20.11.07

Quem inventou o ódio?


Há tortura de cada vez que vejo derramado ódio, visceral ou não. Ódio em estado puro que destila a violência, ou a exclusão, às vezes a morte sem significado – como sempre a morte é destituída de significado. Outras vezes sinto a suprema ignomínia do ódio, quando é excitado apenas pelo lúdico prazer.

Ainda aprisionado às correntes do pessimismo antropológico, por ver que a história da humanidade é um longo cortejo de ódios que acentuam o lado negativo das gentes. A contemplação autodestrutiva: é que o ódio pelo outro é uma exibição perene de autofagia. Quem derrama todo o ódio não percebe como vem ao de cima uma repugnante essência. Não me consigo convencer do contrário: quem odeia é odioso. Possuído de vapores malignos que incendeiam a mente em pavorosos cenários, à mistura com delirantes teorias da conspiração que mostram um tormento interior.

Há laivos de ódio em manifestações que ainda não atingiram esse patamar. A vingança, por exemplo. A urgência de não deixar sem resposta actos que ferem alguém. De preferência com uma reacção ainda mais requintada, ou não houvesse o reino dos lugares-comuns convencionado a vingança que se serve fria. Como se fosse um punhal que penetra o dorso enregelado, logo tomando o corpo com uma dor lancinante que, num instante, passa do frio gélido a uma quentura insuportável. Como insuportável é a vingança, um rasteiro sentimento que amesquinha e derrota os vingativos que ficam reduzidos a uma pequenez nem simbólica. A muita vingança praticada é o terreno semeado para que vingue um ódio interminável.

O pior é que a vingança é sacralizada. Em mensagens subliminares. Fazem-na, a rodos, os governantes. Livros e filmes e peças de teatro que são manuais da arte de bem praticar a vingança. Até episódios que parecem insignificantes, como um anúncio publicitário que, a coberto dos encómios a um certo produto, vangloria a vingança. O pior é o convite à entronização destes sedimentos frívolos, como se fossem um necessário código de conduta para a convivência em sociedade. Diria, mais do que para a convivência, para a sobrevivência. Quem quiser escapar aos tentáculos da vingança, como pretexto para não cair no insidioso ódio que tortura a carne, tomba no alçapão da ingenuidade. São as vítimas preferidas dos que trepam escada acima sem olhar a quem calcam.

A metafísica encerra a sua contradição. Como pode um deus, um deus qualquer, ser complacente com o ódio? Como convive um deus, um qualquer deus, com as malfeitorias de que é testemunha, a cada minuto que passa, impotente para as liquidar? Na sua putativa grandeza, o arquitecto da natureza dos Homens é incapaz de os domar, de impedir que resvalem pelo cano do esgoto onde se perde a sua dignidade. E não apenas a dignidade dos humanos, mas a sapiência do deus maior que sucumbe às mãos da maldade que incendeia o ódio dos Homens. O ódio é apenas uma distracção divina? Ou a prova da sua ausência.

Dizia atrás que a História dos Homens está repleta de um cortejo de ódios, numa trajectória autodestrutiva. Os que discordem do cepticismo militante dirão que mais valiosas são as provas de edificação, tudo o que foi construído pela espécie humana. Que é esse lastro que se sobrepõe aos incessantes actos de indignidade perfumada pelo ódio nutrido pelos Homens. Discordo. A natureza das coisas ensina que o que leva tanto tempo e edificar pode ser derrubado num instante. É esse o poder irrefutável do ódio. Maligno, com uma capacidade destrutiva inigualável. Onde o ódio toca com a sua mão envenenada, raramente ficam fragmentos que revejam a reconstrução do que foi derrubado. Há no ódio a devastação radioactiva que consome tudo em redor, nada deixa de pé, desertifica por longos anos, espalha doenças mortais sem cura conhecida. É um percurso sem retorno. A cada passo dado, o veneno ácido derramado mortifica os alvos do ódio.

Mas o pior do ódio é que nele se consome quem o destila, como se houvesse uma bílis que derretesse as entranhas até que nada restasse para testemunhar a consumição final. O mal, mesmo, é que através do ódio entra-se na universidade onde se aprende a vomitar a sua própria morte.

19.11.07

Porque falta sal ao Outono


O restolho outonal anuncia os frígidos ventos que tardam. Chuvas intempestivas que demoram a chegar. Não será pelas explicações dos novos arautos da desgraça – os ambientalistas – que se desenham as razões do estio em pleno Outono. É nos humores dos elementos, variáveis, que manobram por entre os extremos das estações. Ora secas e calorosas, ora prantos de vendavais e chuva incessante. A normalidade que passou à condição de excepção. Ao corpo, resta habituar-se.

E, no entanto, parece que o corpo estranha as estações trocadas. Carente da chuva que chega com os ventos atlânticos, o corpo entrega-se a uma secura de emoções. As ruas estão cheias das folhas acobreadas que tingem a falta de humidade. Mais do que noutros Outonos, quando os pés calcam as folhas sente-se um ruidoso estalido, sinal das folhas inertes que tombaram exangues de água. Dá-se o efeito de contágio aos corpos, como se a aridez que estala nas folhas pisadas subisse pelo corpo e se apoderasse dele. Que fica impassível diante das tragédias, inerte aos afectos, um imenso deserto que vem secar os mares onde pontuam as emoções.

Diria: que falta o sal ao Outono. Que o prolongamento do Verão, na forma de uma Primavera fora de tempo, transtorna os espíritos. A mistura insossa que irrompe à superfície é a tela tristonha de uma outonal estação que se demitiu das promessas a cada dobrar do equinócio de Setembro. Nos espíritos, uma desorientação de quem se ausentou da sua bússola. Haveriam as estações, na sua sucessão natural, de instalar os pontos cardeais que conduzem os corpos na sua plácida caminhada. Agora já não.

Ao invés, a perturbante transformação do calendário é a reclusão dos sentidos. Não é só as estações que mudam. Os seres, também. Não. Dirão alguns que não podem os elementos representar o papel de bússola dos humores humanos. Que não podem as pessoas entregar-se à ditatorial razão das estações transtornadas. Ditam a sentença: há amesquinhamento da pessoa quando se insinua que ela anda ao sabor dos ventos erráticos que misturam estações fora da estação. Contra o pretexto dos elementos, procuram a explicação fora das loucas estações. Ajuízam o divórcio entre os fenómenos meteorológicos e o andamento do espírito. O Homem é maior, muito maior, que o jugo das estações.

Só que a estranheza das estações extemporâneas parece deixar cicatrizes por sarar nos corpos expostos à brandura ou à intempestiva força dos elementos. Dá-se o caso das pessoas andarem diferentes. Taciturnos, os que olham aos céus e suspiram, melancólicos, pelas ausentes nuvens escuras que despejam dilúvios que começam a entrar para o repositório das saudades. E infinitamente alegres, os que mergulham numa profunda tristeza de cada vez que o seu amado sol fica dias a fio encoberto pelas nuvens britânicas que precipitam a chuva interminável.

Os dias estivais deviam ter garantia de calendário. Os mecanismos do tempo deviam ser automáticos. Como se fosse imposto Outono por decreto e o respeito da lei forçasse a entrada dos dias ventosos, das tempestades que sopram ventos atlânticos com a força húmida do sudoeste, as vagas alterosas que esbarram com estrondo nos molhes heróicos, as árvores inclinadas pela força do vendaval outonal, os primeiros dias de frio que convidam ao resguardo no primeiro borralho que há-de ter dias mais longos quando vier o Inverno gélido. A cada dia de ausente Outono, é como se a interior agulha da bússola andasse trepidante, e louca, com a única certeza da desabituação das estações fora da estação.

A rotina das estações é quebrada pelo ensandecer dos elementos. Espalham os sedimentos de diferentes paragens, onde as temperaturas suaves e os consecutivos dias soalheiros costumam habitar. É como se até nós viesse uma diferente geografia, dedilhada pelos ventos transviados que semeiam estações extemporâneas. É então que os corpos se sentem estranhos, personagens fora do seu lugar – como se habitassem os sítios onde são habituais as estações aqui fora da estação, sem saírem do lugar que sempre os viu respirar. O sal ausente.

A falta do sal do Outono – que, por fim, parece chegar quando o Outono já declina em favor do Inverno – apascenta o outro por descobrir que vive escondido nas catacumbas. Sem o sal de sempre, na inércia das emoções, na impassibilidade das reacções faciais. Ou, no seu extremo, através do cansaço de quem anseia pela normalidade das estações que se demoram e enfurecem ao destapar a insossa veia que vive, latente, só à espera dos anos em que as estações teimam em navegar fora do seu tempo.

16.11.07

Holograma


Pelo entardecer, quando o céu ganha o seu púrpura e fica tingido com as cores de um fogo que o incendeia, o recolhimento. A sós, como se por instantes o mundo se suspendesse da sua voracidade. O céu em fogo, como se estivesse gritar os derradeiros instantes antes de ser tomado pela noite sufocante.

O purpúreo tecto reflecte o espelho onde se fita. Há ali um balsâmico lugar onde o fim do dia traz o repouso de todas as peripécias acumuladas. Um jogo de espelhos onde se desdobram todos os seus múltiplos. Aquele que ri da pesporrência alheia. Aquele que chora as dores que o condoem, quando no peito esbarram com toda a força as angústias que não consegue reprimir. Ou os espasmos de optimismo, quando erra pelas ruas, sem destino, só para se comprazer com os sorrisos das caras anónimas que se misturam com as faces contristadas. Comprazer pela distinção: invejando os sorrisos que desfilam diante de si, as pétalas perfumadas de felicidade que essas faces exalam.

Os matizes que debruam o céu transformam-se a cada segundo que passa. O escurecimento que se apodera do horizonte é sinal das interrogações, das muitas interrogações que ficam tantas vezes sem resposta. À medida que a cor púrpura se depõe perante o breu nocturno, a única certeza: a das muitas perguntas que não têm solução. As muitas perguntas que são alimento para outras perguntas que se alistam numa sucessão infindável. Sabe que o jogo de espelhos que navega no céu oferece a perturbante imagem das inúmeras respostas possíveis que se desfraldam quando uma interrogação é hasteada. Há nessa encruzilhada um nutriente. De cada vez que a estrada se desdobra em quatro caminhos. A única certeza que dá por adquirida é o labirinto obscuro por onde erra.

No jogo de espelhos com que se debate, deduz-se uma imagem apenas. Conclui que só é uma imagem. Demanda pela sua essência. Ao chegarem os tentáculos enregelados da noite, há um frio árctico que lhe percorre as entranhas. Debate-se na interrogação pela essência que o há-de compor. A ausência de respostas insinua o vazio. Ou apenas uma imagem diferente do que tinha julgado ser. Perde-se nos corredores sem lugar do labirinto, cambaleando, agora que perdera a centelha do céu incendiado. Tudo o que lhe restava era a escuridão que se notava de cada vez que esbarrava nas frias paredes onde batia. Se ao menos não tivesse perdido a candeia do céu púrpura, agora transformado em escuro espelho de onde nada se via para além das estrelas.

E, todavia, o táctil caminho que percorria, compassado, era o lado ignorado de si. Convencera-se que o mergulho nas profundezas sombrias, onde a luz era inexistência, anunciava a peregrinação obrigatória. Pressentia os sorrisos espontâneos, as faces que irradiavam alegria, contentes com aquilo que em si transportavam, sem darem guarida às interiorizações perdidas nos meandros (inconsequentes) da complexidade. Tratava-se de um reencontro com a singeleza que pontua as coisas e as pessoas com a luz límpida dos dias mais claros. E nisto havia a clareza dos paradoxos: de como há que mergulhar até onde as raízes se escondem, bem fundas, para trazer à superfície a seiva purificada que é nutriente maior.

