19.1.15

A montra

Balla, "Montra", in https://www.youtube.com/watch?v=QgZi9_bi5Oc
- Aposto três chocolates como a montra está vazia.
- Mas, como podes dizê-lo? Os teus olhos não vêm que a montra tem coisas, e que elas estão orquestradas para parecerem belas?
- Por isso mesmo.
- Não estou a seguir o teu raciocínio...
- A montra esconde o que não mostra. O que conta não é o que a montra deixa à mostra. Isso só serve para as ilusões. De quem quer mostrar o que não é. E de quem fica encantado a apreciar o que julga ser essência mestra.
- As montras são um ardil?
- Não necessariamente. Admito que não haja intencionalidade na esfera de ilusões que se compõem nos dedos de uma montra. Pode ser superior ao seu fautor.
- Há alguém que atua, nesse caso. Será alguém por interposta pessoa.
- Ou não. Pode ser o próprio intérprete que se desnuda na montra, que se desnuda numa imagem que seria sua ambição sê-lo. Não acontece que os atos vêm pela mão de um que se insinua e que não conseguimos domar?
- Julgamos a montra pelo seu artífice, não por se apoderar a ideia de que o artífice é uma marioneta de alguém.
- É parecido com isso. É como se houvesse muitas metades de cada um de nós a adejar sobre a alma. (Sem importar a negação aritmética – não leves a proposição à letra.)
- Remete para o domínio da psicologia...
- ...Se quiseres ver desse modo. Eu tenho outro. São os desdobramentos da alma. Os pseudónimos da existência, que não é única. Raras são as vezes em que os conseguimos identificar. Eles insinuam-se debaixo da pele, fazem-se passar pela essência quando a essência os rejeita.
- Se te entendo: cada indivíduo não é uno, é um entrelaçar de diversas personalidades que convivem, em paz ou não, na sombra do eu que se revela.
- E daí que haja sempre uma montra.
- Mas, então, a montra é uma farsa do ser...
- Pode ser. E pode não ser: a montra bolça à superfície a contrariedade que asfixia um certo eu, que não o deixa ser dominante. A montra, sobretudo quando vem orquestrada com diligência, é sinal de um ardil. De um ângulo da personalidade que não quadra com o eu dominante.
- Devíamos fazer o quê às montras?
- Nada. Ou apenas deixá-las existir. E saber lê-las, se tiver préstimo para as encruzilhadas em que esbarramos.

16.1.15

Realejo (ou: uma família feliz?)

Dead Combo, "O Assobio", in https://www.youtube.com/watch?v=7bXDTHXukUA
Numa rua movimentada e comercial da cidade, uma família inteira a pedinchar. O pai agarrado ao realejo, dando corda à manivela de onde sopra a melodia que traz o imaginário até Paris. A mulher canta, com a voz doce de rouxinol, estrofes entoadas em francês. A descendência ensaia uma coreografia que tem tanto de desajeitada como de encantadora (atendendo à ingenuidade das crianças, engodo para a esmola).
Vestem como hippies. Os cabelos compridos, ensarilhando-se na aparente falta de água. O homem do realejo é o mais velho – bem mais velho que a consorte, ainda uma mulher jovem. As duas filhas têm idades próximas, idade de escola primária. Terão vindo de rajada, uma atrás da outra. Um chapéu masculino jaz no chão à frente do terreiro onde as petizes encenam as não ensaiadas coreografias. Os turistas, quase em tanto número como os nativos (a cidade ganhou foros de respeitabilidade turística), são mais pródigos no donativo. Por cada dez turistas que deixam esmola, só uma alma caridosa indígena deposita prova da comiseração em forma de numerário metálico.
A família não se despega de rostos sorridentes. O riso da mulher canora é contagiante. O sorriso desembaraçado enfeita a cantoria, dá-lhe outra vivacidade. O homem do realejo age como chefe de família. Dá o tom, termina uma música e ordena, ao manobrar o instrumento, o começo de outra, acenando com a cabeça as ordens que elas respeitam. Do sorriso sem reticências dir-se-ia ser uma irradiação de espontânea felicidade. De desprendimento dos valores materiais que são a descompensação da humanidade no seu traje moderno. De como as gentes se deviam contentar com uma forma de vida espartana, dando razão a Agostinho da Silva quando filosofou sobre a indignidade (ou a inumanidade) do trabalho.
Mas ali só não há trabalho formal. A função musical tem uma paga, na forma da bondade que os que passam aceitam desembolsar. O lirismo fica bem nos livros que romanceiam idealismos. O resto, é um ribombar que vem atrás das ideias que cinzelam formas de vida. A ingenuidade quadra com alguns desses idealismos (e com o oportunista casamento que convém a gente com certa formatação ideológica). A quem está empenhado à normalidade que uma qualquer teoria da conspiração diria ser sua algoz, impressiona o desprendimento dos valores materiais, as roupas datadas, a função circense; como impressiona a falta de higiene, o nomadismo e a errância, a incógnita sobre como aprendem (sem escola) aquelas crianças.
A felicidade não vem apenas estampada nos sorrisos de ocasião.

