15.7.11

Democracia real?


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiwp3B2B0fop2Hcwks4nosmKmIqVbUYu2oeU6ROfx6bVvPedpXoPXtU7cjMjZyPqXggy3dKSEfJnQ9xIcrr9Z-sFoPilx4rJQAMZQJlkZcKwD21SqjoUCLxjvkaSTsPV6TTkxqt9A/s1600/democracia-real-ja-espanha.jpg
Não se pode acusar de falta de imaginação as raparigas e os rapazes (por esta ordem, por causa das ordenanças politicamente correctas) que se auto-chamam “indignados” e acampam nas praças centrípetas de cidades europeias. Ele são as iniciativas de autogestão e auto-produção que fazem das acampadas sítios albaneses. Ele são as de-vir-às-lágrimas assembleias populares, onde todos podem falar se os temas estiverem dentro das baias do protesto e na ordem (afinal há ordem...) dos “moderadores” de serviço. O mais comovente é convencerem-se que representam o povo, os excluídos do aburguesado sistema eleitoral e dos partidos enquistados no sistema. O mais comovente é convencerem-se que estão ali para exigir a “democracia real”.
Eu tenho pena que os filósofos e outros ideólogos que passaram a rondar os certames, dando o seu generoso contributo para a ideologização das jovens e dos jovens, não lhes tenham ensinado o relativismo (científico cultural, enfim, epistemológico) que apregoam. Aqui vai a minha singela perplexidade: se os gurus a que as jovens e os jovens indignados se apegam cultivam o relativismo, como podem pretender que a democracia por que “lutam” se adjective “real”? O real objectiva. Contraria as lentes alternativas dos relativismos. Não terão os gurus dado conta da incongruência?
É uma delícia ouvir e ler os protestos das e dos “indignados” que exigem “democracia real”. Tenho impressão que elas e eles andam iludidos por um erro de perspectiva. A excitação e o embaciamento das ideias há-de explicar o viés da visão. A menos que a democracia já não seja a governação da minoria pela maioria, ou que as e os indignados, refazendo conceitos, excluam da contagem todos que tenham a estultícia de não aceitarem as suas tão justas vindicações. Nessa altura, a democracia teria aportado numa revisão conceptual. E passaria a ser a governação através da lente de um punhado de putativos iluminados. A história já tropeçou algumas vezes em equívocos destes. Com os resultados conhecidos.
Folgo em saber que estas e estes jovens usam a bandeira da “democracia real”. Não os sabia monárquicos.

14.7.11

As mãos trocadas


In http://fc02.deviantart.net/fs5/i/2004/287/b/e/Hands___Compell_by_superkev.jpg
As mãos pareciam mapas enrugados que já não ostentavam a nitidez das estradas desenhadas. Como se tivessem submergido num mau formol, as mãos vieram à superfície descarnadas, esbranquiçadas, frias. Não pareciam as suas mãos. As unhas macilentas vertiam uma sensação baça da existência. Eram aquelas mãos tão frágeis que iam pegar no piano. Essas as mãos de que se esperava uma música cheia de harmonia.
Com a audiência por diante à espera da função, as mãos tremulavam. Podia-se jurar que delas respingava a transpiração que amedrontava. Os momentos que precediam a unção das teclas do piano ecoavam uma eternidade maçadora. Por mais que inspirasse longas golfadas de ar como bálsamo para a apetecida impassibilidade, as mãos continuavam a tiritar no medo apopléctico de que a música soasse à desilusão que a audiência não demandara.
As mãos molhadas deitaram-se ao piano quando a luz sobre o palco se extinguiu lentamente. Agora, só um ténue foco projectado sobre as suas mãos. Olhou as mãos nos instantes que precediam o espectáculo. Os olhos embaciaram-se ao esbarrarem na miragem que à sua frente desfilava. As mãos estavam trocadas, a esquerda no lugar da direita, os polegares na extremidade das mãos. As veias dos pulsos palpitavam o nervosismo inteiro, como se ali tivessem aportado os sobressaltos que apoquentam a lucidez. Aqueles segundos, quando a audiência se recostava à espera das notas harmoniosas dedilhadas pelos seus dedos, eram uma interminável tortura.
Num fôlego final, em coreografia da coragem necessária, as mãos deitaram-se no piano. Os primeiros acordes desfizeram a terrível miragem que embaciara o discernimento. Afinal, as mãos, aquelas mãos que escorriam o suor do medo, não estavam trocadas. Os acordes sucediam-se com a habitual nitidez e a audiência aplaudiu de pé no fim da função. Quando levantou os braços em sinal de agradecimento e depois os recolheu junto do peito, espreitou para a embocadura da camisa e sobressaltou-se. As mãos estavam trocadas.

13.7.11

O estadista


In http://www.tudook.com/noiva/slideshow/p006_0_1.jpg
Era como se fosse bipolar. Quando estava nos degraus onde as oposições destilam o fel por serem oposições, era um enfant terrible. Ou, pelo menos, passeava a pose de enfant terrible. Dizia coisas que não lembravam ao diabo. Na pose diletante da rebeldia, incomodava os adversários. Muitos já não o levavam a sério. Olhavam para o lado quando, na casa da democracia, ele semeava outra diatribe. Só assanhava alguns dos que ainda escutavam as suas palavras carregadas de cinismo. Os demais ora liam o jornal, ora atendiam um telefonema, ora entaramelavam uma conversa de circunstância, uns quantos escorregavam para o sono.
Num certo dia, amesendou no poder. A bipolaridade ganhou espessura. De repente, transfigurou-se. O discurso cheio de palavras pesadas com o equilíbrio de uma balança de precisão. E a pose, sobretudo, a pose. De estadista. Um ar grave, sempre solene – que todas as ocasiões eram de função ministerial. Da rebeldia nutrida enquanto andou afastado do embriagante poder, nem vestígios. Os que não o levavam a sério desconfiavam: podia lá uma criatura meter-se em tão súbita transfiguração? Os outros, os que ainda davam o benefício da dúvida, estavam boquiabertos com a metamorfose. Um deles não reprimiu o comentário em surdina: “o que a vertigem do poder faz às pessoas”.
Dantes, quando ainda não era preciso a pose de estadista, as palavras que atacavam os adversários vinham perfumadas por esgares cínicos, um sorriso forçado que contudo era sorriso. Agora, o rosto andava sempre carregado com o peso da responsabilidade. O rosto fechado, incapaz de esboçar um sorriso. Arqueava o corpo para diante, como se por detrás as obras voluminosas de um estadista forçassem o seu corpo a adquirir aquela pose taciturna. A pose inata a quem trata a sinecura com toda a seriedade.
A pose de estadista, à cata de reconhecimento dos súbditos, extinguira os laivos do sorriso. O estadista esquecera-se da alegria. Ou a empreitada era tão epopeica que nem havia tempo para rir.

