10.12.14

Andarás sobre as cinzas

Depeche Mode, "Personal Jesus", in https://www.youtube.com/watch?v=u1xrNaTO1bI
Um guru ensina as almas a terem domínio sobre os espíritos que nelas habitam. O guru é escutado com adoração. As almas ali presentes, que querem romper as grilhetas que as atam a vontades alheias, bebem as palavras do guru. Como se fosse um deus. Acenam meticulosamente com a cabeça à medida que a pregação do guru se desembrulha. Na exaltação do raciocínio, o guru pede aos seguidores para serem entidades por dentro de si mesmas. Não se devem acomodar às arestas vivas e traiçoeiras que são os outros que se metem pelo caminho. Só é pena os seguidores não levarem até ao fim o conselho do guru. Porventura, o guru deixaria de cobrar fortunas pelos seus serviços. E deixaria de fazer da charlatanice forma de vida.
Para provar que os seguidores deixam de ter freios exteriores, o guru encenou a ceia num descampado. Mandou uns lacaios – sempre mudos, sempre obedientes – preparar um caminho feito com brasas de uma fogueira. O caminho era a fogueira que fora ateada para esse propósito. Os seguidores amesendam no chão, em pose de ioga, e comem com as mãos. Comida macrobiótica, que o culto do espírito começa pelo que se atira para dentro do bucho. Encantados com o lugar, com o luar que parecia propositadamente semeado pelo guru (os aprisionados dentro de tamanho transe acreditavam na patranha), com as delícias do repasto sensaborão, nem repararam que nas traseiras do lugar estava a vereda que se incensava na fogueira que já era só cinzas.
A sobremesa não era um doce. Os seguidores da seita despojar-se-iam do calçado para irem ao caminho abraseado. Antes, o guru engenhou sermão de convencimento mental: tudo é possível, assim o queiram as vontades que fluem no interior das mentes esbulhadas de freios. Se ele diz que conseguem caminhar em cima das brasas, é porque conseguem. Só faltou dizê-lo com timbre bíblico: “andarás sobre as cinzas”. Os seguidores, qual manada bovina desapossada de livre arbítrio, começaram a descalçar-se. Um a um. E a caminharem, sem esgar de dor, em cima das cinzas ainda abraseadas.
Ao fim da noite, o contingente de médicos e enfermeiros no hospital das imediações foi reforçado. Não havia braços que chegassem para curar tantas queimaduras nos pés. Do guru, notícias três semanas depois. Foi encontrado num aldeamento turístico de luxo no Brasil, na companhia de umas mulatas curvilíneas, a açambarcar um churrasco gaúcho bem regado pelos melhores vinhos. E a dizer, de si para quem houvesse de o ouvir, “olha para o que eu digo, não olhes para o que faço”.

9.12.14

Tio (s. m.): irmão da mãe ou do pai

In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi_SWQiwkq5h41klvg8C6BRxfo3-bjvHGzGTeCCkmvKW8Eud3au1golbzP6m6SVLTBLKzp5yYoD3uBxid7_SIhA-cJ4MTFZH0htfBvJf40pnL2UXue9VBapgysRHfuewXKUlRPW/s800/paula%2520teixeira%2520da%2520cruz.png
De um modismo (pelo menos, entre as pessoas muito em moda): toda a gente um pouco mais velha é, para os mais novos, “tio” ou “tia”. Ignoram-se os laços de sangue que autorizam o tratamento. Mas não interessa. É um afeto que se atira para cima dos mais velhos quando recebem o tratamento de “tio” ou “tia”. Ou apenas uma afeção de linguagem. Aliás, o dicionário (e, ao que se percebe, as convenções) já aderiu ao modismo. Abre-se o dicionário em demanda do vocábulo e aparece, na terceira linha, o significado “social”: “forma de tratamento usada por vezes para os amigos da família mais velhos”.
Nada contra o enriquecimento do vocabulário. Aliás, suponho que os adeptos do relativismo epistemológico (nada contra, por igual) aplaudem a abertura etimológica: pois as palavras podem encerrar diferentes significados em diferentes contextos e, sobretudo, consoante a vontade de quem as empunha. A gente bem posta, nata da nata do veículo social, entronizou esta forma de tratamento. É lá com eles. Eu, que tenho duas costelas relativistas e sou adepto da variedade etimológica que enriquece o vocabulário, tenho – devo confessá-lo – urticária quando noto tanto “tio” à minha volta. Até hoje, nunca fui destinatário do tratamento, o que me enche duplamente de contentamento: os sinais de envelhecimento ainda não me vieram visitar e não tenho ar de quem pertence (ou se julga pertencer) à “elite social”. As duas corroborações são um bálsamo para o sono.
Juro que não é conservadorismo. Nem preconceito social (ou até sociopatia específica conta os putativos membros da “elite social”). Só o rigor das palavras e o seu significado, mesmo que contextualmente flexibilizado, obriga-me a coçar as orelhas quando uma palavra é proferida fora do contexto que a autoriza. Há os pontapés na gramática, as lesões à sintaxe, ou o desconhecimento do significado de palavras que levam os seus autores a atropelarem o idioma que dominam (mal). Há uns anos, um conhecido agente desportivo, ao querer falar com pergaminhos de intelectual e, portanto, puxando lustro ao vocabulário erudito, usou a palavra “handicap” julgando que significava vantagem. Tudo isso se corrige com ensinamento e aquisição de conhecimentos. E há as palavras que não fazem sentido, porque a natureza lhes denega o sentido imputado. Isso é pior.
Ficaria irritado se alguém me tratasse por “tio”. Pelas razões aduzidas lá atrás. E quando alguém trata por “tio”, suponho que não se ensaie para estender o tratamento e da boca soltar-se a palavra “pai”. Ora sabendo que os meus espermatozoides não contribuíram para o produto final (que mete na boca a palavra “pai”), também o tratamento por “tio” é abusivo: porque se intui que um avó andou a gastar espermatozoides fora do matrimónio (ou que uma avó andou a recebê-los sem ser do consorte benzido por deus).
Já não há respeito pela intimidade das pessoas.
(Ou: é a vulgarização das palavras que patrocina a promiscuidade etimológica, a tal ponto de o dicionário reconhecer que “tio”, em sentido coloquial, corresponde a “uma pessoa geralmente da camada social elevada e que se comporta de forma afetada.”)

