14.10.21

Marca registada

Bonobo, “Rosewood”, in https://www.youtube.com/watch?v=o86icu6iI2U

Esta é a minha pele. O seu sal, único. O sangue que corre em ebulição, mesmo quando o sono habilita a hibernação e suspende o tempo, irrepetível. Estas são as minhas cicatrizes. Um modo de ostentar as feridas de outrora, ou apenas uma mnemónica que coloniza o tempo vindouro. Uma marca registada, inconfundível. 

Todos somos inconfundíveis, portadores de uma marca registada, exclusiva. É o que determina a irrelevância da marca registada de cada um. Não se imagina a necessidade da diferença sem justificar como somos, à nossa maneira, peças únicas que coabitam no universo feito da semelhança. Apuramos os sentidos no caudal por onde somos testemunhas da nossa carne inconfundível. 

A marca registada transporta o selo da genética. Sendo úberes da semelhança (enquanto espécie), somos embaixadores dos atributos que são matéria exclusiva do nosso ser. Há quem confunda os termos da equação e preconize a aglutinação de todos nós sob o chapéu protetor do grupo. Supõem que o que nos distingue é uma minúscula gota de água no vasto oceano onde reside a espécie. Tendem a desvalorizar a marca registada que é a voz única de cada pessoa. Talvez o façam por esquizofrenia, pois não entendem a dicotomia entre a singularidade de cada um e a sua pertença a um grupo. Presos a um erro de raciocínio, condenam o ser pela sua exiguidade, forçando-o a atuar sob os auspícios de uma vontade coletiva que é tão difícil de apurar. Fingem não saber da singularidade que nos distingue de todos os outros. Fingem ocultar a validade da marca registada tatuada na pele de cada um. 

Sobre o seu olhar deita-se uma noite que se tresmalha, a negação do que neles se exprime na mesma medida em que o desvalorizam quando atestam a supremacia do grupo. Por mais que sejam forjadas identidades que sublimem a pertença ao grupo, não se sabe das marcas registadas que sejam sinónimos de grupos.

13.10.21

Comprador de milagres

The Rapture, “Sail Away” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=BpYUiJO8jTU

O mundo não acaba. A noite não povoa a pele com pesadelos arrepiantes. As palavras passaram a ser mais importantes do que (ó modismo irritante) os algoritmos. E o mundo é que não acaba, contra as notícias, infundamentadas, das profecias que semeiam apocalipses. As pessoas habituam-se a sê-lo. Continua tudo como dantes.

Contra as piores desesperanças, uns vultos acordam maldispostos e colhem do futuro ventos sorumbáticos que prometem más sementeiras. As pessoas amedrontam-se: enquanto os regentes, na sua melhor política de RP, ajuramentam tempos que são melhores quando vierem emparelhados com o futuro (mas “o mal é que o futuro nunca mais chega”, na voz seca dos escorraçados), os vultos teimam em ser agentes a soldo de distopias que açambarcam o futuro. E ele continua a dizer que o mundo não acaba. 

(Murmurando logo a seguir, sem que ninguém o ouça, que o mundo não acaba pelo menos enquanto ele puder testemunhar a favor do mundo.)

Os vigilantes estremunhados podem fingir que não se cansam. Pousam os cotovelos na madeira gasta que habilita a varanda do alpendre e escutam as vozes da paisagem. Sabem que a paisagem é a caução do mundo, o seu melhor rosto. À sua volta, as pessoas não se deixam hipotecar pelas persistentes notícias do mundo enlutado, ou dos maus hábitos que se saldam pela adulteração dos procedimentos ensinados pelos profetas da boa diligência. São compradores de milagres, mas não ostentam a condição.

Se ao menos se soubesse inventariar o chão minado, seria mais fácil acordar para as manhãs sucessivas. E ele diz, insistentemente, “o mundo não acaba”, muito embora esteja colonizado pelo que os profetas da boa graça apelidam como “maus exemplos” (sem alguma vez dizerem o que é um bom exemplo, só para termos os termos da comparação). O chão minado só é problema depois de detonadas as minas. Até lá, finge-se que o chão não é tutelado pelas minas. 

Os compradores de milagres parecem anestesiados. Só acordam da anestesia quando uma parte de si é expropriada pelas cicatrizes que o futuro teima em deixar, quando chega a sua vez. Talvez por isso sejam compradores de milagres.

12.10.21

Só as mentes pequeninas é que indagam sobre os que são maiores

David Bowie, “Absolute Beginners”, in https://www.youtube.com/watch?v=iCJLOXqnT2I

O plumitivo perora na televisão, cheio de certezas e com aquela pose ostensiva de quem sabe ser tutor de certezas muitas e incontestáveis. Sentencia: a banda x era a maior do mundo, mas agora está em decadência; à qual não será alheio o envelhecimento e, talvez, a fadiga e uma crise de criatividade dos músicos. Prossegue o julgamento: a banda x vai perder o lugar cimeiro para a banda y.

Que ao plumitivo não seja dado considerar que na música (e nas artes, em geral) a subjetividade mata à nascença qualquer imperativo categórico, não causa surpresa. Se o plumitivo se dá a conhecer pelas suas opiniões vinculativas, pela contundência do bolçado para consumo da audiência, sempre naquele jeito autoconvencido de quem sabe estar a falar de cátedra, não é de estranhar que ele torça (ou ignore, melhor dizendo) a inata subjetividade das artes e dogmatize com a chancela de quem aniquila a subjetividade interpretativa das artes (pelo menos, de toda aquela subjetividade que não estiver em concordância com a dele).

Esta é uma tendência que abona as almas pequeninas. Como são pequeninas, precisam de enaltecer a grandeza dos que, aos seus olhos, grandes são. É a compensação da sua pequenez. Como se, ao atestarem a grandiloquência dos grandes, estas almas pequeninas se escondessem do que são, furtivamente sonhadas na grandeza que em sonhos desejariam ser. 

O seu subjetivismo objetivo só os vincula a eles mesmos. Para bem de todos nós, e da espécie humana em particular, a subjetividade das artes não é hipotecada porque uns pacóvios decretam sentenças que a adulteram. E o pior é que, de tão apedeutas serem, estas almas pequeninas nem percebem que chegaria uma breve declinação nas frases sentenciadas para não caírem no logro do subjetivismo objetivado: era só complementarem a sentença com o humilde “na minha opinião” (des-sentenciando a sentença).

Mas as almas pequeninas nunca conseguem percebem o nanismo do casulo em que lobrigam. Até porque os grandes não precisam de se exibir como tal. Sabem que são grandes. O demais silêncio é a manifestação mais produtiva da sua grandeza. Admite-se que eles dispensam as almas pequeninas como suas embaixadoras. Ninguém lhes encomendou a incumbência.