15.1.15

Manifesto anti-lúgubre

Yo La Tengo, "Be Thankful for What You Got", in https://www.youtube.com/watch?v=NScOWSbAyIU
Seja qual for a origem: um fado, uma divindade, a autoestima, uma combinação de fatores esotéricos, a simples normalidade das coisas que não procura achamento em justificações; seja qual for a origem, desde que inscreva no firmamento a beleza de todas as coisas que nos são dadas a contemplar.
Poderão os que se opõem a tamanha manifestação de comprazimento objetar que o mundo é terrivelmente imperfeito, embebido em soezes injustiças, que o mundo que assim é não vale duas estrofes. Mas tudo pode ser ao contrário. Tudo pode ser um mapa ungido a pétalas de ouro, o mapa onde os olhos se demoram. Não adianta a resignação perante os males que são apoquentação maior. Não têm serventia os quadros pungentes, os marcos geodésicos que selam a imperfeição do mundo, a imperfeição do homem que é seu tutor. Pois se a imperfeição é património genético, aprendamos com ela, com olhos que não recuam diante dos sobressaltos, e que se assuma a imperfeição.
Método diferente (e aconselhável) é desistir da observação das fragilidades que consomem o homem. De tanta teimosia em achar as coisas pútridas que não se podem declinar, ainda vamos a caminho de tornar este espaço inabitável, uma casa onde só contam as coisas lúgubres. Para não se atrair o véu das lamentações, devemos apelar às forças que forem convocadas pela variedade de sentimentos (um fado, uma divindade, a autoestima, uma combinação de fatores esotéricos, a simples normalidade das coisas que não procura achamento em justificações). E louvaminhar o que temos nas mãos, o que nelas foi depositado por termos andado a correr atrás do vento. Da mais pura inutilidade são os prantos tecidos pelas coisas que deixaram de ter residência nas mãos que são nossas. Perderam-se nos vestígios do vento que demandou outras latitudes, por força da vontade ou sem ser por seu intermédio.
Só conta a grandeza do que é nosso, do que há em nós. Devemos louvá-lo. Em forma de gratidão, de preces, de autocontemplação narcísica diante de um espelho, de rituais genesíacos, ou da simplicidade de palavras simples – consoante a variedade heurística. Porque os lugares lúgubres são um ultraje à grandeza que somos.

