3.8.07

Ressurreição


De José Cid, expoente da “música ligeira” nacional. Quando se pensava que Cid tinha passado para a fase dos cromos arquivados no relambório de artistas que não deixam rasto. Uma vaga de fundo, saudosista, trouxe de volta Cid para as rádios, televisões, entrevistas em jornais (onde passeia a sua imodéstia) e palcos de concertos de uma ponta à outra da geografia caseira.
Cresci com influências que viam em José Cid mau gosto musical. Concedo, o que somos faz-se muito das influências que recebemos. Quando alguém diz que não simpatiza com a “obra” musical de um artista, o seu conhecimento da dita “obra” não vai além de uns acordes esparsos. Só não sei se será suficiente para garantir que não gosto do fulano enquanto artista do panorama de variedades. Só que é impensável o desdobramento em várias pessoas para ter a pretensão de conhecer o vasto universo de obras musicais (e quem fala de música, fala de literatura, cinema, ou artes plásticas) que vegeta no mercado. Chega uma amostra para proferir um juízo. E o que acontece é essa amostra ser diagnóstico bastante para remeter alguns artistas para a sepultura do inaudível. É um diagnóstico desapiedado para o autor. Depois há aquele lado societário, em que engrossamos modas sem sabermos porque o fazemos, a não ser por certos “ícones” que temos por gurus de uma arte qualquer sancionarem, do alto da sua batuta, o que convém ouvir e o que é dispensável.

A antipatia pessoal pelo repositório de José Cid filia-se mais nas análises de outros do que numa análise pessoal. Conheço pouco da sua obra, agora recuperada para gáudio de uma geração que parece saudosa dos tempos em que vogava na pós-adolescência e se deliciava com as produções musicais de Cid. O pouco, muito pouco, que conheço chegou para cimentar a opinião. A Cid não faltaria muito terreno para se elevar ao púlpito dos “artistas pimba”.

Para desajudar, Cid tem um desempenho pessoal irritante. Pode ser destemido, até possuir um dom que aprecio – a frontalidade, sem receio de incomodar as convenções do aceitável, fiel aos princípios que o regem. Hoje há poucos assim. Só não sei se esta frontalidade, que às vezes raia o desassombro, é produto de ressentimentos acumulados pelo não reconhecimento público de que se achava credor. Descontando estes aspectos, implico com a prosápia que Cid discorre nas entrevistas em que se tem desdobrado. Mas, afinal, não há por aí tanto artista consagrado que é um crápula no plano pessoal?

Não vou discutir os méritos musicais de José Cid. Leigo em música, não estou preparado para o fazer. No que me interessa – ter uma bitola para avaliar o que faz parte das minhas preferências musicais – Cid continua a não ser credor de atenção. Mas há uma vaga de fundo, poderosa, que trouxe Cid do anonimato a que estava remetido para os píncaros das audiências. É a força tremenda que os movimentos têm, quando se irmanam por uma causa. E quando conseguem manobrar os cordelinhos no teatro do mediatismo para emproar com uma refulgência inusitada acontecimentos da sua preferência. Há uns meses, quando o artista presenteou os admiradores com um concerto anunciado com pompa e circunstância (no Maxime, se não estou em erro), saíram reportagens em jornais de referência. Com alusão abundante a notáveis da nossa praça que quiserem dar a cara como admiradores do artista. Lá estavam vários notáveis contemporâneos de Cid. Um exercício de nostalgia colectiva, a de uma geração que apeteceu mergulhar nos confins do passado para resgatar alguma da juventude de que restam uns isolados fragmentos?

Deu-se o efeito correia de transmissão. Aquelas personalidades foram o tónico contagiante, propagando a ressuscitação de Cid a amplas camadas da audiência. Entre o passa a palavra da imprensa desponta um José Cid ressuscitado. Um artista que estava proscrito dos píncaros da estética musical e que agora volta a estar na moda. Resta saber se é um modismo efémero, até a que a elite sexagenária (e pré-sexagenária) que o tirou do empoeirado sarcófago se canse da viagem no tempo e regresse às referências musicais de cada um, onde voltam a divergir. Já não enquanto tribo que se agarrou a José Cid como a tábua de salvação para a viagem no tempo que resgatou os sedimentos longínquos da juventude palpitante de antanho. Terá sido o último fôlego para um artista surpreendentemente ressuscitado.

2.8.07

O dinheiro corrompe?


O direito à incoerência é um direito como outro qualquer. Os que são apanhados no alçapão da contradição expõem-se à exercitação da memória. Vai-se às profundezas do baú recuperar coisas ditas, frases feitas, participação em manifestações e outros fragmentos para recordar como o que hoje é dito ou feito nega o passado recordado.

Os líricos que vivem espalmados num castelo de nuvens, e que continuam empenhados na fé de que o vil metal resume todos os males do mundo, não se cansam de apregoar que o dinheiro corrompe. É frequente a razão ser coroada nas suas férteis cabeças. Há muito boa gente que é capaz de se vender por meia dúzia de dinheiros. Tive um professor na universidade que, rumando contra a maré, assegurava que todos somos corruptíveis; o que varia é o preço pelo que nos deixamos corromper. E se há alguns que se prostituem por pouco, outros gabam-se de um elevado sentido de dignidade e elevam a fasquia. O tal professor, em jeito de metáfora, confessava que até ele tinha um preço: que fizessem dele rei de Inglaterra.

Não dou razão às aves agoirentas que sentem cada nota, cada moeda a destilar a pestilenta vilania que corrompe a pessoa. Mas às vezes tenho que sucumbir aos predicados da sua teoria. Há ocasiões em que têm razão, ou que me é conveniente dar-lhes razão, pelo triste espectáculo de umas personagens mediáticas que ora dizem uma coisa, ora fazem outra bem diferente. E quando toca a serem levados pelo encanto de uma conta bancária recheada de euros, algumas dessas figuras têm uma fantástica capacidade para passarem uma esponja pelo rasto que foram deixando. Militâncias activas, daquelas que estão na moda: o nefando capitalismo, a perversa globalização, os capitalistas que só querem mais e mais riqueza e são imunes às dores de consciência pelos desvalidos deste mundo – eis alguma da retórica de que são campeões. Constroem uma imagem pública, uma certa intervenção cívica até, agarrados a este linguajar.

Direito que lhes assiste. Desconte-se algum oportunismo que emerge das lições de marketing que recebem: em alguns artistas, este sucedâneo de intervenção cívica cai no goto do público e arregimenta mais clientela, que confunde prestações artísticas com envolvimento em causas politicamente correctas. E assim se levanta a ponta do véu: as militâncias a que alguns se colam são ardis montados para melhorar as vendas. Afinal, o capitalismo denunciado tem nesses detractores expoentes de primeira água. O singelo povo tem um adágio que sintetiza o descalabro em que são apanhados estes figurões: “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”.

Eles dirão que não são vendilhões que se deixam inebriar por meia dúzia de cobres. E que não se vendem aos encantos materiais do combatido capitalismo. Que jamais chegam a entrar no panteão dos capitalistas, que tanto vituperam. Dirão, apenas, que recolhem uma migalha, a parte a que têm direito pela produção artística de inestimável qualidade. Será a paga pela prestação de serviços que apanha com o adjectivo prestidigitador: público. Limitam-se a dar o rosto pela politicamente acertada redistribuição de rendimentos. São os imensamente ricos capitalistas que os tentam para contratos milionários. O pecúlio que lhes cabe? Uma ínfima parcela da riqueza acumulada dos capitalistas que oferecem o contrato publicitário. Na redistribuição da riqueza, há socialismo em acção, justiça social a troar, audível. O mesmo socialismo em acção não é um apeadeiro quando chega a esses artistas. É estação final. O socialismo em acção perde gás e fica emoldurado nas diáfanas afirmações que embelezam discursos que excitam as massas e não têm reprodução prática.

Há tempos foi o contestatário Abrunhosa que deu a cara pelo Banco Millennium. Ontem, às compras no supermercado, eis senão quando mais um episódio de espanto veio bater à minha porta. Dando azo às tentações consumistas que me entregam de bandeja no altar das marcas americanas, saltou para dentro do carrinho de compras um pack de doze latas de Coca-Cola. O invólucro de plástico acamava a surpresa: Da Weasel são o rosto da empresa norte-americana, no anúncio de um concurso qualquer que premeia os que beberem mais refrigerante acastanhado durante o Verão. Será o mesmo Packman (o vocalista do grupo) que erguia o punho numa manifestação qualquer de rua e gritava “la lucha contínua, hermano”, fazendo lembrar esse ícone da juventude que ficou conhecido pelo pacifismo dos seus métodos, Che Guevara?

Exercício especulativo: hoje, Che Guevara seria um estandarte da McDonald’s? Ou, descendo do altar da especulação, o sintoma fatal: somos todos burgueses.

1.8.07

Das férias como instrumento da preguiça


Agosto, o pior dos meses para férias. Aos que não podem deixar de fazer férias em Agosto, pelas contingências do calendário profissional, que hipótese resta? Fazer férias em Agosto: quando há mais gente em férias, quando é tudo mais caro, quando os dias já são mais curtos (que o equinócio do Verão já foi dobrado há mais de um mês). Férias, ainda assim. E são sempre merecidas. Na véspera de descansar o corpo no período estival vem no ar a ideia de que o corpo chegou tão cansado quando a folha do calendário por fim anuncia as férias. Sempre merecidas.

Há muitas maneiras de passar férias. Mercado por excelência, a função submete-se à tremenda ditadura de todos os mercados: o dinheiro fala mais alto. As férias, há-as para todas as bolsas. Férias poupadinhas, férias remediadas, férias em casa porque o ministério das finanças pregou uma partida com o IRS, férias paradisíacas que levam o couro e o cabelo. E em estilos variáveis: férias à beira-mar, férias culturais, férias de visita a cidades históricas, férias cosmopolitas, na interiorização de civilizações apenas dos livros conhecidas, férias de adrenalina. As possibilidades materiais são a veia jugular das ambições estivais. Os sonhos constroem-se em torno de imagens idílicas, que correspondam ao estilo da nossa preferência. Enquanto as poupanças não chegarem para satisfazer a versão onírica das férias, a descida à terra exige moderação.