11.10.21

Desta alma que na dor se não consente (short stories #363)

Rodrigo Leão, “O Método” (ao vivo na Antena 3), in https://www.youtube.com/watch?v=YYb2bIS-HDo

          Não é no sobressalto que se firma o húmus. A lucidez amarrota-se em teimosias várias, enquanto a pele entardece nas rugas que sinalizam a senescência. Porém, a alma fala mais alto. Alteia-se no miradouro onde todas as luzes se condensam. Estilhaça todo o mal que a procura como enseada. Não colhem as malfeitorias que ninguém pode jurar não terem sido cais. O consentimento só se apalavra no avesso dos contratempos afivelados numa má estação. Os pútridos lances não vão a jogo no leilão a que se deitam as almas. Para além dos labirintos, marejam os pesares inúteis que querem quadrar com o arrependimento. A alma cresce em força e murmura, repetidamente: o arrependimento é um pálido esteio; o arrependimento não se ensaia a não ser nos bocejos de decadência que ascendem desde um lugar recôndito. Em vez da lava diletante, a pele serve-se de tatuagens embebidas nos poemas ao acaso. Diz-se: um poema sempre é um poema – como se fosse a caução do que aparece inscrito na pele tatuada, o salvo-conduto que desaprova as superstições e os maus olhados que elas ousam combater. Estas são as almas sumptuosas, um barroco estar que não se alinhava pela jugular da simplicidade. Este é um palco onde se entretecem almas contínuas num consulado complexo. Não venham os gurus das coisas fáceis desmatar uma retórica esgotada. Desenganem-se, os gurus e quem os segue. A alma que é império de si mesma contém as estrofes que são pedras preciosas à procura de um paradeiro. A alma é esse paradeiro. Não precisa de inventariar muito mais, para além dos amores que se estimam como desmentidos da angústia. Não é uma alma escapista. É o verbo generoso que desautoriza as dores interiores. Seu é o consentimento para a diligente rosácea da vida.

8.10.21

Nunca dizemos adeus

 

Mogwai, “Ex Cowboy” (live in Sydney), in https://www.youtube.com/watch?v=JZORIYbiXcY

Nunca dizemos adeus. Nunca nos é dado o tempo certo para sabermos quando dizer adeus. Ou não há sequer um tempo certo para um adeus. Ou então, tememos os efeitos sísmicos de um adeus. Um rosto que não volta a ser visitado. Uma presença que se torna um eclipse perene. Ou a morte de um dos intérpretes do adeus de que se foge para dele não termos de fugir.

Nunca dizemos adeus e, contudo, não podemos atestar que um lugar visitado, um disco, uma página, um quadro, um filme, um poema, não voltam a ser palco para o nosso estar quando o futuro for desembainhado. Não dizemos adeus porque um adeus é sobre o definitivo e nós não queremos saber das costuras do definitivo. Devolvidos ao lugar presente, no miradouro de onde não temos vista sobre as marés vindouras, somos censores voluntários do adeus que se congemina. Calamos o adeus, não possa ele, possuído pela insubmissão, sobressaltar o nosso estar.

Nunca dizemos adeus porque nos situa num tempo de que não queremos ser mecenas. Pois o adeus confirma uma extinção e a extinção é o recordatório da efemeridade que nos assalta desde o fundo dos mais fundos pesadelos. Recusamos esse labiríntico pesar que nos consome o sangue são. Não queremos saber das derradeiras existências. Elas são o avesso da nossa finitude. 

Não dizemos adeus porque acreditamos que as portas ficam sempre abertas e podem ser franqueadas a qualquer momento. Um adeus encerra uma definitividade assustadora. Se levássemos a peito cada adeus que entoamos, era quase como se nos enlutássemos de cada vez que a palavra ecoa nas nossas bocas. Merecemos melhor do que um luto constante. O luto é a negação da vida. O adeus furtivo desmata um fingimento de que não nos exilamos. Um fingimento que disfarça a negação que nos consome, a negação de ver o tempo que nos pertence como matéria finita. 

Fugimos do adeus como fugimos da morte. Ou disfarçamos o medo do adeus pelas causas semânticas que são a ossatura da palavra. Nunca dizemos adeus porque o ateísmo, e o rigor semântico, nos impede de encomendar o que quer que seja a um deus sem existência. 

7.10.21

Intendência do mundo audaz

In "Festival – New Directors New Film Festival", in https://site.fest.pt/pt/

O homem seguia a eito pela larga planície em direção à montanha. Carregava a tiracolo uma espingarda e levava uma criança pela mão. Seria seu filho (pense-se desse modo, especulativo, para conveniência das deduções). Caminhava, resoluto, às vezes quase arrastando a criança atrás do seu passo acelerado. O céu plúmbeo insinuava uma tragédia por acontecer. O homem só era visível de costas. Não estava disponível a sua versão facial para se tirarem conclusões (ou especulações) sobre a representação fermentada no rosto.

Era do céu plúmbeo que se falava, não tanto do passo pesado, e aparentemente na direção de um precipício, do homem armado. Só as costas largas do homem e o rapaz franzino, que parecia ir contra a sua vontade, contavam. Ele há tantas formas de resolver pendências – lamentou uma alma condoída que partilhava a fotografia, mesmo ao seu lado. Fingiu que não era com ele, não devia retorquir. Falou com o silêncio. Era a vez do vizinho não importunar a sua atenção à exposição. E, assim como assim, não lhe tinha sido pedida a opinião. Eis que confluem dois lugares paradoxais: o direito a falar com o direito de não ser importunado pela fala do outro. O seu silêncio tácito resolveu o atrito que não chegou a ser.

Dobrou a esquina. Talvez a fotografia tivesse continuação e o resto da história ficasse patente pela sequência que se seguisse. Não era o caso. Era fotografia única. Foi a fotografia que ficou a pesar no pensamento quando regressou a casa no piso superior do autocarro. Era a que se prestava a uma dose reforçada de especulação. Uns lugares atrás, a conversa animada era sobre a mesma fotografia. Ele insistia que não deduzia nenhuma mensagem, nem adivinhava um desenlace. Ela era a ebulição hermenêutica. Tinha a certeza de que o suicídio era o fim da história narrada pela fotografia. As cores baças, emprestadas pelo céu plúmbeo, eram a legenda que a fotografia precisava.

Entrou em casa, depois de sair três paragens antes do normal, para não ter de testemunhar os alvitres da mulher frenética. No caminho a pé, desprazeu-lhe o ar quente e húmido que era inusual para o começo do Outono. Estava difícil alinhar uns pensamentos traduzíveis. As ideias borbulhantes da exegeta da fotografia abatiam-se sobre as cortinas que procurava afastar para resgatar um módico de compreensão do acontecido. Era como se a confusão mental se misturasse com o ar insuportavelmente abafado do entardecer e sufocasse de apatia.

Formulou a sua interpretação. O céu plúmbeo era um disfarce para conduzir o espetador comum à representação banal de uma caminhada a par para o suicídio. Contra a norma, nele habitual, desligou-se da tragédia. Pai e filho iam à caça. Era a iniciação deste pela mão resoluta do pai. O céu estava escuro porque haveria vítimas a contar entre o mundo animal. O sol não se põe por conta da barbárie. Essa seria a lição que o petiz teria para aprender. Ou a lição que ele queria aprender, se sua fosse a posição do petiz.

6.10.21

Martelo pneumático

God Is An Astronaut, “Remebrance Day” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=qmWhckCqs6w

Como é que se passa o tempo sem ser um passatempo? Não se pressentiam respostas que fossem um aval. Sem perceber o idioma da alma, nem encontrar tradução à altura, sentia que era um passageiro do tempo e dele seu refém. Não havia palavra pior, ou ideia pior, do que passatempo.

Às vezes, a meio de uma insónia, jurava que teria de desarmadilhar o tempo para dele não ser vítima. Tudo se passaria por fora dos relógios que eram o pior tiranete (se é que se pode considerar a hipótese de um tiranete benévolo). A quimera do tempo suspenso não é a morfologia da uma ilusão. Teria de ser o prefácio de uma profecia à espera de consentimento.