Podem as vagas ser alterosas. As ondas vomitadas pelo vento furioso batem com força, magoando o corpo que se entrega à coreografia aleatória da tempestade. Às vezes sentir que não há orientação definida, entregue às ondas que batem umas nas outras. Como se fosse um caos, um caos caridoso que expurga os corpos estranhos que o haviam transformado num corpo estranho só. Alguém que era ele mas já nem reconhecia sê-lo. Sabia que a noite tempestuosa era um leito alteroso, as indomáveis vagas que reconheciam os pesadelos mais sorumbáticos. E pressentia que a noite, a longa noite, haveria de ter um fim ao amainarem os ventos velozes. Então o mar seria a transparência do azul límpido do céu que o dia acabado de nascer tinha legado.

E mesmo aí, dobradas as angústias da hibernação nocturna, haveria de descobrir que é uma imagem só. Só uma imagem. A hesitação maior: se tudo o que é sensorial não é uma ilusão apenas, um fictício cenário onde desfilam as personagens que passam pelo filme em que vive aprisionado.

15.11.07

A “arte” que sacrifica um cão


Ainda sobre a violência. Outro fragmento de inanidade.

A criatividade é o esteio das artes. E de cada vez que a criatividade se liberta das amarras do conhecido, os cultores apreciam, excitados, num longo aplauso. Que interessa se a criatividade que alimenta um novo conceptualismo tem laivos de imbecilidade em estado puro? Dirão os críticos, os que sabem da poda, que o que conta é o momento criativo, a descoberta que deixa aturdidos os espectadores, desarmados perante o conceito nunca dantes explorado. De umas vezes, a criatividade é um acto singelo, levando os espectadores a questionarem como nunca alguém se lembrou de fazer arte com coisa tão singela. De outras vezes, o novo conceito artístico serve-se de uma inextricável complexidade. Difícil é desatar o nó desse conceptualismo. Os apreciadores demoram-se diante da obra e desfazem-se em interrogações, desmultiplicam-se em interpretações que se adensam na espessura da obra.

Só que às vezes a criatividade que pontua um novo conceptualismo não passa de imbecilidade. Como dizia há pouco, em estado puro. Imbecilidade no seu sentido científico, usado pela psicologia. E cito o dicionário: “atraso mental acentuado, entre a debilidade mental e a idiotia, distinguindo-se desta última pela aquisição da linguagem falada e pelo nível mental, que, determinado por testes, se situa entre os três e os sete anos.” Há dias li algures que um “artista” (e daqui em diante sempre que houver referência ao dito ou à sua “arte” os termos aparecem entre aspas), creio que argentino, inventou um novo conceptualismo temático. Numa exposição de pintura, colocou um cão diante de um quadro. O elemento conceptual contemplava a fome e a sede do cão. Terá explicado o “artista” que pretendia testar quem fosse visitar a exposição: até que ponto as pessoas que parassem diante do quadro dariam atenção ao cão; até que ponto fariam algo para evitar que o cão definhasse consumido pela sede e pela fome.

O animal acabou por morrer aos pés do quadro. Porque não houve vivalma que tomasse a iniciativa de saber se o cão estava a ser alimentado. O “artista”, preso à densidade do seu elemento conceptual, primou pela inacção. Sabia que a cada dia que passava o cão sem alimento nem água ia mirrando, encurtado o espaço temporal que o separava da morte. O “artista” não terá dado conta que ele era o carrasco de um animal sem culpa da sua estupidez. Condenou ao sofrimento, e a uma morte indigna, o cão que teve a infelicidade de se cruzar no caminho daquele apedeuta. O cão depôs a vida diante do artista e da sua insensibilidade. Diante da besta.

Da forma como a notícia me chegou ao conhecimento, faltava saber se o “artista” informou o público que o cão estava à míngua de comida e água. Se o não fez, estava a iludir os visitantes. Estes, na sua boa-fé, decerto acreditariam que o animal estava a ser alimentado. Se assim foi, a culpa restringe-se ao selvático “artista”. Mas pode-se dar o caso de ter sido divulgada informação sobre o “estatuto” do cão. E se a horda de visitantes que passeou diante do quadro nada fez para impedir a morte do cão, é cúmplice de um acto de barbárie que não abona em favor da superioridade intelectual que as elites que frequentam as artes costumam reclamar para si. Não percebo, simplesmente não consigo perceber, como não houve um único visitante que não procurou terminar com o sofrimento a que o cão estava votado. Cúmplices ou não, todas aquelas pessoas que visitaram a exposição são tão criminosas como o “artista” que tirou da cartola tão improvável conceptualismo “artístico”.

Desde que há tempos soube que havia uma exposição colectiva no Porto em que um artista apresentou uma escultura feita com um litro de esperam congelado, já nada me espantava no mundo das artes dominado pela tirania da criatividade. Até que tomei conhecimento da brutalidade imposta ao inocente cão pelo “artista” argentino. Qualquer dia, temos conceituados artistas a exporem estátuas humanas com um cartaz afixado aos seus pés anunciando aos visitantes que podem fazer o que quiserem nos modelos vivos estacionados à sua frente. Com um sublinhado sugestivo na expressão “fazer o que quiserem”. Aceitam-se sevícias, insultos, chacota, e o que mais se soltar da espantosa seiva da criatividade humana. Sabe-se lá se, até, tirar a vida à escultura, numa redefinição do elemento conceptual.

Começava este texto informando que, na sequência do de ontem, também tratava de violência. E não só da violência gratuita, ensandecida, do “artista” ao compor o elemento conceptual desta “obra de arte”. Também da violência que eu não conseguia reprimir se fosse visitante dessa “exposição” e soubesse que o cão era o instrumento ao serviço de tamanha boçalidade. Tenho a impressão que seria a primeira vez na vida que teria o impulso de agredir alguém – o dito “artista”.

14.11.07

Intervenção cívica, ou a covardia?


Da última vez que estive em Espanha, deu brado uma bárbara agressão. Dentro do metro de Barcelona, numa carruagem quase vazia, enquanto falava ao telemóvel e esbracejava furiosamente um rapaz vomitou raiva sobre uma jovem equatoriana que teve o azar de coincidir com o energúmeno naquela carruagem, naquele dia, àquela hora. O acto ficou registado nas câmaras instaladas nas carruagens do metro. Como se não bastasse a estupidez inata do agressor, dose redobrada por nem sequer se lembrar que a fobia pela segurança espalhou câmaras de vigilância até no interior das carruagens de metro. Burro a dobrar, pois.

As imagens são aterradoras. Sem que nada o fizesse prever, enquanto deambulava de um lado para o outro falando ao telemóvel, o rapaz desferiu um pontapé na rapariga que, desatenta, olhava para o exterior através da janela. Ele continuava a falar ao telemóvel enquanto repetia os pontapés. Como se fosse a jovem equatoriana culpada pela discussão que ele mantinha com alguém do outro lado do telemóvel. Entre pontapés e socos, a rapariga permanecia quase inerte, incapaz de reagir. Até que aqueles intermináveis instantes (pouco mais de um minuto) chegaram ao fim quando o metro parou na estação seguinte e o endemoninhado rapaz saiu da carruagem, com a mesma tranquilidade de quem acabara de ler um livro para matar o tempo da viagem.

As câmaras de vigilância tinham acabado de desnudar a brutalidade em toda a sua crueza. Só imagens, sem som. Não era possível perceber o que motivara tamanha ira do agressor. Nem se percebeu se, durante o cortejo de socos e pontapés, adicionou à agressão ofensas verbais. Não parecia: enquanto durou a agressão esteve quase todo o tempo agarrado ao telemóvel. E depois saiu como se nada fosse – como se praticar karaté num desconhecido fosse o acto mais natural do mundo. A bravura do lutador encaixa-se no protótipo doentio destes valentes: regurgitam brutalidade quando sabem que a vítima é mais fraca. Duvido que tivesse libertado a raiva se, em vez da franzina adolescente, estivesse ali sentado um homem coriáceo. Estamos habituados a esta valentia: só grita quando se insinua aos mais fracos.

Não fosse já doloroso ter sido testemunha da agressão, mais custoso se tornou o acto porque na carruagem viajava uma terceira pessoa. Estava atrás do agressor e não esboçou a mínima reacção em defesa da inocente rapariga. Desviou o olhar. A certa altura, incomodado (não se percebe se era mulher ou homem), virou-se para o lado contrário da orgia de violência. Não se levantou para dissuadir a agressão. Não se terá escutado qualquer reprovação – as imagens mostram os lábios sempre cerrados. Aquela pessoa foi observadora passiva da agressão. E cabe perguntar: se fosse eu a viajar naquele momento e fosse testemunha da violência boçal, teria a mesma passividade?

Qualquer pessoa, perante a brutalidade gratuita que os olhos vêm no écran, diria que não ficaria impassível. Que, pelo menos, reprovaria por palavras o ensandecido agressor. Outros, mais dados à valentia física, haveriam de se erguer do lugar para impedir a agressão. Nem é preciso alegar um imperativo de intervenção cívica para certificar que um desses seria o comportamento. A intervenção cívica que se exige quando alguém é vítima de violência. Até diriam, em jeito de conclusão, que a passividade seria uma covarde demissão de si mesmo, a denegação do civismo. Possivelmente, até, a inércia sinalizaria a conivência com a agressão.

Também tive essa reacção. A reacção espontânea de quem não consegue ficar insensível à selvajaria que ensombrava mais ainda o subterrâneo onde navega o metro. Depois repensei. E interroguei-me se não ficaria lívido ao testemunhar aquele acto que não merece adjectivação, de tão soez. Se não seria derrotado pela covardia, empurrado pelo desejo de preservar a integridade física. É que, na voraz loucura que consome o mundo, saberia eu se aquele agressor não voltava a ira contra mim se o tentasse apartar da jovem que recebia socos e pontapés? Saberia eu se ele guardava na roupa uma arma branca, arremessada contra mim se pela força o conseguisse domar?

Os imperativos da intervenção cívica são princípios belos, uma obrigação indeclinável de quem se julga “bom cidadão”. Só que acima do “bom cidadão” está a vida da pessoa. A pressa da heroicidade poderia trazer os derradeiros instantes de ar respirado, perante a incerteza que se soltava da alma atormentada que agredia sem parar. É que a intervenção cívica depende das circunstâncias. E duvido que alguém, no seu perfeito juízo (ou sem dotes de lutador) arremetesse contra o irado agressor estando ali sozinho com ele.

Há alturas em que a covardia é o único acto possível. Pode transtornar a consciência: porventura nos dias seguintes teria um insuportável peso deitado sobre a consciência, pela passividade diante da inexplicável agressão. Mas ao menos teria ainda vida para lamentar as dores de consciência. Sempre melhor do que já nem sequer haver tempo para lamber as feridas – ou as da consciência condoída, ou as deixadas pela selvajaria do agressor.

13.11.07

O admirável Homem novo


O admirável Homem novo não fuma, esse pecado social maior, sabedor que a sociedade moderna enceta uma sanha persecutória aos fumadores. Não bebe álcool. Obviamente, não se droga. Tem cuidados com a alimentação – muitas verduras, muita água, corta na doçaria e nos refrigerantes, diminui a dose de carne porque aprendeu por uma qualquer cartilha ambientalista que a produção de carne é indústria poluente. E pratica exercício físico, para afastar as nuvens negras das doenças cardiovasculares.

A bem de todos nós, as autoridades desmultiplicam-se em actos pedagógicos que nos educam para sermos admiráveis Homens novos, receptáculos de virtudes mil. Quase Homens perfeitos, não fossem vícios privados sanear a perfeição. A política oficial desdobra-se ora em informações sobre o que devemos fazer para alcançarmos o Olimpo da perfeição hodierna do humano, ora através das proibições de actos que merecem a condenação dos bons costumes.