Como os traços do envelhecimento se começam a fazer notar, na chegada às férias sinto-me carente de preguiça. Nem museus, nem leituras (tirando os jornais, que nem em férias consigo libertar-me do jugo da imprensa – maldito vício), nem viagens à descoberta dos recantos que os há sempre inexplorados, mesmo na revisitação dos lugares familiares. O corpo pede preguiça. É o triunfo da indolência. Sem horas a jorrar do relógio, que fica em casa para não ceder à tentação de obedecer a horários que dobram a preguiça sagrada. Deixar o tempo passar, sem projectos para amanhã ou depois de amanhã, que não sejam os do dia do regresso em que as férias já começam a entrar na modorra cansativa e a casa chora pela nossa presença.

Preguiça é arrastar o corpo pelo areal matinal, demoradamente contemplar a água do mar que se esfumam na areia molhada e as pessoas que deslizam os corpos em passeios terapêuticos em linha paralela ao mar, reparar nas crianças que chapinham em poças fazendo castelos de areia molhada. Enquanto o sol sobe e traz o calor que aquece os corpos, na insaciável imersão onde o corpo se desfaz da quentura que o sol e o vento de leste espalharam pela praia. Deixar o tempo seguir a sua marcha sem reter a preocupação de vigiar o relógio, que nem o há. Deixar a praia quando o corpo o pedir, o corpo torrado pelo sol levitando o desconforto que perturba a preguiça. A estival preguiça não se compadece com sacrifícios corporais. Deixa de o ser, e entram as férias em negação, quando o corpo é arrastado para a antítese da preguiça.

Haverá anciãs personagens que censuram a opacidade destas ideias. Vazias, dirão, acenado com a cabeça em tom de reprovação. Que o autor se esquece das muitas pessoas a quem não é assistido o dom da preguiça, pelo impedimento das férias. Vidas de sacrifício que deviam ser respeitadas pelos privilegiados que se entregam às pérfidas delícias estivais. Lamento contrariá-los com a divagação pessoal. Apenas vivo a minha vida. Não consigo viver a vida dos outros, nem apascento as dores alheias. E se há leviandade na expressão indolente das férias pessoais, este é sempre um registo intimista, eivado de individualismo que, concedo, há-de ser manancial suficiente para arrastar com a acusação de egoísta. O mesmo egoísmo com que levo o meu trabalho ao longo do ano. Que cauciona o egoísmo das férias que o sacrifício pessoal – e o meu “contributo para a sociedade” – fazem por ser um dom merecido. As férias, entenda-se, não o egoísmo de as passar conforme bem entendo sem dores de consciência pelas carências alheias.

Esta é uma preguiça necessária. Como se os dias de temperança ociosa se retratassem pelo encher do balão, pelo lento encher do balão, para outro ano de trabalho que vem assim que estejam dobrados os dias de férias. Uma preguiça terapêutica. É que só pela seiva da preguiça há mercê de julgar os predicados do trabalho. Durante as férias, venho de um pólo ao outro, mergulhando o corpo na antítese do ser. O lento amanhecer, ou o plácido entardecer, as refeições que se alongam no tempo, defronte do relvado que se estende até à piscina, e o corpo que escorrega para um sono sorrateiro algures na tarde, quando ao entardecer a piscina convoca um banho que retempera o corpo da cálida aragem que tomou conta do dia. Eis a preguiça das férias em todo o esplendor. Há nesta preguiça estival a compensação do corpo que se entregou ao trabalho. Um prémio merecido. Traz um sabor inigualável à indolência que é a âncora das férias.

Das férias como instrumento da preguiça

Agosto, o pior dos meses para férias. Aos que não podem deixar de fazer férias em Agosto, pelas contingências do calendário profissional, que hipótese resta? Fazer férias em Agosto: quando há mais gente em férias, quando é tudo mais caro, quando os dias já são mais curtos (que o equinócio do Verão já foi dobrado há mais de um mês). Férias, ainda assim. E são sempre merecidas. Na véspera de descansar o corpo no período estival vem no ar a ideia de que o corpo chegou tão cansado quando a folha do calendário por fim anuncia as férias. Sempre merecidas.


Há muitas maneiras de passar férias. Mercado por excelência, a função submete-se à tremenda ditadura de todos os mercados: o dinheiro fala mais alto. As férias, há-as para todas as bolsas. Férias poupadinhas, férias remediadas, férias em casa porque o ministério das finanças pregou uma partida com o IRS, férias paradisíacas que levam o couro e o cabelo. E em estilos variáveis: férias à beira-mar, férias culturais, férias de visita a cidades históricas, férias cosmopolitas, na interiorização de civilizações apenas dos livros conhecidas, férias de adrenalina. As possibilidades materiais são a veia jugular das ambições estivais. Os sonhos constroem-se em torno de imagens idílicas, que correspondam ao estilo da nossa preferência. Enquanto as poupanças não chegarem para satisfazer a versão onírica das férias, a descida à terra exige moderação.


Como os traços do envelhecimento se começam a fazer notar, na chegada às férias sinto-me carente de preguiça. Nem museus, nem leituras (tirando os jornais, que nem em férias consigo libertar-me do jugo da imprensa – maldito vício), nem viagens à descoberta dos recantos que os há sempre inexplorados, mesmo na revisitação dos lugares familiares. O corpo pede preguiça. É o triunfo da indolência. Sem horas a jorrar do relógio, que fica em casa para não ceder à tentação de obedecer a horários que dobram a preguiça sagrada. Deixar o tempo passar, sem projectos para amanhã ou depois de amanhã, que não sejam os do dia do regresso em que as férias já começam a entrar na modorra cansativa e a casa chora pela nossa presença.


Preguiça é arrastar o corpo pelo areal matinal, demoradamente contemplar a água do mar que se esfumam na areia molhada e as pessoas que deslizam os corpos em passeios terapêuticos em linha paralela ao mar, reparar nas crianças que chapinham em poças fazendo castelos de areia molhada. Enquanto o sol sobe e traz o calor que aquece os corpos, na insaciável imersão onde o corpo se desfaz da quentura que o sol e o vento de leste espalharam pela praia. Deixar o tempo seguir a sua marcha sem reter a preocupação de vigiar o relógio, que nem o há. Deixar a praia quando o corpo o pedir, o corpo torrado pelo sol levitando o desconforto que perturba a preguiça. A estival preguiça não se compadece com sacrifícios corporais. Deixa de o ser, e entram as férias em negação, quando o corpo é arrastado para a antítese da preguiça.


Haverá anciãs personagens que censuram a opacidade destas ideias. Vazias, dirão, acenado com a cabeça em tom de reprovação. Que o autor se esquece das muitas pessoas a quem não é assistido o dom da preguiça, pelo impedimento das férias. Vidas de sacrifício que deviam ser respeitadas pelos privilegiados que se entregam às pérfidas delícias estivais. Lamento contrariá-los com a divagação pessoal. Apenas vivo a minha vida. Não consigo viver a vida dos outros, nem apascento as dores alheias. E se há leviandade na expressão indolente das férias pessoais, este é sempre um registo intimista, eivado de individualismo que, concedo, há-de ser manancial suficiente para arrastar com a acusação de egoísta. O mesmo egoísmo com que levo o meu trabalho ao longo do ano. Que cauciona o egoísmo das férias que o sacrifício pessoal – e o meu “contributo para a sociedade” – fazem por ser um dom merecido. As férias, entenda-se, não o egoísmo de as passar conforme bem entendo sem dores de consciência pelas carências alheias.


Esta é uma preguiça necessária. Como se os dias de temperança ociosa se retratassem pelo encher do balão, pelo lento encher do balão, para outro ano de trabalho que vem assim que estejam dobrados os dias de férias. Uma preguiça terapêutica. É que só pela seiva da preguiça há mercê de julgar os predicados do trabalho. Durante as férias, venho de um pólo ao outro, mergulhando o corpo na antítese do ser. O lento amanhecer, ou o plácido entardecer, as refeições que se alongam no tempo, defronte do relvado que se estende até à piscina, e o corpo que escorrega para um sono sorrateiro algures na tarde, quando ao entardecer a piscina convoca um banho que retempera o corpo da cálida aragem que tomou conta do dia. Eis a preguiça das férias em todo o esplendor. Há nesta preguiça estival a compensação do corpo que se entregou ao trabalho. Um prémio merecido. Traz um sabor inigualável à indolência que é a âncora das férias.

31.7.07

Postais algarvios: os capitães de borda-d’água



(Quase como se fosse um simpatizante da extrema-esquerda caviar ou do partido saudosista de Moscovo dos tempos áureos)

Estar de férias numa estância que bordeja uma afamada marina tem riscos. E contrapartidas, há que o admitir. O espaço é deslumbrante, desde que seja madrugada e as pessoas estejam embrulhadas nos lençóis. Ou que o pôr-do-sol seja admirado de uma janela que cerceie o horizonte à passagem da muita gente que se pavoneia na avenida marginal. Os iates aportados emprestam um ar pitoresco. E fartamente burguês também, que por ali ululam muitas vaidades num frémito de ostentação. A par com fortunas ancestrais, das famílias de boas linhagens que se espraiam pela linha de Cascais e curtem as carnes nos seus iates luxuosos.

Estes barcos que custam fortunas colossais não me retiram o mínimo esboço de admiração. Não fico boquiaberto diante do último grito da moda estacionado na marina. Não acastelo sonhos idílicos pensando nos momentos inolvidáveis que poderia passar caso a abastança material tivesse a simpatia de me pagar uma visita, indo logo a correr a um stand da linha de Cascais encomendar iate com todos os preceitos da moda. Navegar nas plácidas águas algarvias não faz parte dos meus prazeres sublimes. Respeito quem tenha preferências opostas. Percebo que haja pessoas extasiadas em capitanear um iate destes, a motor ou à vela, de grande ou pequeno calado, em águas calmas ou furando a fúria das ondas. E que certos arrivismos sociais obriguem a manifestações de ostentação de empertigados proprietários destas embarcações, que esbofeteiam os comuns mortais com manifestação da abastança sinalizada pela embarcação aportada.