Tudo o que era provável não aderia à estrada que se inscrevia no seu paradeiro. Muito embora houvesse profecias ajuramentadas (como se um desejo não esperasse pelas contingências do incerto), os oráculos não eram a sua mortalha. Preferia a dureza da artilharia pesada – se, por artilharia pesada, se entendesse o martelo pneumático e a maquinaria afim que percutem no subsolo que é a carne que se enraíza, devidamente hasteada pelo sangue avivado. O tempo deixava de contar. Os relógios, todos exilados, deixavam de contar o tempo de que eram procuradores. Talvez o zero voltasse a ser o sinónimo de um alento.

O tartamudear do martelo pneumático revelava a manhã sem esteios. Ficava sozinha, a manhã, sem a proteção do orvalho que lhe empresta o lastro. Os verbos ofuscados lembram-se dos apeadeiros e devolvem ao mapa lugares que dantes eram um opúsculo de decadência. Se não fosse pela vertigem do futuro, o tempo deixara de ter lugar no vocabulário. Podia ser que chegasse para o esvaziar de significado. E o futuro não passasse do dia corrente.

Mas não contava com as mentiras herdadas de tempos anciãos. Há mentiras que não dependem dos mitómanos. São consumidos pelas circunstâncias que não dominam, nem fingem tolerar. Socorrem-se dos martelos pneumáticos para hipotecar o peso arcano das mentiras que se sopesam no avesso de uma alquimia. Ao menos, o tonitruante soar dos martelos pneumáticos não deixa as mentiras à mostra e promete a suspensão do tempo.

5.10.21

Lei das probabilidades

Moderat, “Reminder” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=Q1FQOqVYICY

O carrossel espreita pela ombreira, promete a vertigem inacabada. É como uma praia visitada por um tubarão, pese embora ninguém saiba das intenções do tubarão. Este é o maior exílio interior: desenhar, com a precisão da régua e do esquadro, as intenções presumidas porque, sendo presumidas, não são da nossa conta. 

Um dia contaram a história do velho que não deixava de montar a ruidosa motoreta no poço da morte. A audiência ficava extasiada com tanta audácia, o velho certamente tomado pelas forças exauridas desafiando a lei da gravidade. Alguém disse um dia, ao saber da rotina do intérprete do poço da morte, que era o homem que desafiava a morte. Todos os dias, que ele não tinha direito a descanso semanal. Não era a morte que o desafiava. 

Se algum dia fôssemos penhor de uma coisa qualquer, e se a pudéssemos escolher, que diríamos? Esta é uma das muitas perguntas sem serventia que os apóstolos das hipóteses tecem para matar o tempo. Que absurda expressão: matar o tempo. Como se não fosse o tempo o nosso algoz, quando sabemos, de fonte certa, que o gastamos sem nos podermos remir. 

Passamos pelo carrossel que só nós podemos retratar. Às vezes, demandamos precipícios como se por dentro uma irreprimível loucura nos comandasse. Como se pilotássemos uma motoreta decadente a desafiar a morte e a motoreta se embebesse na ferrugem inacabada. Não seremos dignos do tempo que nos foi encomendado. Despistá-lo como úbere de um fingimento é a confissão da nossa contumácia. Faltamos à chamada. Outros diriam, pesarosos, que no martírio da morte saberemos como delapidámos o tempo sem sabermos da sua urgência. Mas esses são os que contam presenciar as suas próprias exéquias. 

O tempo malparado não se cobre de lantejoulas quando a sua extinção foi selada. Com um pé no carrossel e outro no poço da morte, experimentados, seguimos o sortilégio que banaliza o bem maior. Perguntem ao velho do poço da morte se sabe dedilhar as sílabas da morte.

4.10.21

O rosto sem fronteiras

Idles, “The Beachland Ballroom”, in https://www.youtube.com/watch?v=t7aktt5cDqs

Aparecia cabisbaixo na fotografia, o rosto mergulhado sobre o chão, anónimo sob a sombra do chapéu. Era como se tivesse medo da luz que dominava o dia – ou medo do dia, de todos os dias. Para exorcizar o medo, escondia o rosto no véu proporcionado pelo chapéu. Quem o visse com demora, não conseguia desenhar a silhueta do rosto.

Contudo, era um rosto sem fronteiras. Os traços indistintos desdobravam as possibilidades. Podia ser um cenho fechado ou um sorriso disfarçado (incomodava-se com o sorriso da moda – o sorriso na moda – das estrelas artificiais da televisão, que até a dormir exibem um sorriso que tem tanto de perene como de ardiloso). Quem reparasse no rosto escondido pela sombra do chapéu, não conseguia desenhar os seus limites. Era como um mapa impossível, por ausência de bússola motriz.

Não se importava. Fazia questão de aparecer em público na companhia dos chapéus de que era tutor de uma farta coleção. Quando sentia que alguém o olhava de frente, tentando discernir a atalaia do rosto, descia-o para ficar sob a tutela da sombra do chapéu. Havia quem dissesse que era uma imagem de marca. Outros anuíam que o rosto semicerrado à mercê da sombra da aba do chapéu era o seu rosto a sério. Se dele se fizesse uma caricatura, só seria possível observar a boca e o nariz já apenas uma penumbra deitada sobre a esfera protetora da sombra do chapéu.

Podia haver quem protestasse contra a persistente sede de anonimato. Depressa condescendiam. Ninguém deve ser obrigado a oferecer a integridade do rosto ao desanonimato.

Um dia, precisou de renovar o cartão de cidadão. Apresentou-se na conservatória na posse de um chapéu indefetível. A funcionária advertiu que a lei obriga o rosto inteiro na fotografia do documento de identificação. Protestou. Exibiu o cartão de cidadão que estava quase a caducar: “veja a senhora pelos seus olhos, nesta fotografia apareço de chapéu. A senhora não me pode obrigar a revelar a totalidade do rosto se essa não for a minha vontade. Informe-me sobre a lei.”

Intimidada pela convicção do protesto, a funcionária permitiu a fotografia de um semi-rosto. Ela não conhecia a legislação do foro. Se fosse diligente nas suas obrigações, e se tivesse conhecimento de causa das leis, teria obrigado o rapaz a posar diante da câmara com o rosto como é só conhecido dos espelhos em casa. Ela não sabia das leis aplicáveis, nem sabia que o rapaz do chapéu permanente era perito na arte do bluff. Um farsante de corpo inteiro – e não apenas do rosto refugiado no disfarce contínuo.

1.10.21

Uma teoria sobre a abjuração dos heróis

David Bowie, “Heroes”, in https://www.youtube.com/watch?v=lXgkuM2NhYI

Este texto podia começar pela seguinte interrogação: quem precisa de heróis? Ou, talvez numa declinação, encerrar alternativa formulação: por que são precisos heróis?

É recorrente o sentir maioritário do povo que se apazigua quando, numa encruzilhada do tempo, um herói desembarca no palco onde todos convivemos. Os heróis serão necessários para desempoeirar o desalento que goteja na modorra que traduz os tempos normais. Ou para dissolver a ferrugem que se apodera das fundações que cimentam o grupo à custa de uma crise de personalidades que endossa um sentido de orfandade ao grupo. Os homens providenciais são bem-vindos. São eles que dão rumo ao futuro, inventando as oportunidades que estavam encerradas pelas sombras que se haviam apoderado do horizonte.

