24.3.15

O fim das impossibilidades

In http://jpn.up.pt/wp-content/uploads/2015/03/O-Fim-das-Possibilidades-©TUNA_TNSJ-3.jpg
Não pode impedir-me de dizer uma coisa. Até no escuro eu posso gritá-la: DANTES NA PAISAGEM HAVIA SUBIDAS E DESCIDAS. AGORA SÓ HÁ DESCIDAS. COMO É QUE EXPLICA ISTO?”, in “O fim das possibilidades”, de Jean-Pierre Sarrazac, Teatro Nacional de S. João.
1.
A peça de teatro é longa. Pretende ser um retrato das ilusões que deixaram de pertencer às pessoas, às pessoas comuns, o imenso exército a quem os tempos modernos entregaram uma orfandade. A palavra “crise” foi pronunciada várias vezes, sem pudor. Não se podia afirmar que era uma ficção do real; era uma crítica estruturada do real. O que exige uma hermenêutica da peça (número 3) e uma hermenêutica do real (número 4), com o devido registo subjetivo de que ambos os exercícios são credores.
2.
“O fim das possibilidades” é mais que uma simples metáfora do real. É uma crítica ao quadro pungente que deslaça o cimento da sociedade, mercê da insensibilidade de quem cinzela a substância da sociedade. Consta que deus se aliou aos poderosos (a determinar a seguir) com o propósito de desapossar o numeroso exército de descamisados, o povo cujos sonhos vêm capitulando perante promessas de bem-estar que não passam de ardis. Deus transige com os turvos interesses que rasgam as ilusões que democraticamente deviam pertencer à gente comum. Aos tutores do grande capital e da alta finança é que interessa a anemia dos novos descamisados.
Sarrazac, numa interpretação que roça o auge do pessimismo antropológico, exibe ateísmo e rejeita certas teorias progressistas que são o esteio de uma aliança entre o catolicismo e os direitos dos trabalhadores (como os mais fracos a quem a igreja deve valer). Deus, na abordagem de Sarrazac, fecha os olhos à alienação dos povos. Permite que “O adversário”, figura porventura com laivos satânicos, seja o mestre de obras da nova escravização dos abandonados, numa improvável aliança entre deus e o diabo.
“O adversário” tanto pode ser um diabo transfigurado como a personificação do tremendo mal que reacende a luta de classes e funciona como novo balão de oxigénio de um marxismo que se julgava de fogo fátuo. “O adversário” pode ser apenas uma figura que tutela os interesses dos capitalistas, sendo dito ao espetador que aos capitalistas interessa a fragilização dos trabalhadores, o seu empobrecimento e, por arrastamento, o estado de necessidade que os coloca no umbral da miséria humana. Pessoas assim, remetidas a uma homogénea condição que aplaca a subjetividade que é a riqueza da condição humana, são o requisito para os mais ricos se aproveitarem delas e terem um imenso exército de mão de obra disponível para o que quer que seja, ao salário que os capitalistas quiserem pagar, com a degradação das condições sociais que os trabalhadores têm de aprender a aceitar.
“O adversário”, insidioso, convence as pessoas a irem pelo caminho que é uma longa descida. Ilude-as, aproveitando-se da desesperança que delas se apoderou, do cansaço com o tempo presente, da chama evaporada das ilusões que eram impressão digital de um modelo que respeitava os direitos dos mais carenciados e procurava dotá-los de amparo. Eram as paisagens outrora postais ilustrados das serranias, como as serranias soem ser – uma sucessão de ladeiras que ora levam os viandantes a subir à cumeada, ora os transportam por descidas até aos vales. “O adversário” arregimenta as almas fragilizadas e vai, uma após a outra, ensinando o caminho descendente até à aridez de onde já não conseguem fuga.
Não é tão fácil a tarefa de “O adversário”. Algures a meio dos trabalhos com caução divina, esbarra num personagem impenitente, alguém que soçobrou a um niilismo irremediável e se escondeu na miragem da bebida. Apoquentado, o personagem ameaça com o enforcamento para a resolução de todos os seus males. Para aflição de “O adversário”, que vê nesse resultado o esconjurar da sua missão: nem uma alma se podia desaproveitar para o purgatório de que as convencia a serem habitantes.