Nada disso me enoja. Não gosto, não o faria se algum dia a prodigalidade material se encostasse à minha porta. Coisa diferente é estar na fila de um supermercado e conviver meia dúzia de minutos com três proprietários de embarcações que ali coincidiram. E que travaram conhecimento enquanto esperam que o cartão de crédito de platina pague os mantimentos acotovelados no carrinho de compra. O cartão de platina, lentamente exibido perante a funcionária da caixa. Para que quem vem atrás tenha tempo de se aperceber que o cidadão possui platinado cartão. Para quem não saiba, sinal de riqueza na certa. E se à primeira sinto asco por todo aquele exibicionismo, esbarro num turbilhão de sentimentos contraditórios. Já não é asco, é comiseração. Já não é asco, é contemplação por haver sempre a necessidade de alguém que faz as vezes de palhaço, os bobos da corte que o são sem darem conta da façanha que cometem.

Ali, em meia dúzia de minutos, fiquei a saber o calado das embarcações dos pipis de Cascais. Que um deles “praticamente” nasceu a navegar. O mesmo que não resistiu a contar a gloriosa história das três representações que “sacaram” numa feira de iates em Londres. E que todos trajavam pólos de marcas conceituadas, bermudas coloridas de marcas que timbram os navegantes, o exigível sapatinho de vela. Indisfarçável homogeneidade que tributa a tanta vacuidade vomitada numa singela meia dúzia de minutos.

Estou enquistado ao turbilhão de paradoxos. Comecei por exalar o enojamento dos capitães de borda-d’água que se entretinham em conversa vã. Empurrei o estigma para trás das costas, ensaiando humorística reacção diante das risíveis personagens. Mas regresso às dores de cabeça, quando dou por mim dominado por uma súbita vontade de ser militante devoto do PC, ou frequentador assíduo dos acampamentos de Verão do Bloco de Esquerda, só como reacção a estas figuras da alta sociedade lisboeta. Terapêutico seria desviar a atenção, ignorar a palavrosa conversa cheia de tiques tão próprios de pessoas bem situadas na vida que desfilam entre Cascais e Lisboa. Seria. Incapaz disso, vejo-me prisioneiro do desencantamento de mim pela antítese dos outros, daqueles que me levam à repugnância. E depois há este sintoma doentio, de querer ser o que sempre mais rejeitei na vida apenas por reacção adversa a outros que me trazem o vómito intelectual.

Sintomas das férias que só agora começam, o cansaço que destempera o discernimento e leva a atenção por onde ela deve andar ausente.

30.7.07

Ora bolas


De Berlim. Recheadas com creme de ovos, abundantemente polvilhadas por grossas pepitas de açúcar. Servidas nas praias do Algarve, depois de um banho de mar. Preenchem o meu imaginário. Hão-de deixar, por imposição da inquisitorial ASAE que zela pela nossa saúde. Cientistas descobriram mais perigo para a saúde pública. Bolas de Berlim com creme recheadas não andariam acondicionadas de harmonia com as regras de higiene. Hão-de ainda descobrir, com anos de distância, um número muito rigoroso de mortes que se ficaram a dever à incúria, de braço dado com a insuportável gula, de tragar uma tragicamente deliciosa bola de Berlim recheada com creme de ovos no meio do areal algarvio.


A ASAE é nossa amiga. Dormir descansados, é o que nos resta por sabermos da mera existência da ASAE. Os fiscais desdobram-se em actividades mil, perseguindo os empresários do sector alimentar que espezinham elementares normas de higiene. Vamos às lotas e temos a certeza que o peixe é todo fresco. Vamos às pastelarias e temos a certeza que durante o processo de fabrico das guloseimas os cozinheiros não puseram um milímetro de tecido cutâneo nas massas. Descansados, assentamos arraiais nos restaurantes, que o pessoal nos bastidores foi todo industriado para respeitar os procedimentos de higiene. As doenças causadas pela manipulação indevida de produtos alimentares vão acabar. A ASAE merece comenda a 10 de Junho. Se ela for esquecida, abaixo-assinado para o esquecimento ser reparado no ano vindouro.


É que nem se imagina o sacrifício dos agentes da ASAE em plena fiscalização. As condições de trabalho, penosas, fazem deles heróis. Zelosas brigadas espalhadas do Barlavento ao Sotavento algarvio, palmilhando tórridos areais com o radar afinado para homens de branco que carregam a tiracolo a bolaria. Fico com uma dúvida ao tirar o retrato da actividade inspectiva. Os fiscais da ASAE andarão à paisana, disfarçados de comuns banhistas, apenas com o calção (versão masculina) ou com um discreto biquíni (as funcionárias)? Ou terão que farejar os possíveis infractores dentro de roupa não estival, enfardando ainda o colete azul-escuro que patenteia os dizeres “ASAE” em letras garrafais, em manifesta ostentação da autoridade? Imagino o pânico dos vendedores ambulantes: em cada banhista, tanto há um cliente potencial como potencial fiscal da autoridade fitossanitária.


Se os fiscais forem autorizados a vaguear pelas praias em trajes banhistas, acautela-se a penosidade da função. Poderão suportar o calor da estação em trajes apropriados e, nos intervalos da pesquisa inspectiva, tostar a pele e depois refrescá-la nas águas tépidas. É que assim o disfarce é mais perfeito. Se estiverem empenhados na fiscalização e não tiverem olhos para mais nada (nem para as beldades que ocasionalmente passam diante dos seus olhos – e aqui penso apenas nos fiscais e naquelas fiscais que tiverem uma orientação sexual alternativa) serão detectados à distância. No meio da muita tez escurecida pelos raios solares, lá estarão a exibir alva epiderme. No meio da mancha de corpos bronzeados, só não se distinguirão dos esquálidos turistas britânicos que aterraram no aeroporto de Faro na véspera. Sobra uma hipótese: hão-de misturar-se com os demais veraneantes, como se fossem turistas comuns em demanda dos prazeres estivais.


Se os vir na praia, em plena passagem de contra-ordenação a um vendedor ambulante que haja esquecido de acondicionar as bolas de Berlim – sem creme – em malas refrigeradas a sete graus centígrados, hei-de me acercar deles. Não será para os abraçar, ao mesmo tempo que me desfaço em agradecimentos mil. Será para lhes dirigir uns impropérios, que congeminar a ingestão de bolas de Berlim desprovidas de creme de ovos é tão lógico como comer uma francesinha sem molho, morangos com chantilly sem o chantilly, e por aí fora.


Agora me ocorre: a ASAE ainda não se lembrou de perseguir as típicas portuenses francesinhas. Não sei se o não fará para não alimentar a espúria guerra norte-sul, se o director da dita entidade é portuense de gema, ou se é apenas esquecimento. Por este andar, terão que multar o sol. É que saio da praia e dou de caras com um simpático e pueril sinal que dá as horas do “sol perigoso”. Como há cidadãos que teimam em torrar ao sol entre o meio-dia e as quatro da tarde, das duas, uma: ou saltam para o areal de bloco de contra-ordenações em riste, multando os ignaros veraneantes que se expõem a um cancro da pele, ou engendram expedição ao sol e prendem-no, por irradiação ultravioleta assassina.


Adenda – Alvíssaras aos diligentes agentes da ASAE: hoje de manhã andavam vendedores ambulantes a apregoar “bolas de Berlim, com e sem creme”. Matéria-prima abundante para contra-ordenação sem cessar. Adoro as leis feitas para ninguém cumprir! Dão um arzinho da desautorização ao emproado Estado, sempre insaciável na exibição da sua autoridade.

27.7.07

Faz de conta


Bombástico: seremos o primeiro país do mundo a criar um centro de mediação de conflitos no “Second Life”, medida tirada da cartola por este governo que temos. A modernidade é tributária dos avanços tecnológicos, barómetro do desenvolvimento dos países. Por esta bitola, orgulhosamente encabeçamos o campeonato dos “infoincluídos”. Agora que os governos dos países gostam de mostrar quão avançados são exibindo façanhas do “e-government”, o governo do “engenheiro” Sócrates há-de ficar conhecido a nível mundial pela pedrada no charco.

Há que o dizer: a medida é de uma importância desmedida. Para o perceber, importa primeiro tomar o pulso ao “Second Life”. Como estava a leste do dito jogo, informo-me. Ao que parece, há gente que dedica uma parcela significativa do seu tempo num jogo interactivo em que se fazem passar por outras personagens, diferentes daquilo que são na vida de carne e osso. Simulam-se vidas alternativas, como se o jogo caucionasse o desdobramento de personalidades servido de bandeja através do contacto na Internet. O “Second Life” é uma telenovela tecnológica que democratiza a actuação num palco que passa a ser virtual. Pessoas comuns, sem preparação para actores, emprestam as suas personagens fictícias ao enredo que se vai tecendo com os contributos da comunidade virtual.

Pessoalmente, isto perturba-me: o “Second Life” tresanda a esquizofrenia colectiva, mas do alto do livre arbítrio cada qual faz o que bem lhe apetece com o seu tempo disponível. Assim como assim, há quem jogue curling, quem se entretenha com karaoke, outros dedicam-se à política e um escol convence-se dos seus dotes messiânicos na governação dos outros.

Na posse destes dados, percebe-se melhor a enorme importância da decisão do governo. O “Second Life” é um sucesso mundial. Há comunidades virtuais que empenham pessoas de variadas nacionalidades. Sendo um simulacro da vida real, o mais natural é que surjam conflitos entre as personagens. Afinal, a história da humanidade é um rol infindável de conflitos, que por vezes têm desenlaces trágicos. O governo socialista faz jus à divisa que gosta de apregoar: a governação com rosto humano, dirigindo as prioridades para os problemas que afligem as pessoas. E como as pessoas parecem entreter-se com redobrada intensidade num mundo virtual, este passou a ser um domínio que exige soluções dos poderes públicos. Lamentavelmente, os países mais avançados ainda não conseguiram perceber que os conflitos no “Second Life” concitam as atenções da aldeia global. Foi necessário o arrojo intelectual dos socialistas portugueses para se perceber que o mundo virtual se confunde com o mundo real.

O boy que é secretário de Estado da justiça, um João Tiago Silveira, debitou no noticiário radiofónico arrazoado típico de especialista de informática e de redes de informação. Explica que a medida é uma antecâmara do futuro, quando as pessoas e as entidades se relacionarem intensamente na Internet. Os conflitos hão-de perder a actual materialidade, ganhando uma coloração virtual. As autoridades dos países têm que estar habilitadas a dar resposta à desmaterialização dos conflitos. Eis o inestimável contributo do pequenote Portugal. Somos pioneiros na antecipação do futuro, usando o “Second Life” como laboratório.

