o sexo que o calão que apouca alguém remeta para uma certa dimensão violenta, ou pelo menos ofensiva, do sexo. Talvez isto tudo explique porque lidamos tão mal com as palavras malditas que cozinham a linguagem grosseira que envergonha os bem-educados (e denuncia os que o não são).
Mas agora que a minha mãe é internauta, tenho que ter cuidado com a linguagem. Não se dê o caso de ser deserdado.

21.4.11

E se a esquerda fracturante abraçasse uma causa da direita conservadora? (Repto às feministas assanhadas)


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Mais polémica fabricada na Hungria: o partido do governo quer distribuir dois votos pelas mulheres que já passaram pelas aflições da maternidade. A direita conservadora explica ao que vai: é preciso precaver as gerações futuras, as que penam os efeitos (financeiros) das decisões das gerações actuais. Sendo menores de idade e sem suficiente educação política (nem lucidez), é-lhes vedada a voz nas mesas de votos. Problema resolvido: pronunciam-se as mamãs pelos petizes.
A notícia manda dizer que a ideia não é insólita. Em 1986, um demógrafo norte-americano (Paul Demeny) assumiu a paternidade da ideia. Anos mais tarde, ela foi atirada para a discussão pública na Alemanha, mas acabou por abortar. E nós, educados no preceito herdado da revolução francesa (uma pessoa, um voto), esmagados por este abalo telúrico que redesenha os fundamentos da teoria política democrática. As progenitoras embolsam dois votos por o terem sido. Falando, através do voto, por si e pela prole.
Confesso uma curiosidade, direi, mórbida: que alguém auscultasse feministas assanhadas. As senhoras, sempre muito vanguardistas, têm por hábito residir na extrema-esquerda fracturante. Que diriam se lhes dissessem que os conservadores húngaros (que elas, em duas penadas, alcunhariam “extrema-direita”) propõem que as mulheres que são mães tenham mais votos que o sexo masculino? Era o nirvana para as feministas exaltadas. O sonho há tanto ambicionado.
Adorava vê-las em conciliábulo com a execranda (para elas) direita conservadora húngara, festejando o apogeu da discriminação positiva. Tilintando os cálices, o champanhe borbulhando à medida que se desfraldavam os sorrisos faustosos nelas e neles (e nelas, as da direita). Só que os motivos da empanturrada celebração diferiam para os parceiros. Desde direita conservadora, um odor a beatice dos valores da família (como se fosse imperativo fabricarmos muitos meninos para evitar a invasão dos bárbaros que repõem o equilíbrio demográfico). O argumento da justiça entre gerações encerra um mérito. As que não tem voz pelo voto são desprezadas pela demência dos governos que se atiram para a frente e agigantam os desequilíbrios das contas públicas. Mas duvido que as gerações silenciadas sejam protegidas dando mais votos às mamãs.
Primeiro, pode dar-se o caso de os infantes que teriam voz através do voto da progenitora não se reverem, assim que ganhassem lucidez política, nas opções da mãe. Depositar na mãe a confiança e as escolhas dela e dos filhos pode ser uma medida grosseira de justiça intergeracional. Segundo, se a ideia se espalhasse pelos quatro cantos onde há eleições periódicas, adivinhava-se uma corrida desenfreada à maternidade sobretudo pelas mulheres mais politizadas. E, talvez a surpresa maior, algumas feministas de rolo da massa na mão apressar-se-iam a fazer filhos só para cumprirem a quimera de dois votos na ponta da sua baioneta (perdão, caneta). Terceiro, esta medida é um embuste: por que não distribuir tantos votos quantas as vezes que as mulheres singraram na maternidade? E quarto: às malvas os homens, que também deram o seu contributo para as gestações. Teriam um singelo voto, sem se poderem opor às mães dos seus filhos caso elas teimassem em votar em alguém que não coincidisse com a opção do quinhão masculino da parelha.
Tudo isto deve ser em homenagem à sacrossanta discriminação positiva. E as feministas de papo cheio. Imagino, contudo, os tumultos fermentados pelo lobby LGBT. Não se pode contentar toda a gente. O mais delicioso seria ver as feministas assanhadas aplaudirem com entusiasmo uma medida de um governo da direita conservadora. Uma pérola de fina ironia.