14.1.15

Decálogo do homem bom

The Heavy, "What Makes a Good Man", in https://www.youtube.com/watch?v=08h0IVs4RKQ
1. Da bondade intrínseca.
Não é preciso invocar mandamentos bíblicos. Sobra a vontade em refrigério interior. A peregrinação trará os sedimentos da bondade. Mesmo que ela já exista.
2. Da não cobiça.
O que aos outros vem, a eles pertence. Não é matéria apropriável. Um qualquer desígnio escolhe a paleta de cores que enfeita o olhar. Não adianta cobiçar o que é linhagem alheia.
3. Da intensidade dos sentimentos.
Só merecem aplauso os sentimentos que vêm das entranhas, os que são possuídos pela inteireza. Mapa-mundo que cartografa as linhas das mãos e ensina a dedilhar as páginas que destravam o tempo (ainda) ausente.
4. Da decência (de braço dado com a bondade intrínseca).
Uma espécie de cavalheirismo sem os maneirismos dandy, ou preconceitos que são a raiz quadrada de pergaminhos afetados. Se a decência for ciciada em maneirismos dandy ou preconceitos afetados, não é decência: é decadência.
5. Da generosidade não cínica.
Fazer bem ao outro também não é exclusivo dos mandamentos bíblicos. É inato. Desde que seja descomprometido. Não é que o cinismo seja método censurável. A objetivação das coisas, os parâmetros que se afivelam em imperativos categóricos, esses é que são imagens nauseabundas. Que se lhes responda com cinismo.
6. Da repulsa da sabedoria categórica.
Há poucos categóricos: o não à sabedoria monolítica, àquela que se consome na estreiteza dos seus quadros mentais tão apertados, é negativa categórica que se tolera. Dos eruditos que parecem onanistas em sua própria erudição não merece a atenção ser consumida com tempo desperdiçado.
7. Da não religiosidade (como passaporte para a intensidade dos sentimentos).
Por causa da liberdade. Não merece a integridade do ser ficar refém de credos ou preces ou catecismos ou entidades divinas que prometem a fragilidade dos crentes – no fim, a sua irrelevância. Somos inteiros, universos complexos cheios de virtudes e de fraquezas. Rivalizamos com as divindades. Desafiamo-las a serem a sua negação.
8. Da negação dos pecados (ou acerca da sua prática).
Ainda por causa da liberdade: não deixemos as peias aplacar a vontade. Se o que resulta da vontade leva com o opróbrio do pecado, o mal é de quem assina tamanha sentença. No limite, prefira-se o pecado à imorredoira penitência ditada por juízes de comportamentos alheios.
9. Do despontar de uma nova aurora (ou do encerramento de janelas datadas).
Repudiem-se os conservadorismos, atávicos cárceres que tutelam a vontade e a refreiam. A demanda de novas alvoradas é critério melhor.
10. Da negação do que for preciso ser negado.
Se for a medida para sepultar os que se entregam a missões de educação dos outros. Da negação metódica, portanto. Mau feitio, apenas; ou negação espontânea, ditada pela vontade genuína de dizer não aos que querem agrilhoar vontades que suas não são.

13.1.15

A pergunta errada

Jungle, "Time", in https://www.youtube.com/watch?v=5ItKS8bUUTA
Tirar as medidas certas. Ao que importa. Ao que importa mesmo. Sem olhar de soslaio para as coisas centrípetas e desviar o cerne do olhar para as coisas acidentais que, por serem acidentais, não são credoras de atenção.
As perguntas vêm depois. As perguntes talhadas à medida, as mais difíceis de desembolsar do alfobre do pensamento. Aquelas que demandam respostas porventura não satisfatórias, respostas que desembainham perguntas outras a seguir. Das perguntas erradas não se espera grande fado. Às perguntas erradas, a melhor resposta é o silêncio. Ao menos, quem com silêncio a elas responde denota a inconsequência das perguntas desassisadas. Pode a lucidez não chegar para distinguir o que importa. Ou podem as capacidades ficar aquém do que se impõe para as perguntas não nascerem erróneas. Pois ninguém pode dizer que nunca fez perguntas erradas. De uma fiada, os pontos de interrogação rimam com a insinceridade da alma.
As perguntas que importam não chegam à boça de cena. São asfixiadas pela soberba das perguntas erradas. É como se houvesse uma teimosia em meter pelo caminho que desmaia num final sem saída. A encruzilhada é o maior desafio. É aquele instante em que a claridade irrompe e desanuvia as sombras que embaciam o pensamento, ou a incapacidade troa tão alto que as resoluções esbarram no desvario do erro. O mal é que, a menos que seja intencional (o que é pertença da demência), o erro não se estima em antecipação. Mede-se na posteridade dos atos, ao tomar as medidas aos seus efeitos. Só então se intui que as perguntas vieram açambarcadas pelo erro. É só então se alcança que do vértice das erradas perguntas não se podia esperar que viessem assisadas respostas. Que não se estranhe o silêncio das grandes causas (das que assim sejam entronizadas por alguma mercê) se os juízes decretarem a inutilidade das perguntas formuladas.
De resto, sobra tentativa e erro. E probabilidades (de erro, e não erro). A experiência de antanho pouco conta. Mesmo nos assuntos que não são esporádicos, e onde perguntas pretéritas desaguaram no erro, a tentativa insiste na avaliação de um erro. Aprende-se. Sem espúrios arrependimentos. E não se faz de conta que não houve erro. Assume-se, com a decência de quem renega pueris negações da realidade.