Entre as palavras entusiasmadas do juvenil João Tiago Silveira – aposto que contagiado pelo seu colega de governo, o fanático “infoincluído” José Magalhães – falta saber se há ali a confissão por meias palavras de alguém que ocupa muito tempo a fazer de conta dentro do “Second Life”. Porventura o secretário de Estado andará com o espírito perturbado porque o seu avatar está mergulhado num intrincado conflito com outro avatar qualquer de um longínquo país. A oportunidade faz a ocasião, no dizer do adágio popular. Bem-haja, João Tiago Silveira, que em vez de se dedicar a cem por cento à exigente função da governação das coisas da nação se entrega às delícias esquizofrénicas do “Second Life”. Não fosse isso, e hoje não estaríamos de peito cheio, orgulho ao alto, porque todo o mundo está de olhos postos no pequenote Portugal que teve a sageza de inventar um centro de mediação de conflitos para o “Second Life”.

Um governo do faz de conta. Um governo faz de conta.

26.7.07

Amanhecer


A luz matinal encerra a magia que rejuvenesce da noite cansativa. Dito adeus ao sono tempestuoso, depois da noite entregue nos braços do revolvido mar atirado pela ventania dos sonhos bizantinos, chega a alvorada retemperadora. Uma luz esquálida que se descobre entre as garras da noite, da longa noite que escondeu o sono inútil. Não é a noite que abraça o descanso do espírito. É o despertar de mais um dia, a luminosa aurora, ainda que pincelada com o acinzentado das nuvens que descarregam chuva.

A brisa matinal, refrescante, tonifica o corpo para o dia que desfila pelas horas fora. É ela que perfuma todos os poros, na languidez dos passos da cidade ainda adormecida, pelas ruas desertas que acordam, ainda estremunhadas, nos escassos automóveis que cambaleiam, nas poucas pessoas que saíram à rua tão cedo. Andorinhas que ensaiam coreografias em voos embriagados exaltam a alegria da manhã. Contrastam com as faces carregadas da multidão que aos poucos apinha as ruas, a multidão irada com a erupção da manhã. Contraste que também encerra a beleza matinal: o dia avança e com ele desagua a multidão atarefada, contrariada pela manhã furtar o sossego do leito. É aí que a manhã se banaliza e se quebra o fio condutor com o remanso que só a alvorada temporã permite.

E se os minutos gastam o encantamento da manhã, é porque as ruas carregadas de pessoas contrariadas corroem a leveza do ar matinal. Até a luz encontra o seu lugar trivial, sem os matizes enigmáticos que a primeira claridade vem trazer. A escassez de tudo que arremete com a alvorada é a caução da sua imponência. Que nasça tímida, custosamente empurrando o breu nocturno para o seu próprio descanso, é sinal do lento renascimento que se faz para outro dia, ensinando a recriação da vida. Da noite que finda, o recolhimento das velas, mastros desamparados onde repousa o orvalho nocturno. Os primeiros raios de sol hasteiam as velas em toda a sua grandiosidade, para que venham abraçar a luz intrépida que se levanta com o ciciar dos incessantes ponteiros do relógio.

Do amanhecer guardo a centelha da noite que a luz matinal transforma em imagem natural. Já não a feérica luminosidade que encandeia, o palpitar das luzes dos candeeiros que professam a luz artificial; é a vez dos candeeiros se apagarem para a luz natural irromper, majestosa. Só um punhado testemunha a sumptuosa alvorada, extasiados com a magnificência da luz matinal que se ergue detrás do horizonte, a luz ao início ainda baça. É como se fosse um farto pequeno-almoço, cheio de coloridas frutas que adornam o dia nascente com o perfume frutado.

A manhã fresca sedimenta a energia pueril, quando tudo se abraça com a obstinada força desalmada só possível pelo cansaço ainda virgem. A manhã que tudo renova, luz matinal que destoa do empalidecido rumor tardio que derrota o corpo cansado pelas curvas sinuosas do dia extenuante. Apetecia guardar os singelos, escassos momentos desta luz matinal, da sua alva frescura que bate contra a pele que se entrega, corajosa e solitária, ao vento que sobra da noite. Apetecia emoldurar esses instantes tão belos, reproduzi-los nas horas diurnas que vão consumindo a paciência. Só para perceber o discernimento do impossível, penhor da perfeição matinal que se resguarda na sua intensidade momentânea. Não, afinal não apetece reproduzir a fulgurância matinal para além do horizonte da manhã, ou deixava a manhã de ser pletórica.

É o bálsamo, alvorada tão cedo pelo mister de saciar em todas as gotas aspergidas pela manhã que acaba de emergir do lado nocturno. O amanhecer só meu. Vida que sai da hibernação com medo da escuridão semeada pela noite, as pétalas que se abrem com sede de entrega aos primeiros batimentos do dia. Flores que exalam o perfume do encantamento da vida renascida. O dia que começa, instantes nascentes que tudo emprestam opulência às coisas. Fosse tudo sempre a magia matinal e não haveria lugar aos baixios que a marcha do dia acostuma.


25.7.07

O livro da vida


A neblina que rasava o solo sondava o etéreo lugar de um sonho. A luz, domada na sua baça tonalidade, ofuscando a claridade das coisas. Só havia silêncio, um perturbante silêncio. Por momentos sentira-se só no mundo, como se em seu redor não houvesse vivalma a partilhar o legado da humanidade. Para o aterrador silêncio contribua a ausência de outras formas de vida. Nem o chilrear de um pássaro, ou o rumor de um regato, nem sequer o silvo dos arvoredos quando vinha o vento embater na vegetação. Só o som dos seus passos, os sapatos ciciando contra as pequenas pedras que alcatifavam o caminho empoeirado.

Num amontoado de pedras maiores, estava um livro entreaberto. As páginas levemente amarelecidas. No papel pesado – dir-se-ia, um papiro antigo – repousava uma pedra que não deixava esvoaçar as páginas quando o vento esbracejava. Era um livro grande, grosso, pesado, majestoso. Guiado pela curiosidade, achegou-se ao promontório onde o livro se mostrava. O silêncio interrompido por uma voz sussurrando ao ouvido, uma voz sem rosto que o arrepiou, tanto quanto o que a voz lhe segredava: “este é o livro da tua vida.”

Ficou inerte e embaraçado. A preciosa racionalidade não o deixava acreditar no que se passara. Uma voz pertence sempre a um rosto. Aquela voz que lhe segredara ao ouvido vinha do nada, de um misterioso vazio, desprendida de uma face, anuindo a estranheza que o atrapalhara. Olhou e olhou nas redondezas em busca de uma personagem escondida detrás dos arbustos rasteiros, ou numa cova tapada pela vegetação densa. A racionalidade teimava em alimentar o embaraço que não deixava acreditar que a voz se fizera ouvir, que pronunciara aquelas palavras tão estranhas. Convencia-se, a cada instante que passava, que só podia estar mergulhado nas profundezas de um sonho, tão bizarro como soem ser os sonhos.

Largos minutos depois, convencera-se que a ilusão estava desfeita. Ou sonho ou não, as palavras sem rosto não cessavam de ecoar, repetitivas. “Este é o livro da tua vida. Este é o livro da tua vida. Este é o livro da tua vida”. A desorientação cedera lugar à resignação, o resultado das forças que se exauriam à medida que as explicações esbarravam em perguntas sem resposta. Já nem lhe interessava saber se estava amarrado a uma dimensão onírica ou não. Cedeu aos caprichos da ininteligível razão, acercando-se do promontório que desnudava o livro da sua vida. E seria mesmo o livro da sua vida, como se alguma entidade misteriosa houvesse retratado todos os momentos da sua vida, como se afinal os dias e as noites que se sucediam estivessem a ser vigiados por essa entidade?

A medo, subiu ao púlpito onde as páginas se descerravam. Uma fina camada de pó cobria as páginas abertas. A encabeçar a página estava, em letras vigorosas, a data do dia. Um marcador aveludado adormecera no regaço das páginas do dia, à espera que a manhã seguinte fosse testemunha de mais uma página dobrada, o novo leito onde viria o marcador deitar-se por outras vinte e quatro horas. Estranhamente, a página do dia de hoje estava em branco. Suspeitou que afinal o livro da sua vida era um embuste – ou que a sua vida era o embuste, esvaziada de conteúdo, na diluição de significado que a tornara uma tremenda página em branco, o vazio perene.

Não se resignou perante a decepção que o flagelava. Recuou uma página, mortificado por uma curiosidade que desconhecia em si. Outra vez o cabeçalho denunciando o dia correspondente. Tudo fazia sentido, até porque as imagens que começavam a passar não deixavam mentir o que acontecera no dia pretérito. Dividido entre e curiosidade e temor, recuou uma maço de páginas para confirmar se toda a sua vida estava retratada naquele livro. Escolheu uma data marcante, retida na memória, e viajou até à página correspondente. Assustadoramente rigoroso, o livro impedia a reescrita do passado. Era penhor desse passado. Das cicatrizes e dos momentos gratos, todos ali emoldurados.

Subitamente foi assaltado por um impulso de rejeição. Não que renegasse o passado, mesmo os momentos de que não se orgulhava. Não lhe apetecia gastar o tempo, o tão precioso tempo que escasseia até à vida se perder nos meandros da morte. Não queria continuar a desfolhar os tempos idos, um desperdício de tempo. Essa vida fora vivida no seu tempo. De repente percebeu que havia um maço de páginas à frente do marcador que assinalava a data presente. Seria a revelação dos dias vindouros. Uma tentação. Reprimida, por nem querer saber quantos os dias que faltavam para ser furtado à vida. E por resistir a desembaciar o que lhe reservavam os dias à frente, nem as coisas boas nem as agruras ainda por suportar. Impaciência curiosa derrotada pela asfixia do sonho. Porque só podia ser um sonho, o livro da vida ali exposto, a vida toda aberta a quem a quisesse esquadrinhar.

Sempre aprendera que o futuro é o desconhecido. Uma aventura que se dedilha à medida que os dias se sucedem. O livro só podia ser um fragmento dos sonhos que semeiam ansiedade.

