25.12.09

O natal impugnado (conto natalício tardio)



Contava-se às crianças, às sucessivas gerações extasiadas com a aproximação do natal: o natal é imorredoiro. E as crianças enfeitavam-se de ilusões. Presas a um alucinante conto do vigário, convencidas, tão inocentes, de fábulas que desfiavam as leis da física. É que nem o pai natal é personagem singular – a menos que também as convencessem que o envelhecido, barbudo Nicolau tem o dom da ubiquidade e uma energia juvenil – nem as renas são animais com brevet de voo.

Mas o natal repetia-se todos os anos, sempre na mesma data por honra às convenções. Enquanto as criancinhas andavam o vinte e quatro de Dezembro num frémito impossível de travar, os mais velhos predispunham-se para o banquete. Os infantes entregues à febre imparável, aquecida pelo relógio que naquele dia parecia demorar-se na sua marcha – e só podia ser de propósito, a preguiça dos ponteiros. Os mais velhos, há muito tempo desfeitas ilusões prodigiosas, nos preparativos para o alambazar tradicional. E um punhado de crentes fixava o natal pelo significado religioso, a imperativa missa do galo marcada para a meia-noite em ponto, um digestivo para os exageros da gula.

Afinal o natal haveria de não ser imorredoiro. Num certo ano, as trevas abateram-se sobre o calendário. Como um tremendo apagão colectivo. Todos anoiteceram a vinte de três de Dezembro. Quando acordaram, nem deram conta que a folha do calendário havia sido mudada, por mistério, para o vigésimo sexto dia do mês. Sem danos para a felicidade dos juvenis. Nem estragos nas vísceras dos mais velhos, noutros anos abrasadas pelos exageros gastronómicos da quadra e pelo exagero do garfo. Nem sequer inquietação para os que cultivam o lado religioso, tão habituados a frequentar missas com assiduidade. Não chegou a haver um único levantamento popular.

Os economistas – e o governo – dariam conta da diferença. Os primeiros, anotando a quebra das vendas, pois afinal as trevas de quarenta e oito horas haviam sido meticulosamente instiladas sem que ninguém desse conta da dispensa das compras natalícias. O governo lamentava um Dezembro anómalo pela escassez de impostos cobrados devido à míngua consumista. Mas era uma força superior, inexplicável, uma força de que não se conhecia origem. Estranhamente, tirando os muito pedagógicos avisos dos economistas e as lágrimas oportunas carpidas pelo governo, o salto no calendário não foi por ninguém lamentado. Era só uma experiência. Para testar as gentes, a sua reacção perante a provisória diluição do natal.

Pela primeira vez, havia mesmo pensamento único. Não se penduraram instalações luminosas nas ruas (e os ecologistas aplaudiram). Não se montaram árvores de natal nas casas. Não houve a corrida ao bacalhau, no necessário encarecimento que não faz esquecer os mecanismos de mercado (os ecologistas também aplaudiram – e a dobrar). Não houve exílio maciço dentro de centros comerciais na demencial corrida às prendas que ficam sempre tardias. Nem reportagens feitas na Lapónia cheia de neve, com entrevistas a filisteus que se fazem passar por pai natal. As escolas tiveram que substituir as intermináveis festas de natal por outras actividades à escolha da criatividade de quem as dirige. Sem preparativos para festas natalícias, nem contos que antecipavam a quadra, ou aquelas músicas que emprenham os ouvidos sempre a partir de fins de Novembro, num convite à alienação estética. O coro de Santo Amaro de Oeiras ficou recolhido nos bastidores.

O natal tinha coalhado. E – surpresa! – ao vigésimo sexto dia de Dezembro, o planeta acordou tão feliz (ou infeliz, depende da perspectiva) como dantes. Soubera-se nesse dia: o natal tinha sido impugnado. Ainda se estava para descobrir quem o tinha banido do calendário e que juiz tão poderoso tinha dado seguimento à impugnação. Ou, melhor dizendo, quem tinha endossado dois dias de calendário às trevas, ditando uma inexplicável letargia colectiva, um longo sono de quarenta e oito horas.

Nesse ano, ao vigésimo sexto dia de Dezembro, o natal só por anamnese.

24.12.09

O que se aprende com os clérigos


Um bispo anglicano dizia, com a naturalidade de quem ensina o catecismo às criancinhas, que nestes tempos de crise profunda os pobres e desvalidos podem subtrair mantimentos do supermercado sem prejuízo do perdão divino. Um bispo lusitano, encafuado no vetusto conservadorismo da santa igreja católica, anunciava que o casamento entre homossexuais era um atentado à família. É por isso que, nas raras vezes que tenho que frequentar missas (funerais e missas de sétimo dia), fico muito atento à oratória dos curas. Aprende-se muito. Normalmente, aprendo a antítese das palavras ditas nas homilias.

Sobre a revolucionária ideia do bispo anglicano: é dramático o estado de necessidade das famílias a quem a crise degolou os já parcos rendimentos? Concordo. Esse é o pretexto para se branquearem furtos em supermercados, para que essas famílias possam saciar a fome? Discordo. Já que tanto se deifica o papel do Estado, de um Estado que muitos querem cada vez mais omnipresente, que a factura do assistencialismo seja endossada ao generoso Estado.

Admitir furtos ocasionais é uma perigosa ladeira descendente sem fim. O mal está em admitir um começo para as saídas sub-reptícias de supermercados sem se pagarem os víveres. Tudo começava com um punhado de bens essenciais. Um dia destes, vinho de primeira, chocolates opíparos, gelados gourmet, sabe-se lá mais o quê, seriam subtraídos às prateleiras dos supermercados sob pretexto da míngua de rendimentos por culpa da terrífica crise. Tudo começava com gente carenciada. Um dia destes, oportunistas falsamente necessitados estavam a sair à socapa dos supermercados com mantimentos roubados. E um dia destes, nada teria a protecção da propriedade garantida. Se uma pessoa necessitada quisesse viajar para longe, quem se podia opor a que ela não pagasse o bilhete de comboio ou, em última instância, pegasse num carro que não é seu para se deslocar até ao destino?

Eu sei que por estes dias em que os adoradores das heterodoxias económicas andam de peito inchado, convencidos que as suas profecias se realizaram com a crise em que estamos, defender o direito de propriedade é uma heresia. Mas corro o risco de ser bota-de-elástico. Prefiro a estabilidade dos direitos do que normas voláteis que apenas alimentariam o caos. E quem se pode livrar das adversidades do caos? Gostaria de saber a opinião dos esquerdistas radicais – e do bispo anglicano que teve a peregrina ideia – se alguém trespassasse a sua propriedade. Não vale a alegação de que não são endinheirados; o tempo das nacionalizações ficou enquistado na poeira do febril PREC e ser rico não é crime (não é, pois não?). Se tanto se enamoram da sacrossanta igualdade, como defendem que os ricos possam ser atropelados nos seus direitos de propriedade só por serem abastados?

Sobre o bispo viciado no habitual conservadorismo de sacristia da igreja católica: não adianta o diálogo de surdos com quem está aprisionado em quadros mentais muito estreitos. Ou, para ser condescendente, nos seus quadros mentais. Talvez estes preclaros clérigos pudessem perceber que a sua mundividência não é a única forma de olhar para as coisas. A batuta do tempo marca o novo compasso que exige a renovação da visão do mundo. E nem parece acertado cobrir a indignação com o manto da ciência quando invocam a antropologia para atestar o equívoco de admitir que dois homossexuais se possam casar e formar família. Primeiro, a antropologia não é imóvel perante as andanças do tempo. Segundo, se se querem agarrar à ciência como tábua de salvação da inércia dos seus dogmas, deviam incorporar outros estudos que mostram que a homossexualidade não é doença e que as crianças adoptadas por casais homossexuais são tão normais como as demais.

Que raio: custa admitir que outras pessoas tenham preferências sexuais diferentes das nossas? Podemos-lhes negar as mesmas regalias legais que sancionam a opção de duas pessoas serem uma família? E não venham com obtusos argumentos que são apenas uma ilustração da inércia do tempo, quando sugerem que desde tempos imemoriais o casamento é sinónimo da união de pessoas de sexos diferentes. É que a homossexualidade já foi diabolizada em tempos, criminalizada, vista como doença. Mas não hoje. Se dois homens ou duas mulheres vivem juntos e são família, por que não se podem casar? Os monopólios são percursos que levam a destinos fatais.