Quando as pessoas atravessam um período que se assemelha à confirmação de um apocalipse, a urgência de heróis é epidérmica e heurística. No meio da desorientação, do caos que magoa a mais funda ossatura, os homens e as mulheres salvadores são a candeia que promete extinguir as trevas instaladas. A pandemia encaixa-se neste retrato. Sobretudo quando as vacinas foram descobertas e começaram a ser inoculadas, inscrevendo na agenda mental das pessoas uma data para o lento regresso a alguma normalidade (da normalidade a que estavam habituadas). Impunha-se um plano para ninguém ficar para trás (entre os que quiseram ser vacinados). Era a franquia da muito prometida imunidade de grupo, à boleia das explicações técnicas dos peritos e de elas serem convincentes para a população restante. 

Ao início, foi escolhido um homem do aparelho do partido do governo para definir e comandar a estratégia. Não levou muito tempo a ficar patente a sua incapacidade (e os malefícios da endogamia partidária). Seguiu-se um militar da marinha que pôs o processo nos eixos. O país passou para o top das estatísticas da vacinação que nos punha longe do ferrão do vírus. O militar começou a cativar a simpatia da população. As declarações de agradecimento multiplicaram-se. A comunicação social, sempre atenta às preferências do povo, não ficou indiferente ao vice-almirante. A sua vida começou a ser esquadrinhada porque era preciso traçar o seu perfil. As entrevistas de cariz pessoal e intimista também conheceram os seus dias. O vice-almirante fundia a pose militar com a lhaneza de um homem que é tão homem como os outros, vulgares e cheios de fragilidades. A admiração pelo vice-almirante quase não tem precedentes. Seria preciso um grande esforço para lembrar tanta admiração por uma personalidade na História recente.

Para os que acreditam em deus, e para que que precisam de acreditar em deus, os heróis são os embaixadores de deus. Visto de fora, pouco os pode diminuir mais. A confissão da nossa fragilidade não pode alimentar o messianismo em que nos depomos. 

(Uma derradeira observação: não é um lugar confortável o exercício especulativo de nos colocarmos no lugar do outro, mas as lições da filosofia não se perdem quando a teoria teima em não corresponder à prática. Isto para especular – outra vez – o que faria se minha fosse a posição do vice-almirante quando sentiu a voz unânime que o entronizou na condição de herói e leu as hagiografias escritas a seu respeito. Não deixaria que os outros me colocassem nesse pedestal. Não me exporia assim, nem deixaria que outros assim me expusessem. E se insistissem, pela carência urgente atrás identificada, seria, se preciso fosse, de uma brutidão inapelável só para se convencerem que estou na antítese da heroicidade. Um homem não pode negar a necessidade de heróis nos outros se não recusar os apelos para que aceite ser herói.)

30.9.21

Déjà vu (short stories #362)

Limiñanas/Garnier (feat. Edi Pistolas), “Que Calor”, in https://www.youtube.com/watch?v=_hP3O-eVxJE

          São os paramentos que denunciam a condição. A voz afogueada que desmaia numa falsa serenidade. Dizem que não há foz para os rios rebeldes: do seu paradeiro não se diz nada, já não estão mapeados. Nada é insólito, ou sequer original. Tudo parece um torneio de lugares-comuns, em que as generalidades, entarameladas com banalidades, tomam conta do palco que a multidão quer frequentar. Em vez de peças de teatro que forçam o pensamento, preferem o pensamento afeiçoado. É menos custoso. Saber apenas dos meandros do conhecido é um nomadismo aceitável – sossegam-se em trejeito de sanação de hipotecas. As bandeiras visitadas são iguais às de antanho. Há anos que não inventariam palavras novas no vocabulário. As que desconhecem deixam estar nessa condição, abrir um dicionário é empreitada que exige consumições desaprováveis. Se pudessem repetiam os dias. Como se houvesse um ritual fixado em letra de lei e todos fôssemos cópia uns dos outros. Aos párias, o opróbrio geral em rima condenatória. Não se pode confiar em quem pensa diferente. O desalinhavo é doloso. Ferve numa sublevação distante que, se pudesse, desfazia os alicerces de tudo e dinamitava a argamassa que é conhecida de todos (e de que fazem bandeira). A previsibilidade joga-se contra eles e eles não sabem. A previsibilidade não é acautelada nas suas intenções. Não a admitem a jogo, são eles os tutores dos rituais que, de tão ensimesmados, já perderam a usura que se atribui aos rituais. Mergulhados no seu privativo abismo, exibem a falta de comparência ao mundo restante. Não é contratempo que os ilibe do sono. Por dentro da sua insalubre insciência, convencem-se que não é cadastro, mas sim exemplar nota curricular. Tão fadados para serem o que de si imaginaram ser, vivem a fugir da vida que não chegam a conhecer.

29.9.21

Matéria inconfundível, ou o abecedário dos fugitivos

No Words Left, “New Horizons”, in https://www.youtube.com/watch?v=MczXhiNxPn8

Falava-se de verbos fiduciários, a caução que todos diziam precisar para assinar uma folha em branco. Seria como deitar gelo fungível sobre a matéria combustível à espera que a febre deixasse de consumir os corpos. De outro modo, todos seriam fugitivos. E, desde o exílio, só ficariam em sossego se conspirassem contra a serenidade das marés que se deitam na esquadria da usança estabelecida.

Talvez não fosse preciso tanto. Podia nem sequer ser preciso o exílio se a fuga fosse apenas hibernação interior. O que se impunha era saber de que matéria são feitos os dissidentes incorrigíveis. Têm de costurar mentalmente a usura da matéria inconfundível, o seu magma condutor. Depois, na posse das referências que os situam na geografia, refugiar-se-iam no interior de si mesmos, herméticos às influências exteriores. Os outros não deixariam de ser os outros, mas sem produzirem as consequências de outrora. 

Não se trata de uma apologia da misantropia. (E que fosse: a misantropia não é crime e, muito embora não prescreva nos juízos morais, esses são a tradução dos barómetros usados pelos outros; são barómetros sem validade a não ser para eles.) Cuida-se da procuração para a afirmação de uma identidade. E a identidade, ainda que seja permeável aos mares exteriores e aos ventos deles exarados, é penhor da matéria inconfundível que nos torna únicos.

Alguém dizia, excitado pelos oráculos que destilam um porvir risonho baseado na bondade das pessoas, que o tempo se encaminha para a supressão do eu. Seremos – rematava o otimista de serviço – uma massa indistinguível, fautores de uma convivência sem beligerâncias nem confrontações espúrias. Seríamos uma massa indistinta, assente no binómio da supressão do eu e da privação das liberdades axiais.

No estreito canal que leva o caudal da identidade de cada um, as paredes narram histórias ancestrais de sangue vertido em combates por haver alguém que não tolerou a liberdade de um seu diferente. A matéria inconfundível é a impressão digital inapagável, que nem a reconfiguração dos conceitos e a reconstrução da História do futuro conseguem destruir. Pois há sempre uma válvula de escape: sermos fugitivos de um lugar onde nos sejam impostas baias que cerceiam o nosso ser. Mesmo que continuemos no mesmo lugar.