8.12.14

Sem rendição

In http://blogs.telegraph.co.uk/technology/files/2013/01/stock-footage-white-flag-waving-over-time-laps-sky.jpg
Há quem diga que é teimosia. Quem não entenda a utilidade de manter os pés firmes no chão molhado enquanto se apanha com o vento irado e a chuva fria que vem de frente. Há quem acene com a cabeça, em tom de reprovação, porque as provocações devem ser ignoradas – e à irrelevância deixar quem as semeia em proveito de tempestades em que, afinal, se cai.
Os que de fora ajuízam em favor da sanidade dos sentidos são só espetadores. Assistem por fora sem saberem o que é ser apoquentado. Talvez por isso estejam refastelados num sofá de veludo, uma perna cruzada sobre a outra, copo de vinho tragado vagarosamente, em pose muito filosófica, enquanto peroram sobre a irritação alheia. Talvez não se lembrem de espreitar ao espelho de onde viriam as imagens pretéritas das suas próprias tristes figuras. Também lhes calhou um estafermo na rifa do desfado. Mas devem ter a maleita da memória desmaiada. Ou julgam, do alto da sua pose filosófica, que são gurus alheios e gostam de sentir que alguém os olha como paradigmas de conduta.
Entretanto, sem dar crédito a teimosia nenhuma, os olhos (transpirados pela fanfarronice alheia) debatem-se, procuram empurrar as pálpebras para cima para não capitularem ao sono. As mãos vão à massa dura que tem de ser amaciada. Sem água que a amoleça, apenas com a força das mãos que não se rendem. Às vezes, a massa tem de ser sovada para poder levedar. Atira-se a massa à parede com a força toda que os braços conseguirem arregimentar. Resgata-se a massa ao chão.
Se teimar na sua pétrea condição, simulando-se inanimada, a não rendição trata de a amolecer. A bem ou a mal. Só finda quando os dedos das mãos cansadas se conseguem meter dentro da massa. A não rendição teve proveito. Sovada tantas vezes pelo contragolpe da palavra malsã, foi ela que capitulou.

5.12.14

Boca de fogo

In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi6g7LBGqPVv7b9g-zbQg28W0uxN4BRz8HI7kWwx0DME0qO8pAQ5gP744feo8mz7kOjOusN0CWFJR4o8FjWkjrBG5okMyDBoq1ospaYmBZAShEgX_76aEnD3VHojb5NSm_Hm9uL/s1600/fog6.jpg
Fervente, a boca esfumaça. As cinzas atiradas para o ar não são bom presságio. O gigante, afinal, não estava adormecido. O rugir que vem das suas entranhas é a prova. À volta da boca fervente, a pele negra e árida está febril. Estremece. O rugir das entranhas é como se o gigante avisasse de uma alvorada zangada.
À volta da boca fervente, o pânico começa a subir aos olhos. As pessoas não dormem. Têm medo que a boca fervente expluda, que se transforme numa boca de fogo. Têm medo que o gigante abra os olhos e decrete a impiedade – talvez por ter esgotado a paciência pelas coisas do mundo que não andam de feição. Uma noite, estava pouca gente de atalaia, o gigante ergueu-se e tomou a palavra estrepitosa. Já não lhe chegava o bramido interior nem as franzinas cinzas que atirava cá para fora. À boca de cena assomou a febre indomável. Das entranhas veio um vómito lancinante. A boca encheu-se de fogo. Vomitou os anos todos de apoquentações reprimidas. Da boca, o fogo incensando a pele em redor. Como se fosse uma operação cosmética, a epiderme passando pela metamorfose dos elementos.
A boca de fogo avisava para ninguém se achegar. Esteve dias a fio a vomitar pedaços de fogo, para mostrar como tinha as entranhas incineradas pela amargura arquivada por anos a fio. Não conseguia conter a ira pelas tropelias do mundo. Era o que diziam sacerdotes e curandeiros em pregações dionisíacas a incréus e crentes de religiões várias, pois todos estavam tomados pelo medo. As entranhas da terra vingavam-se da maldade humana – diziam, deixando vestígios apocalípticos nas palavras. O frémito de fogo que descia pela face tisnada do gigante já não hibernado escorria pelo resto do corpo. Pegava fogo ao que estivesse no caminho. Era o gigante a fazer mal a si mesmo, para que não dissessem que ele era o vértice de toda a maldade. Era fiador da sua maldade e tutor da destruição de uma amostra do mundo. Para mostrar ao resto do mundo que não devia tratar mal o mundo que se quisesse um imenso campo de flores vicejantes.
Depois do vómito de fogo sobrava a paisagem desordenada, transfigurada. E para não dizerem que a boca de fogo era a personificação de Lúcifer, depois viria um fértil aluvião onde as pessoas podiam renascer.