23.12.09

O que faz sentido (prontuário surrealista)


"Isso explica aquele curioso caso, tantas vezes ocorrido na história, de um homem que julgamos ninguém, apagado e nulo, nos surgir de repente mestre de uma geração ou senhor de um país." Fernando Pessoa, Quaresma, Decifrador

Na interminável procissão da indigência mental, o homem insiste na sua soberba irritante. Perante a complacência do séquito que se arrasta atrás de si, inebriado com a prosápia de um parlapatão que parece hipnotizar os crentes. As palavras saem todas ao contrário, ou como se fossem tiros que erram sempre no alvo. E aquela sobranceria que vem, a espaços, entrecortada por cínicos sorrisos triunfantes – como se a nota de humor rasteiro fosse a sentença que determina a derrota dos opositores –, resgata toda a pureza da sua indigência mental.

Dir-se-ia: nunca um sistema que escolhe os mandantes através do sufrágio dos representados foi tão lídima expressão de uma gente. Nunca tanta mediocridade junta representou o espelho de uma gente. Mandam as convenções, e o fair play democrático, que se aceitem os resultados sufragados. Que se aprenda a conviver com os mandantes assim escolhidos. Mas lá dizia o homem, a meio da dialéctica com os opositores que insistem em morder nas suas canelas, "ninguém está acima da crítica". Precisamente. Ninguém, a começar por ele. E como ele se põe a jeito da crítica!

Esta é a terra onde despontou timoneiro de tão fraca têmpera. Escorregando para o já habitual pessimismo (que, sei-o, não é alimento para ninguém), quase diria que só nesta terra tal possibilidade teria valimento. Como há pouco avisara, em favor desta terra a seguinte conclusão: a tradução da possibilidade é um espelho da gente comum. Haverá maneira mais nítida de retratar a democracia quando os escóis cedem lugar a um representante da mediocridade dominante? O que faz sentido não é estender a rubra passadeira à elite que se empoleira no púlpito, ostentando um estatuto quase divino, lá em cima, no altar inacessível ao comum dos mortais. Depois queixávamo-nos da fractura entre os mandantes e os representados.

Talvez ao contrário do que se sugere, estes não são tempos de protuberância surrealista. Lá está: quando a indigência mental que tomou conta do leme é a imagem fiel da indigência mental que por aí abunda, quem pode anuir no quadro surrealista que os detractores sugerem? Tudo isto faz sentido. Porventura, um terrível sentido, não fosse dar-se o caso de as grandes decisões pertencerem aos decisores europeus. Sem o sabermos, continuamos entretidos a dar protagonismo a actores secundários. A gente que, fossem os parâmetros outros que não os da mediocridade, nunca passaria de um figurante anónimo. Talvez esta seja a marca de água do surrealismo circundante: o povo que, ao contrário dos mandantes, é impossível de mudar.

Soará a sobranceria um juízo tão implacável. Admito que há uma certa altivez na pose de distanciamento, da superioridade intelectual que se reivindica e que não condiz com um estatuto de humildade, quando se cola o homem à interminável procissão de indigência mental. E quando se comete a ousadia de acusar a gente comum de ser serventuária da sufocante mediocridade. Registo uma diferença, contudo: é que eu admito mesmo, sem pestanejar nem reagir com a habitual arrogância do timoneiro, que ninguém está acima da crítica. Posso admitir que o mal seja meu, que a miopia de análise me impeça de ver as coisas como elas são. Até prova em contrário, e até que me convençam que padeço mesmo de miopia, compreendo o estado em que as coisas estão. É tudo isto que faz sentido, mesmo quando a majestade intelectual – ó tamanha sobranceria! – se afadiga em explicar que é tudo ao contrário, que nada disso faz sentido.

Tudo soçobra na sua (só aparente) simplicidade. No fundo, o surrealismo habita em mim.

22.12.09

Meticulosamente


Disciplina mental. Julga, uma mordaça necessária. Olha em redor e distingue-se a rebaldaria mental, um leito de desorganização, um vírus caótico. Amedronta-se diante de qualquer ressonância de caos. Não consegue caminhar entre a desarrumação de tudo. Por isso impõe a si mesmo as algemas da disciplina mental. Férrea disciplina mental. Um jugo irrecusável.

Por onde pisa, sempre vestígios da meticulosa forma de ser. Tudo pensado, como se fosse um arquitecto que não deixa o mínimo traço ao acaso. Não há nada que não seja planeado. As coisas movem-se dentro de um espartilho nascido no afã da meticulosa organização mental. Não deixa de ser um espartilho, pois liquida a espontaneidade, absorve a capacidade de reagir aos imponderáveis que assaltam a forma ordenada dos planos incapazes de lidar com imprevistos. Nem assim se demove. Joga com a lei das probabilidades, com a escassa probabilidade dos imprevistos, para teimar planos milimétricos. Dos planos que não se podem afastar um milímetro que seja das coordenadas fixadas, ou o caos irrompe com o seu macilento, doentio rosto.

Convive mal com a antítese da sua meticulosa peregrinação quotidiana. Incapaz de se dar com gente desorganizada. A falta de sintonia com quem leva vida errante fermenta alguma intolerância. Ou tudo se compõe conforme os seus esboços, ou o caos que se instala causa o desconforto de quem se sente desnorteado, como se tivesse perdido o mapa no meio de um lugar ermo e desconhecido, ou como se em noite de nevoeiro fechado ficasse desprovido de candeia.

Não importam os reptos que desafiem a monotonia. É cultor de todas as rotinas. São o seu oxigénio. A organização mental de que depende é uma rotina instalada. Tudo se passa como se houvesse caminhos mentais que devem ser percorridos todos os dias, numa sucessão organizada de passos que se repetem uns atrás dos outros. Na prisão de uma lógica que se emparelha nos meandros da mente. Se alguém propõe romper a rotina dos dias instalados, num convite à excepcionalidade do espartilho da tremenda organização interior, a espontaneidade tem por uma vez lugar. É essa espontaneidade que devolve resposta negativa ao aceno, não vá a meticulosidade implodir. E o que se seria de si, das suas pessoais exigências, se o endeusado altar da coerência abrisse uma brecha?

Meticulosamente, apanhado todavia numa prisão de si. Ela também meticulosa. Duplamente cárcere. Pela intolerância que desenvolve aos que vagueiam na desorganização mental, entregues ao laxismo, os baldas que não suporta. E cárcere pelas masmorras que cultiva dentro de si. Pelo que nega em si, só para honrar um inane compromisso fixado com a coerência que se impõe, meticulosa e asfixiante, totalitária, algoz da sua própria liberdade.

Pode haver quem faça o diagnóstico da doença. Ou haver quem se limite a respeitar a dependência da ditatorial coerência. Assim como assim, é de dentro de cada um que irrompe uma certa meticulosa forma de ser. Ainda que essa meticulosidade opte por uma militante desorganização mental. Incompreendida pelos cultores da exigência interior, que são incapazes de tolerar a indisciplina mental dos outros. Tudo se resume a saber se somos capazes de aceitar os outros como são. A maior tolerância é que mostramos quando não queremos mudar o que os outros são. De resto, há-de sobrar um vestígio, um vestígio que seja, para tornar compatíveis existências que o não parecem. Esse é o maior desafio: o da dança compassada entre corpos que se movem em direcções diferentes, com ritmos diferentes.

21.12.09

Alecrim e manjerona


Já cansam. Os arrufos entre suas excelências, o senhor presidente da república e o senhor primeiro-ministro. A comunicação social, como de costume sequiosa de episódios sanguíneos, puxa lustro aos galões da linguagem muito formal e chama-lhe "conflito institucional". Eu, mais terra a terra, prefiro retirar o arsenal cosmético da linguagem e chamar-lhe desvergonha.

Ontem, o gabinete do primeiro-ministro mandou o recado através da comunicação social, dando conta da irritação com a presidência da república. Consta que o presidente da república ficou aborrecido porque o primeiro-ministro faltou ao encontro semanal para estar presente nas jornadas parlamentares da seita socialista. Quem o manda ficar aborrecido? Se ficou abespinhado, que guarde para si o abespinhamento, só para não incomodar os intocáveis socialistas. Pelo caminho, Sérgio Sousa Pinto, aquela inefável personagem que foi líder da juventude socialista (o que assegura pergaminhos pouco recomendáveis), puxou as orelhas ao senhor presidente da república porque este teve o "desplante" de opinar que as suas prioridades do momento não são a legalização do casamento dos homossexuais. Vejam lá o topete do senhor presidente da república, que devia era estar bem caladinho. Ficamos sem saber o que a seita socialista pretende do senhor presidente da república: ora pedem para ele falar, para pôr a oposição em sentido, calando-a no parlamento; ora exigem que se cale. Se dúvidas houvesse da desorientação da seita socialista, ainda não habituada à ideia de que já não tem maioria absoluta, ficavam desfeitas. Habituem-se à ideia.