12.1.15

Uma folha em branco

Portishead, "The Rip" (Live at Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=0RO-xP58Oo8
O tempo inteiro à frente de uma folha em branco. Os olhos depostos na folha. A folha para onde deviam ser vertidas palavras, umas palavras quaisquer. Mas a página teimava em ficar branca. As palavras amontoavam-se no fio do pensamento. Depois precipitavam-se nos escombros de um precipício, abortavam nos prolegómenos de uma intenção.
Levantou-se para ir à janela apanhar o ar frio da madrugada. Não havia vivalma. Devia ser muito tarde. Nos olhos cansados estavam sitiados os despojos da inconsequência. Mas o sono demorava. Parecia esperar pelas palavras que, por aquela altura, eram timoratas. As palavras talvez recusassem o impasse se os olhos passassem umas horas pelo sono, nem que fosse para estorvar a fadiga. O cigarro chegava ao fim e o frio esbulhava os ossos, sem que uma ideia aproveitável se traduzisse em palavras.
Metera na cabeça que aquela noite seria fautora de algum texto. Um texto que fosse, sem interessar a dimensão, ou a forma, ou até o estilo. A teimosia esbarrava na ainda mais teimosa folha em branco. De regresso à secretária, os olhos pendiam nos vértices da folha, pareciam entorpecidos pela serenidade da folha teimosamente láctea. Mas os olhos não queriam capitular. O pensamento recusava a indolência desfraldada pelo sono moroso. Haver-se-ia de ver qual das teimosias era maior: se a da folha que não queria perder a alvura, ou a do escritor que estava de atalaia às ideias que pudessem ser ingredientes de um texto.
Entretanto, a cabeça cambaleou um par de vezes, quase a sucumbir ao chamamento do sono. Nem no mais profundo do pensamento conseguia arrebatar umas palavras que fossem. A desinspiração tomara palco. Talvez fosse do vazio que vinha de dentro. Pela primeira vez, o vazio era caução da infecundidade do pensamento e da impossibilidade das palavras. Talvez tivesse de reaprender tudo. Desde uma folha em branco.