4.12.14

Nunca deixámos de ser novos



The Sound, "Silent Air", in https://www.youtube.com/watch?v=-C2ow5NrCGc
No poente, o ocaso. A luz desmaiada. Atrás vem a escuridão das horas a fio em que só os gatos não precisam de ajuda para verem. E o ocaso, por acaso tem significação senescente?
As folhas do calendário amontoam-se no lugar onde estão acamadas, já apenas um vestígio vago do tempo consumido. Parecem as caducas folhas que se desprendem das árvores tingidas pela feição outonal. Cansadas. Como o corpo se enfraquece com o correr do tempo, à medida que as memórias se encavalitam num teimoso, inútil exercício de resgate das lembranças de outrora. É essa nostalgia que fermenta a canseira dos corpos. É um ultraje ao tempo vivaz que temos entre as mãos.
O que interessa sermos servos da pequenez da nostalgia? Devemos recusar a expressa suicida “quando éramos novos”. Nunca deixámos de ser novos. Não deixamos de ser novos. A não ser quando nos apetecer, ou quando já não formos fortes para dominar a vontade que domina o que somos. Não vamos tresler os tempos que não se amaciam no relógio de ouro. Não vamos medrar numa tremenda ilusão, convencidos que agora é tudo como dantes e que as folhas do calendário não se foram desprendendo das suas anuais raízes. Vamos olhar o ocaso por cima do céu. Vamos à noite que vem depois, sem o temor reverencial da finitude. Vamos recusar o desagaste traduzido nas decadentes folhas do calendário que vão perdendo serventia (a não ser a de serem sinistras fautoras da inútil nostalgia). Pois dessa melancolia não levamos lições que valham.
Enquanto a vontade se sobrepuser à tirania do tempo deposto, somos nós os condutores da juventude, da nossa juventude. É por isso que não podemos dizer “quando éramos novos”. Ainda não deixamos de ser novos. Ainda – e enquanto formos domadores do tempo que congemina o ainda. Entronizamos a vontade soberana que recusa a funesta poeira do tempo que já teve lugar. Os olhos dessa vontade contemplam o fio do horizonte. Bem para além do ocaso que fundeia a obscuridade noturna. Nesses olhos, há sempre claridade.

3.12.14

Don’t play with me a game that you will lose

Beastie Boys ft. Santigold, "Don't Play No Game That I Can´t Win", in https://www.youtube.com/watch?v=1zLx_tugudg
Sobre a ambiguidade de uma frase. E dos seus possíveis sentidos.
1. Quem adverte está possuído de bazófia. A fanfarronice embacia o julgamento: à partida, está convencido da vitória. O presuntivo jogo são favas contadas. Não vai deixar vestígios no arquivo da memória.
2. O mensageiro joga uma parada alta. Não tem certeza das facilidades. Comporta-se como se as tivesse enfiado no bolso. A mensagem é uma recomendação ao adversário: deve temê-lo, porque o mensageiro é mais forte. Mesmo em não o sendo, o recado é uma vantagem. Se o adversário for de têmpera fraca e se intimidar com as palavras em forma de bluff.
3. Quem profere as palavras ensaia um gesto de comiseração. É melhor a outra parte não arriscar o jogo. Pode perdê-lo. Vai soçobrar no pecúlio jogado na aposta. É um risco temerário. Para não perder a honra e os bens materiais em liça, é melhor o outro não ir a jogo. Avisa o adversário que é tão generoso que prefere não embolsar um fácil triunfo. É de desconfiar (tanta generosidade).
4. O aviso é um falso terreiro de superioridade. Quem tem medo de ir a jogo é que desliza pelo solilóquio da advertência. Faz das fraquezas forças, intermediadas pela palavra intimidatória. Aquelas palavras são a bainha da bondade para o adversário, que será vergado sob o jugo da derrota. Mas as palavras podem conter todo o seu contrário. Temendo perder o pleito, desengonça uma parlapatice que pede meças a um bom vendedor de banha da cobra. O repto, é saber se convence o adversário. O empate fica na soleira da porta por ausência de pleito.
5. As palavras ensaiadas são a negação do seu postulado. Finge-se um ato de generosidade que tem a unção da piedade. Sabendo que o adversário se deixa iludir pelo orgulho. As palavras são recebidas como um convite ao pleito, em forma de desafio. O orgulho não se silencia diante de um desafio. O combate pode ser titânico. Perderão os dois. Mas quem mais perde é aquele que veio embebido em pesporrência disfarçada de altruísmo.