12.7.11

Transacto


In http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://reynosawatch.org/minstrel/wp-content/uploads/2010/11/looking-back.jpg
A mefistofélica nostalgia não tem serventia. Acossados pelas sinuosas estradas que foram o pretérito, de lá regressamos, no vapor das memórias, com o travo amargo que mortifica. Na existência que levamos um retrovisor é o patíbulo, o fautor de mais acidentes de percurso se a recaída em equívocos de antanho for retomada – apesar desses equívocos estalarem na boca pelo vapor das memórias. Dizem os mais cautelosos que é tudo no seu contrário: as lições retrospectivas abonam a sensatez que se atira ao porvir. Contraponha-se: e quando o corpo contumaz é mau aluno e reprova nas lições que o seu transacto podiam ensinar? Na confluência de opostos, com argumentos chocando entre si, regresso à partida: a nostalgia é mefistofélica.
Esse transacto é um veneno que degreda. Amputa o sentido do tempo vivente, do único tempo que nos é dado a reter (ainda que tão efémero como é o presente). Da espessura do transacto sobem à tona recordações que renovam a matéria onírica. Ou as más lembranças, contrariedades marcadas a negro quando se traz o pretérito até ao tempo vivente.
Em nenhum caso temos algo a ganhar (nem sequer, em contraposição com os cautelosos do tempo ido, com as conjecturadas lições que ele nos adestra). As lembranças que reavivam um sorriso no rosto são perjúrio. O tempo ido está deposto na sua impassibilidade. As recordações são um logro onde nidificam os sonhos impossíveis, a anestesia do tempo vivente. Os outros protagonistas não pertencem à peça onde se jogam os gestos e as palavras daquele tempo. As lembranças que destoam da empírea são patológicas. É como se o corpo derrapasse para a atrofia da existência e deixasse pesares em legado ao tempo que os queria já ausentes.
O passado é uma inutilidade. A negação do tempo vivente – do tempo em que nos reinventamos. Do enclave onde se encerra o transacto espera-se distância, algum esquecimento. Senão o corpo entrega-se, madraço, aos improfícuos labirintos.

11.7.11

Metáfora


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi-2tLNjAfQ1V2wGcbhyphenhyphenrBR5bnpVGL16gN7diqvz3fuCcO-JF6pR0LXIrszYP3EVx2sw-2kMjL53H2ftBxV5EZcfLh9u5B0ORRQhiGJgwqrW9tbaB3qQTIVNAXUElMxWdmfNmsy/s320/imagesamiguinhos.jpg
Um leque desfolhado. As formigas que perseveram. No pino do verão, a miragem das águas do rio olhadas do distante miradouro. As crianças não desistem da algazarra nem que os corpos sejam passados pela insuportável soalheira. A miséria, sempre a miséria que adeja com pedintes na habitual peregrinação de lamentos. A luz tépida do entardecer, anunciando a penumbra após o deslumbramento do pôr-do-sol. Enquanto o copo de vinho se esvazia na esplanada por onde passam os veraneantes no descanso estival.
Os significados, por entre a hermenêutica dos sentidos, revelam-se na sua multiplicidade. Ora malsãos, ora de uma generosidade desapaixonada, os significados – das palavras, dos gestos, das intenções – perfumam os dias com a renúncia do marasmo. Nas folhas multiformes do leque desfolha-se a policromia dos sentidos. Quando se resgata o percurso já emoldurado na fotografia das memórias, parecemos as formigas que jogam a sua paciência com um propósito qualquer. Os planos esboçados no estirador mental esbarram nas duráveis adversidades. Pode a canícula estival desmotivar a perseverança, mas a coragem do devir recusa a capitulação. Dizemos que somos exemplos no incessante desfile das gerações. Faça-se de conta que isso interessa: afinal são as crianças em inesgotável açougada, apesar da insuportável canícula, que oferecem o padrão. Nós, resignados na sombra protectora, ou apenas no pretexto para abdicarmos da firmeza dos propósitos que conduzem os dias vindouros, contemplamos as crianças com um laivo de inveja.
Jogam-se as cartas no tabuleiro onde os naipes desatam o devir. Sobram as intenções, os planos preenchidos por uma grandiosidade mirífica, os adiamentos todos. Ao pé das incansáveis crianças, somos pedintes em contínua demanda de comiseração. A maior indignidade que se joga contra nós. Parece que o ocaso é irrefreável. O copo de vinho esvazia-se. Com uma impostora lentidão, os minutos esgotando-se na sucessão de espelhos que se empenham em fermentar a ilusão dos momentos. 

8.7.11

As horas venais


In http://luscofuscocity.files.wordpress.com/2010/12/lusco.jpg
Arqueada sobre o dorso, enquanto despenteava os cabelos encaracolados, punha os sentidos em modo retrospectivo. Aquelas horas, um imenso lodaçal onde a agonia se depusera, irromperam com os atilhos da letal acidez. Por dentro dela, uma tempestade em plena voracidade. Os pesares congeminando-se na volúvel tela negra diante dos olhos – da tela negra que comporta múltiplos significados.
Os olhos marejados pelo que sentira ser um ultraje retiravam lugar à lucidez. Enquanto se demorou nesta insana altivez, as horas desfolhavam-se na sua venalidade. Soçobravam, essas horas impantes, na comiseração do nada, essa tão inútil comiseração. Umas vozes sussurravam ao ouvido conselhos não sábios. A sageza do tempo estava sequestrada pela poeira acidulada que se insinuara nos ponteiros do relógio, retardando a sua marcha. Só que ao invés do ideal retardamento temporal (haveria serventia dele caso essas horas fossem de um intenso preenchimento interior), estas eram horas extemporâneas, sangradas. Inúteis.
Turvados os sentidos, a cabeça fervente fixava os esgares denunciados pelas vidraças à volta. E nem os esgares mereciam reprovação, como se no rosto dela habitasse um sobrecenho que era a simetria da simpatia que, nos tempos que foram propícios, lhe fora congénita. Ela motejava das horas de harmonia, como se todos os equilíbrios atrapalhassem a bússola que importava. O sangue fervente, em pose triunfal, sobrepujava o resto. O mesmo sangue fervente embaciava a nitidez apodrecida daquelas horas venais, no restolho dos estéreis desvios.
E se, ao menos, o vento furioso amainasse e as folhas em desordenada coreografia tomassem o seu tumular berço no chão, alguma lucidez devia sobejar. O sono que tivesse sido dormido teria esse préstimo. Mas o sono não tinha sido dormido e os feixes de luz atiravam-se de um lado para o outro numa imensa confusão que obliterava os sentidos. As horas continuavam na sua venalidade, mesmo quando, extenuada, declinou perante o sono irrecusável. O sono não curara a impassível venalidade que granulava as palavras outrora doces, as palavras que desfilavam na língua como veludo onde se retemperavam.
O sono já dormido seria o juiz absoluto. Podiam as cortinas continuar baças e as horas por diante teriam todas o mesmo suor gasto das horas pretéritas. Palavras algumas teriam preço para demover a rigidez que tomara conta do corpo. Ou podiam os olhos ainda estremunhados notar outra claridade, trepando pelos poros humedecidos das árvores na combustão matinal do orvalho. Para o caso, uma condição: que, na alvorada, a hora não fosse tardia, que o orvalho nutriente se mantivesse, em vestígios que fosse, no musgo agarrado aos braços das árvores.
O sono teria a função de resgatar as horas da impassível venalidade, dessa corrupção dos sentidos que pareciam atilados no (falso) vicejante orgulho. Por cima do destino do sono, um ingrediente que escapava à sua manipulação: ele, também assoberbado com as lágrimas das horas na sua decantação venal. O jogo podia ser pueril. Ou apenas emparedado pela lâmina fatal.