20.4.11

Radicalismo


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Os despojos tomaram conta do soalho. Caóticos, eram o mostruário dos escombros que já não tinham serventia. As lágrimas podiam ser o enxovalho das ilusões. As lágrimas, as vertidas e em esboço, embaciavam a curvatura dos olhos por onde se decanta a lucidez.
Era o pano de fundo para a devastação que se predizia. Há alturas em que a coragem dos sentidos não pode embotar. Nem capitular diante das mãos trémulas que requestam o refúgio das decisões. Das que se impõem quando já nenhum relógio aceita os adiamentos que perfumam a hipocrisia. Podem doer. Podem revolver tudo desde as entranhas à epiderme, em forma de monstruoso vendaval que tudo descompõe. Mas são uma necessidade sem adiamento.
Jogavam-se as palmas das mãos contra as paredes frias. As paredes onde soçobraram os últimos vestígios do que quer que fosse. As paredes pareciam feitas de um viscoso material, as mãos fundindo-se nelas, marejando os devaneios repletos de inutilidade. Nas paredes frias, dantes incolores, recresciam as gotas de sangue derramadas pelas cicatrizes que voltaram a mostrar o carmim da carne viva. Havia mãos desencontradas, olhares que não se emproavam em uníssono, cores desgarradas a trinarem as melodias desacertadas. Já não era água, nem a pureza de um ar embolsado num unânime arquejar. Já não era nada. Era a agonia de tudo.
Diante dos nadas, ou nos mantemos respeitosamente cabisbaixos na negação de nós mesmos, um esboço de gente, apenas. Ou levita-se a grandeza de fitar o horizonte com a cor dos olhos que em nós anda, sem temor quando o pano do cenário for levantado e desvelar o palco inteiro. A constância dos elementos fertiliza a monotonia onde se dilui o sal da presença. Às dissimulações, o papel de perfunctória sepultura onde todas as frivolidades decaem. Ser refém da solidez que era um embuste, era a traição ao amplexo de sensações amotinadas em asfixiante remoinho. Seria uma traição interior. Uma indesculpável traição.
Quanto mais os dentes rangiam a raiva interior pela admissão do estrépito, mais se levantavam fantasmas que aliciavam a quietude. Numa convulsão tempestuosa, as ondas erguiam-se na ferocidade dos adamastores que ufanavam a barba hirsuta que não ocultava a tremenda ira fervente. O sangue em ebulição caldeava a combustão das veias, quase em ponto de incineração. E a cabeça no limiar de uma implosão, a cabeça que não cerceava o seu latejante pensar, desembainhou as arestas de uma resolução.
Pecaminosos diabretes adejavam nos arredores do pensamento, esbracejando os milhares de arrependimentos que podiam sobejar. A sangue frio, só podia ser a sangue frio. As palavras entoadas em toda a sua violência. Porventura implacáveis, mas imperativas. As palavras que ciciavam a carência das ausências interiores. O que se insinuava por diante eram ruínas, a imagem perfeita da decadência. Os pecaminosos diabretes jazendo, um após o outro, na putrefacção que se juntava aos escombros empoeirados. Derrotados pela frugalidade dos ímpios sentidos que não se comprazem com as muitas léguas de distância até se sentir o odor, por longínquo que seja, da plenitude.
Há quem lhe chame radicalismo. Outros, porventura mais assisados, usam lente diferente e emparelham outro atributo: destemor. E lucidez. 

19.4.11

Éramos dementes?

In http://mjfs.files.wordpress.com/2007/09/pav-rosa-mota.jpg
Nas irrupções da adolescência, quando a rebeldia latejava o seu musgo por dentro das veias, era como se enlouquecêssemos. Queríamos provar a destreza, ou a bravura, que com frequência se confundiam com temeridade  sem medida. Os passos eram dados sem olhar à bitola da perna. O sangue fervente que vinha à cabeça comandava os furores de cada momento.
Lembro que uma noite não nos apeteceu pagar o preço simbólico da entrada no Palácio de Cristal. Íamos aos matraquilhos, aos flippers, aos carrinhos de choque e terminávamos a função com o cachorro acompanhado por umas cervejas que bebíamos com sofreguidão. Nessa noite, quisera um de nós experimentar a entrada pela porta do cavalo, o lado oposto da entrada por onde iam ao recinto as pessoas de bem. Naquela noite, julgáramos que não éramos pessoas de bem. A rebeldia em apoteose era a barreira, a artificial barreira, que se impunha. Um de nós sugeriu que entrássemos com manha, trepando a íngreme escarpa que divide a Rua da Restauração do recinto amuralhado do Palácio.
E nós, que nada sabíamos de alpinismo, metemos as mãos entre os pedregulhos acintosos e o musgo traiçoeiro escondido entre os recantos do muro de pedra tão íngreme. Naquela altura, a iluminação pública era de uma timidez tal que quem passasse na rua não notava o bando de pelintras fazendo o caminho até à ilegal entrada no Palácio. Havia alturas em que parecia que tínhamos que recuar. O passo que se seguia até à próxima reentrância das rochas era maior que o corpo adolescente que trazíamos. Esticávamos o corpo, mas as mãos eram pequenas para a próxima reentrância. A batida em retirada não era alternativa. Haveria o orgulho imprudente de ficar ferido. O mais que não fosse, um dilema acelerava as palpitações: retroceder era mais árduo que a parte da ascensão que faltava.
Estudávamos as hipóteses. Um de nós, que seguia mais atrás, deu três passos laterais e descobriu outro sendeiro que ia mais a direito pela parede de pedra que se empinava de modo temerário. Às vezes assustávamo-nos com as pedras que se desprendiam quando as mãos beijavam solo sem firmeza. Os que estavam em baixo levavam com os calhaus que iam aos solavancos pela ribanceira.
Quando chegámos ao topo e, um a um, subimos o degrau sobrante até saciarmos o gosto da ilegal entrada no Palácio, olhámos para baixo. Por fim, um a um, a coragem de desviar os olhos para o que vinha atrás de nós. Nunca passou pela ideia se um passo fosse em falso e o corpo, e os corpos dos que viessem atrás, fossem aos trambolhões pela escarpa abaixo. Ninguém, na pose triunfante da adolescência garbosa, teceu as entrelinhas do colapso. Depois da contemplação ufana do feito, um de nós atirou em jeito de desafio: “isto deu mais pica que atravessar a pé o arco da Ponte da Arrábida”.
Agora que é presente, quando passo e olho de esguelha para o precipício que assaltámos, sou acometido por um arrepio que atravessa as costas de um lado ao outro. Um arrepio acompanhado de uma interrogação: como foi possível? Podia deixar vociferar a sensatez toda. Podia renegar a proeza. Um dia destes, parei o carro diante da escarpa que acolheu uma aventura. E, depois de afastar os panos negros da sensatez toda, intuí: tinha sido proeza.