Não vale a pena comentar a perseguição aos fumadores. Nem perceber a pretensa lógica altruísta do combate ao tabagismo: só por ingenuidade se pode acreditar que as autoridades apertam o cerco a quem fuma pela sua saúde (é mais convincente o argumento de que é também pela saúde dos que são fumadores passivos). Quando vejo a pesporrência de ministros e burocratas ao difundirem a ideia de que as proibições tabagistas são no interesse de quem fuma, apetece-me subitamente pegar num cigarro, abdicando da condição de não fumador. É incomodativa a lógica de quem manda, que do alto da sua sapiência vomita códigos de conduta inventados no interesse dos destinatários. Quem fuma é maior de idade. (E mesmo que ainda lá não tenha chegado, não me parece aceitável que o poder paternal seja transferido para o Estado.) Considerar que as pessoas necessitam de uma entidade que zele pelo seu bem-estar, por não evitarem sucumbir a vícios privados que levam o rótulo da “condenação social”, é a diluição do livre arbítrio que cabe a cada pessoa.

Se eu fosse fumador – ou alcoólatra, ou viciado nas comezainas mais nefastas para o organismo, ou enamorado pelo sedentarismo – e dispensava este paternalismo de pacotilha. Primeiro, porque sou maior de idade e sei tomar conta de mim. Segundo, desconfio da carinhosa preocupação que as autoridades exibem pela minha saúde. A minha saúde só a mim diz respeito. E ainda que haja quem discorde, atirando-me à cara que as doenças causadas pela vida desregrada que levei são um fardo para o sistema nacional de saúde (logo, para todos os outros que seriam chamados a pagar os custos da minha convalescença), nem assim me convenço da necessidade do roteiro para o admirável Homem novo. É que eu também fui obrigado a deixar uma fatia dos meus proventos para financiar o sistema nacional de saúde. E, além disso, onde mora a comovente ideia de que o sistema nacional de saúde é um imperativo de solidariedade colectiva?

Por isso não fico convencido, nem sequer comovido, com as energias que os mandantes consomem no afã de nos colocarem na rota do admirável Homem novo. Acho que é um pretexto para entrarem na nossa intimidade, regulando vícios que, sendo privados, estão por definição estabelecidos. Transformá-los em vícios públicos – ou susceptíveis de vigilância pública – é uma aleivosia. Um dia destes, se todos formos moldados através da esquadria perfeccionista dos mandantes, somos todos perfeitos, autómatos nas mãos de quem governa, desligados do livre arbítrio. Seremos todos iguais, indiferenciados, todos admiráveis Homens novos. Não haverá obesos, nem pessoas viciadas nos deleites do tabaco, do álcool, de gastronomia encharcada em colesterol. Nem haverá sequer o direito ao sedentarismo. Teremos franqueado os umbrais da bovinidade. Perfeitos – mas perfeitas marionetas, acabadas de sucumbir às mãos dos caritativos governantes.

O pior é que revejo os traços que identificam o admirável Homem novo: descubro que sou tudo isso. De repente apetece-me ser o seu contrário. Deixar de praticar exercício físico, até porque a confecção de imagem do timoneiro, que faz sempre jogging nas visitas ao estrangeiro (eu aposto que aquilo é, para além de imagem bem orquestrada, uma inconfessável superstição) me conduz pelos antípodas do que ele é. Começar a fumar, recomeçar a beber álcool, deixar de ter cuidados alimentares, finalmente começar a consumir estupefacientes da mais diversa ordem. Só para resgatar o livre arbítrio que estes socialistas patéticos não se cansam de espezinhar.

12.11.07

Ser comunista – ou a vida é um conto de fadas


No papel de comentador no debate que se seguiu à exibição do filme “Waiting for Europe” (de Christine Reeh), deparo com alguém na assistência que aos poucos vai deixando cair a máscara de comunista saudosista. É o produtor do filme. Foi o responsável pelo desvio da discussão de temas interessantes, que até então se haviam centrado sobre o filme que termináramos de ver.

O filme retratava a história verídica de uma jovem búlgara que emigrara para Lisboa e depois para Madrid. De como tão depressa as ilusões prometidas cediam lugar à frustração do desemprego prolongado, do desenraizamento. No fugaz regresso para festejar o Natal, viajamos pela realidade local. Pela desesperança que consome as pessoas que permanecem naquela cidade. Ao mesmo tempo, da excitação dos búlgaros com a anunciada entrada na União Europeia (quando o filme foi rodado faltava pouco mais de um ano para a adesão). Na sua primeira intervenção, o produtor do filme deu a achega para onde queria transportar o debate: o problema era o “modelo de desenvolvimento”. Pormenorizou: a alienação das pessoas perante a embriaguez de capitalismo; o cortejo incessante de publicidade que aparece afixada por todo o lado, sem respeitar sequer monumentos nacionais; o enorme fosso que separa os poucos com fortunas colossais e os muitos que vegetam no limiar da pobreza. E que os búlgaros (todos, ou apenas a amostra com quem tomou contacto durante as filmagens no terreno?) estavam decepcionados com as promessas da democracia. Mais tarde, a própria realizadora interrogou-se se o que havia na Bulgária era democracia ou apenas capitalismo selvagem.

Percebi então uma frase enigmática quase no final do filme. As imagens das ruas daquela cidade búlgara, das pessoas que circulavam pelas ruas enregeladas pelo frio do Inverno, são cenário para as palavras em fundo do cunhado da protagonista. Termina a narração dizendo “antes de 1989 era tudo melhor”. E depois faz-se silêncio, enquanto os espectadores são povoados pelas imagens melancólicas das casas degradadas, dos transeuntes que parecem passear uma tristeza que os engelha pelo interior.

Essas enigmáticas palavras soaram quando escutei a intervenção dogmática do produtor do filme. Perguntei-lhe: seria compreensível que na transição que disse adeus às privações e à ausência de liberdades não houvesse uma deriva pela afluência material? Se não está documentado que em muito países de leste foram antigas elites do partido comunista, recicladas às delícias do capitalismo, que tomaram as rédeas do “grande capital”? E diante de outras intervenções que lamentavam como o “excelente” sistema de educação e de saúde da ditadura comunista se perdera, quase como se essa perda fosse suficiente para chorar o funeral do comunismo, apeteceu-me perguntar: hão-de os meios compensar os fins? Aquelas pessoas viviam melhor quando lhes era garantido (mesmo que não quisessem) o tal “excelente” sistema de educação (cheio de formatações ideológicas, porém) e de saúde, ainda que tivessem que pagar o preço elevado da privação de liberdades? A certa altura, pareceu-me que havia ali muita gente a considerar que pelo regresso ao maravilhoso mundo educativo e de saúde de outrora compensaria restringir, até diluir, as liberdades que o féretro do comunismo tinha oferecido.

No fim do debate, pus-me à conversa com o produtor. Decidiu prolongar a prédica, alargando os horizontes geográficos. Ainda faltava soltar o habitual fantasma dos “americanos” como fautores de todos os males. De mão dada com o “grande capital”, numa insidiosa coligação para tornar mais abastados os que já navegam em fortunas colossais e mergulhar os oprimidos numa pobreza sem solução. Passei à condição de ouvinte. Fiz de conta que estava anestesiado pelo discurso debitado. Não esboçava reacções aos fragmentos de um mundo idealizado naquela cabeça órfã de referências, agora que o mundo em que acreditou foi remetido à condição de curiosidade museológica. Aprendi que a corrupção é sempre semeada pelo “sector privado”, que acena com um pacote de notas que degela os eticamente irrepreensíveis funcionários do sector público. Até em Angola, que eu julgava ser um antro de corrupção que acama uma deplorável cleptocracia, é tudo ao contrário: é o “grande capital” que seduz os políticos, o “grande capital” que semeia a corrupção.

Era uma conversa a dois. Um monólogo, para ser preciso. Nem sei bem se o silêncio era demissão de mim mesmo, ou apenas meio para me assombrar com o conto de fadas em que vegetam comunistas ainda empedernidos. Só me aborrece a logorreia porque a diabolização dos “americanos” tem o condão de me colocar subitamente enamorado dos Estados Unidos. O que profundamente me incomoda, eu que tanta antipatia nutro pelos norte-americanos (sem cair no antiamericanismo primário).

Gosto de privar com estas personagens. É sempre bom recordar o que seria o mundo de acordo com a sua lupa tão particular. E a vida perde monotonia quando no caminho estão espalhados pequenos fragmentos circenses.

9.11.07

Patriotismo constitucional


É um conceito estranho. Estamos habituados a empregar o termo “patriotismo” por referência à afinidade em relação ao país que nos viu nascer. Poderá até ser herética a distorção lexical: etimologicamente, “patriotismo” vem de pátria. Como se pode torcer a palavra e associá-la a “constitucional”, como se a afinidade deixasse de estar localizada num país e estivesse ancorada numa “Constituição”?


Vem isto a propósito de uma sociedade tolerante, aberta, predisposta a aceitar o “outro”, o estrangeiro, a conviver com ele como se fosse um dos seus? O “outro” tanto pode ser o estrangeiro que chega à nossa terra em busca de trabalho, como o turista que faz uma visita fugaz em lazer. É que o mundo é, dizem alguns, uma aldeia global. Por mais altas que sejam as ameias erguidas por legisladores antiquados que temem a entrada de imigrantes, as pessoas movem-se de um lado para o outro. Ora tirando partido das facilidades de deslocação, ora socorrendo-se de meios ilegais para entrarem à socapa nos prometidos oásis que, acreditam, trazem dignificação da vida e bem-estar. E, no entanto, às vezes os ditos países avançados, receosos de vagas de imigrantes que perturbem a vida organizada a que se habituaram, constroem ameias bem altas, quase inacessíveis. O problema nem é as ameias em forma de lei: é o efeito contagiante que passa para a sociedade, instruída para desconfiar do imigrante, olhando de soslaio para ele, acantonando-o num gueto.


O que me deixa perplexo é que a Europa que vai tecendo castelos inexpugnáveis aos imigrantes é a mesma Europa a braços com uma tremenda crise demográfica. A mesma Europa que necessita de abrir as portas, todos os anos, a milhares de imigrantes. Para que a sua segurança social não vá à falência. Para não perder posições no campeonato da competitividade. Há estudos demográficos que o comprovam. Parecem contar pouco na altura das decisões políticas. E são pregação no deserto quando se mede o pulso às atitudes predominantes dos nativos perante o “outro” que se coloca à sua frente.


Há esta dimensão demográfica, económica até, que nem é a mais importante. Se o problema for visto apenas desta forma, arriscamos a acusação de egoísmo. Isto é, da cancela ser levantada para deixar entrar alguns imigrantes porque precisamos deles. O risco de nos acusarem de estarmos a instrumentalizar os imigrantes. Verdade seja dita que há reciprocidade: os imigrantes têm melhores condições de vida nos sítios que escolhem para sua residência, eles também tiram partido da sua instalação nos oásis que demandaram. O risco é real, no entanto. E ofusca o que devia contar nesta osmose crescente entre nativos e imigrados: fomentar a tolerância pelo “outro” como etapa seguinte do amadurecimento da sociedade. Acolhê-lo, integrá-lo, saber conviver com ele sem embaraços ou resistências mentais, como se fosse necessário estabelecer uma diferença entre “nós” e o “outro”. É que a simples distinção entre “ele” e “nós” contamina a relação.