7.7.11

As interrogações são a filosofia


In http://1.bp.blogspot.com/_DVYSi-b-1qk/TJ_3iqatV6I/AAAAAAAAAHg/OqXF52f7-6M/s1600/interrogações.jpg
Um movimento perpétuo: as perguntas incessantes que procuram respostas que são apenas um ponto intermédio até às perguntas seguintes. Como o movimento das ondas fecundadas pela maré ou pelos alísios. A cada pergunta em formulação, os dedos do pensamento debatem-se no labirinto que parece amordaçar a pergunta a uma incógnita irresolúvel. Testam-se as hipóteses, desfiam-se novas hipóteses quando se extinguem as que julgávamos cabais. Quando o raciocínio, por fim, esquadrinha alguma luminosidade por entre as trevas do desconhecimento, tudo finda com outra interrogação.
Elas, as interrogações, a constante que povoa o sal da existência. Se cessassem as interrogações, ou se alguém, numa sanha proibicionista, obstruísse os pontos de interrogação, o corpo era empurrado para o precipício do marasmo. As perguntas, mesmo as incómodas – sobretudo essas – não devem ser atiradas para o canto da timidez ou para o quarto oculto onde se alojam as perguntas que desatam abalos telúricos. As que contam são as interrogações que lançamos para o interior, as perguntas (dir-se-ia) diuréticas do pensamento. Não podem ser o fermento de respostas categóricas, definitivas, que abortam outras perguntas que pesam no ar, estáticas, sobre as cabeças perplexas.
As perguntas vertidas em texto escrito deviam vir precedidas do ponto de interrogação – nem que fosse invertido, como a gramática espanhola consente. Quando lemos um texto só percebemos que somos desfiados por uma pergunta ao terminar a leitura da frase, quando ela decai no ponto de interrogação. Se a gramática autorizasse um sinal interrogativo a abrir a frase desfaziam-se as dúvidas à entrada: sabíamos que a frase vem apimentada com o desafio de uma pergunta. É que as atenções crescem no termómetro da intensidade intelectual quando uma interrogação se insinua.
Às vezes, por desaguarmos numa rua sem saída, abandonamos a pergunta na orfandade de uma resposta ausente, impossível. Não devemos capitular nas interrogações que se entretecem na sua complexidade. A cada pergunta que sobra na sua orfandade, é como se declinássemos o porvir que nos é consagrado. Quando teimamos e arremetemos em força, ou com paciência, contra a muralha de uma interrogação, o pensamento entrega-se a um higiénico exercício. Da capacidade para fermentar interrogações depende a extracção à inércia, à negação do pensamento. Seríamos – caso não houvesse saber, ou interesse, na formulação das interrogações – organismos deitados na malsã volúpia da inanidade.
Somos o seu contrário. A tempestade cerebral convoca interrogações a esmo. Somos imarcescíveis na frondosa actividade indagadora. A volúpia é outra: a alegria das perguntas que estalam, incessantes, nos contrafortes do pensamento. Não interessam tanto as respostas, que podem ficar adiadas ou pendidas na incógnita que se eterniza. E mesmo uma resposta, por mais que venha anelada ao tríptico triunfal, desfaz-se em nada se não abrir, de par em par, as janelas às interrogações seguintes.
As interrogações são as sementes que caucionam a fruição de um fruto. Convencemo-nos que a parte sumarenta é a polpa, já limpa das sementes. Como estamos equivocados quando as interrogações ficam em permanente letargia. A grandiloquência está no movimento perpétuo que é o alinhamento de interrogações atrás de interrogações.

6.7.11

O desejo


In http://www.poemasecores.com/images/encontro%20das%20mãos.jpg
Ardiam as veias nas esquinas dos dias. A combustão, um pedaço de cumplicidade, enxugava as gotículas irradiadas pela fusão dos corpos. Nem nas mais intensas palpitações os corpos esmoreciam. A pele rubra, vertendo o seu incenso, depunha a glória dos sentidos. Havia um dia, dois, sabiam lá quantos dias seguidos, nem sabiam onde a claridade diurna se apartava da sua posse. Diziam: o desejo desembacia os olhos penhorados pelos contratempos.
Passeavam as mãos pelas rugas em cascata. As mãos tropeçavam no suor esbatido que desaguava nos quadris. Os dedos tacteavam a pele frugal enquanto os olhos teimavam, cerrados, o jogo transformado numa equação. Quando os olhos se entreabriam e esbarravam nos outros, abertos como clarões, era como se uma trovoada retemperadora invadisse todos os poros, renovando-os na sua claridade. Convulsões amenas atiravam-se de um lado para o outro, desviando os feixes de luz que espreitavam nss fendas da persiana. A luz do sol intimidava-se na deposição dos corpos ensaiando sua própria coreografia, uma coreografia que sinalizava uma linguagem que só lhes era dada a perceber.
Quando por fim, exangues, se entregavam ao sono, o desejo apenas hibernava. Era um sono alto, profundo, sem o tempo que sacia os sonhos. Se sonhavam, era com o desejo que cortava fundo nos seus corpos avivados no carmim da carne viva. Nos estremecimentos dos sonos em sobressalto, as pernas entrelaçadas. A fusão das peles em alvoroço era o bálsamo que as serenava. Retomavam o sono desfalecido por onde trinavam os pássaros em propícia demanda.
Saíam à rua. O desejo estalava nas sílabas surdas, entendidas como se tratasse de uma telepatia. Era como se tudo em redor estivesse cristalizado na inércia, como se as pessoas à volta fossem estátuas incolores. As veias, se pudessem, saltavam da carne que as aplacava. Os olhares cruzados eram esteios onde o desejo se fundava. Às vezes, um olhar cúmplice desatava um beijo quente no pescoço, os lábios carnudos detendo-se na pele intensamente adocicada, detendo-se como se uns instantes se demorassem na paleta das cores inteiras do arco-íris. Às vezes, também, demoravam-se os silêncios que entoavam as palavras que sabiam dizer sem haver precisão delas.
O desejo era a biblioteca dos sentidos. Contavam dias e horas e minutos quando os dias e as horas e os minutos se embaciavam na ausência. De que valia apressar o tempo? – apregoavam, em ajuramentada promessa, quando a luz dos candeeiros abrasava o torpor dos corpos sentados no frio banco do jardim. Os olhos levantavam-se do chão outra vez e apanhavam os outros olhos no fio do horizonte. E ambos sabiam que esses olhos, em sápida colisão, empunhavam as palavras guardadas no palco escondido do silêncio. As mãos regressavam ao seu altar: as mãos apertadas, quentes, onde encontravam o seu esporão. Um afago no rosto aveludado, o rosto apertando-se contra a mão, e um aluvião tomando conta das veias em incineração primária. Era o que mais contava, deleites reiterados por entre as faúlhas alcatifadas pelas veias cremadas na nata do desejo.
O desejo que não tivesse abcessos. Ditaria o epílogo das suas senescências. 