9.1.15

O homem das meias curtas

In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhmyEiXcLp_NeMqbYTqfYbQ1FQvEL4WZG3JHQ2SvRhiYsYyzcVYiDz2_ScnYec7mlPD2ITcgwBWSHdiM9rl_eh0XliNLG1dYv4SSFGu2qkY2VRqdvFLu3OPovxx_OERs1OKsrJ4IA/s400/-3.jpg
Literato e erudito, o homem era um desajeitado nato. Havia assuntos que eram satélites da sua órbita de interesses. A estética, por exemplo, a pessoal estética.
Tantas vezes a secretária tinha de ajeitar uma gola assimétrica da camisa, ou avisar que a gabardine tinha uma nódoa do molho do que fora o almoço, ou que a gravata estava em contramão com a camisa, ou que trazia uma peúga de cada cor, ou a camisa amarrotada (já para não falar das vezes em que a paciente senhora, no papel de tutora dos cuidados com a higiene, envergonhada, lhe dizia que uma peça de roupa precisava de visitação à lavandaria).
Nas tertúlias, já era ornamento que afivelava as risadas a preceito de conversas onde vinha à tona o seu descuido. Entretido com os pensamentos profundos que o ocupavam, atirando em redor um ar displicente e ao mesmo tempo lunático, não percebia as observações dos que ganhavam coragem para fazer reparos à ausente inestética. Não que ele não soubesse de estética, que as suas (muitas) leituras andavam pelas fronteiras da filosofia e da estética. Mas era da estética não mundana, da estética como conceito filosófico. Quando descia à terra, era de uma incapacidade pungente. E ele, que dominava os conceitos e as teorias da complexa filosofia, mergulhava numa aflitiva inépcia para tomar conta de si mesmo.
Um dia, numa conferência muito concorrida, com ilustres literatos de internacional cepa, foi notícia por aquilo que menos (lhe) interessava. Em vez de se glosar a (na sua maneira de ver) brilhante e original prédica, comentavam-se as muito curtas peúgas que não quadravam com o fato gasto que usou na circunstância. Ficavam, pelo menos, dois palmos de pernas esquálidas e despidas de penugem à mostra, entre a muito curta peúga e as bainhas das calças subidas por se ter sentado na poltrona. E as pessoas, quase todas, distraíram-se do promissor discurso do literato, anestesiadas com o pavoroso quadro das pernas carnudas e macilentas espreitando nos interstícios das muito curtas peúgas e das bainhas das calças.

8.1.15

Shipless ocean (a short story of two tales)

Brendan Perry, "Song to the Siren" (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=g4en3W5U1yo
Somos reféns da maior miopia que nos consome: a indiferença. Os outros passam por não interessar para as contas de cada um. Apenas conta quem se ensimesma e os outros são alienígenas a quem se dedica a irrelevância. Destruímos o cimento da pertença. Somos fautores de um suicídio coletivo, uma autofagia que não adivinha ventos a favor para o amanhã da espécie. Em cada pessoa há um vasto oceano que não é visitado por navio nenhum. Os outros navios são logo escorraçados pela indiferença letal. Cada nau confina-se ao mar que é sua pertença. Não estima aventurar-se noutros mares. E todos os mares ficam desertos, pois o navio que é sua pertença é nativo, não conta para estas contas. Enquanto formos tributários da indiferença do outro, enquanto não deitarmos um olho ao mendigo que clama pela comiseração de quem passa, enquanto não ficarmos ultrajados quando alguém morre de morte gratuitamente violenta às mãos de outro, enquanto taparmos com o pé as perplexidades dos outros que talvez carecessem de alvitre nosso, enquanto houver disto e de outro tanto mais, somos apenas um espectro de gente. A caminho de um gigantesco precipício.

Dizem os enamorados da moral pública (objetivada pela batuta que usam) que a indiferença é arma de destruição maciça (da espécie). Que devemos deitar os olhos aos problemas dos outros. Que o mar não merece ser uma vastidão inabitada. Mas ninguém lhes diz para não serem ardilosos no encantamento de quem lhes dá ouvidos. Somos mesmo ilhas. Não deixamos de ser ilhas nem quando temos (ou está convencionado) de lidar com outros. Não se vira o espírito para dentro do corpo. Admite-se o ADN irrepetível. Quando sobressaltos inquietam alguém, não devem os desocupados de outras empreitadas propagandear uma gelatinosa atenção como se fossem curandeiros de todos os males que gravitam fora de si. Mal fora: se mal conseguem amanhar os males que os corroem por dentro, como se podem atirar para o pedestal onde se empoleiram gurus que sossegam mortificações dos outros? Pelos dedos deste malefício, mais vale um precipício.