24.7.07

Quando a verdade leva à crucificação


A fronteira entre verdade e mentira, sempre tão esguia. A diferença entre a mentira ostensiva e a mentira que não o chega a ser pelo triunfo do silêncio – as omissões que apascentam a mentira que se insinua nas palavras não proferidas. E há as verdades incómodas, que de serem ditas arrastam quem as disse para o sarcófago da censura social, como se fosse preferível a mentira à verdade impertinente.

Quando tanto se fala da ténue fronteira entre verdade e mentira na política, e quando se denuncia a crise do regime por causa de mentiras despudoradas cirurgicamente compostas como verdades insofismáveis, eis que tudo se confunde ainda mais com um episódio passado em Inglaterra. Uma ministra confessou que há trinta anos fumou uns cigarros de haxixe. Foi o reboliço. Que os partidos da oposição se tenham, com oportunismo, colado às afirmações para tirarem proveito, é compreensível: estão no seu papel. O que se não entende é o moralismo ofendido dos que ficaram incomodados ao saberem que uma governante teve desvarios de juventude que a trouxeram pelos caminhos do ilegal. E que ilegalidade, esta de fumar haxixe!

Qual é o mal de um político confessar que fumou uns charros há trinta anos? Pelos vistos, é preferível a mentira. Talvez a senhora ministra devesse responder ao imperativo dos bons costumes, que um ministro deve ter um passado impoluto para dar o bom exemplo aos jovens e para recato de consciência dos da sua idade. Se necessário for, recompõe-se o passado, com uns pozinhos de reconstrução histórica que emprega o receituário estalinista. Os governantes têm que exibir um passado impoluto. Não lhes é reconhecido o direito ao pecado em tempos idos, nem o percurso por caminhos ínvios aos olhos da moral e dos bons costumes. Se por acaso o governante foi recauchutado de um passado tresmalhado, não convém que se saiba para sossego das almas atormentadas com a governação pacífica do reino.

Uma mentira necessária, portanto. Que não deixa de ser uma mentira. Não vejo que uma mentira, só por ser necessária, deixe de trazer consigo a perfídia da intrujice. É em momentos destes que apetece parar para reflectir no que se passa em redor: e reconsiderar os valores, porque somos convidados a essa revalidação. Ao que parece, a categoria da “mentira necessária” encaixa-se melhor na tranquilidade social do que a categoria da “verdade incómoda”. Porque a primeira é necessária e a segunda traz a incomodidade a certos espíritos, transforma-se a escala de valores para fazer a vénia à mentira e cercear a verdade. Os bons costumes vitorianos (que se entaramelam com um código contemporâneo de vida que resvala para a devassidão) ficaram boquiabertos com a frontalidade da senhora ministra. Tudo se resume à censura social que dilui as capacidades de alguém só porque essa pessoa foi honesta ao ponto de confessar que teve os seus pecadilhos na juventude.

O mau exemplo vem da reacção vitoriana. Na voragem da competição política, onde os aspirantes à ascensão na hierarquia das sinecuras não olham a meios para atingir fins, há-de vingar a mentira como preceito habitual. Aqueles que tiveram excessos juvenis ao arrepio das convenções sociais e das leis anacrónicas saberão que não os podem confessar. Saberão que devem dar de si uma imagem imaculadamente pura, asséptica, como se todos tivessem sido meninos e meninas exemplares. Têm que mentir. Serão, os mentirosos, os premiados no mercado da política onde interagem com a audiência dos governados, que preferem a mentira necessária à verdade incómoda.

A escala de valores sofre mutações, sinal de uma vitalidade social que se aplaude. Todavia, não posso deixar calar alguma perplexidade perante a inversão de valores e de como as pessoas reagem a despropósito perante minudências e se calam perante atentados. Não muitos se insurgiram contra o passado pouco recomendável de Joschka Fischer, ministro dos negócios estrangeiros do governo alemão liderado por Gerhard Schröder. Na juventude, enquanto activista de extrema-esquerda, esteve envolvido em violentas acções que não andavam longe do terrorismo. Reconverteu-se – e quem não tem direito à reconversão ideológica? Tirando os adversários movidos por interesses partidários, poucos questionaram o passado de Joschka Fischer. Mais grave será o devaneio juvenil de uma ministra britânica que fumou uns charros, essa coisa tão grave.

Moralismos impenitentes fazem dos seus sacerdotes os arautos da hipocrisia latente. Da hipocrisia que nos cerca, impante, tão ciosa de exercer a vigilância voyeurista sobre os outros. Tenho para mim que aqueles que tanto se afadigam em ajuizar os outros e exercer sobre eles os padrões da moralidade vigente, são os que se embrenham numa existência viciosa.

23.7.07

Um excurso abstencionista


Esta demissão dos cidadãos em relação às suas responsabilidades deveria ser sancionada (...). Trata-se de um gravíssimo sinal de desdém pela democracia”. Inês Pedrosa, Única/Expresso.

É quando apetece ser abstencionista com mais força. Quando sou esbofeteado por verdades axiomáticas com esta, assoma à superfície a vontade indomável de ser mais um entre os ausentes das mesas de voto. É por coisas destas que fujo das esquerdas a sete pés: auto-intitulam-se campeãs da liberdade, mas não basta o registo histórico para caucionarem o papel de penhores da liberdade quando, no presente, impõem comportamentos que não merecem desvios, sob pena de severa punição. Assim temos as esquerdas fautoras de atropelos às liberdades.

Aos que se incomodam tanto com a crescente abstenção, convém que saibam que o voto compete a quem o deposita. Na minha esfera de liberdade individual inclui-se, entre tantos outros aspectos, o livre arbítrio para fazer com o voto o que bem me apetecer. Se voto em A, B, C ou D, por mais obnóxias que sejam as propostas eleitorais; se me recuso a colocar a cruz num dos candidatos, pondo o boletim de voto à mercê de um escrutinador que, à socapa, inscreve nele a cruz no partido da sua conveniência; se decido não comparecer na eleição, engrossando o maior “não partido” (o da abstenção) – são decisões que pertencem ao meu íntimo, decisões que não admito que alguém questione. Sob pena de também questionar o voto de quem se incomodar com o meu abstencionismo militante. Inês Pedrosa não gostaria que alguém a chamasse ignorante por ter votado em quem votou.

A frase da escritora é de uma gravidade que, essa sim, merecia ser sancionada. A frase merece ainda outra tarefa – ser dissecada. Primeiro acto: a abstenção é uma “demissão dos eleitores em relação às suas responsabilidades”. Enquanto o voto for um acto individual, não vejo como este arremedo de responsabilidade colectiva se sobreponha à responsabilidade individual. Inês Pedrosa revela desconforto com a taxa de abstenção espectacularmente elevada. Fazendo coro com a classe política, sacode a água do capote. A culpa mora sempre ao lado, ainda que ela habite na nossa casa; que é como quem diz, não lhe ocorre diagnosticar que as causas da abstenção galopante poderão estar no descrédito dos políticos e no descontentamento dos cidadãos com o processo político.

Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Tantos eram os candidatos à câmara de Lisboa que as pessoas nem souberam quem escolher. Poderia lá estar essa grande esperança nacional, que acabou por vencer embrulhado num sucedâneo de União Nacional. Ou até a arquitecta Roseta, ao gosto de Inês Pedrosa, agora candidata independente, como se alguém que sempre viveu abraçada ao partidarismo possa aparecer, com um golpe de magia, com a capa de “independente”. Nada disso consegue afastar os ventos da fraca qualidade dos que se ofereceram para presidente do município lisboeta. Eu continuo a achar que o voto não é, não pode ser, a escolha do mal menor. Se entre os candidatos todos são maus, mesmo muito maus, temos que aplicar a cruz naquele que for o menos mau, só para sobre nós, eleitores, não recair o opróbrio da “demissão das responsabilidades”? Escolher quem é mau é compatível com a consciência? Não, pelo menos no meu caso.

Segundo acto: a demissão dos eleitores “deveria ser sancionada”. Como se fosse crime de lesa-majestade. Como se votar, para além de dever, não fosse direito. E um direito que precede a qualidade de dever. Porventura Inês Pedrosa tem uma poção mágica para sonegar a crise do regime e do processo político. A poção mágica consiste na ilusão estatística: para acabar de vez com os malefícios da abstenção, obrigue-se o povaréu a ir votar, sob pena de cair sobre as ovelhas ranhosas (os abstencionistas) o cutelo de uma sanção pesadíssima. Três comentários: repito, o direito de voto precede a faceta de dever; segundo, eis a democracia em todo o seu esplendor, a democracia musculada de que as esquerdas são garbosas patrocinadoras, que altera a ordem dos factores e entroniza o voto como dever antes de direito; terceiro, que sanção vai na cabeça iluminada de Inês Pedrosa? Prisão? Perda de voto no seguinte acto eleitoral? Uma multa pesada, como na Bélgica e na Austrália?

Terceiro acto: a escritora é da opinião que a abstenção é o cancro da democracia, pois a democracia existe para os cidadãos e estes, enquanto abstencionistas, manifestam “um gravíssimo sinal de desdém pela democracia”. Este argumento morre à nascença, se recordar que antes de ser uma obrigação, votar é um direito – e da esfera individual de cada eleitor. Cansam-me estes moralismos colectivos, como se tivéssemos que ir em manada, todos pelo mesmo caminho, o caminho iluminado pela candeia dos predestinados que nos pastoreiam. Estou em paz com a consciência de cada vez que me ausento das mesas de voto. E não admito que alguém, seja quem for, do alto da sua tão elevada moralidade (que deve ser superior à dos hediondos abstencionistas, portanto) sentencie que quem se abstém desrespeita a democracia.

Só faltou à D. Inês Pedrosa rematar o diagnóstico desta maneira: os que se abstivessem deviam ser riscados para sempre dos cadernos eleitorais. Seria a punição pelo desdém pela democracia, pois mostravam não serem merecedores da democracia. Só não sei se o acto que se segue é ostracizar quem vota mais à direita, porque só as esquerdas é que são sensatas.

20.7.07

Vacas poluentes


Um desafio aos sacerdotes do ambientalismo: insurjam-se contra a praga noticiada há dias no Reino Unido. Não é uma praga de gafanhotos, que logo haveria de se achar uma sinistra teoria que culparia o capitalismo pela migração inesperada dos insectos. Foi o meu amigo J. que enviou um e-mail dando conta da descoberta: as vacas e as ovelhas são responsáveis pela emissão de gases poluentes para a atmosfera, justamente através dos gases que compõem a sua actividade flatulenta.