Mais à direita, o discurso do multiculturalismo é contestado. Não sei se apenas por ser uma bandeira que as esquerdas chamam a si – mais uma bandeira que elas, pateticamente, reivindicam ser seu exclusivo –, ou se por serem geneticamente contra a miscigenação dos povos, ou até porque nelas se foram desenvolvendo anticorpos ao multiculturalismo pelas dificuldades de integração de certas comunidades imigrantes, essas direitas (e não apenas a extrema-direita) são ferozmente contra o multiculturalismo e aceitam restrições à imigração. Essas direitas têm todo o direito de reagir ao que as desconforta. Até têm o direito de se agarrarem aos fragmentos que sobram do passado, pois tanto lhes custa admitir que o presente tem outras cambiantes. Mesmo não gostando de más companhias, neste assunto coincido com as esquerdas que são genuinamente cultoras do multiculturalismo (e não daquelas que se apropriam do discurso para efeitos tácticos).


Enquanto teimarmos em tecer estigmas que olham para o “outro” como o outro, sempre de pé atrás quando há um estrangeiro que se atravessa no caminho, seremos uma sociedade imersa numa infantil etapa de desenvolvimento. Enquanto isso suceder, o diagnóstico é sombrio: por dentro de nós fervilha o embrião da intolerância. Que hoje se dirige ao “outro”, mas amanhã pode ter como destinatário “um de nós”, se as divergências entrarem num declive tão acentuado que produzem danos irreparáveis.


Este valor, da tolerância pelo outro, devia merecer entrar na Constituição – nas Constituições dos países que se quisessem libertar das algemas da ancestralidade. Seria o farol da emancipação dos Homens diante do espartilho dos países a que se julgam pertencer, como se os países os titulassem, na mais deplorável submissão dos indivíduos. É por aqui que passa essa libertação: por elevar a valor constitucional a tolerância pelo “outro”, como forma de a garantir até em relação a todos os que pertencem ao “nós”. Este utopismo faria de nós (aqui englobando o “nós” e os “outros” num todo) cultores do patriotismo constitucional que assegurasse a convivência natural entre “nos” e o “outro”. Tão natural que a certa altura deixaria de fazer sentido a distinção.

Patriotismo constitucional

É um conceito estranho. Estamos habituados a empregar o termo “patriotismo” por referência à afinidade em relação ao país que nos viu nascer. Poderá até ser herética a distorção lexical: etimologicamente, “patriotismo” vem de pátria. Como se pode torcer a palavra e associá-la a “constitucional”, como se a afinidade deixasse de estar localizada num país e estivesse ancorada numa “Constituição”?


Vem isto a propósito de uma sociedade tolerante, aberta, predisposta a aceitar o “outro”, o estrangeiro, a conviver com ele como se fosse um dos seus? O “outro” tanto pode ser o estrangeiro que chega à nossa terra em busca de trabalho, como o turista que faz uma visita fugaz em lazer. É que o mundo é, dizem alguns, uma aldeia global. Por mais altas que sejam as ameias erguidas por legisladores antiquados que temem a entrada de imigrantes, as pessoas movem-se de um lado para o outro. Ora tirando partido das facilidades de deslocação, ora socorrendo-se de meios ilegais para entrarem à socapa nos prometidos oásis que, acreditam, trazem dignificação da vida e bem-estar. E, no entanto, às vezes os ditos países avançados, receosos de vagas de imigrantes que perturbem a vida organizada a que se habituaram, constroem ameias bem altas, quase inacessíveis. O problema nem é as ameias em forma de lei: é o efeito contagiante que passa para a sociedade, instruída para desconfiar do imigrante, olhando de soslaio para ele, acantonando-o num gueto.


O que me deixa perplexo é que a Europa que vai tecendo castelos inexpugnáveis aos imigrantes é a mesma Europa a braços com uma tremenda crise demográfica. A mesma Europa que necessita de abrir as portas, todos os anos, a milhares de imigrantes. Para que a sua segurança social não vá à falência. Para não perder posições no campeonato da competitividade. Há estudos demográficos que o comprovam. Parecem contar pouco na altura das decisões políticas. E são pregação no deserto quando se mede o pulso às atitudes predominantes dos nativos perante o “outro” que se coloca à sua frente.


Há esta dimensão demográfica, económica até, que nem é a mais importante. Se o problema for visto apenas desta forma, arriscamos a acusação de egoísmo. Isto é, da cancela ser levantada para deixar entrar alguns imigrantes porque precisamos deles. O risco de nos acusarem de estarmos a instrumentalizar os imigrantes. Verdade seja dita que há reciprocidade: os imigrantes têm melhores condições de vida nos sítios que escolhem para sua residência, eles também tiram partido da sua instalação nos oásis que demandaram. O risco é real, no entanto. E ofusca o que devia contar nesta osmose crescente entre nativos e imigrados: fomentar a tolerância pelo “outro” como etapa seguinte do amadurecimento da sociedade. Acolhê-lo, integrá-lo, saber conviver com ele sem embaraços ou resistências mentais, como se fosse necessário estabelecer uma diferença entre “nós” e o “outro”. É que a simples distinção entre “ele” e “nós” contamina a relação.


Mais à direita, o discurso do multiculturalismo é contestado. Não sei se apenas por ser uma bandeira que as esquerdas chamam a si – mais uma bandeira que elas, pateticamente, reivindicam ser seu exclusivo –, ou se por serem geneticamente contra a miscigenação dos povos, ou até porque nelas se foram desenvolvendo anticorpos ao multiculturalismo pelas dificuldades de integração de certas comunidades imigrantes, essas direitas (e não apenas a extrema-direita) são ferozmente contra o multiculturalismo e aceitam restrições à imigração. Essas direitas têm todo o direito de reagir ao que as desconforta. Até têm o direito de se agarrarem aos fragmentos que sobram do passado, pois tanto lhes custa admitir que o presente tem outras cambiantes. Mesmo não gostando de más companhias, neste assunto coincido com as esquerdas que são genuinamente cultoras do multiculturalismo (e não daquelas que se apropriam do discurso para efeitos tácticos).


Enquanto teimarmos em tecer estigmas que olham para o “outro” como o outro, sempre de pé atrás quando há um estrangeiro que se atravessa no caminho, seremos uma sociedade imersa numa infantil etapa de desenvolvimento. Enquanto isso suceder, o diagnóstico é sombrio: por dentro de nós fervilha o embrião da intolerância. Que hoje se dirige ao “outro”, mas amanhã pode ter como destinatário “um de nós”, se as divergências entrarem num declive tão acentuado que produzem danos irreparáveis.


Este valor, da tolerância pelo outro, devia merecer entrar na Constituição – nas Constituições dos países que se quisessem libertar das algemas da ancestralidade. Seria o farol da emancipação dos Homens diante do espartilho dos países a que se julgam pertencer, como se os países os titulassem, na mais deplorável submissão dos indivíduos. É por aqui que passa essa libertação: por elevar a valor constitucional a tolerância pelo “outro”, como forma de a garantir até em relação a todos os que pertencem ao “nós”. Este utopismo faria de nós (aqui englobando o “nós” e os “outros” num todo) cultores do patriotismo constitucional que assegurasse a convivência natural entre “nos” e o “outro”. Tão natural que a certa altura deixaria de fazer sentido a distinção.
É um conceito estranho. Estamos habituados a empregar o termo “patriotismo” por referência à afinidade em relação ao país que nos viu nascer. Poderá até ser herética a distorção lexical: etimologicamente, “patriotismo” vem de pátria. Como se pode torcer a palavra e associá-la a “constitucional”, como se a afinidade deixasse de estar localizada num país e estivesse ancorada numa “Constituição”?

Vem isto a propósito de uma sociedade tolerante, aberta, predisposta a aceitar o “outro”, o estrangeiro, a conviver com ele como se fosse um dos seus? O “outro” tanto pode ser o estrangeiro que chega à nossa terra em busca de trabalho, como o turista que faz uma visita fugaz em lazer. É que o mundo é, dizem alguns, uma aldeia global. Por mais altas que sejam as ameias erguidas por legisladores antiquados que temem a entrada de imigrantes, as pessoas movem-se de um lado para o outro. Ora tirando partido das facilidades de deslocação, ora socorrendo-se de meios ilegais para entrarem à socapa nos prometidos oásis que, acreditam, trazem dignificação da vida e bem-estar. E, no entanto, às vezes os ditos países avançados, receosos de vagas de imigrantes que perturbem a vida organizada a que se habituaram, constroem ameias bem altas, quase inacessíveis. O problema nem é as ameias em forma de lei: é o efeito contagiante que passa para a sociedade, instruída para desconfiar do imigrante, olhando de soslaio para ele, acantonando-o num gueto.

O que me deixa perplexo é que a Europa que vai tecendo castelos inexpugnáveis aos imigrantes é a mesma Europa a braços com uma tremenda crise demográfica. A mesma Europa que necessita de abrir as portas, todos os anos, a milhares de imigrantes. Para que a sua segurança social não vá à falência. Para não perder posições no campeonato da competitividade. Há estudos demográficos que o comprovam. Parecem contar pouco na altura das decisões políticas. E são pregação no deserto quando se mede o pulso às atitudes predominantes dos nativos perante o “outro” que se coloca à sua frente.

Há esta dimensão demográfica, económica até, que nem é a mais importante. Se o problema for visto apenas desta forma, arriscamos a acusação de egoísmo. Isto é, da cancela ser levantada para deixar entrar alguns imigrantes porque precisamos deles. O risco de nos acusarem de estarmos a instrumentalizar os imigrantes. Verdade seja dita que há reciprocidade: os imigrantes têm melhores condições de vida nos sítios que escolhem para sua residência, eles também tiram partido da sua instalação nos oásis que demandaram. O risco é real, no entanto. E ofusca o que devia contar nesta osmose crescente entre nativos e imigrados: fomentar a tolerância pelo “outro” como etapa seguinte do amadurecimento da sociedade. Acolhê-lo, integrá-lo, saber conviver com ele sem embaraços ou resistências mentais, como se fosse necessário estabelecer uma diferença entre “nós” e o “outro”. É que a simples distinção entre “ele” e “nós” contamina a relação.

Mais à direita, o discurso do multiculturalismo é contestado. Não sei se apenas por ser uma bandeira que as esquerdas chamam a si – mais uma bandeira que elas, pateticamente, reivindicam ser seu exclusivo –, ou se por serem geneticamente contra a miscigenação dos povos, ou até porque nelas se foram desenvolvendo anticorpos ao multiculturalismo pelas dificuldades de integração de certas comunidades imigrantes, essas direitas (e não apenas a extrema-direita) são ferozmente contra o multiculturalismo e aceitam restrições à imigração. Essas direitas têm todo o direito de reagir ao que as desconforta. Até têm o direito de se agarrarem aos fragmentos que sobram do passado, pois tanto lhes custa admitir que o presente tem outras cambiantes. Mesmo não gostando de más companhias, neste assunto coincido com as esquerdas que são genuinamente cultoras do multiculturalismo (e não daquelas que se apropriam do discurso para efeitos tácticos).

Enquanto teimarmos em tecer estigmas que olham para o “outro” como o outro, sempre de pé atrás quando há um estrangeiro que se atravessa no caminho, seremos uma sociedade imersa numa infantil etapa de desenvolvimento. Enquanto isso suceder, o diagnóstico é sombrio: por dentro de nós fervilha o embrião da intolerância. Que hoje se dirige ao “outro”, mas amanhã pode ter como destinatário “um de nós”, se as divergências entrarem num declive tão acentuado que produzem danos irreparáveis.