Simbolicamente, “O enforcado” é a âncora da resistência da redução a um nada. Antes o seu niilismo que um niilismo catastrófico ditado pela pena de outrem, de um juiz malsão que o queria destinar ao mesmo anonimato da demais turba. “O enforcado” assume um inesperado protagonismo. O personagem vicioso e caído num interminável ladário de fraquezas é, num ápice, o bedel da resistência ao apoucamento. Faz as vezes dos resistentes, dos que não se reveem no plúmbeo real mas que também não ajuramentam diante da implacável resignação. No fim da dialética entre “O adversário” e “O enforcado”, a ilusão final, a ilusão fatal: “O adversário” concebe um ardiloso cenário com “O enforcado” e a consorte, mais o amigo emigrado de África e a namorada, em jovial momento de descontração com uns tiques de consumismo burguês à mistura. Mas não passa de uma ilusão.
A “O enforcado” e amigos foi destinado um calabouço que não era como o indiferente estado vegetativo em que se consumiam os demais. Era um logro, todavia, aquele cenário luminoso em que os quatro se embebiam numa burguesa condição. Era o preço que pagavam pelo seu silêncio. Nisso, não se distinguiam da plebe restante, gente destinada à sofreguidão da iniquidade. Deslumbrados com o turbilhão burguês, nem davam conta de como tinham capitulado ao fim das possibilidades. Triunfavam os mais fortes.
3.
“O fim das possibilidades” tem verosimilhança com uma metáfora do real. A palavra “crise” aparece na narrativa várias vezes. À crise imputa-se a degradação da vida da gente comum, a profusão da miséria, um caminho ciclópico que não augura um porvir decente aos que estão, à partida, no limiar da desgraça. O espetador é confrontado com um retrato pungente do real que nos acomete. É um murro no estômago, convocando militâncias, furando a insensibilidade de algumas consciências, metendo fundo um punhal nos que teimam na letargia e não admitem que o real é um retrato que envergonha a espécie.
Não está em causa a crítica vulgar, entre os setores mais à direita, de que a arte (as artes) está dominada por artistas em concubinato com uma esquerda qualquer. Não interessa a vulgata da militância ideológica de algumas manifestações artísticas. Se a direita – as direitas – não consegue afirmação cultural, o mal não é das esquerdas, certamente. À direita não importa denunciar a militância dessas manifestações artísticas. Fazê-lo, será a prova de um mau perder e será escorregar para uma maleita que frequentemente invade setores mais radicais à esquerda e de que não desaproveitam a oportunidade para denunciar: a intolerância às ideias que partem de um lado da barricada em que se não revejam.
Felizmente temos as artes como expressão maior das dissidências. Temo-las como uma janela que obriga a pensar, a interrogar as ideias feitas, a jogar com os dogmas instituídos, a jogarmo-nos numa hecatombe do possuído, se preciso for. “O fim das possibilidades” tem este mérito. Como possível metáfora do real (asserção questionada a seguir), é um desafio a quem se não revê na retórica do empobrecimento causal. Não se pode ficar indiferente ao retrato do real, por mais que nele se anote uma fotografia desproporcionada e exagerada dos limites que se emprestam ao real. Mas “O fim das possibilidades” pode ser revertido contra quem, através de narrativas deste teor, se ufana de imperativos categóricos e apostrofa, numa condenação sumária, o real destituído de sensibilidade social, um real que nos desumaniza mercê da indistinguibilidade em que somos oferecidos no altar dos interesses dos poderosos.
A melhor descrição de “O fim das possibilidades” não é uma metáfora do real. Esta peça de teatro é uma metonímia. Uma descrição do real que aprece contaminada pela crise, e que se embebe nas suas consequências como recurso discursivo que sublinha o estado deplorável a que chegou a humanidade, funde as duas palavras (teatro e crise) no mesmo conceito operativo. Não se julgue que há negação da realidade ao propor a hipótese da metonímia da peça. O analista atento percebe o que se passa ao seu redor. É capaz de tomar consciência da perturbação que a crise trouxe à vida de milhões de pessoas, independentemente dos lugares onde vivem. Onde pode haver divergência é na escala da observação. Ou de como o recurso à metonímia não é um mero exercício de estilo dramatúrgico, antes um pronunciamento (logo, ideológico) sobre os contornos do real. O que mais conta é a superioridade da liberdade expressiva.