Há pormenores deliciosos no achado científico (traduzo da notícia estampada no Times online): “as emissões de metano originadas pela flatulência de bovinos e ovinos têm causado tanta preocupação ao governo que a comunidade científica foi encarregada de estudar meios que permitam diminuir essas descargas poluentes, que representam cerca de um quarto do total do metano – um gás vinte vezes mais poderoso que o monóxido de carbono na alimentação do efeito de estufa – libertado para a atmosfera no Reino Unido. Todos os dias, os dez milhões de bovinos britânicos libertam entre cem e duzentos litros de metano. O equivalente a 4.000 gramas de monóxido de carbono, nada que se compare com os 3,149 gramas emitidos por um Land Rover Freelander se viajar em média trinta e três milhas por dia”.

Isto dá que pensar. Dá pano para mangas de reflexão. Começo pelo enviesamento dos ambientalistas. Nunca se lhes ouviu uma palavra, nem se lhes viu manifestação ruidosa, atacando o teor poluente do gado bovino e ovino. Agora que alguém tocou na ferida incómoda para os interesses dos protectores do meio ambiente, das duas uma: ou eles deixam de assobiar para o lado, caindo em si e fazendo de conta que andavam distraídos com a poluição gerada pelo gado, despertando para o combate dos efeitos nefastos da existência de vacas e ovelhas; ou perseguem a senda do radicalismo misturado com a criatividade que desvela teorias da conspiração, atalhando dose significativa de falta de rigor científico, para concluírem que a denúncia da poluição animal foi uma invenção da indústria automóvel para desviar as atenções das acusações que a cercam.

Porventura haverá alguns adeptos do ambientalismo que não estão desatentos. Recordo-me de ter ouvido, no programinha de educação ambiental que a RTP passava antes do noticiário da oito da noite, uma mensagem curta mas subliminar: diminuir o consumo de carne vermelha ajuda a proteger o meio ambiente. Não eram dadas explicações. O que não é surpresa, atendendo à usual falta de rigor científico dos sacerdotes do ambiente, à forma como passam as suas verdades retumbantes – tão retumbantes que dispensam justificações (aliás, se curassem de fornecer explicações, as verdades decerto deixariam de ser assim tão retumbantes…). Agora que sei que a flatulência bovina e ovina deteriora tanto a qualidade do ar (e não é só pelo odor nas imediações), percebo a mensagem. Se comermos menos carne, menor será a criação de gado, menor o impacto ambiental causado pela libertação de metano.

Há soluções finais para problemas tão agudos. Teço um paralelismo com a fobia dos ambientalistas contra o automóvel. Desdobrando-se em iniciativas que sensibilizam as pessoas a prescindirem da utilização do automóvel, argumentando que o automóvel é um dos maiores focos de poluição atmosférica, só restará aos ambientalistas proporem a proibição da criação de gado. Perfila-se uma opção radical e uma opção gradual. A primeira atalha o mal pela raiz: os governos ter-se-iam que pôr de acordo para matar todas as cabeças de gado bovino e ovino, uma espécie de genocídio animal. A segunda opção consistiria num plano para a eliminação gradual das reses, passando pela esterilização e progressiva liquidação de vacas e ovelhas. Os vegetarianos teriam motivo para cantar gloriosa vitória. Mas seria admitida uma excepção, motivada pela idiossincrasia dos indianos que não haveriam de abdicar do estatuto de sacralização da vaca.

Dos males emergem grandes soluções. E da mesma forma que houve quem tivesse descoberto utilização alternativa para o milho, que será a prazo mais matéria-prima de combustíveis (o biofuel) em vez de fonte de alimentação humana, haverá quem descubra solução para aproveitar o metano que o aparelho digestivo das vacas e das ovelhas liberta com tanta prodigalidade. A solução preferida para os amigos do ambiente que são ao mesmo tempo amigos dos animais: inventar-se-ia um mecanismo de recolha dos gases das reses, evitando que se perdessem na atmosfera. E como estes gases são inflamáveis, o seu envasamento seria canalizado para a produção de energia.

19.7.07

O vento incessante


O homem de negro subia aos mais altos promontórios, onde o vento crestava até as pedras mais indomáveis. Entregava-se ao vento como sinal da purificação que buscava. Era o vento a sua catarse, altar do recolhimento silvestre onde as feridas abertas se saciavam numa cicatriz. Subia bem alto, ao inóspito lugar que mais ninguém ousava frequentar com severa ventania. Por ali ficava, sem saber que o tempo prosseguia marcha célere. Parecia que o vento tão veloz abrandava os ponteiros do relógio. Dir-se-ia que ali, exposto ao vento, conseguia reter o tempo entre os dedos.

As serranias escondiam a fúria ventosa que alisava os sopés, desgrenhando os arbustos rasteiros que resistem aos elementos devoradores. O homem de negro, tão só como as pedras restantes desnudadas à erosão, estava no seu elemento. A abrasadora ira dos penhascos por onde tombara, os fogos demoníacos que o haviam consumido, todas as lágrimas que escorregavam os sedimentos de bondade, tudo carecia de cura nas peregrinações ocasionais que o mortificavam nas gélidas bofetadas de vento. Nesses momentos sentia-se asceta. Um zénite de extremos – ancião penhor de renascidas forças, pescador no sopé do monte, pescando o idioma que estendia o pesar por mais dias de antinomia de sacrifício.

Preferia os atravancados caminhos até ao alto da serrania. Por vezes, deixava-se enamorar pelo vento fresco que se misturava com as salgadas gotas do mar sopradas pela borrasca atlântica. Nem o sagrado mistério do oceano, em toda a sua tremenda exuberância, chegava para vingar o enamoramento. Não passava de um instante que se diluía na mansidão incomplacente do sopé deserto. As cercanias do mar são sempre habitadas. Nelas não podia escapar à presença humana, quando tanta era a urgência no refúgio da espécie. Lá no alto, depois das curvas retorcidas e dos impérvios caminhos pedregosos, nunca avistou vivalma em redor, nem na vastidão que o horizonte descerrava diante dos seus olhos. Só ele e o vento.

De cada vez que a revoada de coléricos sopros embatia no seu peito, não conseguia esconder um esgar. A máscara acomodava a raiva que se foi sedimentando desde a última peregrinação sacrificial. A habituação trazia de volta a serenidade do rosto. Os olhos cerrados sentiam o movimento ondulante das rajadas, que na cumeeira esvoaçam na doce anarquia que reprime a macilenta rosa-dos-ventos. Ainda de olhos fechados, empurrado de um lado para o outro, faces maceradas pelo gélido vento invernal que vinha apascentar a sua calma. Não havia desconforto físico que suplantasse a quietude interior que o percorria. O vento entranhado nos poros era o efeito balsâmico. De vez em quando abria os olhos. Às vezes tinha que os fechar pela coreografia de poeira que tingia o ar. Outras vezes o vento agredia a vista, desprendendo as lágrimas que coalhavam na secura da face. Chorava sem chorar: lágrimas apenas da vista agredida, não lágrimas sancionadas pela emoção ou pela tristeza.

Pela noite, o zumbido do vento polar permanecia no imaginário. Convencia-se que os ouvidos tinham ficado retidos na noite escura, emprenhando os acordes do vento que entoam uma melodia ímpar, uma melodia que só se escuta no alto da serrania. À velocidade vertiginosa do vento sucediam imagens esculpidas: das gargantas que uivaram sonoras bravatas, dos dedos atapetados na sua pele em sinal de desafecto, de todas as hipocrisias vis da gente comezinha, dos sítios que só a miopia da vista e da companhia pesavam como idílicos. O desassossego da ventania tinha o predicado de tudo questionar. Dos mais fáceis instantes de mágoa, aos pedaços outrora agasalhados no cobertor refulgente das memórias gratas, estes de insondável matéria que urgia renegar.

Ele sabia. Sabia que carecia de um tonificante banho de vento. Só os rugidos enfurecidos do vento eram nutrientes da exigida expiação. O vento, de tão forte, lava-lhe todos os poros, mesmo os mais recônditos. Impregnava-se no mais profundo do ser. Passado o vento, já do outro lado tingido com a matéria infame que assim se desatou, podia regressar imerso num banho de rosas invisível, que só ele conseguia captar tão perfumado odor. E todo o vento que se esmagara contra o seu peito arrancava das entranhas o remoinho que o mergulhava em negras profundezas, de onde não havia mister de se soltar.

Esse vento, não de soslaio olhado: cumpria a dignidade que fosse enfrentado de frente, com a totalidade do ser entregue aos silvos irados que amansavam o flagelado intérprete da desarmonia.

18.7.07

De como a gramática atrapalha

José Manuel Fernandes, director do "Público", no editorial de hoje: "Da mesma forma que não seria saudável que, há esquerda do PS, não existisse um PCP (...)".

Educar é formatar?


A história da humanidade é fértil em choques de gerações. Mudam as preferências com a passagem de testemunho geracional: nos hábitos, na cultura, nas múltiplas expressões de cultura. Hoje, os mais velhos mostram-se inquietos com os hábitos culturais dos adolescentes (ou melhor, com a ausência desses hábitos e com a qualidade duvidosa dos escassos hábitos). Reprova-se a falta de sensibilidade pela leitura, o total alheamento da poesia. Critica-se a aversão pela sublime música clássica, substituída por produtos de consumo fácil e que tão depressa entram no ouvido como são remetidos ao lugar do esquecimento. Os mais velhos, sobretudo os que são pais, discutem se lhes assiste o dever de um envolvimento activo na educação cultural dos filhos.

Num registo pessoal, não me custa concordar com o diagnóstico. Pelos meus padrões pessoais – o que tem, logo à partida, o viés da subjectividade – a leitura, o teatro, o cinema (sem ser o fátuo cinema de entretenimento que enxameia as salas de cinema), a música, a literatura, a pintura são ingredientes imprescindíveis para o crescimento das pessoas. Por mais que se envelheça, há sempre lugar ao conhecimento de novas expressões culturais. Agem como nutriente que sustenta a existência para além da insípida vida dominada pela monotonia.