28.9.21

Quero, posso e posso

 

Working Men’s Club, “Teeth”, in https://www.youtube.com/watch?v=0ovHJ_NzHbE

(Nótulas de uma realidade paralela na ressaca das eleições autárquicas)

O país inteiro devia ser bordado com o estalão da casta e só os da casta (ou os que à casta aderissem, por gesto oportunista que seja) poderiam amesendar nos granjeios que o mecenas que nos tutela deixou em nosso bornal. E se, na primeira hora despois do sufrágio, os números neófitos anunciaram o que não constava sequer dos pesadelos da casta, era entrar em negação, esboçar discursos fátuos que almejavam arregimentar as hostes, como se fosse possível, através do risível postular de uma realidade alternativa, mudar a feição do sufrágio (ou convencer, à posteriori, os eleitores que não foram convencidos pela bondosa retórica da casta). Já que não se pode torcer os números até falarem o que queriam que eles falassem.

Pode-se puxar lustro aos números que conferem o total, como se o total escondesse as derrotas que calam fundo e doem mais. Invoque-se a filosofia, não a matemática: nem sempre quantidade se traduz em qualidade. Uma derrota cirúrgica no meio de um punhado de brilharetes banais ou inexpressivos faz com que o número menor morda mais do que o número maior. 

Parece que a recente moda dos vulcões (em poucos dias: Islândia, La Palma, Etna, Guatemala), com o caos intrínseco, se inseminou artificialmente entre nós e um triunfo que seria tranquilo se obnubilou porque os súbditos não esconderam do voto um certo cansaço dos regentes. Nem os logros, tão habituais em campanha eleitoral e com a cumplicidade do eleitorado passivo, ou a subida a palco do timoneiro, salvaram a casta de uma tremenda desilusão na ressaca do escrutínio. Para compensar, na noite da contagem dos votos uma matriz foi encomendada para o devir próximo: fomos informados – ou, melhor ficaria: fomos instruídos? – que se hoje fossem as eleições que mais contam a maré continuaria a ser a mesma e o patamar do absolutismo estaria a uma vírgula de distância.

Esta é a enseada para que fomos empurrados. Talvez cheire um pouco a mexicanização da política, com a casta numa deriva autocontemplativa, não longe de um endeusamento em causa própria, apontando para as várias alternativas com desdém – como quem faz a seguinte pergunta de retórica: é destes fracos que quereis as mãos no leme da coisa pública? 

Não é a demissão das alternativas que prospera. Este enredo manipulador é a luva que serve na mão dos inquilinos do poder. Mais importante do que o conto envenenado que nos é servido, com o beneplácito de um séquito de peritos e a passividade ou a conivência do séquito restante, é precatar a mexicanização do regime. A bem da saúde da democracia. Para não sermos ainda mais sequestrados com o quero, posso e posso a pretexto da fragilidade das opções. O vulto de D. Sebastião continua embebido nos escombros da História. Hoje, a casta é a tradutora pública de um sebastianismo que ameaça tornar-se endémico, como se a casta vigente fosse o mapa inevitável do porvir. 

Ainda a dramaturgia se compunha nos seus alvores e os habituais atores pedidos de empréstimo ao âmago do sistema desviavam a conversa dos muitos que praticaram abstinência democrática. É uma metade que ficou de fora. Os poucos que arriscam uma interpretação ilibam os atores do sistema, como se a culpa pertencesse apenas aos súbditos que se demitem do direito de sufrágio. Não se aprende nada com os avestruzes – ou talvez até aprendam muito, estes atores contumazes, pois são peritos em copiar os avestruzes e a poluir o frugal entendimento do cidadão comum. 

A culpa é dele(a), cidadã(o) comum, que não se motiva para o sufrágio, sem perceber os superiores predicados dos opositores ao sufrágio. Devia – quem sabe? – ser condenado(a) ao voto obrigatório, para não menosprezar a fonte da democracia. Ou – quem sabe, ainda? – devia ser penalizado(a) com uma sobretaxa no IRS por demissão dos deveres de cidadania. Só falta saber quando e em que circunstâncias se aplicaria o princípio da equivalência aos representantes quando fosse comprovado quão medíocres foram durante o mandato. Para não nos esquecermos do significado de democracia ao sermos condescendentes com a desigualdade entre representantes e representados.

27.9.21

Alma hipotética

Radiohead, “If You Say the Word”, in https://www.youtube.com/watch?v=vnhKaCjCIqM

A alma hipotética filia-se no cabaz das possibilidades. Ideia-se com os dedos avulsos que se subtraem ao ninho do tempo certo. Recusa a reprodução dos tempos vários que se somam na finitude da existência havida. A alma hipotética arma-se de hipóteses e as interrogações sucessivas são o seu ornamento centrípeto.

Se a alma fosse hipotética – pressente a alma hipotética que se agiganta na levedura de um ensaio – em quanto seria diferente da alma que lhe serve de equinócio? A alma hipotética é o avesso da alma que lhe dá origem? Para ser parte íntegra do elenco, a alma hipotética convoca um barómetro de dissemelhança. De outro modo, não seria uma alma hipotética, apenas o eco da alma conhecida.  

À alma hipotética só interessam as interrogações. São o seu ponto de partida e a escala onde o pensamento que se especula quer âncora. Através da alma hipotética, um ser pretende sê-lo de outro modo. Recusa o ninho columbófilo. Não quer que a alma especulada se enraíze na repetição dos dias e das palavras.

A alma hipotética precisa de uma arma. A arma hipotética desafora os preconceitos e as recusas militantemente ajuramentadas, que precisam de uma saraivada de balas para serem reduzidas a nada. A alma hipotética não consegue medrar se não forem destruídos os alicerces da alma que lhe dá origem. Apesar deste vínculo (sem uma a outra não tem fundamento), elas não se identificam. A alma hipotética é um desenho (melhor se diria, um esboço) com as latitudes ainda disformes, os rostos limítrofes que são silhuetas sombrias, as palavras que não se libertam do remoinho. 

A alma hipotética não tem paradeiro. Levita nas possibilidades que se desarrumam entre a ordem caótica que é mais um presídio – como se houvesse no tempo dado os interstícios quiméricos que ensinam segredos. Em vez das almas sextantes, a alma hipotética amotina-se contra o passado e não espera fundos do futuro em linha de espera. Pois ela não passa de uma possibilidade, fundeada num cais que não tem rima com esteios.  

24.9.21

Floresta dos sonhos

 

Max Richter, “On the Nature of Daylight (Entropy)”, in https://www.youtube.com/watch?v=b_YHE4Sx-08

A floresta povoada pelos sonhos estava à frente das mãos, pedindo a água que precisava para ser fruída. Os pés avançavam, sem temor, mas errantes. Parecia anestesiado. Ou inebriado pela vegetação luxuriante, ou apenas pela impressão de desmatar um chão nunca dantes pisado por almas humanas. 

Crismou-a como floresta dos sonhos. Naquela tarde, ao perder-se sem perder o norte, soube dos sonhos emoldurados graniticamente nos fiordes da memória. Inventariou-os. Deu-lhes arrumação, como se a floresta fosse a biblioteca dos seus sonhos e nela houvesse estantes criteriosamente escolhidas onde cabiam os sonhos em sua ordenação. Soube dos gatos fugidios, das palavras esquecidas, das pessoas movediças, dos amores e dos desamores, dos temores desarrazoados, das contrapartidas, dos laivos de diplomacia (insistia que a vida é um contínuo exercício de diplomacia), dos estuários demandados, das juras arrependidas – de muito mais que desfilou, em velocidade vertiginosa, diante da tela que se compunha no olhar.