O que fica por entender é se a hermenêutica da dramaturgia quadra com a hermenêutica do real. Olhares diferentes veem por diferentes lentes. As sensibilidades afivelam-se por diferentes espessuras, pelos papeis que julgam imperativos aos atores que são jogados para dentro do palco. Em “O fim das possibilidades”, contracenam em números desiguais na exata proporção inversa do poder com que são entronizados no seu microcosmos. Sobrelevam os novos descamisados, o numeroso exército condenado a um vegetativo sobreviver, por imposição dos interesses mais poderosos afirmados por todos aqueles que jogam o seu enorme poder na balança dos poderes. São mais os condenados a uma irrisória existência, ou à mera sobrevivência de resignação; em número superior, aninham-se diante da canhestra corrupção perpetrada pelos poderosos que, com o beneplácito de deus, têm em “O adversário” o seu arquiteto. Não é por acaso que esta personagem traz o nome de “O adversário”. A adversidade a que condena os desvalidos salpica-lhe a fronte, sem que perca a vergonha ou seja torturado por dores da consciência que, possivelmente, não possui.
4.
“O fim das possibilidades” não nos oferece o lado oculto da lua. Ficamos sem saber se há um projeto que edifique um modo diferente de problematizar as relações sociais e que soluções teriam aptidão para reconfigurar o cosmos. Ficamos apenas a saber que nos abeiramos do limiar do fim das possibilidades e não soubemos meter travões à deriva. Uma casta de privilegiados, feita da cumplicidade entre ricos e poderosos, não quis reconhecer a doença nem tão pouco mostrou vontade para esboçar uma terapia (uma impossibilidade, atendendo à falta de predisposição para admitir a doença). Quando demos conta, já tínhamos caído no precipício. Onde ficamos reféns do fim das possibilidades. Sobrou a desilusão que nem sabe a desilusão, tão anestesiados estamos assim que somos empurrados para a fraudulenta gratificação da descida irremediável.
Talvez não tenha sido intenção de Sarrazac mostrar uma contrapartida. A peça é, já foi dito, longa no mero diagnóstico do fim das possibilidades. Não consigo, porém, resistir a perguntar que atalhos seriam impostos para restaurar uma decência que, a julgar pelo tom apocalíptico da peça, parece miragem semelhante a qualquer virgindade cindida. Porventura Sarrazac – e agora entro no registo interrogativo que mete à mistura um naco de adivinhação – proporia o exílio dos ricos, para assim os poderosos se emanciparem do freio que constantemente lhes metem na ação e na inação.
Em “O fim das possibilidades” discerne-se esta generalização: os ricos não se aproveitam, nem um, pois querem reduzir a uma expressão mínima os que deles dependem para produzir riqueza. Querem que os pobres sejam mais pobres. Ignaros como são, nem percebem que o empobrecimento causal e a anemia a que são atiradas as gentes é o fermento de uma revolta que pode consumir os ricos pelas entranhas. É genética a propensão para o abuso e a opressão, com a ajuda providencial do avanço da tecnologia que serve para desvalorizar ainda mais dramaticamente quem depende do trabalho que oferece. Aqui, o verbo não é despiciendo: tanta é a destruição das possibilidades que outrora foram prometidas aos desfavorecidos, que hoje só lhes resta quase oferecem a sua força braçal, tamanho o estado de necessidade em que foram postos. O remédio pode ser o exílio dos ricos, a consequente apropriação da sua riqueza e sua socialização, em nome do bem comum. À falta de consciência pela miséria dos outros, legítimo recurso final é o degredo com extração forçosa da abastança acumulada.
Ou, porventura ainda, o autor proporia uma imperativa lobotomia das consciências dos poderosos. Se o mal é a ausente sensibilidade dos ricos, que se contamina aos poderosos porque os poderosos bebem do mesmo cálice, as forças contínuas alimentadas pelo numeroso exército que é uma maioria em silêncio dever-se-iam sublevar e tomar comando do poder e das armas. Sob pena de exílio, ou em instância final de recurso, operar-se-iam lobotomias que iriam por dentro das consciências dos poderosos só para as tornar sensíveis ao torpor dos miseráveis. Só para os educar a serem matéria generosa ao serviço da correção das iniquidades, porque toda a gente que se preze de ser decente sabe que as desigualdades não são suportáveis. Novos panfletários viriam cerzir as bainhas de uma nova moralidade. Imperativa e sem direito a dissidências, estas liminarmente condenadas a pena maior. E a degredo, também.