Esta gente não parece merecedora dos cargos que ocupa. Por isso, só faz sentido retirar o "senhor" que antecede as sinecuras respectivas. Não sei se será por sermos geneticamente atreitos ao circo – um povo com pão e circo que se basta a si mesmo –, temos um presidente da república desastrado que vai caindo nas ciladas do desnorteado primeiro-ministro. O exemplo de ontem: em vez de deixar o primeiro-ministro a falar sozinho nas suas lamentáveis queixinhas, divulgou um comunicado que respondia ao comunicado do outro gajo. Merecem-se um ao outro. E talvez se possa concluir que, por eles, somos nós, que em maioria os escolhemos, que nos merecemos mergulhados na nossa mediocridade.

Diante disto, renovo as juras interiores para me alhear das notícias. Só apetece um exílio sem de cá sair, o exílio que se descobre pelas portas e janelas que se encerram à comunicação social tão entusiasmada com estes abstrusos episódios de ciumeira entre iguais. É que estes arrufos são típicos de duas personalidades miméticas. Confirma-se, ainda, que a política se abastardou de vez. Não são os politólogos que têm protagonismo. Cederam perante os supostos gurus da comunicação, que alinhavam as tácticas ao sabor do momento. Pois é disso que se trata: um amontoado de tácticas esparsas, que não se podem confundir com uma estratégia com fio condutor ao longo do tempo. Esses gurus da comunicação e do marketing, que tentam embelezar a figura do primeiro-ministro, compõem o clima de guerrilha que, julgam, serve os propósitos do grande, querido líder que anda deprimido por já não poder governar sozinho, como quer, como gosta, na linha do "quero, posso e mando". O outro, desastrado, cai na esparrela e ensaboa-se na mesma lama de onde emerge o primeiro-ministro. Ao menos tivemos ensejo de ver o líder dos comunistas a defender um presidente da república "de direita", o que é tão raro como nevar na minha cidade.

A guerra de alecrim e manjerona devia terminar com um acesso de lucidez das duas personagens. Então lúcidos, combinariam apresentar a demissão. À cautela, o presidente da república só apresentava a demissão horas depois do primeiro-ministro o ter feito. É que este gajo não é de confiar.

18.12.09

Pruridos de linguagem (ou a obscenidade do palavrão)



Punhos de renda. À mesa, onde se sentam as pessoas muito bem comportadas. Não dizem palavrões. Para as donzelas ingénuas não ruborizarem. E para não incomodar os rapazes de província que raras vezes saem da sua torre de marfim. Nem os mais velhinhos, que não podem escutar palavras feias, palavras malditas que estão escondidas no armário para arremessar a familiares no segredo do lar, ou para serem ditas na tasca enquanto sorvem uns copos de três de verde tinto e jogam à sueca.

É disto que eu mais adoro: hipocrisia. Ai de quem solte indecências em público, que as orelhas dos ouvintes podem ficar derretidas pela inconveniência. Podemos proferir essas palavras sem freio na intimidade da família ou na convivência com os amigos. A linguagem escorreita, muito asséptica, não se compadece com palavras indecorosas. E agora que a utilização destas palavras já subiu à estratosfera, eduquem-se os mais novos censurando obscenidades ditas pelas bocas destravadas de artistas rebeldes. Faz todo o sentido: como sabemos, os adolescentes deixarão de entoar constantemente "fuck", "mother fucker", "shit" e quejandos se deixarem de as ouvir na televisão. Há quem acredite no pai natal, ou que os bebés são trazidos por cegonhas que descolam de Paris.

A BBC, ainda muito vitoriana nos costumes, põe a mordaça nos artistas que escorregam para o chinelo. Quem põe a mordaça, lá nos estúdios – podemos apostar com a convicção de não perdermos o dinheiro – nunca, nunca na vida, disse "fuck". Ponto da situação: eles podem soletrar a palavra até à exaustão porque o fazem em privado; quem ouse pronunciar a palavra obscena em público arrisca-se a ter um açaime sob a forma de indiscreto silenciamento.

Os idosos (não se pode dizer velhinhos para Helena Matos não acusar de discriminação social) têm o direito de se manifestar ruidosamente contra as sucessivas grosserias de linguagem que emprenhavam os ouvidos naquela peça de teatro? Os velhinhos (perdão, os idosos) são incapazes de escorregar para a obscenidade semântica, como sabemos. Santa boca, imaculadamente virgem de palavrões tão feios. Ah, já entendi, no teatro – como em muitas ocasiões ditas solenes, onde a responsabilidade deve imperar – não se dizem palavrões. Ninguém obriga os idosos de curtas vistas culturais a saberem que há páginas e páginas de literatura, de poesia, carregadas de linguagem indecente, sem que deixem de ser arte.

Helena Matos pôs os óculos errados ao sugerir que os velhinhos se limitaram a ser partes intervenientes (através da pateada) na peça de teatro. O mal não é o da "intervenção indevida" do público amotinado. O mal é de alguém que não tem sensibilidade para entender que as artes têm diferentes manifestações (incluindo o calão na linguagem), ou de alguém que ficou com a sensibilidade ferida (hipocritamente ferida) e se esqueceu de ser educado. Helena Matos está enganada: malcriados não são os actores que ilustraram a peça com profusão de palavreado indecente; malcriado foi o público idoso ali levado pelo INATEL que, talvez por ser tão boçal, tão cavalar, pateou a peça. A mim ensinaram-me que quando não gosto do que vejo, dou corda às pernas em direcção da porta da saída. Em silêncio.

Quando a Helena Matos assobia o seu vetusto conservadorismo, que às vezes a leva a olhar as coisas com a miopia própria das conveniências, sinto uma pulsão para abjurar as muitas costelas de direita. E para me convencer que esta direita tacanha, conservadora, é o melhor elixir para a existência das esquerdas. De resto, só me apetece dizer isto: que se fodam todos os moralistas da linguagem muito decente.

17.12.09

Burgueses, somos


Sedução pelo bem-estar, apenas, uma atracção pelos bens materiais que é impossível de rebater? Ah, nem os ideais, os febris ideais da juventude, sobram de pé. Rendidos diante das maravilhas do materialismo. Seguidores do consumismo outrora diabolizado. Tinham razão: o vil metal é mesmo aviltante. Sabem-no por experiência própria estes revolucionários de tempos idos.

A burguesia é uma condição inata aos que conseguiram singrar e hoje têm proventos razoáveis. E é a aspiração dos mais jovens, ainda nos primeiros passos profissionais, ainda muito trémulos, sem saberem se o futuro lhes vai sorrir. Por enquanto, ainda bisonhos, tecem-se nos sonhos em que desfilam muitas aspirações de ordem material. Porventura, este é um retrato em que todos nos revemos – ora no presente em que nos debatemos, ora no passado de que fomos testemunhas vivas.

Por exemplo: por que teimo em tentar a sorte no jogo da Santa Casa da Misericórdia que promete a miragem de uns fartos milhões de euros no primeiro prémio quando se acumulam jokers de semana para semana? A resposta só pode ser uma: há sonhos por cumprir. Inevitavelmente, sonhos materiais. Não vou ao ponto de acreditar em líricos retratos tangentes à historieta de "um amor e uma cabana", ou de escorregar para uma ingenuidade que não é deste tempo se aderisse a uma monástica forma de vida desprendida das virtudes dos bens materiais. Contudo, teimar na mirífica sorte ao jogo (nos míseros euros semanais que salpicam de distante esperança a tentativa de marcar encontro com a sorte), não é a confissão da entrega a uma burguesa forma de vida?

Não sei: é como se estivesse diante de uma daquelas encruzilhadas sem sinais que identificam os destinos a que levam as várias estradas que dali saem para lugares diferentes. É tão fácil ser espectador da futilidade aburguesada que se nota nos sinais que exteriorizam uma certa forma de viver dos outros. Se ao menos fosse possível sairmos de nós e sermos espectadores exteriores de nós mesmos, talvez torcêssemos menos o nariz aos tiques aburguesados dos outros que em nós semeiam alguma repugnância. No fim de contas, esbarramos no mesmo dilema: as teorias que se edificam, muito belas e muito bem conseguidas, desmoronam-se quando as pomos em prática só nos outros. A incapacidade para em nós reproduzir as teorias é a dolorosa sentença de incoerência que as desfaz em nada. Reserva-se-lhes o único lugar merecedor: não teoria, mas um espartilho que, estávamos convencidos, era uma teoria tão à prova de bala.