O caminho errante levou a uma clareira. Era como se houvesse uma quarentena na floresta e, naquela clareira, as árvores não medravam. A vegetação rasteira, uma mistura de arbustos avulsos, era a única prova de vida admissível na clareira. Teve medo do vazio aberto no meio de tanto arvoredo. Parecia que aquele lugar participava a misantropia e as árvores recusavam-se a estacar naquele pedaço de terra. Ou podia ser que um cataclismo qualquer, numa era quaternária (por exemplo), tivesse esterilizado a clareira e só a vegetação rasteira conseguisse irromper entre o chão pútrido. E pensou: às vezes, os sonhos perdem-se num alpendre onde os esperam os intérpretes de um pesadelo.

Não sabia se estava perdido no meio do denso arvoredo. Por vezes, avançava com esforço, tinha de desbravar os arbustos que se colavam à pele das árvores e impediam o chão. E não é isso a vida? A vida não precisa de sonhos para se consumar. 

Enquanto apreciava o efeito quimérico da luz do sol irradiando entre os rasgões permitidos pelas ramagens, compreendeu que a vida sobe a um púlpito quando ela própria se traduz num sonho.

23.9.21

O sonho dos sonhadores

The Cure, “The Last Day of Summer”, in https://www.youtube.com/watch?v=iNiUG33rSyY

O navio vagaroso desbrava o mar sem terra por perto. O navio parece fantasma. Talvez seja da noite funda e a essa hora os marinheiros estão recolhidos. Mas não é noite funda. Não tem relógio, mas diria tratar-se de uma hora qualquer entre o estertor da manhã e o alvor da tarde. Uma leve brisa descompõe o chão do mar, desenhando uma suave coreografia de ondas.

Desce ao convés. A ferrugem emaranhada no ferro dos alicerces do navio era testemunha da solidão. Percorre os estreitos corredores. As portas dos camarotes estão todas abertas e nem vivalma. Na casa das máquinas, apenas o intenso cheiro a óleo e o ruído tonitruante dos motores que fazem avançar o navio à velocidade de cruzeiro. No camarote do comandante, as garrafas de rum e de brandy diligentemente alinhadas numa estante sobre a secretária telintam, embaladas pela coreografia do mar. Continua calado, a rimar com o silêncio estrutural. Quis falar, quis fazer a pergunta que se impunha (“está aí alguém?”). Refreou a pulsão. Tinha medo de acordar fantasmas escondidos nos interstícios do navio. Tinha medo que os fantasmas colonizassem o navio fantasma.

Não entendia como o navio podia avançar à velocidade de cruzeiro se ninguém o tripulava. Talvez fosse como os aviões, sofisticadamente programados para voarem em piloto automático, os pilotos escrutinando as condições de voo enquanto o avião voa sozinho. Não sabia que isso podia acontecer num navio. O vento passou a soprar com mais força e o mar agitou-se. O navio não perdia a rota (pelo menos, era o que queria acreditar). Se estava em navio automático, haveria de arrimar a um porto. Por mais que demorasse a viagem, que os tanques de combustível não são infinitos. 

Anoiteceu. O silêncio parecia doer mais na companhia da noite. Ao menos o céu renunciara às nuvens e podia apreciar a cintilação do mar de estrelas que se compunha. Não era noite de luar. O vento sossegara. Sobre a mesa improvisada no convés, os restos das rações encontradas na dispensa da cozinha e a garrafa, já meio vazia, de rum. Onde seria o destino? A pergunta foi esmaecendo à medida que foi tomado pela sonolência. Deixou-se dormir. Podia ser que, ao acordar, o navio automático já mostrasse terra à vista, ou um cais acolhedor. 

Antes de adormecer, derramou o resto do rum no mar. Queria manter um módico de sobriedade, para que o rum não embaciasse o sonho do sonhador. Os pés tinham âncora em terra firme. Sonhara com um sonho em que sonhava que estava num navio fantasma, a sonhar. Mas talvez ele fosse o fantasma evidente. Ou um palimpsesto de sonhos.

22.9.21

E, todavia, os olhos eram um deserto de lágrimas

Kings of Leon, “Times in Disguise”, in https://www.youtube.com/watch?v=Wy9ohE9Hs8s

A angústia era uma fia métrica baça, atirada sobre o chão em que posava. Podia desestimá-la. Os nós dos dedos eram a argamassa que se insubordinava na tradução dos contratempos. Insistia: poucas vidas há piores. Depressa se esquecia.

Não passava pelas hipóteses ser um juízo extravagante. Um exagero, como as pessoas normais são achacadas aos exageros. Consomem-se em modestos episódios que compuseram a pauta dos sobressaltos e extravasam as dores consequentes. Um observador imparcial diria: é pena que assim não seja quando os acontecimentos se abatem por simetria e, em vez de matéria-prima para angústias, um acontecimento fulgurante devia ficar embalsamado para memória futura. Mas depressa se dilui no vértice da desmemória.

Na bolsa de valores das posturas, estão em alta as que se conduzem pelo fio fátuo do negativo. O contraste não serve para sopesar, pois ao avesso não é imputado o crédito devido. Um sobressalto que desarruma os alicerces demora-se em cicatrizes. Uma proeza, uma gratificação, depressa são tomadas pelo esquecimento. É como se as coisas boas fossem inatas e, por isso, depressa são destinadas ao logro do desvalor. As más eternizam-se à janela dos sentimentos. São o fermento válido que as torna numa dimensão excessiva.

Dizem (atentos leitores das almas alheias) que os olhos já nem sequer se marejam no púlpito das angústias abundantes. É sinal de que o jogo está viciado. Pois nem sequer as dores compungidas funcionam como o punhal que se crava fundo na carne, sangrando-a. As pessoas são um ardil de si mesmas. O jogo está viciado porque as pessoas estão viciadas na adulteração dos sentimentos. Um grama de angústia pesa mais do que um quilo de fortuna. E um quilo de fortuna devia ser aparado por menos cicatrizes do que uma tonelada de infortúnios. Mas não é.

O placebo ataca desde a ossatura, agigantando-se à medida que sobe à superfície e coloniza a pele. As pessoas convidam-se para a angústia, chamando-a a ocupar o seu lugar no palco, vertiginoso e vulnerável, onde são apenas figurantes. Os olhos desprovidos de lágrimas são o alfabeto da adulteração do ser. A vontade deixa de ser a tradução da autonomia. Reconstitui-se num simulacro.

21.9.21

Dar corda aos sapatos

The Jesus and Mary Chain, “Rollercoaster”, in https://www.youtube.com/watch?v=1rkx3GlROWY 

O medo era o rastilho que era preciso para derrotar o sedentarismo. Pessoas militantemente incapazes de darem um passo célere numa direção mudam de atitude quando sentem o medo a bafejar no pescoço. O medo é o remédio para fazer desabar os preconceitos. Dar corda aos sapatos é a única emenda quando o sedentarismo desafia a integridade física.