2.12.14

Contadores de histórias

Nick Cave and the Bad Seeds, "Higgs Bosom Blues", in https://www.youtube.com/watch?v=1GWsdqCYvgw
Nick Cave diz que os contadores de histórias oferecem aos outros a possibilidade de serem outro. Contar uma história, ou lê-la pela lente da subjetividade de quem a lê, é a possibilidade de saltarmos as ameias que muram o ser e sermos outra pessoa. Ou outras pessoas, consoante achemos que carecemos de múltiplas personalidades, numa digressão por heterónimos imaginados que metem os pés por territórios paralelos. Não sei se será por cansaço de quem se é, ou se é um exercício de desdobramento de personalidades por a individual ser pequena para abraçar tanto mundo.
Mas o contador de histórias pode não ter a necessidade de extravasar a sua personalidade, nem de imaginar, ao contar uma história, que é outra pessoa. Os custos de se ser quem é podem ser tantos que não há préstimo em querer ser um imaginado outro. A incógnita pode ser assustadora: quem assegura que o outro ideado não semeia outras apoquentações, não encontra embocadura noutras trivialidades que podem ser o ancoradouro da personalidade outra em que fundeia? O contador de histórias pode não querer açambarcar outras personalidades. Pode querer compreendê-las quando arremete pelo território que lhe é desconhecido. Não é querer ser quem retrata ao narrar uma história; será uma percepção de circunstâncias, talvez um deitar a adivinhar, num jogo em que o talvez ocupa a posição central no tabuleiro em que se encenam todas as peças.
O contador de histórias pode ser um observador, limitar-se a esse papel. Com a atenção metódica de observar gestos e palavras, ou um olhar enigmático que se disfarça numa cortina de sombras que escondem uma constelação de sentimentos, a bondade ou a maldade ensaiadas sem trejeitos, as cores e as formas telúricas que transpiram das paisagens, o que quer que seja. Ao contador de histórias sobra a quimera das palavras. Das palavras que ostentam o ouro da descrição e que deixam, em forma de legado, o impedimento das leituras uniformes. Porque quem as lê têm diferentes querenças, diferentes olhares diante do mesmo objeto ou sujeito representado nas palavras.
Não digo que não haja quem procure num enredo ser quem não é, tendo na narrativa um refúgio para uma dimensão paralela. Mas o juízo não tem valimento para todos os que se deitam a ser contadores de histórias. A imaginação pode ser um território fértil da experiência vertida na narrativa. O que não fermenta o desejo de experimentar o outro em cuja posição se podia pôr ao ser narrador da história.

1.12.14

As suíças de deus

Sugarcubes, "Deus", in https://www.youtube.com/watch?v=fq2dWTBVZD4
Deus, afinal, tem rosto. Um rosto. Velho, como mandam as lendas. Deixou de ser uma entidade imaterial, uma ideia, o vértice cintilante para onde convergem as fés. O velho deus tem o rosto enrugado, olhos cansados em cima de olheiras (deve ser das desilusões que o rebanho provoca), cabelo branco e esparso, uma barba rala que se debruça em cima do queixo pontiagudo, e umas fartas suíças que nascem junto aos ouvidos e desaguam na embocadura do maxilar. Trazia calças à boca de sino e uma túnica que terá sido comprada numa feira de marroquinos.
Deus não dorme: a vigilância constante e a traição dos fusos horários, sempre com almas acordadas e prontas a irem por caminhos ínvios, impedem o sono. Não lhe faz falta, o sono. Do seu púlpito, deitando mão aos poderes sobre-humanos que fariam corar os super-heróis de banda desenhada, vigia as almas frágeis. Mas não acreditem quando lhe apregoam a omnipresença: os olhos são só dois e ele não tem campo de visão como as galinhas. Não pode, é deificamente impossível, deitar os olhos nos tantos biliões de almas que povoam o planeta que ele vigia.
Desenganem-se os que julgam que todas as ações (as boas e as más) são comandadas à distância pelo altíssimo. Tal como não tem olhos que cheguem para pastorear todas as ovelhas do rebanho, não consegue a telepatia com todos os biliões que habitam a Terra. A seleção é aleatória. Chegam uns segundos para captar os sinais magnéticos que vêm do planeta debaixo dos seus pés. Os sinais magnéticos são filtrados pelas fartas suíças esbranquiçadas. Quando pode, evita catástrofes. Leva as almas ao arrependimento antes da ação. Na maior parte das vezes, não consegue domar os maus instintos que se convertem em maldade. Nem com o crescimento das suíças, que permitiram maior filtragem. Precisava de ter umas suíças maiores que a sua dimensão para aperfeiçoar o cultivo dos bons modos nas ovelhas que teimam em tresmalhar.
Quando se cansa de adestrar as almas sem remédio, mete-se por dentro de gente que transforma em escritores. Inculca-lhes o dom da escrita e a criatividade da trama. A atestar alguns que publicam literatura, dir-se-ia que deus se orienta por uma bússola estética de duvidoso gosto.