7.1.15

O meu pé esquerdo

Dead Can Dance, "Black Sun", in https://www.youtube.com/watch?v=9DeGs61ku-4
O rapaz construiu um imaginário refém de superstições e da cabalística. Havia os azares comuns que evitava, porque lhos ensinaram como azares que podem azarar um destino (os gatos pretos no caminho, os espelhos partidos, as escadas abertas sob as quais o corpo não passava, as tesouras cruzadas, o treze, e o resto que o povo ensina como azares a evitar). O resto foi por sua conta.
Tudo começou num réveillon. Ouviu os mais velhos a berrarem para que as entradas no ano neófito fossem feitas com o pé direito assente no chão, deixando o esquerdo no ar. “É para entrar com o pé direito”, advertiam, entre vapores etílicos, os mais viciados na primeira superstição que o entendimento captou. Daí para a frente, em tudo o que fosse importante, o pé direito ia à frente do pé esquerdo. Era assim ao pôr os pés no chão depois da alvorada, a calçar as peúgas e os sapatos, a sair de casa, o primeiro pé a sentir o chão da rua, a entrar na escola, ou na sala de aula, ou num restaurante, ou no pavilhão, ou no cinema – ou onde quer que fosse, o pé direito diligentemente precedendo o esquerdo.
Nem se apoquentava que um canto escondido da consciência interrogasse, de vez em quando, se o pé esquerdo não ficava diminuído com tanta parcimónia supersticiosa. Nem sequer tratou de apurar se a mania de dar guarida ao pé direito tinha explicação racional. Talvez estivesse a precisar de um grande azar para desconstruir o imaginário sedimentado no eflúvio de uma superstição, recusando-se a admitir que as superstições, como superstições que o são, pertencem ao irracional. Para sua sorte, havia partes do corpo que não se dividiam em dois hemisférios. Uma vez, dera consigo a pensar o que seria da vida se essas partes do corpo também tivessem um par e um ímpar.
O ímpar quadrava com o pé esquerdo – o pé desgraçado, o cavalheiro que cedia sempre a passagem ao feminil pé direito. Às custas de tão pueril superstição, que foi atravessando as idades todas, o rapaz simpatizava com a direita radical. Detestava, politicamente falando, tudo o que soasse a esquerda. “Assim como assim, a prioridade no trânsito é dada a quem vem da direita. As coisas não são por acaso”, murmurava para dentro, no convencimento enesgado da constelação de superstições em que medrava.

6.1.15

Os remoinhos do tempo (outra vez)

This Mortal Coil, "Another Day", in https://www.youtube.com/watch?v=YiHSYS4O1TU
Do tempo e da sua feição totalitária. De como o tempo tem uma espessura viscosa que nos sitia, se nós deixarmos. Não é fácil resistir. Não é fácil fazer dos atos a tradução das intenções com o recorte de ouro que é sempre bem intencionado.
Mercê das palavras alinhavadas como termómetro dos atos vindouros, declina capitular aos ardis do tempo que deixou uma marca visível quando os olhos escorregam para o retrovisor do tempo. Não adianta desgastar o tempo, o único tempo com serventia (o vivente), com viagens ininteligíveis aos remoinhos que julgam resgatar um qualquer outrora que apeteça. De que, ao menos, apeteça só recordar. O exercício não tem préstimo nenhum. É como se nem reparasse que o tempo emoldurado vem servido na forma de remoinhos diversos. Sedenta de ir lá trás, nem dá conta da voracidade dos remoinhos que prometem a repristinação de tempo gasto. Como nos remoinhos, pode ser absorvida pela sua força centrípeta, embrulhada nos abalos telúricos que desautorizam a vontade própria. É um efeito paradoxal: é a vontade própria que toma a iniciativa de embarcar num dos remoinhos do tempo passado; mas, uma vez tomada pelo turbilhão indomável, deixa de ser tutora da vontade, nem obtém absolvição do tempo pretérito. Fica à mercê dos humores dos remoinhos que empurram para a inércia de um tempo já gasto. E o pior é que o corpo é domado pelas forças centrípetas do remoinho de que é passiva passageira.
O segredo é resistir aos encantos da nostalgia. Porque é tempo desperdiçado, um locupletar do único tempo que tem interesse decantar – o tempo vivente, o que se oferece diante dos olhos, que conseguem discernir os seus contornos, sem o soturno amalgamar do tempo distante. De cada vez que empurra o olhar através do retrovisor dos tempos, desembainha um punhal que se vem cravar no mais fundo da carne. Depois sobra o sabor do sangue que se derrama à medida que o corpo é dominado pelos abalos telúricos do remoinho do tempo em foi embarcadiça.
Por mais que seja difícil corresponder os atos às intenções, deve andar com uma mnemónica no bolso da memória. A mnemónica ensina como se é ludibriado ao cortejar o tempo que pertence aos arquivos da memória. Que sirva para memória futura. Para ela não ser atraiçoada pelos ardis da memória inerte.