A ideia de dar corda aos sapatos é como naqueles relógios a que é preciso dar corda para não ficarem adormecidos na insolente marcha do tempo. Quem dá corda aos sapatos é, tal como a esses relógios, o usuário. As maravilhas de tecnologia inventaram relógios que dispensam o ritual de dar corda. Funcionam a pilhas. É preciso mudar a pilha quando atinge o prazo de validade. Também há sapatos que não precisam que se lhes dê corda? Esses sapatos substituem a vontade do usuário? Não e não, respetivamente. Os sapatos não andam sozinhos. São motorizados pela vontade de quem os calça.

Dar corda aos sapatos também é uma metáfora. É quando estamos imersos na indolência, ou quando precisamos de um abalo sísmico que mude a têmpera desde o magma, para acostarmos a um desiderato. Uma resolução a preceito é a ignição necessária. Só com a indulgência da resolução não se chegará ao desiderato. À medida que a inércia corresponde à medida do tempo, a resolução tende a ficar esquecida nos armários onde jazem as coisas destinadas a serem irrelevantes. Não será desse modo se dermos corda aos sapatos e nos convencermos que devemos dar seguimento à resolução. Para não ficarmos por boas intenções que nunca chegam ao pedestal do julgamento.

Damos corda aos sapatos porque não é bom olhado de nós dizerem que somos pusilânimes. Damos corda aos sapatos para eles voarem e com o seu voo nos levarem para os lugares de outro modo inacessíveis. Talvez fosse melhor dizer-se que damos corda às pernas, que não têm mediação. 

20.9.21

História do futuro

Low, “White Horses”, in https://www.youtube.com/watch?v=sebDnwlEnPs

O dia seguir-se-á à noite – ou, o que não é de somenos importância, a noite será consecutiva do dia. 

As estações serão quatro, por esta ordem: Outono, Inverno, Primavera e Verão (pondo o relógio a zero quando a escola começa um novo ano), a menos que o aquecimento global conspire contra esta angra de conservadorismo.

As pessoas hão de continuar a festejar o ano novo cheias de resoluções que juram, em bom jurar, que o neófito ano será a tradução de mudanças a esmo.

As escolas hão de continuar a ensinar (um módico). As universidades serão o santuário dos saberes arranjados na imensa enciclopédia popular (e aparentemente democrática) que é a internet – e os professores já não hão lamentar a sua irrelevância. 

A música continuará na senda da reinvenção.

Os literatos serão dispensáveis (à mercê da democratização dos saberes que é mercê da internet).

O aquecimento global fará prova de vida e é provável que as estações se confundam umas nas outras, com tempestades estivais e estios invernais e Primaveras outonais e Outonos primaveris (ou a fusão da Primavera e do Outono).

Gurus irrepreensíveis emergirão para dar asilo aos descamisados de identidades, inaugurando uma nova arca epistolar que os extrai da orfandade.

As nações continuarão a ser o farol. As guerras, a sua consequência.

As armas e os arsenais não serão banidos.

Os pacifistas não deixarão de ser visionários sem tempo a preceito.

O abismo humano estará mais fundo, com a desconfiança a nortear as condutas e a antipatia boçal a bolçar por todo o lado, desmentindo os opúsculos homeostáticos que preconizam a utopia da cooperação.

Faltarão poucos cidadãos para lhes serem apostas comendas presidenciais por ocasião do dia de Camões e das comunidades. 

As indústrias terão de ser verdes; o mundo será um condomínio de verde – se não, o aquecimento global será o nosso algoz (ou nós, ordenantes do aquecimento global, a confirmação da nossa própria autofagia).

As religiões continuarão a matar.

Políticos regentes, ensimesmados nas curtas vistas e no logro da demagogia, serão consumidos pela avareza e neles lavrará o caudal da corrupção.

As leis continuarão a ser ostensivamente desobedecidas e os delinquentes raras vezes descobertos e punidos.

Os países grandes continuarão a ser grandes e os pequenos, irrelevantes.

Os cavalos brancos não deixarão de parte a cor.

O mundo continuará a chamar-se Terra (antes que se enterre).

E o pior dos seus defeitos será a existência de oráculos.

17.9.21

A armadilha da simpatia

Bizarra Locomotiva, “Mortuário” (ao vivo no Coliseu de Lisboa), in https://www.youtube.com/watch?v=Pc-lf-pJ-kk

Ouço uma mulher afegã dizer que agora os talibans já falam inglês e são mais cuidados com as relações públicas (podendo-se aferir que os talibans se recondicionaram e são corteses e educados). O mundo ocidental, que sabe dos pergaminhos dos talibans, está em polvorosa. E desconfia.

Mas não é a geopolítica, nem a falência das potências que tutelam a democracia e os direitos humanos, ou a barbárie iminente, ou a condescendência patética de radicais que parecem peixes fora do aquário por viverem no mundo ocidental, não é nada disso que (agora) interessa. Ouço outra vez as palavras da mulher afegã, transidas de medo e de desconfiança. Dão a entender que os talibans recondicionados são um disfarce do que são em pose genuína. Outra vez: não interessa adivinhar o futuro, ou as intenções de outras pessoas (sejam os talibans ou outras quaisquer). 

As palavras da mulher afegã levam a refletir como a simpatia é tão fácil e pode ser um imenso logro. Podemos disfarçar a simpatia para cativar a simpatia dos outros. Podemo-lo fazer por diversos motivos. Por querermos que os outros nos tenham como pessoas simpáticas, pois é de bom tom transitar pelas avenidas onde floresce a simpatia. Por querermos cair nas boas graças dos outros só para deles obtermos uma contrapartida, que, assim que é obtida, embainha o rosto da antipatia (afinal, a genuína têmpera). Ou por sabermos que o passaporte da convivência moderna exige um módico de simpatia, sob pena de sermos arrastados para um canto onde são isolados os párias, os misantropos exibidos como desexemplos. 

A simpatia assim encenada é o presságio de um cataclismo social. As pessoas vestem a máscara da simpatia, desembrulham o seu melhor sorriso, ensaiam a cooperação e a boa vontade. Fica a pairar a impressão de que o paraíso não anda longe. Todavia, as pedras que amiúde se descobrem na engrenagem são a prova da vulnerabilidade a que somos expostos quando confiamos na simpatia. O sorriso cansativamente fácil, de orelha a orelha e com todos os dentes à mostra, de que as majoretes televisivas são o protótipo, é um sorriso fácil e cansativo que esconde o que se esconde sob o verniz que é o passaporte de um logro: aquilo que não somos. 

Na hora em que o verniz estilhaça e a simpatia se dissolve, fica à mostra a genuína têmpera. Enquanto durou, a simpatia cimentou a frágil confiança e a sensação de que todos podem contar com todos. Como é amplamente sabido, da arqueologia da humanidade e das profundezas da filosofia, os outros são o inferno. A simpatia, uma arma dirigida ao exterior (ao outro), é um disfarce – e como os disfarces, efémera, condicional e astutamente perigosa.

16.9.21

A matança dos desterrados

Nick Cave & Warren Ellis, “White Elephant” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=sJoOO7ATI48

Um colibri esbraceja sobre o forte que encima a cidade. Ouviu dizer que o forte é a morada de presos, os desterrados que não encontraram acolhimento nas convenções. O colibri, que se gaba de voar com o beneplácito da liberdade, estranha o aprisionamento dos desterrados. O colibri não sabe o que é um desterrado.