Nessa altura, reeducados os ricos e os poderosos (por esta ordem), este seria um lugar mais justo. Voltaríamos a falar do ilimite das possibilidades. E toda a gente teria direito a voltar a sonhar. Pois a ladeira vertiginosa para onde foram empurradas, a descida íngreme e impossível de recuar, tinha sido uma indecente castração dos sonhos legítimos das pessoas vulneráveis. Cerces os sonhos, já não contavam as possibilidades no tabuleiro dos jogos. Reeducados os ricos e os poderosos; mas em todos os lugares, para não permitir que os ricos encomendassem a sua fortuna a lugares outros que passassem incólumes à revolucionária renovação das possibilidades. Os ricos saberiam que noventa por cento, pelo menos, da fortuna gerada com o contributo da força braçal teria de reverter a favor dos mais pobres através da redistribuição imperativa. Todos ganhavam com a vontade de redistribuição. E o palco seria mais respirável.
Talvez os desprovidos de direitos estejam anestesiados pela inércia, ou numa hibernação propositadamente inoculada pelos poderosos para não serem agentes perturbadores da ordem estabelecida. Só assim se compreende que uma imensa maioria de miseráveis se tribalize na inação, que não se subleve sem propósitos vingativos para repor as possibilidades que lhes foram castradas. As artes devem estar ao serviço desta renovada luta de classes. Sem se importarem com os exageros retóricos nem com as generalizações inapropriadas que tomam todos os ricos pela mesma má cepa – como se o património genético fosse todo indiferenciado, como se também não houvesse bons e maus trabalhadores. Só falta a sensibilidade da gente comum para a educação através das artes. É o grande porém do plano salvífico.
5.
A língua porosa tem inconvenientes. A metonímia da crise em roupagem de peça de teatro pode não estar ao alcance de qualquer alma de espírito aberto. Não era má ideia que houvesse uma ramificação artística de sinal contrário. Que viesse explicar que nem sempre o pessimismo antropológico colhe, e que uma observação cuidada, com adequados meios de diagnóstico, decantaria as leituras que mais parecem catarses que mobilizam militâncias contra uma coisa qualquer.
Em “O fim das possibilidades” extrai-se a leitura que nunca a humanidade terá descido tão baixo, ou, para se não ser tão radical na hermenêutica da peça de teatro, que este é um dos momentos mais deploráveis da história da humanidade. Tudo se conjuga para jogar os desprotegidos contra a sordidez das feras, estas como que possuídas por uma avareza e legitimadas por um egoísmo atroz que abre uma fenda profunda entre os have e os have-not. E, porém, poucos fazem uma digressão pelo bem-estar (e não, não se conta apenas o bem-estar material) entre o agora e diferentes outroras à escolha dos céticos que se desiludiram com as cores do presente e já não confiam no porvir. Como parece não contar a endogeneização do ser, a sua mutabilidade diante dos tempos que mudam e das circunstâncias que não ficam estacionadas no tempo. Como se o ser fosse apenas um ser reativo ao ambiente que o cerca, sem capacidade adaptativa, sem livre arbítrio. Parece não contar a complexidade do ser, a sua demanda crescente por exigências que dantes nem eram sonhadas, e como isso adestra um abismo entre as possibilidades e a espessura do real.
O que mais custa é que se desestimem as impossibilidades. Pois são elas o motor genuíno que nos fazem avançar como espécie. Há no pessimismo antropológico de “O fim das possibilidades”, elevado a um expoente máximo em que até deus perdeu a noção da justiça e se aliou aos ricos e aos poderosos, um ultraje ao potencial de mudança que se enquista nas impossibilidades. Nas impossibilidades que hoje o são, mas que passam para o domínio das possibilidades mercê da destreza dos homens. Há um olhar que não pode capitular aos traços sombrios que emprestam paisagem ao real contemporâneo. Outra vez: não é negação do real, que está tão apoderado por manifestações de invulgar desorgulho na humanidade.
Mas, insisto, talvez a questão mais importante é saber o que é feito do limite das impossibilidades.