Que os mais jovens tenham outros horizontes, que levem as suas preferências por caminhos que nada motivam a minha atenção, será um problema meu. Se gostam do cinema carregado de efeitos especiais, que desvaloriza a intensidade narrativa; se gostam de rap, hip-hop, os de outras xaropadas que se consomem na voracidade do tempo; se o pouco que lêem é a duvidosa qualidade da “literatura light”; se apostam em séries de televisão para o público juvenil, com uma linguagem que só o público juvenil consegue decifrar; se estes são os produtos que atraem os adolescentes e os pós-adolescentes, o mínimo que se pede a quem não se revê nesta “estética cultural” é respeito pela opção. Ainda que ela se dilua em manifestações que não reúnem o nosso agrado e que olhemos para elas e sejamos assaltados pela perplexidade – como é possível alguém consumir daquilo, é a interrogação sobrante.

Regresso ao início: as diferentes gerações não têm a separá-las apenas o hiato da idade, uma espessura temporal que cava um fosso que tantas vezes impede a comunicação inteligível. Entre elas emergem diferentes gostos, diferentes modas (que, para os críticos, hão-de ser sempre modismos, com a conotação depreciativa que a palavra encerra). Também as separam diferentes manifestações de cultura. Nem que aos mais velhos surja, pela sua lente, o diagnóstico de anti-cultura, ou de negação da cultura, ao apreciarem os formatos que reúnem a preferência dos mais novos. Este é um juízo que deve ser combatido por dois motivos: primeiro, depreciar as preferências dos mais jovens revela um desrespeito que não entra nos cânones da tolerância que, essa sim, deve pertencer ao legado educacional; depois, os mais velhos não se podem esquecer que na sua juventude as manifestações de cultura que elegeram também passaram pelo crivo negativo dos que eram mais velhos.

Há um aspecto importante que se junta a esta discussão: como pais, deve a educação para a cultura ser tributária de um activismo militante, que condiciona, pressiona, proíbe? Devem os pais interferir nas preferências dos filhos, orientando-os para manifestações de cultura purificadas pela experiência dos mais velhos? Podem os pais desviar a atenção dos filhos, rejeitando determinados produtos que considerem nocivos para o seu amadurecimento? Podem impor manifestações culturais que fazem as delícias dos pais, mesmo que os filhos sejam feitos de outra massa e não mostrem sensibilidade para tais produtos? Todas estas perguntas merecem um não como resposta. De outro modo, o que temos é a formatação de personalidades que espezinha a sua individualidade. E que pode colocar os mais novos em rota de colisão com outros da sua idade. Nestas idades, desalinhar dos modismos pode levar à marginalização, com as consequências dolorosas para quem fica ostracizado.

Acho que se dramatiza de mais quando se observam os hábitos dos mais novos, as suas preferências no domínio cultural (ou a sua escassa sensibilidade para o domínio). Os movimentos que aglutinam as preferências dos mais novos não nasceram de geração espontânea. E ainda que pessoalmente alguns deles, nas suas exibições, repugnem, não devemos condicionar o acesso aos mais novos. Se o fizermos seremos educadores que se impõem pela imperatividade compulsiva, na pretensão de que os mais novos herdem à força as nossas preferências culturais. Educar não é formatar. É responsabilizar. Resta-me a prova dos nove: saber se consigo levar à prática todos estes preceitos que, para já, são ainda teoria. O tempo trará estes dilemas.

17.7.07

Dressing code


Fixam-se convenções, mil e uma, para tudo e mais alguma coisa. Convenções que impõem observância obrigatória. Ou os dissidentes são enclausurados numa prisão sem grades, a pior das cadeias: a censura das maiorias habituadas à normalidade, que apontam o dedo às ovelhas tresmalhadas do rebanho tão ordeiro.

Alguns, ciosos da disciplinada vida em grupo, entretecem laborioso argumentário: imperativos, os sinais de pertença ao grupo; e todos os indivíduos devem declinar a sua individualidade perante a inclusão na sociedade. As convenções cimentam essa pertença. Ai de alguém se delas se afasta. Sobre ele pesará a espada lancinante da exclusão. Ensinam-nos que não é o grupo que os exclui. É auto-afastamento, por repulsa das convenções estabelecidas. Ao que acresce o incómodo lastro de ser visto pelos demais como aberração.

Há destas convenções espalhadas à nossa volta, um cerco asfixiante à individualidade. Por mais que os engenheiros sociais e os arautos da normalidade enfatizem que são regras de sociabilização, de imperativa verificação como sinal de inclusão no grupo, há o espezinhar da individualidade dos que não se revêem nos códigos a que são coagidos se querem engrossar a imparável maré dos que remam para o mesmo lado. Há ideias que não convém professar em público, logo se vergando ao estigma da marginalização por desafinarem dos padrões bem pensantes. Temos que vestir o que está estipulado para certas situações, ou o vestuário que desalinha dos padrões é entendido pelos sacerdotes das convenções como manifestação de exclusão.

Só o totalitarismo das mentes inquietadas com a paciente arquitectura de um rebanho muito ordeiro e homogéneo é que acata o atropelamento do livre arbítrio de quem não se revê nas convenções estabelecidas. Trata-se de apurar o que vale mais – se a individualidade do ser, se a submissão do ser aos imperativos do grupo, quando o ser entra por meandros exóticos. Alguns, penhores das convenções que fixam a sã convivência em grupo, ofendem-se com os que se distanciam do padronizado. Acham que há nessa atitude uma provocação inaceitável por ameaçar a solidez do edifício social. Não curam de perceber as motivações dos que são olhados com a suspeição tão típica do rótulo de aberração. Em vez da inquirição do que os motiva a rejeitar as convenções, adivinham que se trata de provocação. Pelo caminho, arremata-se a sentença: à provocação aos usos sociais que pode esboroar o cimento do grupo, responde-se com a exclusão, estende-se a passadeira para as proibições. Os comportamentos que ousam desalinhar do estabelecido são interditados.

Vou invocar o exemplo de sociedades tão ocidentais como nós mas que se inspiram numa matriz cultural diferente – as sociedades anglo-saxónicas. Há uma tradição arreigada de respeito pelas decisões individuais, sem que elas sejam encaradas com o perfume da provocação quando se afastam das convenções estabelecidas. A ninguém é vedada a entrada por ostentar um aspecto diferente, por trajar vestuário bizarro, por adornar o corpo com piercings ou tatuagens, ou até, no caso das senhoras, pelo minimalismo das vestes. Prevalece a abertura de espírito para aceitar que os outros, os que não pactuam com as convenções, tenham direito à cisão. As sociedades anglo-saxónicas preservam o império do livre arbítrio, que se sobrepõe sobre o fanatismo dos códigos de pertença social como escrupulosos roteiros. Temos muito a aprender com as sociedades anglo-saxónicas. Lamentavelmente, o viés da análise impede que o paradigma de mudança desejado actue quando esbracejam sanções contra atitudes dos que são levados ao ostracismo social.

Não consigo ser juiz dos comportamentos alheios. Não esperem que exerça este papel, cerceando o acesso aos que trajam vestuário que provoca as convenções, aos que ostentam adornos que chocam sensibilidades. Ainda que esse vestuário e os ditos adornos estejam nos antípodas da minha estética, ainda que fosse incapaz de assim vestir ou de andar tão tatuado ou preenchido de piercings. O monolitismo da aparência, do discurso, das ideias, das convenções que se impõem com a força perene, é um espartilho aos que de tudo isto são dissidentes. E a menos que a democracia já não se conjugue com tolerância, sou incapaz de caucionar esta engenharia social que, afinal, se confunde com um qualquer totalitarismo.

16.7.07

Somos o povo mais honesto da Europa


Ouço um especialista em saúde oral debitar estatísticas. Retenho um dado: como tantas vezes sucede nos campeonatos particulares que comparam países europeus, há um em que estamos a encabeçar a tabela: o número de dentes per capita. Rivalizamos com a Albânia e a Eslováquia na escassez de dentes. Há duas maneiras de olhar para os números. Tanto podem ser lidos como a ordenação, em razão decrescente, do número de desdentados por país – e aí localizamo-nos no topo. Como podem ser lidos pela inversa, e aí os campeões denunciam a cauda da Europa, um certame de que não se tem orgulho em ser campeão.

Mas há uma faceta agradável nestes números, apesar da reacção imediata de desaprovação, censurando a incultura dos patrícios que teimam em fazer tábua rasa dos hábitos de higiene oral (que, pela ausência, levam à progressiva perda de dentes). Só para provar que mesmo nas façanhas que não fermentam o orgulho pátrio se lobriga esperançosa luz que tinge de cor o cenário que, de outro modo, seria deprimente. A alavanca é a expressão “mentir com todos os dentes que tem”. Quanto mais avantajada for a dentição, maior a propensão para a mentira. Uma personagem causticada por inúmeras visitas ao dentista, com um cadastro invejável em ablação dentária, oferece-se ao altar da honestidade forçada. Com pouco dentes para exibir, pouco dado à mentira.

O ratio dentário aparece na inversa proporção da queda de cabelo. Há um traço comum a ambos os fenómenos: serão os mais velhos que se entregam com maior probabilidade à carência de dentes e à ausência capilar. Perda de dentes e de cabelo são sinónimos de larga experiência de vida, curtida na idade que foi passando e levando dentes e cabelo. Onde as duas experiências de envelhecimento divergem é no significado perante a mentira. O esmero da idade, visível no abrandamento capilar, apura o sentido da mentira. Ao contrário, se é verdade a relação causal entre número de dentes e propensão para a mentira, os que envelhecem perdendo dentição vão conquistando um lugar privilegiado no altar dos honestos.

Não fixei de memória os países que contrastam com Portugal no campeonato da dentição. Serão países do centro da Europa. Porventura isso explica a crise civilizacional que alastra no ocidente. Sinal dos tempos: como prova do aumento da qualidade de vida, as pessoas chegam ao fim da vida com mais dentes. Com mais dentes para mentir, a crer na fórmula que ganhou foros de convenção – o “mentir com todos os dentes que tem”. Eis o dilema dos países mais avançados: elevados padrões de saúde oral aplainam terreno para a mentira congénita. Disso – mentirosos compulsivos – não carpem os lusitanos sua mágoas, já que as dentaduras fartamente esburacadas impedem níveis preocupantes de intrujice. Com poucos dentes para trincar, deixamos o papel de corsários da mentira aos vencedores deste campeonato particular.