Um dos desterrados consegue ver, desde a cela, o colibri a esvoaçar sobre o forte. Ao início, não presta atenção – seria mais uma ave a voar arbitrariamente sobre o lugar e depressa iria para algures, pois o forte não é paisagem que mereça contemplação. Desceu a cabeça sobre as pedras encardidas que perfazem o chão da cela. Demorou-se nas rugas das pedras ancestrais, como se nelas buscasse meio de matar o tempo (que raio de expressão, concedeu). Quando levantou o olhar e o dirigiu através da janela da cela, o colibri continuava o voo estático sobre o forte. O desterrado sentiu a pulsão da inveja, da liberdade do colibri que ele não podia fruir. Depressa fez marcha-atrás. Um desterrado não foi feito para tirar partido da liberdade condicional que é a mortalha que esconde uma opressão em silêncio.

As vozes, em surdina, narram a matança dos desterrados. A matança em sentido figurado, que a pena de morte foi banida (um módico de civilização, para disfarçar o resto da incivilidade). Nenhum dos desterrados pediu para assim ser considerado. O libelo foi arbitrário. O julgamento, premeditado e com resultado conhecido à partida. Os desterrados são o equívoco da liberdade eufemística que se estende pelo mapa afora. O regime suporta as liberdades. Com condições. Os arautos do regime não entendem o logro: por imporem condições à liberdade são os mandatários do seu sequestro. Os dissidentes não têm lugar. São abjurados como desterrados.

A matança dos desterrados é uma metáfora, todavia mortífera. A sua constrição no forte é um assassínio de carácter. E, contudo, os desterrados não são as maiores vítimas. São os algozes, que negam em si próprios o que juram defender, numa intencionalidade disfarçada.

15.9.21

O que valemos?

Cassete Pirata, “A Pirâmide”, in https://www.youtube.com/watch?v=GZk4vYli_gk

(Como se fosse o excerto de uma peça de teatro)

O padre estava a terminar a homilia. Depois de articular o dogma da omnipotência de deus e a correlativa fragilidade das pessoas, dirige-se à audiência, disparando uma pergunta de retórica: “o que valemos?”

- A igreja, e os seus intérpretes, não têm remédio. O que valemos? O que valemos?! 

(A repetição da pergunta, que não fora apenas de retórica, foi mais incisiva, soletrando cada sílaba, como se estivesse a sublinhar cada palavra.) 

- É uma interrogação com resposta encomendada. Para legitimar o abismo entre um deus perfeito e as pessoas que vegetam na sua profunda imperfeição. Tanto abismo é propício à exaltação de deus e à humilhação das pessoas. Um crente poderia atestar ser este um diagnóstico exagerado; contraporia que não se trata de humilhar as pessoas, antes de as trazer pela trela da humildade, na sua interminável servidão perante deus. Eu digo que um deus assim (ou quem é seu intérprete) é o pior inimigo das pessoas. Deus é perfeito e essa perfeição é a prova de todas as nossas fragilidades. Devemos-lhe tudo o que em nosso perímetro reputamos de bom. O que de mau acontece é produto das nossas ações, delimitadas pelas fraquezas em que nos debatemos. É como se em nós habitassem dois hemisférios. Um, onde se congemina a positividade das almas, de que deus é credor total. O outro, em que medra a nossa profunda imperfeição, que se deve às nossas ações, o produto perfeito da nossa fragilidade. Talvez o mal seja de um deus que foi interpretado desta forma. Ou apenas de quem assim o interpreta. 

Que mal tem a introspeção? Não tens desses momentos heurísticos, em que procuras entender quem és e chegas à conclusão das tuas imperfeições e fragilidades?

- Não recuso a introspeção. Considero-me o meu maior crítico. Mas não preciso da tutela de uma entidade divina, ou da mediação de quem se diz seu tradutor, para povoar o meu pensamento. Não aceito ser tremendamente frágil como antítese de um deus perfeito e nesse abismo ser edificada a subalternização da pessoa. Um deus destes não é bondoso. Amesquinha a pessoa, com o seu consentimento. Paradoxalmente, um deus destes aproxima-se dos niilistas e dos que navegam no pessimismo antropológico (julgo que estes não ficarão confortáveis com a comunhão de barricada). As pessoas são o que são. Uma interminável fonte de erros, tragédias, passos em falso, lições desaprendidas, escolhas que parecem talhadas para o desabamento, arrependimentos. Mas são o produto da sua vontade. Os que sentem o perpétuo bafo de deus e a sua perfeição imaculada acabam por ser levados à inevitabilidade da sua frágil condição. O que não seria contraproducente, não fosse o abismo propositado que se abre entre deus e as pessoas. Esse abismo é usado para perpetuar a servidão das pessoas perante deus. E para justificar a perfeição de deus. A sua admiração a deus é cimentada na imensa imperfeição que exige a indulgência divina. Parece que temos de ser apenas enquanto deus é o nosso mecenas. A vontade própria é o veneno que nos atira para a fragilidade de que somos reféns. O que está errado: a fragilidade é-nos inata. Apesar de deus ou dos seus intérpretes. 

- O que concluis, então?

- Que um deus perfeito não se liberta da imperfeição que é depender da imperfeição das pessoas. Eis a prova da perfeição das pessoas: elas sabem que são como a fragilidade da mais fina porcelana.

14.9.21

Passe-partout

Trentemøller, “In the Gloaming”, in https://www.youtube.com/watch?v=iqteum_Z3Kk

Os edifícios envelhecem. Suas são as rugas do tempo, as arestas vividas a cada contratempo sopesado. Dizem que as rugas dos edifícios são um viveiro de charme. Na medida certa: passando o limiar em que à mostra fica o farol da decadência, os edifícios contaminam a cidade com a sua senescência. Precisam de emendas que os extraiam a um prazo de validade.  

Dirija-se o olhar para um estaleiro onde nascem embarcações e outras, já com muitas milhas náuticas no bojo, são sujeitas ao rejuvenescer possível. A madeira por polir nas primeiras não atrai o olhar. A madeira gasta, com cicatrizes que o mar deixou como seu selo, convida o olhar dos transeuntes. Perguntarão, talvez, que mares foram demandados por aquelas embarcações que descansam nas mãos dos artesãos (um lugar-comum dos observadores de embarcações). Encantar-se-ão com a usura que os mares deixaram na pele da embarcação. Talvez se esses olhares forem ao estaleiro uns meses após terão a sorte de ver o estado rejuvenescido da embarcação. As loas serão todas para os artesãos. A embarcação, quase a ser lançada às águas mansas do rio, terá um rosto novo, as rugas disfarçadas pela alquimia dos artesãos e pela tinta iridescente que empresta uma vivacidade tal que até parece que a embarcação perde a virgindade ao tomar contacto com o rio.

Os olhos retêm na órbita da memória imagens destas. Imagens que são aparatosas. Por isso ganham um lugar cativo. As memórias são como o passe-partout que adeja no tempo enquanto ele é imorredoiro – enquanto rima com uma vida que tem existência. Só assim as memórias não se expõem às rugas que envelhecem o seu tutor. O passe-partoutatrasa a senescência de quem tem memórias. É um domador do esquecimento, como um medicamento que impede um efeito danoso no organismo.   

Num epitáfio, sobram os passe-partout. Quem deles foi mecenas já não os pode instruir. Mas eles ficam como memória futura que ultrapassa uma vida extinta. Ao contrário dos edifícios que se eternizam e das embarcações que não se cansam de sulcar os mares, ou por eles não são abatidas.