5.7.11

Um naco de liberalismo


In http://reason.com/assets/mc/psuderman/2010_01/IRS-shakedown.jpg
Agora que o governo, o tal governo “neoliberal” ou “ultraliberal” (consoante os gostos), atalhou as dificuldades com um imposto extraordinário que nacionaliza 50% do subsídio de natal, convém explicar o que não é liberalismo. Liberalismo pode ser muitas coisas ao mesmo tempo, mas não a subida de impostos como quem deita a mão ao que está à mão de semear.
Um liberal que tenha estudado os livros onde os liberais ensinaram a sua doutrina sabe que um imposto é uma apropriação do rendimento. Um liberal quer que o Estado alivie a intrusão na economia e na vida dos cidadãos. Pois o Estado é um estorvo à iniciativa livre: ora levantando burocracias que são autênticos pesadelos; ora exigindo licenças e taxas e mais taxas e pareceres que exigem conhecimentos e, se calhar, a palavrinha certa à pessoa certa (e mais uns presentes debaixo da mesa); ora forçando as pessoas a esbarrarem numa resma de proibições e condicionamentos e legislação obtusa que só aproveita aos conhecedores (ou seja, aos famosos juristas que as alinhavam lá das suas torres de marfim nas vetustas Faculdades de Direito).
Quando um liberal ensaia uma desculpa mal amanhada e sacode as responsabilidades para os antecessores na governação, deitando mão a esse pretexto para exigir mais uma dose de sacrifícios à população através de outra extorsão fiscal, das duas uma: ou esse liberal se esqueceu dos pergaminhos liberais e sucumbiu à tentação fácil; ou é um liberal de pacotilha, ardilosa personagem que enganou os incautos na campanha eleitoral. No fim, quem vai suportar a factura é o sujeito passivo.
(Uma divagação a preceito: a linguagem técnica usada pelos fiscalistas e pelos funcionários das repartições de finanças chama “sujeitos passivos” aos contribuintes. Emblemática expressão que merece um pedaço de hermenêutica. Quem se lembrou de inventar este ardil semântico nem deu conta do deslize. Pois há alguém mais desprotegido que o sujeito passivo perante o irrecusável dever de pagar (e cada vez mais altos) impostos? A desprotecção quadra com a noção de “sujeito passivo”. O contribuinte é alguém acantonado à passividade perante o Adamastor fiscal.)
Ainda na sua infância, este governo não esteve de modas. Dizem-me, em tom complacente, que o desarranjo das contas é grotesco, que se exigem receitas extraordinárias para cumprir obrigações com os nossos tutores (a troika). E dizem-me que é altura de todos aceitarmos um quinhão de responsabilidade colectiva, de admitirmos a factura a sangrar sacrifícios para os olhos. Mas se este governo é tão “neoliberal” ou “ultraliberal”, como as esquerdas insistem em cunhar, devia ter ido por outra estrada quando deu de caras com a encruzilhada. As contas públicas também se compõem cortando nas despesas. Consta que o governo está atento à alternativa, mas o que tem sido anunciado não passa de operações de cosmética quando toca a fazer as contas à poupança no erário público. Atacar através da expropriação fiscal faz lembrar os alunos poltrões que não se dão ao trabalho de estudar, gastando o tempo a conceber cuidadas cábulas para iludir o professor.
Muita pena tenho das esquerdas que andavam empolgadas com o conveniente encostar do governo às cordas do “neoliberalismo” ou do “ultraliberalismo” (consoante os gostos). Às duas por três, ou persistem no autismo do costume, continuando a chamar “neoliberal” ou “ultraliberal” ao governo; ou já devem ter metido a viola no saco. É que os factos trataram de liquidar o peditório para o “governo neoliberal” (ou “ultraliberal”).

4.7.11

Um cão pertence a uma varanda?