Este valor, da tolerância pelo“outro”, devia merecer entrar na Constituição – nas Constituições dos países que se quisessem libertar das algemas da ancestralidade. Seria o farol da emancipação dos Homens diante do espartilho dos países a que se julgam pertencer, como se os países os titulassem, na mais deplorável submissão dos indivíduos. É por aqui que passa essa libertação: por elevar a valor constitucional a tolerância pelo “outro”, como forma de a garantir até em relação a todos os que pertencem ao “nós”. Este utopismo faria de nós (aqui englobando o “nós” e os “outros” num todo) cultores do patriotismo constitucional que assegurasse a convivência natural entre “nos” e o “outro”. Tão natural que a certa altura deixaria de fazer sentido a distinção.

8.11.07

O palimpsesto

(Do dicionário – “Palimpsesto: sentido figurado, texto que existe sob outro texto.” De um diálogo entre as duas metades do ser, uma delas – a alteridade – surgindo em itálico.)

Quem nunca acordou preso às amarras de um estranho que parece habitar em si? E quem, de tanto tempo conviver com esse estranho, não se interrogou se o estranho, de tão assíduo, suplantara o eu convencionado? Há todo um vasto território, insondável, onde fervilha a alteridade do ser. Às vezes emerge compassada com a surpresa: ao dar conta que afinal somos diferentes do que julgáramos ser, o sangue já fervente expulsando o eu que se habituara a imperar.

(Isso tudo, ou apenas fragmentos irrelevantes em demanda de mistérios e significados escondidos em inacessíveis lugares, afinal nunca visitados a não ser nestas peregrinações que servem para ensaiar a escrita. O suplício da subjectividade. O martírio de quem se aventura por ruas despidas de pavimento, só com as pedras pontiagudas à mostra, os pés desnudados sangrando na via sacrificial que leva a lugar nenhum. De que serve a coloração pungente dos devaneios interiores, se através dela se chega ao abismo?)

O arrebatamento da alteridade é um lancinante exercício, a reorientação do ser. Ou não. Pode descerrar diante dos olhos um vasto campo onde se desfraldam flores perfumadas, uma sinfonia de cores como se nessas flores todas as cores do mundo tivessem sido retratadas. A alteridade pontua a transformação. Ou sinal positivo, ou sinal negativo. Depende do alter ego descoberto – ou, muitas vezes, sem bem se perceber, apenas redescoberto –, depende do outro eu asfixiado nas catacumbas do ser. Nem sempre a experiência carpida nas incidências do tempo molda alteridade confortável. Por vezes, é a acidez que destila o outro eu, acabrunhado, contristado, suspeitoso, ensimesmado, até irascível.

(Do discurso como retórica infernal, mas placidamente anódina. Lucubrações que jorram como águas tempestuosas que descem a alcantilada garganta de um rio de montanha. Quando chegam à foz, são um gigante domado pela fértil planície que se estende além do alcance da vista. Amansadas águas, destituídas da ferocidade anunciada. Apenas águas que se entregam nos braços da imensidão salgada, onde são sepultadas. Jamais voltará a haver notícia delas, eternamente perdidas na vastidão do mar. Assim se esvaem as ideias que soam a filosofia de bolso.)

No desdobramento do eu em dois, inquieta o moralismo que uma das metades apregoa. Costuma a metade que se julga mais discernida, aquela que ajuíza só depois de acamado o tempo, entoar enfurecidas palavras que arremetem contra o moralismo, contra qualquer moralismo. A metade oposta tem conhecimento da verve racional que acaba por prevalecer. Ainda assim, é ela que domina as reacções perante um acontecimento, ou palavras ditas pelos outros. É esse hemisfério – espontâneo, estouvado, sem esmerar raciocínios – que soergue, ditando asserções que exalam decadente moralismo. Nessa altura já as águas interiores fervem, revoltosas, encavalitam-se em ameaçadoras ondas que espumam toda a sua raiva quando embatem de frente umas nas outras, desfazendo-se numa espuma branca, inerte.

(Lá no fundo, não há um eu e sua alteridade. A antítese da moralidade apregoada pela jactante “metade discernida” é um revólver que dispara balas envenenadas pela pior das moralidades. De cada vez que a alteridade racional reclama a asfixia da moralidade – de qualquer moralidade –, entrega-se nos braços da pior das moralidades. Aquela que mora no lugar imperceptível que dá existência àquilo que denega.)

Entra em cena o observador exterior, qualificado para diagnosticar as maleitas do espírito que apoquentam o indivíduo hesitante entre o seu eu – ou aquilo que julga dele conhecer – e a sua alteridade, também ela relevada. O julgador teria um duplo condão: chegar com o véu da ignorância, jamais tendo falado com o espírito atormentado; e especialista em desatar nós que semeiam as dúvidas que preenchem o horizonte de quem se divide entre o seu eu e a alteridade. Em vez de aclarar, ele diria que há outra alteridade reprimida, que combate dos fundos do ser o eu dominante e a alteridade esboçada. Diria que esta alteridade é uma construção oportuna para esbofetear traços do eu conhecido que são desconfortáveis. É, todavia, uma alteridade fabricada, artificial, apenas um pretexto para mascarar sombras do eu, ou quando o eu conhecido é uma consumição que exige refúgio de si.

A alteridade reprimida: ou a tarefa maior que aquele eu deveria abraçar, houvesse coragem para o desprendimento das duas metades de que se julga composto. Descobriria, então, que há dentro de si o palimpsesto de si mesmo: ofuscado, aprisionado em profundas masmorras onde o ar fétido não aconselha visita.

O palimpsesto

(Do dicionário – “Palimpsesto: sentido figurado, texto que existe sob outro texto.” De um diálogo entre as duas metades do ser, uma delas – a alteridade – surgindo em itálico.)

Quem nunca acordou preso às amarras de um estranho que parece habitar em si? E quem, de tanto tempo conviver com esse estranho, não se interrogou se o estranho, de tão assíduo, suplantara o eu convencionado? Há todo um vasto território, insondável, onde fervilha a alteridade do ser. Às vezes emerge compassada com a surpresa: ao dar conta que afinal somos diferentes do que julgáramos ser, o sangue já fervente expulsando o eu que se habituara a imperar.

(Isso tudo, ou apenas fragmentos irrelevantes em demanda de mistérios e significados escondidos em inacessíveis lugares, afinal nunca visitados a não ser nestas peregrinações que servem para ensaiar a escrita. O suplício da subjectividade. O martírio de quem se aventura por ruas despidas de pavimento, só com as pedras pontiagudas à mostra, os pés desnudados sangrando na via sacrificial que leva a lugar nenhum. De que serve a coloração pungente dos devaneios interiores, se através dela se chega ao abismo?)

O arrebatamento da alteridade é um lancinante exercício, a reorientação do ser. Ou não. Pode descerrar diante dos olhos um vasto campo onde se desfraldam flores perfumadas, uma sinfonia de cores como se nessas flores todas as cores do mundo tivessem sido retratadas. A alteridade pontua a transformação. Ou sinal positivo, ou sinal negativo. Depende do alter ego descoberto – ou, muitas vezes, sem bem se perceber, apenas redescoberto –, depende do outro eu asfixiado nas catacumbas do ser. Nem sempre a experiência carpida nas incidências do tempo molda alteridade confortável. Por vezes, é a acidez que destila o outro eu, acabrunhado, contristado, suspeitoso, ensimesmado, até irascível.

(Do discurso como retórica infernal, mas placidamente anódina. Lucubrações que jorram como águas tempestuosas que descem a alcantilada garganta de um rio de montanha. Quando chegam à foz, são um gigante domado pela fértil planície que se estende além do alcance da vista. Amansadas águas, destituídas da ferocidade anunciada. Apenas águas que se entregam nos braços da imensidão salgada, onde são sepultadas. Jamais voltará a haver notícia delas, eternamente perdidas na vastidão do mar. Assim se esvaem as ideias que soam a filosofia de bolso.)

No desdobramento do eu em dois, inquieta o moralismo que uma das metades apregoa. Costuma a metade que se julga mais discernida, aquela que ajuíza só depois de acamado o tempo, entoar enfurecidas palavras que arremetem contra o moralismo, contra qualquer moralismo. A metade oposta tem conhecimento da verve racional que acaba por prevalecer. Ainda assim, é ela que domina as reacções perante um acontecimento, ou palavras ditas pelos outros. É esse hemisfério – espontâneo, estouvado, sem esmerar raciocínios – que soergue, ditando asserções que exalam decadente moralismo. Nessa altura já as águas interiores fervem, revoltosas, encavalitam-se em ameaçadoras ondas que espumam toda a sua raiva quando embatem de frente umas nas outras, desfazendo-se numa espuma branca, inerte.

(Lá no fundo, não há um eu e sua alteridade. A antítese da moralidade apregoada pela jactante “metade discernida” é um revólver que dispara balas envenenadas pela pior das moralidades. De cada vez que a alteridade racional reclama a asfixia da moralidade – de qualquer moralidade –, entrega-se nos braços da pior das moralidades. Aquela que mora no lugar imperceptível que dá existência àquilo que denega.)

Entra em cena o observador exterior, qualificado para diagnosticar as maleitas do espírito que apoquentam o indivíduo hesitante entre o seu eu – ou aquilo que julga dele conhecer – e a sua alteridade, também ela relevada. O julgador teria um duplo condão: chegar com o véu da ignorância, jamais tendo falado com o espírito atormentado; e especialista em desatar nós que semeiam as dúvidas que preenchem o horizonte de quem se divide entre o seu eu e a alteridade. Em vez de aclarar, ele diria que há outra alteridade reprimida, que combate dos fundos do ser o eu dominante e a alteridade esboçada. Diria que esta alteridade é uma construção oportuna para esbofetear traços do eu conhecido que são desconfortáveis. É, todavia, uma alteridade fabricada, artificial, apenas um pretexto para mascarar sombras do eu, ou quando o eu conhecido é uma consumição que exige refúgio de si.

A alteridade reprimida: ou a tarefa maior que aquele eu deveria abraçar, houvesse coragem para o desprendimento das duas metades de que se julga composto. Descobriria, então, que há dentro de si o palimpsesto de si mesmo: ofuscado, aprisionado em profundas masmorras onde o ar fétido não aconselha visita.

7.11.07

Segregação em forma de lei


O que me sossega é que estamos bem entregues nas mãos de uma casta onde só convivem aperaltados políticos e ululantes burocratas que pajeiam os primeiros. São perspicazes, sempre de lupa em riste em demanda das consumições da sociedade, para sem demora prescreverem miraculosa solução. Sempre em forma de lei, da enxurrada de leis e sucedâneos que impõem a ditadura da regulamentação. Pelo caminho, o detalhe – decerto insignificante, ou de detalhe não se tratasse – das pessoas ficarem presas à teia de leis para serem deglutidas por um aranhiço antropófago.

Nem é necessário andar de olho vigilante no Diário da República. A propaganda oficial, tão bem oleada, trata de veicular para a comunicação social as leis bombásticas. Aquela, preguiçosa, limita-se a fazer “copy-paste” dos comunicados fabricados nos gabinetes dos ministros, dos seus subalternos, numa esconsa repartição pública onde se acantona zeloso burocrata, ou, nos tempos de modernidade por que passamos, dos press release emitidos pela agência de comunicação que “faz” a imagem dos próceres da coisa pública. Mostram serviço, quando esbracejam com orgulho a mais recente lei que regulamenta ora assunto importante, ora o pormenor mais irrelevante. Sobem ao púlpito da vaidade: aparecem, compungidos, cheios de olheiras porque trabalham até más horas, tudo em nome do bem de todos nós. Agradecidos pela generosidade, logo depositamos o destino na iluminada aura que, esperamos, seja manancial perene de inspiração de suas excelências.

Por tão elevada produtividade, por serem os fautores do estado admirável em que nos encontramos, eu seria primeiro subscritor de um abaixo-assinado que promovesse salários mais altos e um rosário de benesses que premiasse a sua actividade. Que tem um travo metafísico, porque eles são os sacerdotes que curam de nós, os humildes mortais que sucumbimos diante de suas excelências, sabedores que somos da grandiloquência dos homens e mulheres que têm entre mãos as chaves do poder.