23.3.15

O nome do diabo


Gorillaz, “Stylo”, in https://www.youtube.com/watch?v=nhPaWIeULKk
O povo, tão temente de deus, às vezes atropelava o catecismo. Era quando dizia, em jeito de aforismo popular, “o diabo está nos detalhes”. Profundo desconhecedor da sua própria ignorância (mas quem admite que é apedeuta?), o povo tinha episódicos, mas todavia regulares, momentos de desenraizamento religioso e partia em demanda do demónio. Percebia-se. Se o povo era temente de deus, tudo faria para não ser apoquentado pelo mafarrico. O erro estava na medida da análise: o povo devia ser adorador do seu deus, mas tudo o que conseguia era ser-lhe temente. O medo era o critério da existência.
Em desengano dos populares misticismos, o diabo não estava nos detalhes. Estava em todo o lado. Só lhe faltava saber, numa intolerável dúvida metódica que fazia estremecer os dogmas sagrados das escrituras, se o bom deus também não estava possuído pelo demo. Ele havia tanta maldade, tanta inveja, tanta avareza, tanta rudeza no trato, tanta insensibilidade pelos inditosos seres, que só a contaminação de tudo pelos tentaculares braços do demónio podia ser explicação. Não podia ser da natureza dos homens, que era estruturalmente boa. Teria de haver entidade exterior a perturbar a harmonia das coisas. Um ser contrário ao bom deus que, de tão poderoso, deus não conseguia domar. O diabo.
Os varões iam em peregrinação, monte acima, até ao pequeno santuário que encimava a cumeada. Iam sempre em dia de intempérie, não fosse aparecer o diabo e assustá-los com a carantonha medonha. O mau tempo tinha esse valimento: ofuscava os rostos em redor. A subida era difícil. Os homens chegavam exaustos ao apogeu da peregrinação. Entoavam preces à volta do santuário. Pediam ajuda divina: que viesse um clarão do céu, irrompendo entre a morrinha dominante, cintilando o nome do diabo no telhado do santuário. Destarte, podiam os varões contar a boa nova a toda a gente: “escutai com atenção, boa gente da aldeia, o nome do diabo é...” De todas as vezes, desciam ao casario sem novas diferentes das de outrora. Deus não enviava o sinal esperado.
O tempo fez a sua passagem e alguns varões perderam ânimo. Não viam resultados da peregrinação. A tradição só pela tradição não chegava para arrastar os cansados ossos pela ladeira acima. A crença foi-se esbatendo. Alguns chegavam a perguntar se deus não tinha sido dominado pelo diabo, tamanha a improficuidade da tarefa. Ou se o diabo, afinal, tinha muitos nomes. Tantos, que não cabiam nas páginas do almanaque de deus.