Este é um dilema que angustia a civilização ocidental. O que é mais importante: o bem-estar material ou o respeito por valores? Ter dentes, e muitos, ou pelo desdentado cadastro sermos certificados pela propensão à honestidade? Os tantos críticos da materialização da pessoa terão abundante matéria para desvalorizar os predicados da higiene oral. Que interessa lavar os dentes e ir ao dentista curar das cáries, para prevenir a passagem do ponto sem retorno onde a extracção de dentes é fatal? Garantia de mais um ponto a favor da honestidade. Por cada dente perdido, menos uma carta a favor da mentira.

Doravante, fica facilitado o escrutínio das relações pessoais. Basta contar o número de dentes. Trocam-se fichas dentárias entre os amantes que iniciam uma relação. Ou abrem a boca para inspecção recíproca - e poucos dentes garantem fidelidade. Cientistas dedicados hão-de aprimorar uma escala que relaciona número de dentes com tendência inata para patranha. Aplicado ao mercado político, os partidos hão-de escolher candidatos desdentados. E teremos que nos habituar a novos padrões estéticos. Não como hoje, que achamos feia uma sorridente boca que mostra as cavidades onde outrora estavam enraizados dentes que apodreceram; o lastro dos honestos, quando a honestidade é caução necessária, será a boca alegremente ostentada em todas as perfurações onde já existiram dentes. A moralidade sobreposta à estética. Deixará de fazer sentido aquele verso de Cesariny (no poema “Pastelaria”):

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
”.


13.7.07

O transexual lésbico


Estou à vontade para satirizar o transexual que foi em tempos rei da montanha na volta à França em bicicleta. Em minha defesa, e contra a possível ira do lobby gay, posso arrolar textos (vertidos neste blogue) em favor da liberdade de opções sexuais, sobretudo das que controversamente têm o rótulo de “alternativas”. Até cheguei a apoiar a adopção por casais homossexuais, o que de mim faria um reles traidor à normalidade conservadora e ao garbo marialva.

Hoje não resisto a elaborar sobre uma história alucinante que vinha nas páginas do Diário de Notícias de anteontem: um ciclista, um másculo ciclista prenhe de músculos disformes, que em tempos foi apanhado num controlo antidoping por excesso de testosterona, mudou de sexo. Andou desaparecido anos e anos. Até faltou a uma gala que o galardoava por relevantes feitos desportivos. Ninguém sabia dele. Quase por magia, como se fosse possível ao corpo humano evaporar-se no meio das nuvens altivas. Robert Millar deu à costa com um novo bilhete de identidade: Philippa York.

O libertário não tem preconceitos deste género. Aceita as opções individuais, quaisquer que sejam. Daí que as palavras que se seguem (depois deste parágrafo) não devem ser treslidas: não há, nem pode haver, censura à decisão que pertence à intimidade da agora senhora Philippa York. Sinto um profundo respeito pelos transexuais: primeiro, pelo mortificante dilema interior, ao terem a certeza que vivem dentro de um corpo que corresponde ao sexo errado; e depois pela coragem de assumirem a mudança de sexo, logo objecto de chacota social, merecendo do povo comum reprovação apressada, os transexuais metidos na gaveta das aberrações que não merecem sequer complacência social. Que estas palavras sirvam a minha absolvição perante a intransigente LGBT. Um pouco de sátira engrandece a causa que dizem servir. Ou isso, ou um mergulho nas águas pantanosas da intolerância, acusação que afinal esgrimem contra aqueles que não aceitam a coligação arco-íris.

Não é pelo caminho da troça mundana que vou. Há algo mais tonitruante: Robert Millar, perdão, Philippa York vive pacatamente numa pequena localidade rural no sudoeste de Inglaterra, quase onde o remoto País de Gales começa. No regaço da sua namorada, rezam as notícias (rezam só a propósito da “namorada”, não do “regaço” – que esse é da minha lavra). Como diria o povo, “juro pela minha saudinha” que não fiquei chocado com a mudança de sexo do trepador (termo técnico do ciclismo que retrata especialistas em escalar terrenos empinados, serra acima). Só fiquei confuso com a mudança de sexo e a partilha de vida com uma namorada. (Falta um detalhe importante: a namorada existia antes da mudança de sexo, ou só entrou na vida de Millar depois de se passar a chamar Philippa York?)

Nada melhor que o amadurecimento do tempo para temperar reacções espontâneas. Ao início, fiquei atónito: um homem fez-se mulher para partilhar o tecto com outra mulher! Foi então que dei conta que estava a ser atraiçoado pelo tabu heterossexual: a mudança de sexo só fará sentido, pensa o heterossexual ponderado, quando corresponde à atracção pelo sexo diferente daquele que o transexual passa a envergar. Ensaio uma fórmula para decifrar o enigma acabado de descrever: se um homem se transforma em mulher, presume-se que no seu renovado corpo de mulher se sente sexualmente atraído(a) por alguém do sexo diferente, neste caso, um homem.

Saltadas as barreiras do preconceito heterossexual, admito que é normal a um transexual viver com alguém de sexo diferente ou do mesmo sexo. O que me perturba é a confluência de atritos pessoais que gravitam na cabeça do transexual. Eis as hipóteses. Primeira: o homem passa a ser mulher e coabita com um homem. Diagnóstico possível: a juntar ao desgosto pelo sexo que a concepção uterina lhe trouxe, uma homossexualidade recalcada? Ou o desejo de se libertar dessa homossexualidade? Respectivamente: a fuga para o corpo feminino é pretexto para assumir a homossexualidade que passa a estar escondida no corpo transformado em mulher? Ou para se entregar finalmente à heterossexualidade que rejeitava enquanto era homem? Segunda hipótese, o protótipo Millar (perdão, Philippa York): o homem faz-se mulher e partilha os lençóis com outra mulher.

Especialistas em decifrar os enigmas da labiríntica mente humana decerto encontram explicações fáceis. Ao leigo, só foi possível avistar a seguinte: Millar gosta tanto, tanto de mulheres, que deixou para trás o corpo masculino e amantizou-se com uma mulher. Não consigo conceber maneira mais expressiva de exibir devoção por mulheres. Tanto que até alterou a preferência sexual depois de ter abdicado da sua masculinidade.

12.7.07

A desnorte


Na gravidade do momento, disse: vivemos mergulhados numa profunda crise de identidade. Desconhecemos as raízes e não curamos de saber qual o destino. Algo lhe diz que entregámos a bússola a um desapiedado filisteu que nos leva na contingência do dia que corre. O porvir merece um tremendo desprezo. A crise de identidade está na deriva de sentido, apoderados pela desorientação do significado da vida. E convocava à purificação das almas, guiadas pela exigência do desapossamento das coisas materiais. Em vez de errarmos por estima.

Aos sacerdotes apresenta-se um combate problemático. Jovens e menos jovens, uns pela facilidade anti-higiénica dos prazeres que se consomem na voracidade do instante, outros pela cedência ao cepticismo militante, outros pela sucessão de desapontamentos vividos, outros ainda porque apenas desistiram da idílica visão que convoca os sentidos – a multidão que se afasta dos altares da metafísica. Se há crise de identidade, é uma demissão da religiosidade das pessoas. Haverá nos curadores da religião uma decepção que semeia a amargura de quem sente os sedimentos da derrota no combate pela evangelização perene. Podem as convicções pessoais, a fé que os norteia, ser a centelha que incendeia o caminho que julgam certo. Sabem, sacerdotes e crentes, que prosseguem ordeiros sem cederem às mãos trémulas que os desviem desse caminho. Aos demais, tresmalhados, resta um mundo de trevas, tão escuro como a câmara hermética que apenas deixa ver a luz ténue, a luz de um dia que se segue ao outro.

Não sei se a crise de identidade é sinal de demissão da espiritualidade. Não sei se os sacerdotes se dão conta do esvaziamento dos templos e auguram a diluição do filão das religiões – a multidão que acata os dogmas, no império de uma fé que amedronta, por mais que os rudimentos espalhados aos quatro ventos sejam profissões de bondade e de esperança. O que me perturba é a prédica de bondade dos sacerdotes quando um ente querido viu a vida prematuramente ceifada. Podem as palavras ecoadas trinar melodias suaves, impregnadas de uma esperança eterna; podem essas palavras apelar à memória do falecido, e dizer-se que a convocação da memória é prova de que a pessoa ida vive presente entre nós, memórias como esteios da intemporalidade.

Essa perenidade, diz-se, é o sentido sublime da vida, da vida que se desprende da materialidade do corpo e presta tributo à imortalidade do espírito. Eu diria: apenas um punhal cravado na dor de quem chora a vida perdida. O discurso esperançoso desvela um enorme campo promissor. Os passos cansam ao longo desse campo fértil em promessas. A névoa permanente, que parece esconder o lugar idílico que algures se há-de revelar, não deixa de carpir as suas lágrimas que se juntam às lágrimas vertidas por quem sofre pela ausência. As promessas de um campo florido, cheio de cores garridas e rosas perfumadas, adiadas pela névoa que teima em ofuscar o horizonte. Essa névoa deita-se sobre o campo afinal árido. As palavras carregadas de esperança, tónico que serena as almas despedaçadas pela morte de alguém, são a névoa que anestesia as dores que incendeiam as veias.

Da crise de identidade fará parte a descrença nesta vida que se desprende da exiguidade terrena. São os alpendres dos cépticos, daqueles que só crêem na temporalidade do corpo, que entronizam a crise de identidade. Não aprendi ainda a discernir se é demissão de espiritualidade o desapego pela identidade servida em bandeja envenenada pelos sacerdotes. Não sei se o envelhecimento e os tantos espinhos que se foram cravando nos ponteiros do tempo maceraram a intrepidez pelo tempo que os meus dedos conseguem agarrar. Poderá ser a angústia do agnóstico perante a morte, perante cada episódio de morte que lhe bate no peito, a amadurecer a terrível reverência pela vida. Não me interessa saber o que me trouxe até aqui, nem menos devotar esperanças no volúvel trajecto prometido quando os olhos se fecharem.

Se é crise de identidade sagrar a vida que se vive, nem que seja na temporalidade do dia presente, é nessa crise que quero habitar. Quando pela morte alheia vem a multiplicação de promessas vãs, a vacuidade de uma vida eterna que não me provam real, olho para a vida tão pueril das crianças e se ergue ao alto a sagração da vida que os meus olhos vêem e sentem.