Aos hodiernos súbditos resta prestar vassalagem silenciosa. Como retribuição pelos serviços inestimáveis que aquelas almas desinteressadas oferecem. Embrulhados na manta do altruísmo, são os modernos cavaleiros andantes que espalham felicidade e bem-estar, combatendo os ferozes dragões que chegam disfarçados de pobreza, desigualdade, injustiça social. Os súbditos meditam pacificamente nas oferendas da casta. Entregam-lhes o destino, assinando de cruz por baixo. Nem lhes ocorre que por mais inebriados que estejam com a casta, mais hipotecam o seu livre arbítrio. O que é sintomático: de uma terra pequenina, em que cada pessoa é formatada para colocar o seu destino em mãos alheias. Os súbditos são isso mesmo – súbditos. Estão a léguas da condição de cidadãos. Enquanto estiverem amordaçados na menoridade de quem entrega o destino nas mãos de curandeiros e seu séquito de mangas-de-alpaca.

O exemplo mais recente é a distribuição de dísticos coloridos que os condutores vão ser obrigados a ostentar no pára-brisas dos seus automóveis. (Ia a escrever “o derradeiro exemplo”, quando repensei a expressão e a desfiz; oxalá este fosse, em retrospectiva, o derradeiro exemplo. Só o seria se o tempo ficasse inerte e não houvesse amanhã.) Esses dísticos vão distinguir os bons, os medianos, os maus condutores. Vão trajar autocolantes verdes, amarelos, vermelhos – respectivamente. Estou a ver os que nada têm a temer e se comportam como condutores exemplares a aplaudir a ideia, excitados. Hão-de argumentar que há por aí desde aselhas a assassinos encartados. Que devem merecer o estigma social, pagando o preço da vergonha aos olhos dos outros pelo cadastro de tropelias nas estradas nacionais. Dirão isso mesmo – que quem não deve não teme. E que a segurança rodoviária homenageia o sagrado valor da vida humana. Tudo o que for feito para que as estradas deixem de ceifar vidas deve merecer aplauso unânime.

Lamento desempenhar o papel de desmancha-prazeres. O ingrato de serviço. Por mais que dê voltas, não me convenço da bondade da medida. Primeiro, é inútil. A menos que o dístico tenha dimensões majestosas, não percebo como se há-de distinguir a sua cor quando nos cruzamos em velocidade elevada com outros automobilistas. Segundo, não há ninguém que desperte da anestesia colectiva e denuncie a obtusa ideia por segregar pessoas? Os feitores da harmonia social – que, para seu infortúnio, não pode ser decretado em forma de lei – ou desconhecem a História, ou não estão a par das modernas teorias políticas que renegam qualquer laivo de racismo (e também há racismo social, para além das fronteiras do tradicional racismo), ou fizeram de propósito dando ordens para que a nova cruz de David tenha tonalidade avermelhada e estigmatize quem anda na estrada.

Aquelas hipóteses ou sintonizam a ignorância da casta, ou a urgência em insinuar a sua autoridade, só para reforçar a longínqua distância que a separa dos humildes mortais. Nem sei o que será mais grave: desmascarar a ignorância da casta, ou perceber que ela cauciona novas segregações quando se pensava que esse era um esqueleto bem guardado dentro de um armário fechado a sete chaves.

6.11.07

Pergunta de retórica

Quando começa o Outono?

A demolição da casa e o estremecimento da mulher


No caminho entre a estação de metro e casa, do lado direito de uma ruela estreita acotovelam-se casas antigas. Defrontam-se com prédios novos, que se encavalitam uns nos outros mergulhando sobre a estreiteza da ruela. De regresso a casa, dobro a esquina que dá entrada na ruela e vejo, ao fim da recta, burburinho e azáfama. Obras, maquinaria pesada em laboração. Uma casinha térrea, antiga, a ser demolida. Do outro lado da rua um punhado de mirones testemunha a demolição.

Não detive o passo – nem por curiosidade técnica, que engenheiro não sou, e porque dançava no ar uma fina camada de poeira golfada pelo restolho. Sem deter o passo, reparei numa mulher que estava impressionada com o aparato, atónita com destruição a que assistia. De repente, desviou o olhar das pedras amontoadas que já desnudavam o interior da casa. Enquanto acenava a cabeça, não sei se em tom de reprovação ou se apenas pela impressão causada pelo acto destrutivo, percebi-lhe um estremecimento. Arrepiara-se com a facilidade com que a pá da máquina devastava uma casa onde outrora vivera uma família. A prova de como o acto destruidor se consome num instante fugaz, no contraste com a demora que leva o acto construtivo.

Sem parar, impressionei-me com o estremecimento da mulher. Sem arriscar adivinhar, não me parecia antiga proprietária da casa derrubada. Ou o arrepio que lhe percorrera o corpo havia de ser trespassado por um choro lânguido. Os passos nos paralelos frios da calçada eram transidos pelo estremecimento, como se nela houvesse um grito interior de revolta. Como se quisesse protestar contra a destruição da casa onde se acumulavam décadas de vida.

Enquanto passava ao lado da máquina que não cessava a sua impiedosa marcha contra os já escombros da casa, olhei fugazmente para a direita. Uma espessa camada de pó vogava sobre a nudez da casa, entre as paredes reduzidas a escombros e a nudez desvelada pelo telhado que acabara de ser desfeito. No lado mais distante da rua ainda aguentava, estóica, uma parede. Percebia-se, ao olhar para dentro da nudez da casa, que estava desmobilada. Num instante, fui envolvido por um amplexo de interrogações: que vivências acolheram aquelas paredes, que pessoas fizeram vida dentro daquela casa, quanta felicidade, ou quanto fel, se passearam no chão da casa. Todas as interrogações depostas diante das engrenagens da máquina pesada, que vomitava um fumo espesso do gasóleo tragado para dentro do motor enquanto prosseguia a função, comandada por operários e engenheiros que se apressavam friamente na tarefa.

Os engenheiros e os operários decerto sem formularem as mesmas interrogações. Ocupados com a tarefa, sem se darem conta de como a pá desapiedada avançava, esventrando o que outrora fora lar de uma família. A voracidade da especulação imobiliária não se compadece com o lirismo inconsequente. Diriam que a família morrera, ou se mudara para habitação mais confortável e moderna. E que aquela casa antiga, afundando-se às mãos da pá desapiedada da máquina que semeava destruição, daria lugar a habitação mais moderna, mais confortável. Diriam: que o bulldozer possuído por uma frieza mecânica selava um acto, pequeno que fosse, do progresso que move a humanidade. Salvífico, portanto. E de quantos actos destes o mundo inteiro é testemunha, todos os dias?

O estremecimento da mulher era a caução da complacência pela casa que tombava com celeridade às mãos do bulldozer. Não sei se vizinha de longos anos, choravam-lhe as entranhas pela nova geografia da ruela, despida de uma casa que se habituara a ter como companhia. No seu estremecimento, gritava o desassossego que lhe incendiava as veias. Penhorava a modernidade que a máquina se propunha a aplanar onde horas antes se erguia a casa, antiga e abandonada, mas património daquela ruela. Ela sabia que a cada fragmento das paredes que se esboroavam pela acção maquinal do bulldozer diluíam-se as memórias resguardadas pela intimidade da casa. Perdiam-se, as memórias, na máquina que se aprestava a refazer o futuro daquele espaço.

Com o seu estremecimento, não parecia a mulher convencida da triunfal marcha do progresso – ou da especulação imobiliária, caso o registo pessoal a trouxesse por activismos desse jaez.

5.11.07

Um estranho caso de optimismo antropológico


Não sei se criatividade é inventar histórias impensáveis, onde se procura temperar a realidade com fantasias próprias de ficção científica, e esgotar o filão nos roteiros que passam para as telas do cinema. O registo dos filmes que dominam o circuito comercial insiste no filão. Há filmes que se desdobram em fantasiosos enredos que puxam pelos galões da imaginação futurista. Filmes com invasões de extraterrestres, ou teorias da conspiração em que os extraterrestres se escondem em corpos humanos para estenderem um império que há-de liquidar a raça humana. São um pasto interminável para os argumentistas.

Fui ver “A invasão”, protagonizado por Nicole Kidman. Uma trama que começa com uma tragédia: ao entrar na atmosfera, o Space Shuttle desintegrou-se. Os destroços espalharam-se por um vasto território. Havia anónimos entrevistados que confessavam ter tocado nos detritos, sem perceberem o risco de contaminação que corriam. Eis a chave do filme: os detritos da nave traziam um esporo resistente ao calor e capaz de se reproduzir, dentro do corpo humano, a uma velocidade estonteante. A contaminação acelerava-se a um ritmo exponencial. O vírus instalava-se dentro das pessoas e transformava-as em estranhos. Por fora eram as mesmas pessoas. Só que, por dentro, o vírus desumanizava-as: diluía as emoções, passando os rostos a desfilar pelas ruas numa inércia de expressões que denunciava quem já tinha sido contaminado; e transformava o organismo, extinguindo-se a transpiração.

Paradoxalmente, em pano de fundo passavam imagens de noticiários dando conta de um clima de desanuviamento mundial. Antigos conflitos sanados, países párias que finalmente assinaram tratados de desarmamento nuclear, negociações para apaziguar conflitos antigos que desatavam o nó do impasse. De repente, os líderes mundiais estavam em lua-de-mel com a concórdia. Tudo isto enquanto o vírus se espalhava, tomando conta dos humanos num processo que terminava com a sua desumanização. Quem era contaminado entrava numa sinistra confraria de rostos impávidos, desprovidos de emoções, um exército de autómatos sob a forma exterior de pessoas, quando pelo interior a mutação genética havia tomado conta delas, diluindo o que havia de humano.

Como era de adivinhar, tendo em conta que no ecrã passava uma trama hollywoodesca, à medida que o drama se encaminhava para o zénite, mais se adivinhava que no final tudo se haveria de compor. Ainda que a certa altura o abismo esteja mesmo ao lado dos bons – a psiquiatra protagonizada por Nicole Kidman e o seu filho, que por ter tido uma espécie rara de meningite era imune ao vírus – o sossego percorre os espectadores, habituados a que os “maus” sejam condenados ao insucesso, deixando o terreno para a saída triunfal dos “bons”. E apesar do cerco montado pelo exército de contagiados pelo vírus mutante, os heróis são salvos por um helicóptero providencial onde viajavam cientistas que sabiam que no organismo daquela criança habitava o antídoto contra o vírus que estava a desumanizar a espécie humana.

O epílogo está reservado para depois da devastação de automóveis durante a fuga da psiquiatra e do filho em direcção do salvífico helicóptero (e dou-me conta que a indústria cinematográfica de Hollywood é, pelos dias que correm, um porta-estandarte da causa ecológica: é só ver a quantidade de veículos que vão para a sucata depois da rodagem de filmes onde há perseguições frenéticas. Automóveis que deixam de circular, abatendo-se o activo de veículos que contribuem para a poluição atmosférica). Num salto no tempo, passam imagens de helicópteros aspergindo a vacina que permitia às pessoas infectadas recuperarem a humanidade perdida. A humanidade estava salva. Ao mesmo tempo, regressam imagens de noticiários com o recrudescimento de guerras e o fervilhar de um sentimento de discórdia entre adversários que, em breve, prometem ser inimigos de armas em riste.