18.4.11

Os Estados Unidos da Europa, um mito


In http://fotos.sapo.pt/hk8Vz6bkmUHuKdBs3bGK/340x255
Não sei se este texto transpira derrotismo. Ou apenas a resignação que se depõe diante da realidade dilacerante. Este texto podia ser um hino a um idealismo. Uma partitura cheia de arabescos, as claves enfeitadas por uma quimera de europeísmo de vanguarda. Todavia, a utopia esbarra nas histórias que lacram a sua impossibilidade.
A Europa já leva quase sessenta anos. Cresceu. No número de países que quiseram abraçar a experiência e no projecto, à medida de pequenos passos, até dezassete países partilharem a mesma moeda. Os especialistas divergem acerca da natureza da Europa. Ficou famosa a metáfora do elefante e do cego para descrever o impasse em que caíram. Só sabem que é um corpo enorme e inamovível; desprovidos de visão, não são capazes de lhe tirar as medidas, não podendo saber qual é a natureza do animal.
Esta Europa que já leva quase sessenta anos ainda não cresceu ao ponto de, nos momentos críticos, trazer à superfície valores e interesses comuns que se  sobreponham aos egoísmos dos países? Se a Europa for uma Europa das nações, os interesses nacionais sobrepujam um suposto interesse europeu. Mas se a Europa for mais que o somatório dos países talvez faça sentido procurar um devir europeu, genuinamente europeu, e que os interesses do todo se sobreponham aos interesses nacionais.
Os acontecimentos recentes – a reacção à crise económica que se transformou em crise da dívida pública dos pobretanas – ensinam que na hora do acerto de contas os países é que se fazem ouvir. O interesse europeu é letra morta. Sucumbe perante egoísmos nacionais. E não se diga, como é costume, que cede diante dos interesses de “certos países” – tomando por junto os que conduzem a Europa, os mais poderosos. Os apaixonados do europeísmo apressaram-se a lançar a ira sobre a Alemanha. Argumentam: não soube estar à altura da dimensão europeia que não casa com os (ausentes) pergaminhos europeístas da respectiva liderança. Mas afinal, os pequenos também podem fazer mossa. Na semana passada, fez alarido a possibilidade de a Finlândia (depois das eleições de ontem) não pagar o seu quinhão no resgate de Portugal.
Compreendo as críticas dos europeístas apaixonados. Admito que, no plano das ideias (quando as pinceladas da realidade são ofuscadas por lampejos de teoria), também sou um apaixonado pelo europeísmo. O passado repleto de sangue derramado em guerras estultas é a caução deste idealismo. Todavia, é esse passado que, admito, impede que o idealismo se funda com a realidade. À falta de líderes nacionais com visão europeia descomprometida, a imensa nau que é a Europa continuará a ter um rumo errante, ao sabor dos jogos de interesses dos países. Continuarão a mandar os que podem (e quem paga).
A complicação do momento podia ser a oportunidade para um passo em frente, para os Estados Unidos da Europa? Só no papel. No tabuleiro de xadrez apenas se têm jogado os interesses dos países que contam (e de outros que, em fugazes episódios, esticam a cabeça). Não é que um oráculo destape as tonalidades do porvir, mas com a paleta de cores que vemos diante dos olhos sobressai uma Europa vetusta: a Europa em que sobrepesam os egoísmos dos países.
É a Europa que temos. Não é a Europa que quadra com o tempo dos idealismos. Eis a revelação maior destes tempos excruciantes: o idealismo europeu não consegue medrar.