5.1.15

Vira lata

Anne Clark, "As Soon as I Get Home" (live), in https://www.youtube.com/watch?v=tIUPLHs8Wug
Dele diziam ser sem-abrigo. Porque eram andrajos que trazia em cima do corpo. Por causa da falta de higiene. Porque não queria um teto que o abrigasse do medo da noite ou do frio do inverno. Por se alimentar quando calhava, umas vezes na sopa dos pobres que a generosidade dos outros distribuía na noite funda, outras vezes na mendicidade a que se entregava. Porque queria viver imerso na profunda solidão que decidira para seu exílio.
Incomodava-se quando dele se dizia ser sem-abrigo. Subia às paredes, em sinal de fúria, quando a comiseração dos outros lhe pespegava a condição de mendigo. Pois toda a sua condição era um retiro da vontade. Fora ele que quisera estar fora da convivência social. Fora ele que se refugiara do contacto com os semelhantes. Fora ele que decidira perder a casa. E a família. E rendimentos certos, e um certo conforto burguês que vinha dos pergaminhos familiares, da roda de amigos, da vivência do trabalho. Podiam alguns adivinhar que era uma forma de peregrinação forçada. Outros diriam, num porventura acesso pragmático, que era pura demência. Não lhe importava o diagnóstico dos outros, nem os seus pesares, ou as preces que familiares mais próximos continuavam a fazer, convencidos que estava desaparecido.
Por meses fora, não conversou com ninguém. Não disse uma só palavra. Os andrajos imundos e gastos eram substituídos por outros andrajos, menos imundos e gastos, extraídos ao lixo esquadrinhado. A barba tornara-se farta e hirsuta. Os cabelos eram um entrelaçado inexpugnável, o corpo o sacrário de um fétido lugar, o calçado rombo feria os dedos dos pés. Ao contrário do que julgavam os que inventariavam os mendigos da cidade, não estava hipotecado pela loucura. Mantinha um registo diário em cadernos artesanais. Era como se estivesse a falar com a profundidade da alma, em contínuo diálogo. Era como se precisasse de se lavar por dentro, numa diurese intensa que depôs décadas do que se acostumara a ser.
Uma vez, ao cabo deste tempo todo, falou. Foi entrevistado por uma equipa de peritos que estavam em “trabalho de campo”. Perguntaram pelas origens da solidão, pelos sentimentos possuídos na peregrinação ociosa, o que achava do tempo vindouro. A todas as perguntas respondeu com patranhas. Menos a uma. Perguntaram se tinha saudades de casa. Retorquiu que a casa dele era esta – o céu, ora estrelado ora enxameado de nuvens, que contemplava antes de se entregar ao sono. E que não havia casa maior que pudesse ser pertença de uma pessoa.