Enquanto a humanidade estava a ser contaminada pelo vírus mutante, desumanizando-se, um estranho sentimento de concórdia varrera dissensões e conflitos do mapa. Depois de o vírus ter sido derrotado, a humanidade de regresso à sua essência. Com a apetência para a desordem, a insegurança, a divergência que em breve semeia a guerra. Para o final ficava reservada a subliminar ideia de que mais vale a humanidade com todos os seus defeitos do que uma humanidade geneticamente transformada, mas inteligente ao ponto de perceber que as guerras são a autofágica deriva que mergulha a condição humana num suicidário beco sem saída.

Não fiquei convencido com o optimismo antropológico. Faz-me lembrar os patriotas caseiros, convencidos que são preferíveis os defeitos dos portugueses (e são muitos) às virtudes dos outros povos.

2.11.07

Para um feminismo de pacotilha


Tive que falar da volatilidade dos valores que entram a escala de prioridades das sociedades. Para comparação, sirvo-me do enxovalho a que as mulheres são remetidas nos países islâmicos mais radicais. Há um aluno que me diz que isso não é bem assim, que ele até esteve “na Arábia” (venho depois a saber que “a Arábia” é o Dubai). Perante a minha perplexidade pelas suas palavras, emendou a mão: “para mim a mulher é uma flor. Uma flor”, lançou, enfatizando a repetição. Ao mesmo tempo que o fazia, o tom de voz escorregava para um cinismo marialva.

Um pouco confuso com o desassombro do jovem, apanhado de surpresa com a inversão táctica que operara – tão depressa negara o papel aviltante reservado às mulheres nos países árabes, como confessara que as trata como “flores” – só consegui dizer: “não sei se isso é bom ou mau para as mulheres”.

O discurso de género encerra os predicados que enlameiam os fundamentalismos. As feministas exacerbadas perturbam-me. Para elas tudo está mal, como se ainda vivêssemos presos a uma grotesca desigualdade de sexos, tal como nos tempos, quiçá, dos nossos bisavôs. Insistem em beneficiar da “discriminação positiva” que julgam exigência de uma sociedade que ao longo da História foi pouco simpática com a mulher. Mas depois são capazes de se indignar se um homem, querendo ser cavalheiro (oh! odiosa e anacrónica condição) lhes cede passagem quando franqueiam uma porta. Protestam, julgando que a deferência é apenas uma manifestação suplementar de tratamento desigual que os masculinos espécimes lhes reservam.

Há o outro lado, tão deplorável como as incansáveis feministas: os machões que destilam um gelatinoso marialvismo. Alguns não escondem que a mulher é um ser inferior. Gabam-se de as tratar à medida dessa inferioridade. São capazes de proferir despautérios que, ao menos, destapam as águas lamacentas da inteligência em que rastejam. Dizem que elas gostam de ser maltratadas. Fazem gala em discursar sobre a coisificação da mulher, pois ela foi criada para ser submissa ao homem. Santificam a consorte e reservam para as rameiras que visitam com frequência os devaneios carnais, sem sequer perceberem que a santa que fica em casa perde a santidade a partir do momento em que nidificam no circuito do alterne. Se preciso for, esbofeteiam a santificada consorte quando, no calor de uma discussão, perdem a força da razão e escorregam para a razão da força.

Serão eles que, naquilo que julgam ser sábios momentos de discernimento, soltam as palavras que enfeitiçam as donzelas desprevenidas: “a mulher é uma flor”. Algumas, porventura distraídas, hão-de ficar encantadas com a poesia de algibeira. Podiam ao menos interrogar: o que pode um homem fazer com uma flor? Pode arrancá-la da raiz, deixando-a num estado vegetativo enquanto definha ao embelezar temporariamente uma sala. Olham para a flor, embevecidos, garbosos por ostentarem a airosa flor que semeia os vestígios da estética no compartimento que a acolhe. Olham para a flor e nem percebem que a estão a condenar ao sofrimento angustiante, à morte lenta, ainda adiada enquanto a flor se saciar na água à espera de ficar fétida.

O lado contrário, que compactua com as reivindicações das exaltadas feministas, é loquaz na patetice. No afã de satisfazer as exigências que marcam a agenda da “discriminação positiva” que as feministas reclamam, aceitam medidas que deixam no ar o cheiro à pólvora que acabou de ser disparada no sentido do próprio pé – de quem toma essas medidas, mas sobretudo das feministas que se comprazem com elas. Um hipermercado recém-inaugurado em Santa Maria da Feira distinguiu-se pela insólita construção de um espaço no parque de estacionamento só para as condutoras. Mais espaço para cada automóvel que tenha senhoras ao volante e um sinal identificativo de estacionamento para senhoras – como há sinais de trânsito que reservam lugares para deficientes.

Chamem-lhe “discriminação positiva”. E aplaudam. Estou mais convencido que este laivo do cansativo politicamente correcto não passa de mais um acto que vem estigmatizar as mulheres. E como entretanto ainda não li palavras de protesto das feministas mais militantes, julgo que elas estão contentes com a estigmatização. Só ainda não percebi se por distracção ou por ignorância.

1.11.07

Depois – ou a religiosidade do porvir


O desencanto tingia o sabor que tomava conta da boca. Havia um persistente fel irradiando das veias, subindo desde as profundezas das entranhas. Sempre que mergulhava no tempo lá atrás era assim que se sentia. Um travo amargo, uma dor intensa apoquentando o peito, o desassossego pelo tanto que havia por cumprir e que a deriva pelo tempo de antanho mostrava.

Só tinha uma compensação. Uma inexplicável esperança que os dias sucessivos fossem santuários do cumprimento de si mesmo, o atingimento de uma plenitude que era incapaz de definir. Era o seu alento. Quase adivinhava que algures amanhã, próximo ou ainda distante, os dias iriam clarear. Vivia anestesiado pela virtude dos dias incógnitos. Uma religiosidade atípica, paradoxal até – ele que não se cansava de mostrar desdém por deuses, santos e irracionais dedicações à religião. Não se dava conta de como a religiosidade que nele brotava era isso mesmo, religiosidade. Uma fé cega, na ânsia de dobrar o cabo das vicissitudes, de partir em demanda de um outro jogo de espelhos que trouxesse as pétalas magnânimas, o perfume sublime da vida clara. Não sabia: se era religiosidade, ou apenas o cansaço do alvoroço a que se entregava permanentemente.

Recusava mergulhar no tempo ido. A cada ano dobrado, eram menos os momentos em que reavia imagens, palavras, pessoas. Não queria empurrar a avalanche dos sobressaltos que o dedilhar das páginas encardidas alimentava. Em cada dia, esperava pela parte de leão que – sabia-o, com convicção – estava à esquina dos dias vindouros. Como se houvesse uma divindade qualquer que velasse por ele, ou apenas uma ilusão empedernida que assegurava o desfazer dos dias angustiantes que o deixavam exangue. Debatia-se com uma imagem que vogava em seu redor, incapaz de a reter com as mãos: uma espada sobre a cabeça, a urgência em se desfazer dos instantes consumados, como se isso fosse a centelha de um porvir repleto de cores diferentes.

A fé inabalável era um refúgio de si mesmo – ou daquilo que tinha sido outrora, renegado esse passado. Procurava no futuro a redenção do passado. No circo da vida era como se houvesse dois palcos diferentes. E ele com um pé persistente no palco tingido de negras cores, as cortinas descerradas para passar os olhos pelas imagens resgatadas do que já acontecera, ocasionalmente cerrando os olhos, outras vezes sem força que não fosse para os baixar numa genuflexão sobre si mesmo. O outro pé no palco admirável, o que anuncia os dias que hão-de ser, aragem refrescante que povoa odores que extasiam, paleta de cores admirável, coreografia de corpos e palavras que trazem o sabor apetecível da vida. Uma esperança ao mesmo tempo alento e candeia feita de um fogo-fátuo.

A cada passo que tecia no tear do oblívio do passado, havia redenção. Interrogava-se se não havia engano a si mesmo: se a confiança inexplicável no sabor adocicado do porvir se resumia à urgência em refazer o tempo que doía resgatar, um pretexto para olhar em frente sem vacilar sequer quando impulsos interiores convocassem a visita a outrora. Afinal, não uma religiosidade reprimida a dançar por dentro de si. A impaciência pelo amanhã era a urgência em arremeter contra o tempo deixado lá trás, como se houvesse mister de o obnubilar, entronizado o lugar para o devir mais pródigo.

Havia cansaço, muito cansaço permeado pela inquietação das cicatrizes. Queria sair do espartilho do rio estreito que havia navegado lá atrás, com a foz sempre à vista, o alento do vasto oceano pronto a recolhê-lo no remanso das águas fluviais que se aprestam a deitar-se nas salgadas águas. Logo ali, que o rio se alargava e já não amordaçado pela camisa-de-forças das margens alcantiladas das rochas graníticas, logo ali que à sua volta a planície recebia nos braços o rio amansado, ali que se anunciava o devir de navegar nas infindáveis águas marítimas, debatia-se com a sua prisão maior. O mar à vista e ele assoreado, incapaz de dobrar a fronteira que separa o rio do mar – o fio tão estreito entre o tempo ido e o que há-de vir visitá-lo.

Não era religiosidade do porvir. Era ilusão, apenas, uma doce ilusão pontuada pelo cansaço que já o deixava inerte, preso aos sonhos a que se entregava no convencimento de que um amanhã qualquer viria embelezar a existência. O refúgio dos dias armazenados era um castelo de sonhos.

31.10.07

A guilhotina do tempo


Um relógio – paradoxal objecto. Tanto é obra de arte, o pináculo da estética, a admirável peça que carece meticuloso empenho dos artífices que nunca têm a vista cansada de tratarem como filhos os relógios que criam. Como é carrasco das ilusões, o ditirâmbico porteiro das oportunidades que se lamentam pelo desperdício, ou pelos planos que não escapam do papel, dos projectos cerceados porque a foice da morte tombou, pertinaz.

Há nos relógios uma dança descompassada. A voragem dos segundos que se atropelam na sua velocidade incessante, acamando os minutos, as horas, dias, meses e anos que fazem uma vida. São apenas os juízes do valor que damos ao tempo que nos foi oferecido. Uns juízes especiais, desapossados de poder de julgamento sobre as acções e omissões de quem passa pelo crivo do tempo. E somos todos, mesmo os que se convenceram que são alienadas personagens do mundo que há. Não são os juízes do tempo nossos carrascos: somos nós, com a dom de dar utilidade ao sempre escasso tempo diante das mãos.

A uma dor não consigo descobrir arte de iludir: os relógios distribuem a claridade que separa a gratificação da amargura, do que não houve mercê de alcançar. Uma prisão angustiante, quando o tempo parece voar, supersónico, sem dar conta que obedece à mesma bitola. Só que às vezes apetece acreditar que há um qualquer arquitecto do tempo que nos engana, ao chegar o periódico acto de calibrar a balança que faz mover os ponteiros do relógio. Umas vezes os minutos escorrem lânguidos, numa exasperante lentidão, quase a sensação do tempo ter sofrido de uma inércia doentia. Se preciso for, logo no dia seguinte desagua uma enxurrada de tarefas e os ponteiros do relógio dir-se-ia que aceleram como se houve temor que o mundo fosse terminar amanhã.

As masmorras que me amordaçam são os relógios que ostentam os ponteiros cadenciados. Queria, por vezes, que eles parassem, por uns instantes que fosse. Há momentos que merecem imortalização, que exigiriam uma suspensão dos ponteiros, o tempo emoldurado para beber tais momentos em toda a sua seiva. Há também o seu contrário. Ocasiões que queria banidas do tempo, como se houvesse um salto que transportasse os ponteiros para uma folha mais adiantada do calendário. É da tirania do tempo que não há mister de me libertar. Pudesse convencer-me que os dias e meses e anos escorrem com a velocidade milimétrica de um relógio atómico e perderia o rasto ao dilema dos relógios que martelam o sossego do espírito, constantemente. É daquelas coisas que me é superior. Seja pelo temor da morte, seja pelo chão viscoso que piso quando há o descuido de espreitar por detrás do ombro, numa revisitação espúria do passado.