E, contudo, as contradições não deixam de esbarrar com estrépito, como se fossem nuvens de cargas eléctricas opostas que, em rota de colisão, produzem feérica trovoada. Há trejeitos burgueses que soam nauseabundos. Talvez sem dar conta – porque o espelho de nós mesmos não é perene – também deslizo para os mesmos trejeitos que nos outros causam náuseas. É esta burguesia esquizofrénica, um doentio aburguesar, que atormenta. Pelo mar encapelado de contradições internas que desfazem em nada as teorizações que julgávamos elaboradas. E porque parece que vivemos aprisionados num mundo de dicotomias, como se houvesse apenas preto e branco, isto e o seu contrário, as janelas todas encerradas a formas diferentes de encarar as coisas. Se tudo for assim tão bipolar, como se não houvesse um largo terreiro a separar as duas extremidades – e talvez seja esse largo terreiro um infindável mar de oportunidades por descobrir – o que é o contrário da viciosa burguesia? Sermos burgueses é a prisão pessoal onde se encerra a nossa futilidade. Mas, e depois, estamos preparados para não sair de um convento e dos sacrifícios auto-impostos? Estamos preparados para uma existência toda espiritual e desligada dos vícios materiais?

Parece que a imperturbável insatisfação de tudo é a água fervente que escalda a carne que somos. Nunca estamos contentes com o que temos?

16.12.09

As Valquírias



(Contém alguma linguagem "inapropriada")

Há-as de duas categorias. As solteironas inadiáveis. E as divorciadas em lamentável carpideira pública da desgraça que as abraçou. Pulam, em saltinhos histéricos, cheias de energia. As primeiras, como se vagueassem numa eterna juventude que promete o até agora inalcançável. As segundas, farejando qualquer possibilidade de retomarem o que deixaram de ter porque os antigos consortes decidiram debicar noutro galinheiro.

Não param quietas. Desmultiplicam-se em actividades, o sono adiado para os dias em que, por fim, o sossego de espírito e a acalmia dos prazeres tiverem ancoradouro (se esse dia não for uma miragem). Aquilo é um covil onde as hormonas ardem, numa incandescência que se nota à vista desarmada. Quando era mais jovem (mais jovem do que o sou hoje, bem entendido) e tinha paciência para ocasionalmente meter um pé na vida nocturna, havia um sítio da preferência dos meus amigos onde todas as valquírias marcavam encontro: o "Buffalo's", em Matosinhos.

Era impossível estar sossegado. Ir sozinho ao bar era uma aventura. Enquanto esperava pela bebida, não demorava um minuto, um minuto sequer, e aparecia uma trintona ou umas quarenta invariavelmente voluptuosas – e, por vezes, até acontecia aparecer uma de cada lado. À espera que metesse conversa, que elas podem estar esfaimadas mas nisto mantêm-se arreigadas aos costumes de antanho: são os varões que metem conversa. Na esperança, sobretudo delas, que mais tarde se meta outra coisa. Não sei se seria do meu bom aspecto (momento José Mourinho), mas estar momentaneamente desacompanhado na ida ao bar garantia célere companhia de uma qualquer valquíria sequiosa dos meus potencialmente excelentes serviços. Apercebi-me então do efeito revertido do que sentem as donzelas quando são comidas com os olhos pela homenzarrada por que passam: carne para canhão. E se muitas eram autênticos canhões!

As incursões junto do bar eram um exercício curioso, a tal ponto que comecei a fazer apostas com os amigos que me acompanhavam. À custa destas apostas ganhei algumas bebidas de graça (e mais não posso dizer). E eu, que não sou paneleiro – bem pelo contrário – era assaltado por sensações paradoxais. Se aquilo fazia bem ao ego, por outro lado notava a intimidação pelo assédio sempre silencioso das valquírias que se acercavam. Foi então que descobri, tardiamente, uma ingenuidade que não é destes tempos.

Deixei de ser visita da vida nocturna. Perdi o rasto à militância das valquírias com hormonas aos saltos (para não dizer outra coisa). Às vezes, dou de caras com tias prometidas ao celibato e outras que, carpindo mágoas de divórcios mal digeridos, acreditam que o tempo recuou e que retomaram uma pós-adolescência perdida nas ilusões do matrimónio com o que julgavam ser o seu príncipe perfeito (entretanto alcandorado ao estatuto de fariseu da pior espécie). As circunstâncias influenciam os momentos: já não as vejo trajando vestidos justos, na ostensiva saliência das carnes pouco cuidadas, daqueles vestidos que oferecem regaço a amplos decotes que sugeriam à masculina caça onde podiam mergulhar a sua libido. À luz do dia, paramentos mais discretos. Mas cheira, na mesma e à distância, a hormonas aos saltos. Irrequietas, parecem pular em cima de uma inesgotável bola de energia. A espécie mais notória é a das valquírias extrovertidas, as que multiplicam amizades no exacto minuto em que conhecem um estranho por quem imediatamente se encantam. Vão daqui para ali, sempre desejosas de conhecer mais e mais gente. A lei das probabilidades estatísticas explica o aumento das possibilidades de sucesso quando se amplia a amostra (de conhecimentos).

Todavia, esta lei matemática defronta-se com um obstáculo, dir-se-ia, um insondável imponderável: quanto mais perseveram, e quanto mais as hormonas aquecem junto ao ponto de fervura, menos lhes acontece aquilo que tanto desejam. É como se funcionasse uma lei repulsiva: de tanto ostentarem a lascívia impraticável, mais afastam os potenciais caçados. Um azar tremendo. Que deixa as desgraçadas das hormonas a pular, e muito, mas entregues à sua solidão.

15.12.09

Berlusconi apanha nas trombas e nós aplaudimos?



Isto foi escrito. Encimando as imagens de Berlusconi ensanguentado depois de ter sido covardemente agredido por um tresloucado qualquer. Só estava escrito isto: "o que a democracia não resolve o povo tem de resolver". Poucas palavras. Só um título e, todavia, um título que fala mais alto do que mil palavras. Todo um pensamento ali encerrado, todo um comportamento.

Berlusconi é um equívoco? De acordo. Berlusconi nunca devia ter sido primeiro-ministro? Não me pronuncio; não voto em Itália. Prefiro respeitar as preferências dos eleitores italianos, ou arrisco-me a que os cidadãos de outros países façam análises pouco simpáticas sobre as opções da maioria do eleitorado lusitano. Continuo a acreditar naquela máxima que ensina que em casa alheia é melhor não mexer palha, nem sequer opinar acerca das opções de decoração.

Considero Berlusconi uma besta (como educadamente muitas esquerdas enfatizam). Mesmo sendo de direita – mas de uma direita que não se revê naquela direita pirosa, arcaica, que cultiva uma personalidade daquele calibre, aquela personagem verbalmente incontinente que tenta fintar a andropausa ostentando feitos carnais com voluptuosas mulheres e cândidas adolescentes. É daquelas personagens que envergonham "a direita" (mesmo que "a direita", assim, unidimensional, não exista). A semântica dá uma ajuda aos esquerdistas que andam de cabelos em pé porque a Itália, vá-se lá saber porquê, teima em escolher esta aberração para primeiro-ministro: o seu nome tem fonética semelhante a "burlesco".

Vou regressar às interrogações: se me tivesse calhado em sorte ter nascido italiano, depositava o voto em semelhante aberração? Jamais. Mas, por mais que lhes custe a admitir, ao menos leiam isto: Berlusconi é uma criatura criada pelas esquerdas italianas. Pela sua inesgotável capacidade autofágica. Elas que não chorem lágrimas de crocodilo. Muitos votam Berlusconi porque se assustam com a ineptidão do mosaico das esquerdas; nem sequer para se entenderem servem. Tenho a impressão que em mais nenhum lado como em Itália funciona o voto com os pés. E não é para enxotar Berlusconi, a cavalgadura, do poder.

Sobra a possibilidade do povo italiano ser burro. É uma hipótese em que muitos esquerdistas gostam de assentar as suas prestigiadas análises. Em sonhos, imaginam a repetição de eleições quando a maioria do povo (portanto, a parte ignara dele) não vota "como deve ser", já que mudar o povo é uma tarefa mais difícil. Se não vai através do voto, soube-o ontem ao ler aquela preciosidade de um tal Ricardo Teixeira, vai pelos punhos não rendados do "povo".