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjrV7meEl7hpQdb88jnl02uKyE0D7EQv19ACW0Rlz6zwZOzqBa4yQFjbHCj9motNIoBY7d7SrxNbDV2HzgJA4dHNWjWhRbDLsz_W-cooMErcyF7bCLGDbxjnBxcfbXKyqVtdlqZpw/s1600/acorrentado.jpg
Ali no prédio em frente está um cão que passa o tempo todo fechado na varanda. O pobre animal, tristonho como o são as criaturas encerradas num cárcere, esgravata a persiana fechada enquanto vai ganindo. No seu cubículo onde a comida vive ao lado da urina e das fezes e do arremedo de cama onde descansa, o cão protesta a desdita. Os donos, ainda mergulhados na alvorada dormente, fazem de conta.
Sim, a desdita. O cão pertence ao que se convencionou chamar “rafeiro”. Adivinho: foi resgatado a um hospital veterinário onde são depositadas as crias de cadelas que vadiam pelas ruas. Ao canídeo, dir-se-ia, saiu a sorte grande. A sorte que o retirou da errância pelas ruas da cidade, esquivando-se dos maus tratos de gente bestializada, fugindo da comida envenenada que uns assassinos de carácter (do seu próprio) semeiam para fazerem o genocídio canino, retirando-se da elevada probabilidade de uma morte horrível debaixo dos rodados de um camião, furtando-se à perseguição dos algozes camarários que dão caça aos “cães vadios” e os depositam no canil à espera da injecção letal. Da sorte saiu-lhe apenas a terminação. Não sei se não seria preferível ao cão usufruir da sua liberdade mesmo à míngua de víveres e com a certeza de dormir ao relento. Assim como assim, do relento o pobre animal não se safa.
E não estamos no campo, onde os cães são vítimas inocentes da ignorância dos donos que os acorrentam em casotas lúgubres no exterior da casa, alimentando-os com uma ração pútrida feita de restos da comida humana, numa mistela que os animais comem porque a fome obriga. Esteja um sol tórrido ou um frio de rachar, os cães não têm a soltura que queriam por causa de uma trela que os acorrenta ao lúgubre lugar, da trela que limita os movimentos a uma periferia curta.
Não estamos no campo, nem aquele segundo andar tem um pedaço de terreno que leve os donos a plantar um dócil canídeo convencidos de que exibem um feroz cão de guarda. Mas é tudo como se assim fosse. Como se as pessoas que habitam o segundo andar estivessem convencidas de que vivem no campo e que o cão que tiveram a dignidade de resgatar à errância citadina afinal passe uma existência pouco mais digna enquanto os dias se demoram na clausura da varanda para onde foi despejado.
Não vou sugerir proibições ou imposições, que os tempos que correm estão cheios delas. Gostava de perceber o que vai na cabeça de gente como esta que tira um cão da miséria e lhe destina uma outra forma, um pouco mais digna, de miséria. Sei que os afectos dos outros têm a sua pessoal bitola, o que talvez impeça de me interrogar sobre a existência de afecto daquela gente pelo cão atirado para o degredo da varanda. Enquanto continuo a ouvir o cão a esgravatar furiosamente nas persianas fechadas, debitando uns extenuados uivos, e os donos preferem o sono e nem dão conta do desespero do cão, sinto uma terrível pulsão proibicionista. De como seria proibido manter animais de companhia nestas condições, pois é a negação da sua utilidade (dito assim, com esta frieza). Nem que fosse obrigatório fazer um cadastro de quem pratica estas atrocidades. Para serem impedidos de voltar a ter um animal por companhia.
Mas não vou sugerir proibições ou imposições, que os tempos que correm estão cheios delas. N~﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽na cidade. o o pobre animal n\ao se sim  horrs de gente bestializada, fugindo da comida envenenada que uns assassinos

1.7.11

Álvaro, senhor ministro?


In http://thumbs.dreamstime.com/thumblarge_162/1183836203X81G7n.jpg
Desconfio que o novo ministro da economia vai ser tratado como cão sarnento, pois teve o atrevimento de se virar para os jornalistas e, com elevada familiaridade, solicitou que o tratassem por “Álvaro”. Que se deixassem dos salamaleques e guardassem o respeitoso tratamento “senhor ministro” para quem faz questão de puxar lustro à ministerial medalha. E depois explicou ao que ia: quando era estudante teve professores que exigiam que os tratassem pelo primeiro nome.
Já deu à costa o habitual coro de gente muito séria que se atirou à informalidade do senhor ministro (perdão, do Álvaro). Que não se pode tratar o senhor ministro pelo nome próprio, que isso belisca a autoridade de um governante. Uma luminária houve que se deitou a inventar o cenário guloso da desautorização do ministro, ao imaginar o motorista, todo tu-ca-tu-lá, a virar-se para o ministro, tratando-o por Álvaro, convidando-o para um café ou uma cervejola de final de dia.
Eu, que não confio por aí além neste novo governo (e mais razões tenho para montar a tenda do cepticismo ao saber da extorsão fiscal que aí vem sobre o subsídio de natal), admito que já quase heroicizei o Álvaro e ele nem começou a provar a estirpe de governante. Esta tirada à frente dos jornalistas é um terramoto. E se o primeiro-ministro escolheu para ministro da economia (e de mais um punhado de coisas que não me recordo agora) um académico desterrado no Canadá, mereça (a custo) um aplauso só por ter descoberto um ministro que detesta formalidades excessivas e genuflexões acessórias.
Dizem que temos a mania dos penachos e que o “doutor” ou “engenheiro” que precede o nome é caução de identidade quando nos apresentamos a alguém. Alguns, com experiência profissional, revelam que somos motivo de chacota por causa desse pretensiosismo. Esfregar na cara dos outros a credencial académica é sinal de pequenez. Esta gente que se exporta da academia para o poder faz questão de adicionar ao título académico o tratamento que nobilita o poder que aterrou nas suas mãos. Suponho que lhes acomoda o imenso ego. Deve ser quase orgástico, no sentido de se encherem de arrepios quando os subordinados ou os simplesmente súbditos se desfazem em mesurices. Gostam de ser pajeados.
O Álvaro aprendeu a tradição anglo-saxónica do tratamento informal. Para o contexto que somos (e que ele, tão à distância, terá esquecido), dizer aos jornalistas, e por seu intermédio ao resto da populaça, que o devem tratar por “Álvaro” é uma heresia. Quem vai respeitar um ministro que autoriza os jornalistas a chamá-lo pelo primeiro nome? Os quadrados do regime e as avantesmas da função pública devem andar indignados com o Álvaro. Ele faz lá sentido que a gentalha comece a tratar os ministros pelo nome próprio? Qualquer dia, ministros tão informais são apanhados em manifestações populares (por exemplo, no arraial montado pelo patrão da Sonae), ou a exigirem que os subordinados os tratem pelo nome próprio, abrindo as hostilidades de um tratamento informal que não se sabe onde irá parar. É que, como se costuma dizer, somos vezeiros em tomar o braço quando nos deram um dedo.
Eu cá prefiro virar-me para o ministro da economia (e de mais um ror de pastas) e tratá-lo, ainda que sem o tu-cá-tu-lá, por Álvaro. É preciso arejar os costumes.

30.6.11

Intoxicados


A maresia arpoava os ferrões ácidos na embocadura do cérebro. E depois havia a miríade de luzes que saltitavam, anárquicas, de um lado para o outro, comendo outro bocado do entendimento. Às tantas, desembrulhava-se a capa rubra dos sentidos, onde tudo se desordenava numa harmonia invulgar.

Demorávamos nos lugares, demorávamos os olhares e estendia-se o tempo até à alvorada que irrompia num sobressalto. Às vezes não recuperávamos a lucidez, os vestígios acobertados por um denso nevoeiro que embaciava as recordações avivadas pela frescura do tempo. Sabíamos que o atapetado da inebriação momentânea trazia uma vaga sensação de intemporalidade. Era como se entrássemos na anestesia dos corpos, os gestos autómatos conduzidos pelos dedos de uma entidade insondável. Dizíamos um ao outro que dizíamos coisas que não nos eram dadas a dizer na embriaguez da lucidez. Metíamos conversa com desconhecidos que apareciam. Jurávamos amizades fugazes que se perdiam na poeira em que se depunha a ausência de memória.