28.11.14

O ditador de sacristia, o preso preventivo e as meretrizes da rua escura

In http://www.autoblog.pt/wp-content/uploads/2012/12/pneu-furado.jpg
Um pneu furado, uma visita à oficina e um mecânico sexagenário com necessidade de mandar cá para fora estados de alma.
- Sabe?, estou farto da realidade. Ao almoço, a minha neta pediu-me para ver os desenhos animados. Nem pensei duas vezes. Era isso ou o noticiário. – disse-me o mecânico enquanto ajeitava na máquina o pneu descarnado.
- Pois, isto anda mal. (Ou não, depende da perspetiva – pensei com os botões interiores, não fosse o homem um encarniçado devoto do mais famoso preso preventivo da história judicial.)
- Já viu? Estes gajos, não lhes chega o poder? Não chega mandarem? Ainda por cima, abarbatam-se com pipas de massa. No tempo da outra senhora, isto não era possível.
- Consta que Salazar não gostava de prazeres materiais. Mas olhe que não tínhamos liberdade... – retorqui, percebendo a necessidade de conversa que o mecânico tinha, antes de ser interrompido:
- ...O único problema do Salazar era aquela coisa da PIDE. Mas nunca me faltou liberdade. Até lhe digo mais: naquela altura, eu e os meus amigos íamos à rua escura...sabe como é...e andávamos por lá à vontade. Se lá for agora arrisco a ficar sem a camisa.
O tempo foi providencial. O pneu estava composto e a roda foi devidamente apertada no lugar. A conversa terminou ali. Depois, as palavras do mecânico ficaram a pairar sobre o pensamento. Numa improvável ligação de assuntos, o homem conseguiu unir na mesma conversa o ditador de sacristia, o mais famoso preso preventivo e as meretrizes da rua escura (ou a ida às ditas cujas, um evento rotineiro, ao que consegui perceber). Ao observador desatento, o achamento seria insólito.
É disto que adoro nas conversas humanas: a teia que se tece entre assuntos que não parecem rimar uns com os outros. Quando a lição vem de um homem sem instrução (tinha feito a quarta classe), percebe-se que temos muito a aprender com os mais velhos que são apóstolos da lhaneza de espírito. Por exemplo, que há um comportamento de meretriz no que julgávamos ser proxeneta (da nação).
Era só isto: apeteceu-me mostrar um pedaço de costela esquerdista (que não tenho).

27.11.14

Novecentos e onze


Caribou, "Our Love", in https://www.youtube.com/watch?v=IMwgcRByA8Y
Novecentos e onze dias depois, a centelha continua ávida. Os olhos enfeitiçam-se com as palavras dóceis. As mãos não deixam de se entrelaçar. Uma fatia maior do mundo está no nosso regaço. A janela da alvorada testemunha o mar de que somos timoneiros. E, novecentos e onze dias depois, consagram-se esses e os outros, muitos mais, dias que se perfilam no horizonte do tempo. Deixando o fogo da centelha a fermentar nas mãos suadas. Deixando a vertigem num apogeu que nunca é definitivo, o apogeu à espera de um desafio mais alto que vem à medida que a sede do tempo vindouro faz esgotar os dias presentes. Novecentos e onze dias valem por quase todos os outros que ficaram atrás deles. O tempo que se desembainha no porvir só pode ser uma jornada promissora. Não se calem as vozes que adestram palavras que se embelezam nas nossas bocas. Não deixemos que o tempo seja poltrão; vamos a ele, com a crina nas nossas mãos e as rédeas cientes da nossa vontade. Porque os novecentos e onze dias são um garrote deste tempo todo: parece que foram menos, mas esses dias todos sabem a muito mais do que novecentos e onze. Tiramos à sorte o desfado pretérito – antes de termos começado a contar novecentos e onze e os outros, muitos mais, que haveremos de meter ao bolso da memória. Aquela é uma medida do tempo irrelevante. A nossa é que conta. Onde somos reis de um império de que só nós sabemos as fronteiras. Onde o sol não se põe se essa for a nossa vontade. Onde as palavras se entoam no canto melódico das estrofes que compomos mesmo sem alinhavarmos poemas. Pois a nós vem o que em nós é desejado. Sem importar a medida do tempo. Sem peias. Sem dar atenção às importunações que são devolvidas aos tiranos do desassossego. Um dia que seja nosso mede-se por meses, ou até por anos, da altura do tempo dos outros. Somos a nossa própria clepsidra. Onde somos água frondosa e fresca que dá de beber à luminescência das coisas. Os novecentos e onze são dias debruados a ouro de puro quilate. Uma lição sem préstimo, a não são para quem a merece: nós, tutores dos novecentos e onze dias, e da plenitude que veio com eles.