Primeira perplexidade: e por acaso aquele senhor, o senhor agressor, representa "o povo"? Esta é outra adorável faceta destas esquerdas que professam toda a sua intolerância (apesar de se verem como as campeãs da democracia – talvez daquela democracia em que o número de partidos admitidos a concurso eleitoral é ímpar e inferior a três…): esgotados os argumentos da lógica eleitoral, ora se inventam pretextos, ora se convoca a sublevação popular através da barbárie. No primeiro caso, inventando teorias conspirativas que insultam a inteligência dos italianos, pois eles são controlados através do império de comunicação social detido por Berlusconi.

O segundo caso traz-me à segunda perplexidade: as portas escancaradas à barbárie, a um crime que o seria se a vítima fosse uma pessoa comum e que, na cabeça iluminada do tal Renato Teixeira, deixa de o ser crime só porque o figurão estava mesmo a pedi-las. O que deixa o Sr. Teixeira sossegado é que vive numa terra e num sistema político que deixa os Srs. Teixeiras deste jaez vomitarem todas alarvidades mentais sem temerem pela segurança física. Que às vezes apetece dar a esta gente a provar do mesmo veneno, ah lá isso apetece.

(E nisto lembrei-me de um aluno já sexagenário, camarada dos sete costados, que lamentando a queda do muro de Berlim e a derrocada do comunismo, perguntava em público se tanto tinha valido a pena "apenas" – a ênfase é minha – pelas liberdades pessoais que foram conquistadas.)

14.12.09

Somos parte interessada no adultério dos outros?



Muita gente escandalizada porque o golfista mais famoso do mundo tinha (ou tem – e o que é que isso interessa?) um harém. Até ouvi um senhor, por sinal com ar pouco recomendável, sentenciar que as imensas actividades lascivas do campeão são inadmissíveis porque ele é um homem de família, casado e com filhos.

Diria que os Estados Unidos têm uma tendência inata para o moralismo. E que o moralismo tem as suas próprias mordaças e alçapões muito perigosos. Todavia, os palpites sobre as questiúnculas conjugais de Tiger Woods preenchem páginas de jornais pelo mundo fora; o mal é global, já que a globalização está tão na moda. Vi ontem uma reportagem que dava conta da proliferação de talk shows e programas onde são chamados prestigiados opinadores para se pronunciarem sobre as perdições hormonais do golfista. Do que fui lendo e ouvindo, o tom geral é de reprovação do adultério sistemático cometido por Woods. Há muita gente de dedo em riste apontado à sua cara, como se este clamor popular fosse uma reprimenda colectiva. Logo Tiger Woods, em exemplo, a deixar-se perder por uns rabos de saia.

Talvez se diga que as figuras públicas, por o serem, têm a vida privada exposta ao escrutínio dos outros. Àqueles que escorregarem para esta condescendência aterradora, só isto: uma vida privada é uma vida privada, seja de uma "estrela" ou de um anónimo; e convinha aprenderem o significado do verbo "devassar". Se tanto se apregoa que "entre marido e mulher não se mete a colher" (imagino que lá nos States deve haver uma variante do adágio), deixamos de ser coerentes com o ditado se formos rudes em relação às facadinhas no matrimónio cometidas por alguém, só porque esse alguém é uma figura pública e – este é o pior dos pecados de Tiger Woods – é um modelo de virtudes. Ora, ao molhar sistematicamente o pincel em mulheres diferentes da consorte, o tigre terá defraudado a confiança que as gentes nele depositavam. Um modelo deve sempre dar o exemplo. Um "modelo social" que escapa frequentemente para as camas das amantes não está a dar um exemplo de decência. A solução é óbvia: crucifique-se em público o já não "modelo social".

É curioso: acabo por escrever sobre o adultério do campeão de golfe, afinal fazendo o contrário do que apregoo. Em meu favor, alguma condescendência, porém. O que seria um "não assunto" tornou-se numa procissão em que muitas virgens pudicas aproveitam para exibir um moralismo enfadonho. Só se tornou assunto por causa das intromissões na esfera privada de Tiger Woods. O que me traz à segunda incoerência: eu, que me recuso a aceitar qualquer moralismo quando se impõe de fora para dentro, acabo por me enredar num contra-moralismo que me interrogo se não é também um moralismo.

Enterneço-me a ver o cortejo de sumidades do moralismo alheio. Tão seguras das suas sentenças. É nestas alturas que me apetecia ser uma formiga e ter um mágico dom da ubiquidade. Só para saber se estes juízes do adultério alheio nunca deram a sua pessoal facadinha no matrimónio. Ou se não se trata de gente assoberbada com a possibilidade de sentir crescer na testa uma vistosa cornadura. Ah, como é encantador ser-se penhor da moral dos outros, sobretudo quando a deles e delas possa ser um antro pouco recomendável para servir como paradigma do que quer que seja. Não que eu tenha algo a ver com isso; só me incomoda que a avaliação dos outros (o que nem devia acontecer) seja feita por padrões muito mais exigentes do que a avaliação que os sacerdotes da moralidade fazem de si próprios.

Se não é a "censura social" (outra doença contemporânea) que se abate sobre Tiger Woods, é o escárnio. Folhear páginas dos jornais e ler insinuações de que Woods tem testosterona a mais sugere-me uma de duas possibilidades: ou se trata do mesmo moralismo numa versão encapotada, ou da mais pura das invejas.

11.12.09

É preciso decoro no parlamento?


Abriu telejornais: dois deputados tiveram uma pega verbal. Terra de brandos costumes, estamos mal habituados quando a confrontação verbal atinge tamanha intensidade que os mais puritanos asseguram ter "passado dos limites". Desta vez a pega verbal meteu insultos. E se nem sequer chegou a haver baderna de tasca, pois os vitupérios que a senhora deputada do PSD dirigiu ao senhor deputado do PS, mais a defesa de honra deste, não entraram pelo enxovalho do calão que faria os puritanos corarem de vergonha, o episódio serviu para abrir telejornais.

Eu continuo a teimar que os brandos costumes não são virtude: é o dos maiores defeitos em que maceramos. Porque, em tudo, nos ficamos pela metade. Entramos cheios de entusiasmo, mas a meio metemos marcha atrás e o entusiasmo no esquecimento. Somos falinhas mansas e os malditos consensos que distribuem vitórias por todos os que entram numa contenda, evitando que as posições se demarquem. O zénite desta covarde maneira de ser é a insistência de que não se deve usar certo tipo de linguagem em determinados locais por respeito "institucional".

O parlamento é um bom exemplo. É a casa da democracia. A linguagem rasteira, mais própria das tascas e das varinas, deve ser combatida. É como no tempo em que havia a mania do cavalheirismo: podiam as más palavras ecoar em pensamentos, mas imperativos de decoro evitavam que elas se soltassem da língua. A língua não era aferroada para não enlamear o nome prestigiado do parlamento. Os tempos mudam. Com a mudança da agulha do tempo, reinventam-se comportamentos. Querem-nos fazer crer que uma troca de insultos entre dois deputados avilta o parlamento e faz corar de vergonha a nação inteira. Eu prefiro dois deputados que libertem a língua e digam o que vai na alma. Prefiro a frontalidade à fina capa de verniz da decência institucional que asfixia um vendaval de maus pensamentos sobre o deputado adversário.

Chego a esta conclusão através de um método que parece esquecido: a analogia. Emprenham-nos os ouvidos com a semântica parlamentar. No parlamento estão os nossos representantes. Devem estar à altura de um órgão de soberania, que ainda por cima é um esteio (e o principal) da sacrossanta democracia. Os puristas esclarecem que os deputados devem dar o exemplo aos que representam. Os representados devem encontrar nos deputados um espelho de boas condutas, recato oratório e respeito pelos adversários. Sem nunca, mas mesmo nunca, escorregarem para o chinelo e dispararem insultos para um deputado que esteja noutro quadrante.

Reverto o método da analogia para contestar o que está convencionado pelos puristas. Pois se os deputados representam o "povo", e se o povo se farta de distribuir insultos e impropérios por conhecidos e desconhecidos, os deputados devem ser uma imagem do "povo" que os colocou na sinecura parlamentar. Defender o contrário e esconder o rosto detrás do incómodo das duras palavras trocadas entre a deputada do PSD que, vinda da "linha de Cascais" (nas palavras do "ofendido"), não resistiu a chamar palhaço ao deputado socialista que a incomodava (o deputado "rural", nas palavras do próprio), é só fazer de conta que o parlamento é um lugar de miragens. O parlamento deve ser um laboratório vivo da sociedade que representa. Exigir que os deputados sejam gente afastada das palavras grosseiras e dos insultos a adversários é desumanizar suas excelências – ou ingloriamente deificá-las em barro. É exigir de mais. Torna o parlamento num equívoco cheio de artificialidades.