Na iridescência nocturna, os passos desarticulados erravam por ruas desconhecidas. As pedras gastas da calçada eram testemunhas solitárias dos delírios incongruentes que assomavam pela fechadura da intoxicação. Todos os delírios eram incongruentes – sussurravam ao ouvido, em perene teimosia que intuía a liquidação da digressão pelas desertas ruas em horas impróprias, uns anjos pretorianos que aconselhavam o recato. Afastávamos com um gesto brusco os anjos que mais nos pareciam demónios, num esquizofrénico gesto de quem imagina seres invisíveis aos olhos dos demais. Não queríamos que eles viessem encerrar num patíbulo as quimeras prometidas pela errância a horas tardias.

Podiam os corpos escorregar nas pedras húmidas das ruelas atamancadas entre o casario lúgubre. Podíamos ser enganados por oportunistas comerciantes que se apropriavam da candura incendiada pela irreparável temulência. Podíamos vegetar na demência dos excessos, acordar imersos num profundo arrependimento das quimeras afinal desencontradas. Podíamos jurar dias diferentes, as juras embelezadas pela esquadria da sagrada decência. Que logo irrompia outra noite que revistava as promessas, decantando toda a sua usura, esvaziando os juramentos a uma pálida, inerme imagem. E os corpos entregavam-se a nova errância, às miragens que impediam um raciocínio de fio a pavio. E o que interessava articular um raciocínio com princípio, meio e fim, se todos os dias, no púlpito da lucidez, o pensamento se demorava em vigílias labirínticas?

Ouvíamos os pesares das vozes conselheiras. Os conselhos de médicos, que acenavam em compungido tom reprovador ao deitarem os olhos nas folhas onde se depunham os resultados das análises ao sangue. Por mais que se içassem os alçapões que seduziam quimeras ininteligíveis, e por mais que regressássemos destas batalhas exangues, com mais um pedaço interior destruído, ferviam as veias de cada vez que adejava a promessa das errâncias nocturnas nos interstícios das intoxicações imagináveis.

Foi um tempo que pertenceu ao conhecimento. Hoje dizemos que ficou um pedaço de nós lá atrás, nessa intemporalidade emoldurada nas margens da intoxicação. Hoje, que a monotonia espreita com os seus remorsos, apetece-nos desligar da (já possível) vetusta era em que medramos. Mergulhar nos delírios incongruentes. Um salto no escuro: se é para experimentar uma luminosidade desconhecida, ou se o salto afivela as saudades do sossego da madurez, os dias vindouros darão resposta.

29.6.11

Salto mortal


In http://dementia.pt/mais-um-mortal-falhado/
O trapézio cintilante, sedutor, segura o vazio que se desprendia nos fundilhos da rede de segurança. Os pés prosseguem, confiantes, como o leão caçador avança na véspera de devorar a presa perseguida. Os olhos irradiam uma resplandecência singular, sem se desviarem por um instante do firmamento que amadurece um rosário de promessas. É como se detrás da cortina baça, da invisível distância a que se coloca o horizonte, estivesse um papel de parede bucólico, impregnado de pequenas flores coloridas.
O abismo sob os pés não trémulos não vacila o passo, que se estuga na desejável velocidade de cruzeiro. O varapau nas mãos afeiçoa o equilíbrio. Estremecem os braços, ondulam ora para um lado, ora para o outro, desembainhando o equilíbrio que fermenta o passo certeiro sobre o trapézio luminoso. Os olhos inspirados na maresia do horizonte que se desdobra em mil promessas não perdem a radiosa expressão. Podem ser miríficas, ou não, essas promessas; é o lado da equação que sobeja incógnita. Mas isso não interessa. Do alto do trapézio, enquanto avançam sem relutância, os pés fincados nas arestas da corda ajuramentam-se na recusa do derribamento.
Só que um demónio contumaz e catatónico azougou a acalmia que nem um esboço de brisa inquietava. Bateu as asas com a fúria própria das almas desarranjadas e investiu contra o remanso do trapézio. As ondas de choque, em jeito de abalo telúrico, fizeram adornar a corda onde repousavam os pés na sua, até então, caminhada certeira. O horizonte diante dos olhos ficou coalhado com os olhares disléxicos. O combate do pés contra as cordas dançantes era desigual, os predicados de equilibrista incapazes de amortecer as ondas de choque que descompunham o sopor do trapézio. As pernas pareciam desconjuntadas. Os pés perderam a sua âncora nas arestas cortantes da corda. O corpo caiu no precipício.
A queda parecia um interminável slow motion. Diante dos olhos passaram: aves pernalta na sua indiferença, pétalas leves exalando um perfume ímpar, retratos de gente anónima (ou não tanto – apenas gente perdida nos escombros da memória), moedas douradas cunhadas com a esfinge de um suserano imaginado, cordas relapsas escapando-se por entre os dedos que as tentavam alcançar em salvação derradeira do degredo. Uma insondável alegria domou os sentidos, domou o pânico colonizador assim que os pés perderam ancoragem na corda que se desprendera do fio do horizonte. Ensaiou uns saltos mortais, cambalhotas avulsas, uma coreografia demente enquanto o corpo se perdia, com uma lentidão que desmentia as leis da física, na voragem do vazio.
Eram instantes, todavia; é que não se desmentem as leis da física. Mais pareciam dias sem fim, dias em que não havia distinção entre a noite brumosa e a luz clara do dia. As piruetas esmeradas embaciavam a claridade em redor, mas os tons plúmbeos eram estranhamente agradáveis, deles soavam melodias que colonizavam os corredores do labiríntico pensamento.
Já convencido do estouraz trambolhão quando o abismo ruísse no seu fundo, acordou sobressaltado, mergulhado num espesso suor exportado do pijama para os lençóis. Os saltos mortais, tarefa impossível, são ofício circense. Ou estão aquartelados nos impenetráveis dédalos dos sonhos.