26.11.14

Sortilégio outonal

Ryuichi Sakamoto, "Forbidden Colours" (solo piano), in https://www.youtube.com/watch?v=Y4tLtg-DMb8
O outono mete um punhal nos pactos. É como se estivesse em constante faina contra a erosão dos elementos, retardando as folhas caducas a que as árvores estão fadadas. Teimoso, devolve a riqueza das cores sortílegas que vestem as árvores. Não é senescência; é pura beleza, as cores ocres pintando quadros que enfeitiçam o olhar quando ele esbarra nas extensas paisagens que são um manto acobreado. É outono. É o outono.
As cores ocre rimam com os dias plúmbeos. Aquele tempo que entristece as pessoas vãs que só têm saudades da infernal canícula estival e dos infindáveis soalheiros dias que são a combustão de uma larga monotonia. Os dias taciturnos combinam com a folhagem que fica dourada antes de se quebrar e as folhas sem préstimo encontrarem sepultura nas ruas que são subúrbios das árvores. Mas antes do desnudo, elas ficam galantes, numa madurez altiva a fazer lembrar que o envelhecimento não é uma fulgurante decadência. Quando os dias outonais acolhem um lampejo de sol, o acobreado da folhagem cintila como se estivesse a sorrir ao tempo que há de ser transfigurado na aspereza invernosa. As folhas que vão sendo desgastadas à medida que ganham tons dourados não se entristecem. Não pedem comiseração, como se os olhos compungidos, talvez temerosos do demoníaco inverno que se anuncia, chorassem lágrimas vetustas pelo verão que afinal disse adeus há tão pouco tempo.
Enquanto a acalmia dos elementos despoja o desassossego das tempestades furiosas, os olhos detêm-se, demoradamente, nas árvores que se engalanaram com o traje outonal. Saciam-se no sortilégio das cores que embaciam a fulgurância que vem com as folhas viçosas semeadas pela primavera. Cores que são um mantimento para a alma. Uma tela onde se compõem poemas com estrofes que vão à seiva que ainda circula nos vasos sanguíneos das folhas enrugadas. Não, não há vertigem quando os elementos depõem a madurez das formas e das cores. Nem resignação quando se congraça o andamento dos tempos com as formas que se moldam em correspondência.
Tudo tem um tempo que é seu. Madraços são os que, embebidos de uma nostalgia datada, recusam reconhecer o tempo que é.

25.11.14

National Geographic

The Cure, "Hanging Garden", in https://www.youtube.com/watch?v=yEH5jReEkSk
O animal acossado não capitula. Enraivece-se, faz das fraquezas as forças imperativas para sobreviver. Sente-se acossado. À medida que as fronteiras do cerco se estreitam, fica de atalaia. Dia e noite. Todos os outros animais são potenciais inimigos. Já não põe contar com ninguém. Foi obrigado a aprender: na luta pela sobrevivência, os que ficam sob ameaça do cutelo perdem amigos. Os olhos bem abertos podem não chegar para despertar para o logro em que alguns o podem querer atirar.
A estreiteza do território onde se esconde torna presente o odor dos que querem ser seus algozes. Implacáveis serão, implacável terá de ser se quem o perseguir ficar sob mira. O sobressalto contínuo despoja o sono. Não é preciso, o sono, nos tempos árduos em que dormir pode ser o definitivo sono. O animal esconde-se. Sabe que está ferido, que sangra. Deixa vestígios que facilitam a empreitada dos perseguidores. Ouve-os em cantorias que parecem rituais de captura. Parecem abutres famélicos à procura de carcaça pútrida. Para lá chegarem, dão caça, noite e dia, ao animal ferido.
Não interessa que outrora tenha sido animal respeitado no habitat local. O oportunismo é o decaimento das almas que se tornam impuras. Se calhar, a ingenuidade embacia o olhar: de outras vezes, animais entronizados haviam caído em desgraça e quase ninguém veio em seu socorro. O animal acossado, que dantes participou no banquete dos vitoriosos, desconfia que lhe montaram uma armadilha soez. Mas, como é feroz, como tem as garras bem afiadas e os dentes preparados para morder fundo na carne dos algozes que se achegarem, não desiste. Enfraquecido pela ferida, persiste na demanda. Não se atemoriza pelo cerco que se aperta. Procura outros esconderijos, improvisa-os entre os arbustos molhados, escavaca grutas que depois dissimula com galhos de árvores. Um dia de cada vez, que cada dia que passa é o triunfo maior, à espera de outro que se segue na linha do tempo.
Mas o cerco estreita-se. Já não é só o cheiro dos carrascos. Vê-os, primeiro à distância, mas nota-os mais por perto. Não tem fuga. Ainda tem forças para a peleja com os primeiros que conseguem encontrá-lo. Encarniçado, espumando a raiva dos animais que antecipam o momento final, sente que tem forças que nunca soube ser possível sentir. Açambarca-as. Precisa delas para ir derrotando os funestos algozes que saltarem a cerca que o separa da ignomínia dos que o querem morto. Mas nada é perene. As forças esgotam-se. Enfraquecido, o olhar dirige-se ao animal que o encontra exangue. Um olhar de comiseração, que não teve serventia. Os algozes eram muitos e tinham fome de vingança. O animal deixou de ser feroz. À hora da morte, dócil criatura que se entregou às garras e aos dentes dos esfaimados carrascos. A lei da natureza. Da natureza que se renova.
Podia ser o National Geographic. Ou de como um animal político, feroz outrora, passou à história sem glória.