Não é o tempo ido que carece de atenção. Esse, já feito, não se repõe. Onde os relógios trazem a sua dilacerante voz é no porvir que o andamento dos ponteiros anuncia para depois. Não é aquele passo de um segundo para outro, em qualquer quadrante do relógio, faça dia ou faça noite. É tentar olhar por cima das ameias do presente e pressentir o impossível – as pontas do novelo que se compõem, ou noutros casos se descompõem, quando a marcha dos ponteiros anuncia a chegada do amanhã por que se espera.

É nesse exercício de paciente espera que tropeço nas armadilhas semeadas pelos relógios endemoninhados. Que se tece a ponte entre passado inerte e o devir, à mostra um tremendo cadafalso para onde é fácil resvalar. Rever paisagens marcantes, tão marcantes que se avivam na memória. E interrogar se algum dia serão revistas, ou se há-de chegar primeiro a despedida fatal. Deter-me diante da colecção de CD e reparar em discos já não ouvidos há longos anos, para logo a seguir permitir a interrogação incómoda: algum dia voltarei a escutar esse CD? No entanto, estou inerte, ali, diante do CD como se ele, na adivinhada improbabilidade de audição, chorasse pelo tempo escasso que impede uma vez, uma vez só que fosse, inundar a sala com os seus sons. Ou o lamento por mim, à míngua de ponteiros do relógio que permitam a revisitação aos sons já remotos.

Eis a sublime guilhotina do tempo, irremediável, com uma envenenada candura. Quantas são as coisas feitas, ou as palavras ditas, manifestações de arte testemunhadas, lugares visitados, pessoas encontradas – quantas são as vezes em que isso acontece pela última vez, mesmo que o percurso a palmilhar até ao abismo seja demorado? E que interessa que volte a existir repetição tardia, ou não, de tudo?

Há retóricas que pertencem ao património genético da personalidade. Nem que seja um profundo hiato a separar a retórica da sua consagração. Faço do “carpe diem” lema. Não demoro, todos os dias, a cultivar a negação do lema, afinal fogo fátuo que preenche o cardápio das boas intenções. Preso ao cardume do tempo incerto, às voltas com as fendas abertas entre o tempo ido e o que está para assentar, consigo tudo menos viver cada dia que passa, um de cada vez, sem repousar na almofada com os sinos eufóricos que troam as incógnitas que só a sentença derradeira permite aclarar. Até lá, fico sentado diante dos CD, quase sempre sem vontade para regressar a discos que não voltaram a tocar desde há largos anos.

30.10.07

Envilecia

O tempo tecia a teia onde os vícios se amansavam. Dobravam os dias, densa a penumbra da experiência; julgava, até, que os anos acumulados, todas as decepções arquivadas e náuseas pelas entediantes curvas do mundo, eram lugares onde empedernia. As coisas passavam-se ao contrário. Contra as suas forças, contrariando a geometria da indiferença, notava uma consumição da alma pelos desatinos que esbarravam no peito. Reagia: a amargura destilava, abundante, espreitando de lado para os eventos que os dias ofereciam, gravitando na órbita de um implacável pessimismo da espécie.

O pior é que discernia envilecimento. Porventura, ingrediente da reacção contra o funesto que emergia do fundo do lodaçal, a espuma fétida que provocava náuseas repetidas. Envilecia não por maldade inata. Envilecia, porque as rugas e os cabelos brancos eram prova do desfalecimento diante dos olhos que o fulminavam, mesmo que os raios troantes nem lhe fossem dirigidos. Era deles vítima. Todos os dias eram dias de tempestade, com a feérica trovoada a despejar relampejantes raios que o feriam. As feridas sempre abertas, as tempestades constantes impedindo a cicatrização.

Quase desaprendera de sorrir. Muito do tempo era pasto para o desassossego que abria ainda mais feridas, um choro interior interminável. Descobrira um deserto de emoções a corroer-lhe as veias, dissolvendo o sangue num soro transparente, uma errante rota com os passos trocados, sem perceber se havia destino perseguido ou apenas o vogar aleatório. Umas vezes no conformismo de ser empurrado pelo vento dominante. Outras vezes na teimosia de remar contra as fortes águas sopradas do mais profundo por marés imparáveis. Às vezes olhava no espelho e não reconhecia a face que espreitava do outro lado. Era um estranho dentro de si mesmo. Quando olhava para trás e fazia o rescaldo da vilania a que se entregava.

Uma força incontrolável apoderara-se dos sentimentos, dos sentidos, dos gestos. Comandava as palavras. Quantas vezes dava por si a terminar frases que eram sentenças avassaladoras para quem menos as merecia. E por mais que houvesse impulso para a retractação, a exculpação tardava até que perdia oportunidade. Ganhavam espessura os traços odiosos que tinham o condão de afastar quem lhe queria bem. Os afectos perdiam-se no seu rasto, a cada passo mais ténue, já quase uma distante memória. Do mais alto de si gritava uma inexpugnável e fria parede de aço, um castelo impenetrável de onde fitava a sua solidão.

E, contudo, sabia: que a deriva pelo envilecimento, o roteiro das emoções ausentes, o ensimesmar suicidário, tudo era o funesto oceano onde navegava. Nada apascentava o bem-estar interior. Simulava soluções para provocar o reencontro com o que julgava ser o seu eu autêntico, aquele que aprendera a conviver consigo nos anos demorados. Mas desconfiava: que arrepiara caminho pela artificialidade da terapêutica, como se fugisse do lugar onde se acantonara e assim fugisse de si mesmo, daquilo em que se havia transformado, sem certeza de regressar ao que era – nem sequer com a certeza de que lá desejava chegar. As sombras negras não desistam de preencher o horizonte. Para onde quer que olhasse, pontuavam as dúvidas lancinantes, interrogações que se sucediam com voracidade, suplantando as respostas que não passavam de esboços.

Algures por entre a desorientação impante, amordaçado pela tempestade cerebral que o domava, os pontos cardeais esfumavam-se na penumbra. Cada passo, dado com hesitações, comandado pelas dúvidas do terreno pisado. Em redor só discernia uma plúmbea atmosfera que impedia retratar os rostos, as casas, as ruas, as árvores. Podiam ser notáveis os campos de flores que se estendiam na frondosa paisagem, que o nevoeiro que repousava diante de si ocultava a visão plácida. Em vez das cores garridas e do perfume das flores, apenas a angustiante ausente claridade que o acometia à labiríntica existência.

A certa altura perdera a noção das certezas. E até o envilecer metódico se estremunhava num dilema: apenas reacção hostil a um mundo condoído, ou já inércia que o domava, transformando-o em protagonista do seu mundo entregue nos braços do opróbio incontrolável?

29.10.07

Jogos de guerra


Há quem se entretenha a brincar às guerras. Arranja-se um grupo de amigos, de preferência com a colecção inteira de filmes do Rambo, Vandamme e outros espécimes que consagraram a violência como “arte”. Gastam-se verbas absurdas na compra de material bélico. E vão juntos para o mato, equipados a preceito e com o sangue a ferver na ânsia de disparar uns tiros que causem “baixas” entre o “inimigo”.

Os “camaradas” afirmam que o jogo de guerra em que participam é um acto de nobreza. Explicam-se: usam armas sofisticadas, tal como se estivessem numa guerra a sério. A única diferença é que as munições são a fingir. Por mais que ali destilem um inexplicável (para mim) sentimento de violência gratuita, sabem que passariam dos limites se o jogo se confundisse com realidade e, no rescaldo, houvesse feridos e mortos a contabilizar. Não podendo as munições aleijar os jogadores, entre eles existe um código de honra. Têm que honrar o compromisso de se darem como baixa assim que são atingidos pelo “inimigo”. É isto que significa o acto de nobreza.

Há quem se contente com pouco ao explicar conceitos. Há aqueles cuja estreiteza de vistas não deixa alcançar mais longe, ofuscando lados escondidos dos conceitos que usam. O que me deixa atónito é empregar-se a palavra “nobreza” para caracterizar um jogo que é a negação de qualquer sentimento positivo. Se dúvidas houvesse, bastava escutar os testemunhos excitados de alguns dos participantes na refrega. Equipados a rigor, com fardamento militar e caras pintadas com as cores esverdeadas escuras apanágio da tropa, falam como se estivessem embrenhados num palco de guerra. Linguagem bélica e tiques de disciplina militar. A pose de combate, enquanto se esquivam entre a vegetação rasteira, de arma em punho, as botas escorregando pelo terreno lamacento. Sempre atentos à possibilidade do “inimigo” aparecer de surpresa para um ataque que pode liquidar os contendores do jogo.

Faço uma derivação por uma notícia que tinha lido horas antes. A propósito da violência nas escolas, um inquérito à população escolar revelou que dois em cada três alunos confessou já ter envergado arma de fogo dentro da escola. Reúno as pontas do novelo. Misturando as imagens de violência gratuita que escorrem com frequência de filmes que sagram o género – os tiros de rajada, explosões que dilaceram corpos e coisas, bonecos que se despedaçam figurando a ausência de valor da vida humana, como se ela valesse tanto como um pacote de arroz ou um quilo de cenouras. E há os videojogos que levam o género ao limite. Mata-se a eito, como se as vidas das personagens que aparecem pela frente fossem escolhos descartáveis, apenas coisas que se pode liquidar com uma frieza lancinante.

Há alturas em que a ingenuidade é indeclinável. Há pouco fiz alusão à desvalorização da vida humana na bolsa das coisas – sim, das coisas, que por andar de rastos só apetece assim qualificá-la. Quando se brinca às guerras, partindo à caça do “inimigo” para o liquidar, é disso que se trata. Apoucar a vida das pessoas. Ainda que tudo não passe de uma simulação, o seu simbolismo encerra o significado do que se passa à nossa volta. Há quem não hesite em esmagar a vida de outrem, como se fosse um percevejo que incomoda e é calcado impiedosamente. As guerras a brincar são a transplantação das guerras a sério, com o grau zero de dignidade, em rigor, a inanidade elevada ao expoente máximo.

Aos valentes que fazem lazer com os teatros de guerra simulados, dois conselhos. Primeiro, umas consultas de psiquiatria. Para avaliar os distúrbios de personalidade que alimentam esta perversão de valores. Porventura a terapêutica consistirá em leituras assíduas, visitas a exposições de arte, espectadores regulares de peças de teatro alternativas, cursos de culinária, voluntariado que acalme o espírito. Pode suceder que nem assim a cura se consiga sobrepor à enfermidade mental que os apoquenta. Aí sobra o segundo conselho: façam as malas, emigrem para um teatro de guerra, daqueles onde as balas disparadas são a sério, onde as emboscadas se sucedem no instante que menos se espera, onde os corpos se desfazem em mil pedaços. Que pulem de teatro de guerra em teatro de guerra, perseguindo um trilho de sangue e morte e bombas e tiros disparados em abundância. Até que chegue a sua hora. Ao menos terão o prazer supremo de morrer num campo de batalha - a sério. Naquelas cabeças muito estreitas não haverá objectivo mais alto na vida.

Não consigam derrotar a patologia, o segundo conselho traz-lhes outra vantagem: soube há tempos que os mercenários que vagueiam de guerra em guerra são pagos a peso de ouro (cerca de novecentos euros por dia!). Mão-de-obra com elevada qualificação, portanto. Quando soube deste preço da carne para canhão das guerras, saltou a certeza de que o mundo ensandeceu e não se lhe augura panaceia.