28.6.11

Never ending story

In http://images03.olx.pt/ui/8/22/62/1279407736_105762062_1-Fotos-de--Cafe-Snack-Bar-de-Esplanada-com-vistas-de-mar-1279407736.jpg
Glosava as parangonas das revistas cor-de-rosa. Ela sabia que ele as tinha como lixo mediático, o bas fond da imprensa. Ela também sabia que ele deplorava a existência das figurinhas que se emprestavam (e emprestavam a sua intimidade) às páginas gelatinosas das revistas. Ao menos não era assunto entre eles, tão diametrais na mundividência. Ele nomeava mentalmente os interesses que gravitavam nas respectivas órbitas. Olhava para a cadeira do lado, onde ela se abstraía do restolho do mundo folheando esta literatura enquanto punha as pernas numa salmoura de sol na esplanada, e notava como tudo neles era antagonismo.
Os pensamentos viajavam para distantes paragens mentais. Ele fechava os olhos e, naquela aparência de quem se extasia com o primeiro sol primaveril, sentia as ondas do pensamento ancoradas a um lugar inacessível, imaginado apenas. Os olhos escorregavam, com a complacência dos óculos de sol, na direcção de um voluptuoso corpo feminino que deslizava em frente da esplanada em aproveitamento do primeiro sol depois da longa invernia. Nessa altura, os pensamentos cristalizavam-se na miragem.
Ela passava os olhos pelos retratos que devassavam, com o consentimento dos visados, a intimidade dos que são visitação frequente das revistas da especialidade. Ao jeito das matronas que afiam a língua enquanto sopesam a vida alheia, coscuvilhava as páginas da revista com uma avidez que, dir-se-ia, era sintoma da pessoal, desinteressante vidinha. As fotografias dos famosos, em generosa partilha do dia-a-dia, era a sua válvula de escape. Os pensamentos também apanhavam um voo de longo curso. Como se houvesse mister de encontrar uma existência paralela, ou de repente gizasse um alter ego que depois segredasse cada minuto da vida resplandecente. Imaginava-se ao lado de um dos habituais figurões em semi-perene estadia nas páginas das revistas que devorava com devoção quase religiosa.
Por mais que estivessem (interesses e pensamentos) em ausente sintonia, a imensa capacidade analítica estéreo em que o sexo feminino é pródigo foi resgatada no exacto momento em que ele, de forma descarada (a crer no diagnóstico dela), desviou o olhar para uma lúbrica mulher que arrastava o andar, vagarosa e indecentemente, em jeito provocatório. Era a fêmea de tal calibre que ele nem teve o cuidado de esconder o olhar destravado atrás das lentes fumadas. Para começo de conversa, recolheu as pernas da salmoura solar e tossiu duas vezes. E como a mulher provocadora notara que ele a seguira com o olhar tão vagaroso como o vagar com que as suas longas e desnudadas pernas se atapetavam no chão da marginal, ela pisou a revista, bateu três vezes com os nós dos dedos em cima da mesa e disparou, viperina: “tanto sol na cabeça deixou-te apatetado com a donzela?
Ainda esboçou retorquir. Reprimiu a resposta a tempo. O sol tão bondoso não convidava a uma arenga. Tomou-lhe o pulso do silêncio após um afectuoso beijo e um olhar com a profundeza dos olhos que a calou. O instante ficou a bater no pensamento nas horas seguintes. Trouxe dos confins da memória um texto sobre a anomalia da monogamia. Deu consigo a pensar. Não eram os interesses nos antípodas que esgotaram tudo neles. Foi a maresia da poliandria, sentir-se imune às dores da poliandria, a torre de Babel inscrita no horizonte do pensamento. Foi a estocada fatal. 

27.6.11

“O medo de não poderes fugir de ti”


In http://farm4.static.flickr.com/3148/2996132444_3630efd41c.jpg
À cabra cega, jogas, insano, com os dados do destino. Com a leviandade própria dos rapazotes em pueril erupção cutânea, como se não tratasses da lucidez necessária aos passos sensatos. E, todavia, interrogas-te sobre o significado da sensatez. Ao de cima vem a medida de subjectividade que embacia as bissectrizes tiradas. Quantas vezes o que hoje parecia sensato vem-se a revelar um desastre quando o futuro encomenda a retrospectiva do tempo?
Às vezes sentes medo do que és, ou daquilo em que te tornaste. Incomodam-te os laivos que admites serem a antítese da tua têmpera. Mas a antítese de ti até pode ser o que julgavas ser a tua essência. O juízo descarrila quando já não sabes os limites das margens sulcadas pelas águas interiores. Às duas por três, as águas transbordam, ocupam os campos em redor, desviam-se do leito que julgaras ter sido feito para essas águas. As águas experimentam o sal de outra terra e desatam-se as interrogações: quais são os terrenos férteis dessas águas? Que nomadismo se acomete na intemporalidade que parece não ter fim?
Andas nisto, assoberbado pelos teus limites. Temeroso de que os limites identificados sejam as algemas que impedem a liberdade de ti mesmo. Sentes que estás dentro de um espartilho, como se tudo dentro de ti quisesse ser mais alto do que é dado a aspirar e um fantasma qualquer adejasse na perene impossibilidade das fronteiras em que esbarras. Fala mais alto a sede do desconhecido, pisar as terras que jamais foram pisadas, deixares que as águas interiores se soltem dos limites que as amordaçavam.
O medo, que traz em sobressalto constante, é a incapacidade de rasgares as fronteiras em que te aquartelas. Um profundo cansaço interior, as masmorras entediantes onde enquistas a monotonia. À noite o sono inquieta-se com um pesadelo: vês-te na rua a fugir da tua sombra, o vulto de ti mesmo empunhando um punhal em pose ameaçadora. Tropeças num passeio, ensaiando a queda de que escapas no derradeiro momento, quando o vulto arremetia para a estocada final. Horas nisto, numa perseguição implacável que não semeia o cansaço da presa e do caçador. És tu a tentar fugir de ti mesmo, do que és, ou daquilo em que te tornaste. E em vez de capitulares, em vez da presa ceder à fadiga (de si mesma), persistes na demanda. Encerrado numa perturbante contradição, empreendes a fuga do eu que te consome mas recusas a captura por um outro eu que se cobiça.
A noite que alimenta o pesadelo parece infindável. Como se tivesse a espessura de dias a eito, no dilema torturante que amordaça a desejada lucidez. O sono sem fim é a prisão onde se jogam os dados do horizonte vindouro. As vozes sussurradas ao ouvido são um coro de palavras ininteligíveis. Ecoam em idiomas diversos, ampliando a confusão que raia os limites da loucura. Consegues delimitar meia dúzia de palavras que se distinguem no meio do caótico matraquear que invade o cérebro: tens é medo de fugir de ti mesmo.