24.11.14

O que ainda não foi dito sobre os vistos gold

In http://mlb-s1-p.mlstatic.com/monreale-lindo-pingente-chupeta-de-ouro-18k-8430-MLB20004053649_112013-O.jpg
(Aviso às pessoas sensíveis: texto com algum potencial pornográfico)
Umas perguntas perturbaram-me quando este governo inventou vistos para milionários: por que se chamam vistos gold? Veio em Diário da República com o adjetivo em língua inglesa? O que levou as autoridades a usarem o adjetivo em inglês se não há problemas com a tradução da palavra para português? (Ainda se fosse marketing, ou bail out, ou upgrade – ou qualquer outro tecnicismo que emprega o inglês como língua franca e não dá uma tradução confortável para o idioma-mãe.)
Eu tenho uma explicação: lá no ministério onde isto foi inventado andam com o imaginário preenchido com filmes XXX. Lembraram-se de premiar magnatas de duvidosa origem com liberalidades de circulação desde que investissem no pátrio território. Os vistos especiais tinham de levar com um rótulo diferente, um rótulo sugestivo das condições especiais em que são passados. Ora, os magnatas que querem visto especial têm cartões de crédito dourado, tanta a abastança que alimenta as suas contas bancárias. “Bingo!”, terá exclamado o criativo de serviço no ministério da tutela: “vamos chamar vistos dourados”. Ao que um muito circunspecto, mas todavia lúbrico, superior hierárquico contrapôs: “isso soa mal. Soa a coisas menos próprias que vêm em filmes menos próprios.” (Mas que, todavia, ele conhece.) “Vamos antes chamar...vistos gold.
Talvez nunca um nome (se retirarmos o esconderijo da palavra inglesa) tenha retratado tão fielmente uma decisão de um governo. Pois não é que a ideia dá cobertura a uma obscenidade? Não vale a pena esgrimir a imagem do burro e da cenoura, para não ofender os magnatas que querem ostentar um dourado visto emitido pelas autoridades portuguesas. O que não lembra ao diabo, é as autoridades darem caução a possíveis lavagens (lá está, outra vez, o conteúdo pornográfico a vir ao de cima) de dinheiro de magnatas sem escrúpulos quando compram moradias e apartamentos de luxo só para darem uso legal a dinheiro ganho por ilegais meios e meterem a mão num visto especial. E depois vem o ministro da tutela, um conservador de velha cepa – portanto: em teoria, avesso a devassidões e outras imoralidades – justificar que os meios justificam os fins (angariar investimento, não interessa se tem duvidosa proveniência), explicando às criancinhas, com aquela pose de ensinador dos incautos, que não vem mal ao mundo quando um governo patrocina esta obscenidade.
Depois percebi: a prostituição já conta para calcular o PIB.

21.11.14

Os outros (II)


Massive Attack, "Paradise Circus", in https://www.youtube.com/watch?v=6F9pydomWOE
“O paraíso são os outros”, Valter Hugo Mãe
Ou o oposto (do texto anterior): podem os outros ser o paraíso e, por eles, desaguarmos na decadência ao darmos conta das nossas limitações? Não vale a pena ir pela puerilidade do Hugo Mãe (nem sequer valeria a pena ir pelos escritos do Mãe, mas isso fica para outras núpcias). Só uma historieta banal, em jeito de conto de fadas narrado aos petizes que se julga estarem no ponto zero do conhecimento, podia afivelar a lição de que somos nada se não reconhecermos que em tudo dependemos dos outros. É pena: que o lirismo dos encantadores de crianças esbarre no farol do tempo, quando o tempo certifica a idade adulta e os petizes deixaram de o ser e seguem pelos antípodas do bom rapaz (e da boa rapariga).
Mas é nos outros que podemos ver a bitola que queremos adotar. É um ato de humildade. Uma abnegação do ser que exige – ao contrário do que possa parecer – muita autoestima. E uma dose elevada de probidade mental, pois na voragem do tempo moderno, em que o ensimesmar é fatal e o narcisismo medida que sobreleva o tamanho das gentes, a tirania do orgulho impede o desassombro de ver no outro paradigma que não custa imitar. Sem que, todavia, a identidade seja perdida. Se não, passamos a ser meros émulos desprovidos de vontade, uma acintosa imagem do que supúnhamos ser.
Os outros são um espelho. Para o bem. E para o mal. As medidas que tiramos não obedecem a um padrão objetivo; são a cura atilada do subjetivismo. E porque os outros são diferença pura, servem como esteio da subjetividade que aumenta a estatura do ser. Oxalá não fôssemos, às vezes, instruídos no cárcere da objetividade, nessa impureza que os tiranetes insinuam. Não há melhor eufemismo para a colagem do pensamento às margens do necessariamente igual, ou de como a autonomia da vontade é espezinhada.
Pelo tamanho dos outros, vemos a nossa diferença. Medimos a rebeldia que é virar do avesso e ser fiel aos cânones da diferença. Pois nos outros bebemos as palavras que não encontramos em nós, aprendemos sentidos que nos eram áridos, vamos pelos dedos das artes que eram um prodigioso, mas desconhecido, território. Os outros é que são um paraíso (entre outros).