O parlamento era mais vivo e humano se os deputados pudessem chamar filhos da puta uns aos outros. Com decência. Diria, sem elevar a voz, "se me permite, vossa excelência é um notável filho da puta". E o outro, em defesa da honra, puxava do microfone e suavemente disparava, sem perder o sorriso discreto, "com a anuência do senhor presidente da Assembleia, puta é quem assim trata a santa da minha mãezinha".

Lamentável é noticiar-se o episódio como coisa pouco edificante. Pelos vistos, é preferível escondermo-nos detrás das máscaras e insistir em fazer de conta. Muito, fazer muito de conta.

9.12.09

Há diferenças entre os meninos guerreiros em África e jovens de doze anos metidos nos tumultos em Atenas?



Há tempos vi um filme sobre diamantes de sangue em África. Mostrava – não sei se romanceando os factos – como crianças nos alvores da adolescência são retiradas às famílias por sanguinários guerrilheiros que controlam a extracção e o tráfico de diamantes. As crianças eram subtraídas às famílias para receberem treino militar. O enredo sugeria que eram expostas a formatação mental sob o efeito de psicotrópicos e alucinogénios. Quando estavam preparadas para o combate, punham-lhes nas mãos metralhadoras que disparavam mecanicamente. Estavam, enfim, educadas para matar.

Os diamantes de sangue são assim chamados, entre outras razões, por causa da indignidade que é liquidar a infância e a adolescência de miúdos que, a certa altura, só sabem conjugar o verbo matar, talvez até morrerem precocemente. São a carne para canhão atirada para suicidárias missões de combate. Se morrerem, ninguém dá pela sua falta. As famílias, que perderam o rasto e já só tinham a desesperança da as encontrar, não são convocadas para os funerais. O ocidente, tão zeloso da sua superioridade civilizacional, condena os diamantes de sangue e indispõe-se (acertadamente) contra a privação da adolescência destes guerreiros à força.

De ontem: imagens de tumultos em Atenas. Os jovens (e menos jovens) anarquistas decidiram espalhar o caos por ocasião do aniversário dos motins do ano passado. Podemos celebrar tudo e mais alguma coisa. Se a malta quer festejar os desacatos do ano passado com mais desordem, faça-se-lhes a vontade. Desde que estejam a par do risco de apanharem umas bordoadas da polícia, desde que estejam cientes que podem dar com os ossos numa esquadra e enfrentar o mau humor de uns agentes policiais, seja-lhes garantido o direito ao tumulto. Quando vejo desordem gratuita – o caos pelo caos –, com desprezo pela segurança dos outros e pela propriedade alheia, é o único caso em que tolero violência policial. Digo-o a contragosto, anarquista dos sete costados, mas de linhagem diferente.

Estava embevecido com o código de conduta ateniense que impede a polícia de entrar nas instalações de universidades para perseguir os anarquistas desordeiros. Só com autorização dos reitores podem os polícias pisar terreno que assim é sagrado para quem espalha a confusão. As universidades como se fossem embaixadas em cujo território existe imunidade e a polícia não pode entrar – uma espécie de ilha dentro do Estado de direito. Soube então que agora os anarquistas têm poderosos aliados: "jovens de doze e treze anos", parafraseando quem enviava informações desde Atenas.

Deve-se tratar de jovenzinhos que só são intelectualmente imberbes no bilhete de identidade. De resto, devem estar na posse de uma extemporânea (por antecipação) doutrinação política. Leram os livros todos de Proudhon, Bakunin e Kropotkin. Enfim doutrinados, andam nas ruas à pedrada aos polícias, a estilhaçar montras de lojas, a infernizar quem quer sossego, a vandalizar automóveis, quem sabe se de gente que até tem simpatia pela sua causa. São os muito jovens guerreiros que engrossam a maré anarquista. Não andam de armas na mão, nem devem passar pelos horrores da doutrinação pela violência como sucede com os meninos guerrilheiros em África. Tirando estas diferenças, onde está a diferença entre os meninos guerrilheiros em África e os meninos desordeiros em Atenas? E o mesmo ocidente que condena os diamantes de sangue e se indispõe contra a privação da adolescência destes guerreiros à força, deita-se num revelador silêncio ao ver como jovenzinhos atenienses de tão tenra idade já são guerrilheiros urbanos. Dois pesos, duas medidas.

Diante deste anarquismo violento, um anarquista de outra linhagem sugere aos anarquistas de Atenas – e aos admiravelmente doutrinados "jovens de doze e treze anos" – que leiam Leon Tolstoi, um anarquista que ensina que o anarquismo não é violência.

8.12.09

Gutter Twins, "Idle Hands"



"Confrontacional"

(Um desnudamento da alma)

Um neologismo, com origem no étimo "confrontação", só para interrogar a necessidade de confrontar, por vezes provocar, reacções nos outros que podem ser reacções hostis. Será pelo desconforto da acomodação típica dos que pensam todos da mesma maneira. Ou uma erupção de mau feitio, o terrível espírito de contradição que não se consegue derrotar.

Não é forma simpática de ser. Grangeia antipatias, por vezes; outras vezes, anticorpos que demora a ultrapassar. Porque a confrontação é recebida como uma áspera manifestação de oposição. Manchada pelo tom agreste das palavras que provocam a reacção adversa, sentida, por vezes ofendida. O que leva a fermentar este desejo irreprimível de encostar às cordas os que são mais ou menos próximos, só para desafiar as suas ideias, ou através das ideias ou das palavras de pessoas com que se identificam indirectamente os desafiar?

Eu gosto de acreditar que a responsável pela desagradável forma de ser é uma tempestade intelectual que não há maneira de me largar. Gosto de acreditar que o desafio dos outros não é desconsideração pessoal. Como poderia honrar as pessoas que assim provoco ou confronto se elas me dizem desde algo a muito? Às vezes digo-lhes, em tom meio confessional, que sou como sou, irrecuperável nesta desagradável maneira de confrontar sobretudo quem me diz algo. Que interessa rebater quem me seja estranho se não há possibilidade de entrar em discussão? Digo-lhes, para apaziguar tensões, que não é por maldade; que adoro uma bela refrega de ideias, a troca fervilhante de palavras reproduzidas em argumentos.

Algumas vezes, o recurso à provocação esfarela a coerência que julgo dominar-me. É quando esmago nos outros palavras que são a negação do que já dissera ou defendera outrora. Ainda bem: a coerência é um garrote que liquida a espontaneidade, adultera a genuinidade do ser, o bom selvagem suprimido por temor às convenções. Esta coerência, sinto-a doentia. Um pesar que se aclimatou só para tornar tudo mais fácil nas dicotomias que desfazem os muitos nós da complexidade em redor. Pergunto-me se a inclinação para a confrontação não reveste a necessidade de expor as pessoais incoerências – que invulgar exibicionismo! Assim seria, contudo, se de todas as ocasiões em que as palavras provocatórias se soltam elas viessem embebidas em flagrantes contradições internas. E nem sempre assim é.

Há critério na selecção dos "alvos"? As munições soltam-se aleatórias, ou são dirigidas com precisão, as letras bem contadas quando se encavalitam nas palavras entoadas através de frases assassinas? Em retrospectiva, não distingo um critério que seja. A confrontação é errática, persegue o que momentaneamente povoa o espírito. Não costumam as provocações ser planeadas. São um típico produto de actos espontâneos. Tenho a impressão que são confrontações terapêuticas. Ao que mais não seja, desmoronam o denso manto racional que asfixia outros olhares, ou outras formas de olhar. Só fica por pedir desculpa aos que se sentiram atingidos. Por serem cobaias de um experimentalismo a que são alheios.

Não estou em acto de contrição. Nem que este desnudamento da alma seja um flanco aberto. A retórica e o retorcimento de argumentos (defeito de formação; da formação que renego) compõem o cenário quando ele escorrega para um lodaçal que me seja desaprazível. Ainda assim, indeclinável o desnudamento da alma. E um flanco aberto. Até à próxima, e porventura totalmente gratuita, confrontação.

7.12.09

“Islamofobia”?