20.3.15

Da decadência

Hanni El Khatib, “Moonlight”, in https://www.youtube.com/watch?v=dn8Gu0St7zs
Hoje há eclipse do sol. O sol, durante duas horas, entra em temporária decadência. A lua intromete-se e rouba um pedaço ao sol. Ao menos é que vemos daqui, com os pés pousados na terra. Um corpo pequeno (quatrocentas vezes mais pequeno) consegue povoar temporária decadência no majestoso sol. Os eclipses são uma lição sobre a decadência.
Às vezes, julgamos, imersos no húmus da pessoal miséria, que entrámos em decadência, ou que a decadência nos consome hipotecando a vontade que deixa de ser nossa. Quando os ventos sopram um ar agreste, julgamos que a decadência é uma estrada sem saída. As mais das vezes, contudo, a decadência é um bastião que passa. E só não é todas as vezes porque o envelhecimento leva-nos pela mão ao irrecusável decair das forças e das possibilidades. Há quem se amedronte com a irrecusável ruína que vem com o entorpecimento do corpo e do pensamento. Preferem a morte de um golpe só, sem pré-aviso, sem caucionar a decadência por vezes lenta, que a senescência se consome na indignidade. Das outras vezes, a decadência é a prazo. Pode demorar, pode ser fugaz – mas é a prazo. E depende da perspetiva que tomamos.
É como considerar que a lua que invade o espaço do sol e fermenta um eclipse causou a decadência do sol e um entardecer a destempo. O sol é quatrocentas vezes maior. A lua não tem força para estropiar a estatura solar. É tudo uma questão de perspetiva, da lente pela qual se toma o eclipse (ou o fermento da decadência): um eclipse só é eclipse porque estamos na posição de espetadores, com os pés assentes na terra. É uma ilusão de ótica. Fôssemos momentâneos astronautas em missão espacial e do espaço não seríamos espetadores de eclipse algum.
Há um segredo para banir os laivos de decadência que venham sussurrar ao pescoço: sonhar que somos astronautas. Irmos à lua, num desprendimento tamanho que os pés levitem na atmosfera. Pairando sobre os sobressaltos que possam instruir um qualquer farol de decadência. Pois a única decadência que importa, é aquela que não tem remédio. As outras, são um lagar que não oferta vinho que se veja. A decadência depende da vontade que esvoaça por dentro de quem é convidado a entregar-se à decadência.

19.3.15

Da fraqueza


Korn, “Creep”, in https://www.youtube.com/watch?v=hyu_-vOHgOk
Que interessa que digam que dos fracos não reza a história? São palavras vãs no meio de pregões que querem deixar a peugada a ser seguida pelos homens que se prezem. Mas há os outros, os que capitulam no baraço das suas fraquezas, os homens imprestáveis. Homens que choram. Homens que mordem a boca toda para levitarem as forças que, pelo que se vê, não têm dentro deles. Homens madraços, talvez, que não sabem expiar as fragilidades em que se consomem. Homens em adiamento. Talvez, apenas, projetos de homens. Ou homens em destruição. Não se lhes creditam dons. Deviam erguer uma fortaleza por dentro. Porfiam. A certa altura, as fraquezas tomam conta do palco. A fortaleza vacila. Os esteios tremem, como se estivessem a ser postos à prova por um terramoto. É quando a lucidez se encomenda à ausência. E quando sobressaltos e fantasmas se apoderam de uma falsa lucidez. Há um caos interior que ajuda a descompor as coisas todas. O corpo enfraquece e o pensamento toma as cores baças de uma manhã brumosa. Tudo assoma confuso, uma teia densa que pinta as coisas de uma complexidade tremenda. As fraquezas não são forças. As fraquezas corroem as veias, enchem-nas com um ácido terrível. A fraqueza é uma condição também ela terrível. Pois os fracos anotam a fraqueza que se aloja nas entranhas e sentem que são por ela tomados, num processo doloroso, numa deriva suicida. Pode ser que os fracos não sobrem para as molduras da história. Pode ser que os fracos sejam peões num jogo maior e se atemorizem por poderem ser sacrificados no tabuleiro onde o jogo decorre. Aos fracos só se conhece uma fortaleza: admitem as fraquezas e admitem que não as conseguem converter em forças. A dignidade não chega para a conversão. Sobram os prantos interiores pela incapacidade de virar as fraquezas do avesso. E as fraquezas, impenitentes, que teimam em sê-lo.