2.1.15

Edição limitada

dEUS, "The Architect", in https://www.youtube.com/watch?v=k2CFDsG_oxg
E o nome próprio, fica hipotecado? Saímos à rua e percebemos que somos um entre uma massa indiferenciada de gente. Encontramos tantos nomes iguais aos nossos. Intuímos que há tanta gente igual a nós, ao compulsarmos preferências, gostos, tendências, olhares. Mas julgamos que somos únicos, como nos diz o ADN que, de acordo com a sapiência dos cientistas, é edição limitada e exclusiva. Talvez não somos o espelho do ADN irrepetível. Por dentro do pensamento, as águas em sentido contrário. As que certificam que somos edição limitada e sem possibilidade de repetição. E as que desautorizam o otimismo e atiram para o ar a simplicidade da indiferença entre tantos que são iguais.
E se for mesmo como mandam os cânones dos letrados em leis e dos senhores da política, e formos todos iguais? O nome próprio, matriz da irrepetibilidade de cada indivíduo, deixará de fazer sentido? Deixará o nome próprio de ser a centelha que ilumina a essencialidade do ser, mais valendo ser tratado por números que nos despersonalizam? Andamos pelo tempo fora convencidos que não há outro igual. Nem que se fale, em triunfalismo científico, de clones que reproduzem a integralidade do ser noutro que é seu émulo. Quando a ciência chegar a este estado avançado, nem assim a edição deixa de ser única e limitada: o émulo reproduz o original. Este não perde os seus pergaminhos.
Os letrados em leis e os fautores de sistemas políticos que selam o imperativo da igualdade devolvem-nos à humilde condição. Não há lugar para ejeções triunfais que terminem em narcísicas exibições. Pois se andamos pelo tempo fora convencidos que somos edições limitadas, um corpo movediço que identifica singularidade, presos ao cais da ciência que ensina a têmpera do ADN ímpar, a condição terrena da humanidade desfaz esse idealismo. Nem assim o nome próprio fica hipotecado. Não são as leis e os regimes políticos que dissolvem a riqueza dos nomes próprios, nem reduzem a nada a irrepetível personalidade empossada em cada indivíduo.
Uns olhos, diferentes de todos os outros, apuram a chancela da diferença.

1.1.15

Os nomes que se confundem

The Durutti Column, "At First Sight", in https://www.youtube.com/watch?v=PTMckgz_2Vw
O torniquete falsifica as medidas. Os nomes vêm numa amálgama com os rostos, vêm juntos numa nebulosa que não deixa distinguir nada. Os rostos são conhecidos. Mas os nomes não correspondem aos rostos. Por mais que a memória vá às fundações não consegue soletrar as letras dos nomes que possam interessar. É como se muita gente estivesse órfã de nomes. Não é que o esteja, pois a cada um cabe seu nome; na imagem do observador, pela tela mental por onde desfilam os nomes e os rostos inteiros, há rostos que não se entrelaçam com nome algum.
Pode ser da memória gasta. Pode ser apenas distração, ou impreparação para decorar rostos. Ou podem ser tantos rostos a desfilar na tela mental que não há maneira de reter a constelação de nomes que vêm a propósito. A certa altura, um rosto, um rosto que se julga conhecido, vem em contramão com o ar exultante de quem não vê a outra pessoa há muito tempo. Há os cumprimentos da praxe. Perguntas de circunstância. Palavras pelo meio, sem contexto que não seja o de inventar conversa (que o tanto tempo entretanto medrou a indiferença). A memória esforça-se, mas o rosto permanece imerso na bruma do anonimato. Ou, em não sendo estranho aos interstícios das reminiscências, não casa com nenhum nome.
Pelo tempo fora, destapam-se os cobertores das recordações. Inventariam-se lugares para saber se entre eles não há âncora que se lance aos rostos sem nome. É como se travasse uma luta com palavras cruzadas complexas que baralham uma constelação de nomes. O desafio é fazê-los corresponder aos rostos que vêm no canhoto das palavras cruzadas. Os nomes e os rostos são uma desavença danada nos interstícios da memória. Às vezes, desiste-se. Apazigua-se o esforço: talvez tenha sido o rosto sem nome que fez confusão, ter-se-á enganado no desembaraço do reencontro com alguém que teria perdido rasto há muito tempo. É a maneira de sossegar o espírito.
Os nomes não podem manter-se um caldo efervescente de incógnitas. Se não, os nomes sem fim tomam conta da lucidez. E o nome próprio fica hipotecado.