24.6.11

Feios, porcos e maus


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgDOtFeRas0D4TA4aVFF4C7SKXlZd1f_iaVhINobdwrJ-5N0PdB2S7irPh5Xe1tfrpED5B1jdNdF9tE1WvTjHq6fIode_4e90Vu-uQ92k6BIsQdtJmjf5YG5YWEqAQT1TduHOv_/s1600/17072010920.jpg
Andavam descalços em casa, os pés encardidos pela sujidade acumulada. Eram descuidados com a roupa de trazer por casa: uns andrajos que deixassem o conforto trautear melodias pelos poros transpirados. Pose negligente quando estavam à mesa, os talheres desordenados ornamentando o almoço confeccionado às três pancadas. Ela coçava o cabelo que não visitava chuveiro há uns dias sem conta. Ele sentara o pé descalço em cima da cadeira e esgadanhava, distraído, uma das unhas sujas enquanto a outra mão molhava uma bucha de pão no azeite temperado com orégãos e alho. Estavam a meio da refeição quando apareceu a prole, os dois rapazes esgrouviados. Um não quis a sopa albardada que já arrefecera.
- Isto está frio, não tem jeito nenhum, grunhiu entre dentes, olhando na direcção oposta à da mãe, sem que, contudo, ela não deixasse de ouvir aquelas sílabas atamancadas.
- Viesses para a mesa a horas que a sopa estava a preceito. Mas se não queres, deixa-a para aí, rematou com desinteresse à mistura.
O filho mais velho chegou à cozinha estremunhado. Fez ligação directa da cama para a mesa onde o esperava outra sopa esfriada com uma mosca a boiar em desespero, acenando os derradeiros movimentos das asas na vã tentativa de se soltar da pegajosa mistela esverdeada. Esfregou os olhos e limpou as mãos à camisola desbotada com as mangas esfiapadas, à camisola que ostentava nódoas de mostarda (o cachorro que a fome devorou antes de se deitar). Aquela mancha negra, ao início indistinta, não motivou comentário. Só quando desentorpeceu é que notou o insecto em decadência a molhar na sopa. Mas a fome era tanta que sacudiu a mosca com os dedos, como se estivesse a jogar carica, e nem pediu substituição do caldo. Tossiu à primeira colherada, protestando:
- Esta sopa não tem ponta de sal.
Ninguém se acusou. A mãe, com aquele ar lunático de quem não parecia afamada actriz, trincava uma maça excessivamente madura enquanto, ao balcão, por entre a imundície da louça de três dias, se entretinha com um exercício de sudoku. O pai desossava a cabeça do coelho estufado, espalhando uma gordura fétida pelos dedos e pelos arredores da boca. Em sentindo comichão no cocuruto, levou uma das mãos engorduradas ao cabelo e despenteou-o, fixando uma melena pastosa. O filho mais novo foi ao caixote onde o gato urinava e pegou uma mão cheia de areia contaminada. Pediu ao pai que chegasse um guardanapo, que o dele tinha vestígios de fuligem. O pai fez-se desentendido enquanto descia a outra mão besuntada até ao dedo do pé com a unha proeminente. O rapaz repetiu o pedido. O pai, contrariado, vociferou:
- O raio do rapaz que não me deixa em paz! Toma lá uma resma de guardanapos. Um estará limpo.
Ao sentar-se, sem olhar para os restos do petisco que laborava em minuciosa função, pegou no crânio quase desossado do coelho e sentiu uma matéria áspera. O rapaz tinha feito um crocante exterior à cabeça do coelho com os vestígios de areia urinada pelo gato. O pai disparou numa correria enfurecida atrás do rapaz, ajuramentando vergastadas bem dadas não fosse dar-se o caso de o petiz ser mais ágil. A mãe interrompeu o reboliço:
- Calem-se e estejam quietos. Não ouviram a campainha? Deve ser a jornalista que vai fazer a reportagem sobre nós para aquela revista, a...a....
A repórter ficou abismada assim que entrou no pardieiro. Como podia gente tão famosa, ela actriz com consagração internacional e ele escritor laureado, exibir tanto desleixo numa revista cor-de-rosa? Quando a jornalista chegou ao escritório com um joelho pisado (cortesia do rapaz mais novo) e a saia estragada por uma nódoa do estufado de coelho, só lhe ocorreu, ao passar os olhos pelas fotografias tiradas, um título para a reportagem: feios, porcos e maus.
Ainda lançou a ideia. O chefe de redacção, sempre paternalista, deu-lhe duas pancadas no ombro e ordenou, com delicadeza, que usasse título compatível com a identidade da revista. Não se destroem ilusões montadas.

23.6.11

Raiva autofágica


In http://eatourbrains.com/EoB/wp-content/uploads/2007/11/anger.gif
Medem-se, as palavras? Tira-se as medidas antes de elas se deslaçarem, irremediáveis, entre os dentes? Às tantas, as palavras são archotes em carne viva que magoam os ouvidos que as escutam. Nessa altura, o mal está todo feito. As palavras desmedidas espalharam-se na carne alheia, incinerando-a com a acidez própria de uma substância química atroz.
A partitura das palavras que assim se entoaram é o cadafalso para onde o corpo é atirado. E por mais que sobrem os pesares, eles esbarram na parede da inutilidade. As recordações obrigam o pensamento a virar-se a montante. A sopesar as palavras ditas e que porventura deveriam ter sido guardadas. A vasculhar nas algibeiras os sedimentos embotados pela macieza do tempo. E a interrogar: se não seriam os sentimentos embotados a fenda por onde espreitaram as palavras que andavam atamancadas no silêncio interior.
Sobra a raiva. Uma raiva que se acomete contra o próprio autor das palavras desapiedadas. Como se quem as proclamou se virasse contra a imoderação do pensamento assoberbado pelas palavras em livre fluência. E se açoitasse, numa autoflagelação sem serventia. Essa raiva autofágica é o altar, o altar que se assemelha perene, onde se depõem os sentidos ininteligentes. De nada serve, a raiva autofágica. Senão para confirmar uma pulsão suicida, a tremenda atracção pelo abismo. É como se os pés desafiassem o precipício numa linha ténue a convocar o desequilíbrio. Os dias todos iguais, a modorra que ensoberbece nas sombras dos dias iguais, desalinha a lucidez.
Passado o tempo da raiva autofágica, despontam os focos da racionalidade. Atiram-se interrogações constantes contra a parede onde se demandam as respostas. E, apesar de muitas interrogações devolverem outras interrogações numa espiral que parece não ter fim, as respostas fermentadas pela intimidada racionalidade fazem o seu caminho. As folhas que assentam no esqueleto da partitura já são outras. Uns pós distantes enfeitam os papéis onde se depõem as respostas. Para o caso, não interessa se as respostas são encomendadas, ou se apenas arpoam uma ilusão que se sedimenta detrás do velhaco manto da raiva autofágica, tentando encobri-lo.
Tudo tem um significado. Nada é vão, nem as palavras entoadas que, lá atrás, maceram a contrição. A coreografia dos impulsos interiores desata os passos, harmoniosos ou destravados, em que se destoam as palavras ditas. Podem ser prenúncios de algo, ou simplesmente a abertura das algemas que amordaçam os movimentos que se decantam em sua liberdade. A raiva autofágica é apenas um ardil que desaprova as palavras entoadas, como se elas não quisessem ser ditas. A raiva autofágica é uma punitiva autocomiseração que se incendeia num beco sem saída.
A tessitura do tempo pode parecer madraça quando ele se escoa na sua aparente lentidão. Mas ele é terapêutico, generoso. As camadas de poeira anestesiam as palavras pungentes de outrora. O que a um tempo só parece malsão, na pusilanimidade das palavras exorbitadas, amansa com a distância dos olhares remetidos ao exigível refrigério. A raiva autofágica, esse punhal suicida que sangra a lucidez, é um terramoto escusado.