Há dias, um referendo na Suíça ditou que não haverá mais minaretes. As ondas de choque vieram a seguir. Há vários países europeus onde estão instaladas comunidades islâmicas. O que se segue? Um efeito dominó, uma certa histeria anti-islâmica propagada pelo resultado do referendo na Suíça? Desabone-se a possibilidade, pelo menos se o instrumento para lá chegar for o mesmo que os suíços utilizaram. A Suíça é a campeã da democracia directa, não estando os referendos vulgarizados (para assuntos desta natureza) em mais nenhum país europeu.

Em todo o caso, a discussão está montada. Será sensato proibir este símbolo da religiosidade muçulmana? Honramos a tradição de liberdade quando lançamos este impedimento sobre os muçulmanos? A discussão é exacerbada por sentimentos que escorregam, com facilidade, para o radicalismo. Quer de quem se opõe à discriminação dos muçulmanos, quer dos que aplaudem com entusiasmo a medida aprovada no referendo suíço.

Quanto a estes, não compreendo a hostilidade contra a comunidade islâmica. Na maior parte dos casos, não há conhecimento de suspeitos de actividades terroristas nestas comunidades. Será preconceito puro? Ou receio de que o continuado crescimento da comunidade islâmica seja uma ameaça para a segurança da Europa? É que já escutei alguém insinuar que a silenciosa "invasão verde" (se pudermos tomar o verde como cor simbólica do islamismo) é uma espécie de cruzada árabe para conquistar a Europa. O alarmismo é a melhor manifestação da irracionalidade.

Do lado contrário também há excessos. Pela voz a quem sugere que os muçulmanos são vítimas de perseguições – directas ou através da desconfiança que os ostraciza – como o foram os judeus em meados do século XX. Essas vozes são as mesmas que alimentam especiosas teorias da conspiração em que, invariavelmente, os maus do costume (a "América" e os judeus) cozinham pratos envenenados para o bem comum. Usam um novo vocábulo para despertar consciências: "islamofobia".

Entristece-me ver gente respeitável a embarcar num soez sectarismo contra os muçulmanos. Não faz jus à sua inteligência (aos demais, aos apedeutas que são contra os árabes por puro preconceito, nem vale a pena contrariar). Primeiro, e acima de tudo, porque se consideram tutores das liberdades e, noutros quadrantes (que não o do espúrio confronto das religiões), pregam pela tolerância. Esquecem-se dela quando negam direitos de culto aos muçulmanos que para aqui vieram viver.

Segundo, o argumento mais indigno é o da intolerância dos muçulmanos. Começam por decair para uma generalização que é, como todas as generalizações, perigosa. Tudo piora quando se percebe onde querem chegar com este raciocínio: impõe-se a intolerância com os que são intolerantes connosco. É uma questão de sobrevivência. Para além do catastrofismo que fica por provar (é o mal de antecipar o futuro que ainda não aconteceu), enredam-se nos mesmos males de comportamento que dizem combater. Só se distinguem dos fundamentalistas muçulmanos por não aceitarem a violência estúpida como arma de arremesso. Mas a proibição de minaretes, ou qualquer outra manifestação de gratuita discriminação em razão do credo, não será uma forma de violência?

Daqui a assegurar que sitiámos os muçulmanos no espartilho da "islamofobia" parece-me exagerado. Trata-se de uma modalidade oposta de catastrofismo, outro decaimento numa generalização improvável (no sentido de não se poder provar). Se houvesse "islamofobia", já tínhamos proibido os muçulmanos de cá entrar. Tínhamos destruído mesquitas. Não lhes dávamos emprego. Proibimos os seus filhos de frequentar escolas. Admito intolerância da parte de pessoas que desconfiam dos muçulmanos. Mas pode-se converter essa intolerância em sentimento generalizado?

A complexidade do assunto aumenta quando medimos o pulso à seguinte interpretação de quem rejeita o que foi aprovado no referendo suíço: aconselham que não é sensato hostilizar os muçulmanos por acendermos o rastilho de um barril de pólvora. Essa condenação é, diria, oportunista e ensimesmada. Não parece preocupada com o que devia preocupar – o atentado aos valores que nos orgulhamos de ter, principalmente os valores da liberdade e da tolerância. Aquela condenação só parece preocupada com o nosso bem-estar. Dando a entender que atropelar o direito de culto dos muçulmanos é, em si, secundário.

A liberdade está penhorada pelas religiões.

4.12.09

Ele há coisas do diabo: o Machado fez uma lipoaspiração e caiu em coma



A ditadura da estética. Agiganta-se, de mão dada com a modernidade que avança com o tempo e a tecnologia que cavalga em cada manhã que desponta. Dir-se-ia que somos cada vez mais apenas o papel de embrulho que o nosso corpo é. Diríamos, se fôssemos todos de um lirismo desarmante, que só interessa cuidar do aspecto exterior. Por ser um espelho do que buscamos nos outros: a sua exterioridade, o fino verniz que esconde o resto, uma sombria devastação do nada que habita na imensa maioria de nós. Nesta altura, descerrava-se a lápide com o obituário das cirurgias estéticas. Por serem penhores da batota que transforma os corpos em santuários de artificialidade, talvez o retrato fiel de quem se mete nesses corpos transformados.

Não quero exibir, outra vez, o pretensiosismo de um direito à diferença, como se tivesse apenas um prazer contestatário e gratuito de dissidir. Nem quero as alcáçovas da sobranceria por mostrar que não pertenço à imensa maioria, nem me considero acantonado no rebanho dos líricos. Descontando: não consigo dar para o peditório muito moralista que se assanha contra a doença da modernidade que é colocar a afoita tecnologia ao serviço de corpos que se transformam pelos bisturis de especialistas (e charlatães, a acreditar na advertência da ordem dos médicos).

Fez-se notícia porque uma figura pública se deitou na marquesa para uma lipoaspiração e, uns dias mais tarde, uma infecção generalizada atirou-o para coma. Não se deseja o mal a ninguém – de dedo em riste, moralistas de serviço já adivinham o resto do raciocínio: eu só digo que incidentes pós-operatórios destes devem acontecer ocasionalmente com figuras públicas. O mercado fica mais transparente. Ficamos conscientes dos riscos, da probabilidade da sua ocorrência. Não vamos ao engano para a sala de operações. Nem ficamos admirados se houver complicações que nos atirem para um estado semi-vegetativo. Era o que se passava se estas coisas só acontecessem a pessoas anónimas. Os problemas e os riscos também não saíam do anonimato.

De regresso à recusa do moralismo que povoa a reprovação das cirurgias estéticas. Somos todos catedráticos quando mandamos palpites sobre a vida dos outros. Que elevada proficiência de análise quando peroramos sobre os tropeções dos outros. Que mania de julgar os outros pelo que fazem, ou dizem, ou são, sempre que tudo isso remete às muito individuais opções que só pertencem à esfera íntima de cada um. Eu fazia uma operação estética? Não. E não é por ser dispendioso e encontrar outras utilidades mais compensadoras para o meu dinheiro. É porque estou bem dentro do corpo que trago. Admito que haja gente, muita gente, que se sente terrivelmente desconfortável dentro dos seus corpos. E se são inventados medicamentos para mascarar sintomas sem curar doenças, é porque a tecnologia que cavalga nas manhãs que despontam também é serviçal do hedonismo dominante. Por maioria de razão, por que não podem as pessoas retocar o corpo se as plásticas caucionam as pazes com os corpos desajustados?

Está na moda (ou na contra-moda, depende da perspectiva) desaprovar as cirurgias plásticas por serem coisas vãs. Vejo-os, nesta altura, ao saberem do que aconteceu a Manuel Machado (um treinador de futebol), esfregando as mãos de contentamento e debitando a sentença certeira que se socorre do lugar-comum: "quem anda à chuva, molha-se". Eu digo que isso é tão certo quanto estes empenhados moralistas só saírem à rua em dias soalheiros.

Esses dogmas ajuízam as modificações estéticas dos corpos como uma batota que contraria a natureza. Este é o mas que daqui atiro: a história da humanidade não é uma constante peleja para domar as forças da natureza? As doenças que deixaram de ser mortais; os medicamentos que suavizam sofrimento; a esperança de vida que se alonga; a imensa dignidade da menor mortalidade infantil; podíamos mudar a agulha: as barragens que domesticam rios selvagens; para atalhar, a parafernália de invenções que tornam a vida mais fácil, com mais bem-estar, mais hedonista. Tudo, mas tudo, é a emergência dos segredos que a humanidade conquista à natureza. Que perde o seu virginal estatuto.