20.11.14

Os outros (I)


Marilyn Manson, "Torniquet", in https://www.youtube.com/watch?v=MmfQ7gSaJgM
“O inferno são os outros”, Jean-Paule Sartre
O que são os outros? São corpos estranhos. Entidades alienígenas, alguém com quem não se pode contar, equinócios da imprevisibilidade. São um punhal que entra fundo na carne quando sobre eles deixamos que seja a confiança a falar e, depois, damos conta que devia ser a desconfiança a fazer de fiel da balança.
Os outros são (descontadas as baias das generalizações, sempre falazes) matéria pútrida. Os outros só são aqueles que não habitam em nós – e esses são muito poucos, esses são outros que são um pedaço de nós. De fora dos que habitam em nós sobra um território árido, como se não houvesse oxigénio a abastecer a respiração. As palavras dos outros são ditas, mas nunca sabemos se elas são a expressão do que vem nelas sentido. Dizem, os curadores do pessimismo antropológico, que os outros são a bainha das traições. Dizem, confiantes em si mesmos, que nunca somos fautores de traições a nós mesmos – mas não estou convencido deste convencimento absoluto.
À medida que nos encaminhamos da despersonalização dos outros, sentimos que o abismo não mora longe. Sabemos, ou pelo menos desconfiamos, que os outros são uma incógnita. São o nosso inferno, a matéria-prima das desilusões, o fermento para a descrença, as balsas que albergam o pirronismo, o nosso avesso – ou o avesso do que julgamos ser. Somos a antítese dos outros. A singularidade do ser que esbarra na nebulosa homogeneidade que são os outros (mesmo que neles vejamos tanta diferença que alcança matéria heterogénea). Se aos outros fica reservado o papel do inferno, a cada um de nós, na feérica singularidade que é nossa impressão digital, o estatuto deificado. Não somos entidades divinas quando nos opomos à feiura de espírito dos outros; somos apenas a lhaneza do contraste, embebidos na matéria gorda de que nos queremos desprender. Pois a nós cabe o lugar celestial, de onde somos julgadores dos outros que são entidades soezes.
Só falta termos um espelho para a autocontemplação no exercício deste sumptuoso papel.

19.11.14

Mãos molhadas


Sol Seppy, "Slow Fuzz, in https://www.youtube.com/watch?v=wd27YI1Es3Q
A terra está molhada pela chuva que vem do inverno antes do tempo. O chão ensopado convoca o resguardo. O vento enfurecido ajuda. Mas as mãos querem beber os nutrientes da terra molhada. Querem saber a que sabe o molhado da terra. Querem meter-se no chão amolecido, mexer os dedos entre as pedras encharcadas que dão alicerce ao chão. Querem trazer a terra molhada à superfície para a dar a provar aos sentidos: ao olhar, que congraça o sortilégio da chuva ao emprestar uma forma barrenta ao chão que no estio foi pétreo; ao odor, quando o nariz se achega aos vestígios de terra molhada que escorregam dos dedos e inspira, lentamente, o seu perfume. É lá que está a têmpera de um lugar. É na terra molhada que se congemina a geografia dos espaços, que se anunciam os sedimentos das plantas e das árvores que emprestam forma à paisagem, é dela que vem o ADN das gentes. As mãos mergulham outra vez na terra encharcada. Não se intimidam com a impureza que as lentes da aparência depressa diriam ao verem as mãos metidas na terra cheia de lama: ao contrário, o que de lá vem, envolvendo a pele fria, é a pureza do lugar de que as mãos são tutoras. Uma exegese do ser, do mais profundo do ser. É como se as mãos andassem em demanda de um esteio que metesse o corpo na lealdade de um lugar. Pois já não há espaço, nem tempo, para sedentarismo. Não: as mãos não capitularam aos primeiros sinais de envelhecimento. As mãos, ainda que se encurvem a sinais de rugas, continuam jovens. A cura veio da terra molhada que as assentou, enquanto lá fora se fazia sentir o uivo do vento que adestrava a tempestade. O corpo está todo molhado. Mas reinventado. A noite já não é um torpor, ou um desassisado templo onde sussurram fantasmas inteligíveis. Agora, tudo é claridade. E nem é preciso que a noite venha tingida pela lua que, grandiosa, se põe alta no céu.