Fazer retoques na estética do corpo não é batota. É uma necessidade para quem a sente.

3.12.09

Passamos a ser piratas no Gerês



Por causa de uma estapafúrdia lei deste Estado socialista que é, a cada passo, uma asfixia inteira que nos cerca com mil e uma regulamentações de tudo e mais alguma coisa. Das regulamentações que acabam invariavelmente por cercear liberdades. Agora lembraram-se de exigir duzentos euros – duzentos! – a quem se aventure em actividades no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Estando na moda, pelas más razões, a pirataria marítima no Índico, que tem levado os bravos da marinha lusitana a aprisionar piratas e a entregá-los às autoridades das Seychelles, daqui proponho um levantamento aos habitués do Gerês: sejamos piratas no Gerês.

Algumas interrogações para incomodar: por que se limita desta forma o acesso ao coração do Gerês? Terá sido um burocrata qualquer que, por sua auto-recreação, só para ostentar o poder que a imaginária farda lhe confere, um dia acordou e se lembrou de fazer pirraça com os genuínos amantes do Gerês? Ou terá sido o mesmo burocrata, a mando de zelosos sacerdotes da ecologia, que decretou esta restrição aos genuínos amantes do Gerês? É que de uma restrição se trata: alguém no seu juízo vai pagar duzentos euros se quiser fazer uma caminhada pelas brandas nas alturas da serrania?

Exigir duzentos euros para quem se quer enfronhar nos segredos do Gerês não é uma proibição – dirão os legalistas. Pode não ser proibido por lei, mas impor esta exigência pecuniária é uma forma traiçoeira de dizer aos verdadeiros amantes do Gerês para irem conviver com a natureza para outros lugares. Se os autores morais desta aberração foram os meirinhos da protecção do ambiente, desconfio que tudo o que estes invejosos quiseram foi espantar a concorrência, enxotar da serra os genuínos amantes do Gerês. Para transformarem o Gerês numa coutada que só eles podem pisar gratuitamente. Lá estarão convencidos que só eles sabem pisar o Gerês como deve ser.

Pelo que sei (por alguns amigos que são genuínos amantes do Gerês e pela leitura de textos da lavra de pessoas que conhecem o parque como a palma das suas mãos), os habitués da serra até estão mais interessados em preservá-la do que os habitantes da ecologia fundamentalista. O povaréu incauto, que lança detritos do piquenique no meio da mata com uma normalidade exasperante, não se embrenha nos recantos escondidos da serra. Os que estão habituados a fazer caminhadas nos caminhos palmilhados pelos pastores respeitam o ecossistema, conhecem-no bem mesmo sem saberem da poda como os ecologistas teoricamente sabem. Diante desta imbecil ideia, quem acredita no apelo para abraçarmos a natureza em estádio virgem, fugindo ocasionalmente do bulício urbano, se ainda temos que pagar duzentos euros pelo (luxuoso, pelos vistos) privilégio?

Há gente que mergulha nas profundezas da serra para se oxigenar. Exigir duzentos euros para este balsâmico exercício é uma castração ao pior estilo socialista. Esta gente não governa para as pessoas, governa para o seu umbigo. É gente perigosa, que merece ser varrida do mapa. Se o crânio responsável pela ideia não foi demitido pelo ministro, que alguém demita o ministro (e por aí acima).

Admito que a desobediência civil é acarinhada pelas esquerdas folclóricas e totalitárias de que estou nos antípodas. Contudo, ao ver a pesporrência com que senhores que açambarcaram o poder ditam da ponta do lápis leis absurdas que cortam a eito nas liberdades, a única mensagem que apetece deixar é esta: amantes do Gerês, à desobediência civil. Sejam piratas pacíficos. Treinem a destreza física para fugirem das brigadas que vos perseguirem pelos caminhos atravancados da serra. Tragam amigos que nunca frequentaram o Gerês para serem uma multidão a exigir uma reacção militarista e desproporcionada das totalitárias autoridades. Recusem-se a pagar a multa quando não conseguirem escapar à perseguição policial. Rasguem a notificação da multa na cara do agente da autoridade. Não se atemorizem pela convocatória para deporem em tribunal.

Quem se há-de cobrir de ridículo são aqueles que deram caução à ominosa lei. Até que percebam o ridículo que os cobre – e os danos que isso faz à sagrada vaca que é a imagem pública que tanto trabalham – e retirem a lei para as catacumbas de onde nunca devia ter saído.

2.12.09

Maravilhas da publicidade para os fracos de espírito amplificadas pela Internet: dois exemplos



Sempre terá havido. Publicidade imbecil aos produtos e serviços mais improváveis – e nem sei o que será mais imbecil: se o "inventor" do produto ou serviço publicitado, se quem o publicita. E sempre terá havido fracos de espírito. É a eles que essa publicidade se destina. São os tansos que depressa se deixam seduzir pelas supostas propriedades prodigiosas dos produtos, destas contemporâneas banhas da cobra. Com a Internet, essa publicidade tornou-se um filão. Andamos por sítios aconselháveis na Internet e aparecem, em letras garrafais e cores garridas, anúncios aos produtos e serviços que não passam de embustes.

Um exemplo: um dia destes, fiquei a saber que posso instalar uma geringonça qualquer no telemóvel da namorada para saber, a todo o tempo, por anda. Primeira observação: a publicidade ranhosa anuncia o estrondoso aplicativo para namorados que queiram controlar a vida de namoradas (e vice versa; e vice-versa do vice-versa, para não arrostar a acusação de homofóbico). Ultrapassada a fase em que somos namorados, o serviço deixa de estar disponível? Quando casamos, ou quando passamos a viver em união de facto, já estamos fora do alcance da engenhoca que antes nos tinha sido secretamente colocada no telemóvel? A discriminação devia ser explicada. Como se entende que só quem esteja na febril etapa do namoro desconfie da pessoa amada? Ou seja: os ciúmes – o grande nutriente da desconfiança (ou vice-versa?) – só fazem sentido antes de as duas pessoas juntarem os trapinhos.

Quando os olhos viram o absurdo anúncio, esta foi a interrogação que surgiu: há quem esteja interessado em controlar todos os passos da pessoa que tem como sua/seu namorada/o? Desconheço se esta inventiva inovação é coisa internacional, ou se é uma reminiscência indígena da cultura da "bufaria" que não hesitava em espiolhar a vida alheia. Se é mais uma trave-mestra da nossa idiossincrasia, continuamos a definhar na salazarenta, mesquinha, muito pequenina forma de ser e de estar. Não quero comprar uma guerra de gerações, mas arriscava a adivinhar que os inventores do perverso aplicativo de telecomunicações são gente de tenra idade. Tão tenra idade que nem sequer têm ideia que antes de 1974 vivemos quarenta e oito anos de demorada e obscura ditadura, com falta de respeito pelos direitos individuais e pela privacidade. Que nessa altura era uma palavra vã. E agora parece que volta a ter o significado diluído na demência de quem convive com a intrusão na vida de outra pessoa como se fosse um acto normal.

Haverá quem, no seu bom juízo, tenha insidiosamente instalado o dito aplicativo no telemóvel da pessoa amada? Corrija-se, pois, a frase anterior: é que as palavras "pessoa" e "amada" devem ser entrecortadas pelo vocábulo "supostamente". Quando a desconfiança chega a este ponto, já só uma patologia mental invade os seus fautores. Quem confunde um sentimento com a necessidade de espiar todos os passos de outra pessoa é porque está doente, e muito. O pior dos males é haver quem considere normal ser espião desta maneira, por estes motivos. É todo um programa de comportamento para o futuro. Gente que entrará para a administração pública e que, nas horas vagas, se entretém a vasculhar os dados pessoais de quem apareça nas bases de dados. Isto sim, é retrocesso civilizacional.

Outro exemplo: há uma marosca qualquer que nos permite saber o dia em que vamos morrer. Talvez por ter pavor da morte, nem sequer considero a hipótese de alguém ser assaltado pela curiosidade e meter-se pelos caminhos da charlatanice só para ter uma ideia de quando vai "desta para melhor" (na minha maneira de ver, "desta para pior"). É que só pode ser charlatanice, para começar. E, mesmo que o não fosse, quem no seu juízo está interessado em saber por quanto mais tempo vai continuar entre os vivos?

Se estas bojardas publicitárias têm sucesso, então só me apetece dizer que estamos (quase) todos loucos. De vez.

1.12.09

Coincidências

Paulo Rangel no Público a concluir um artigo de opinião sobre o Tratado de Lisboa assim: "Para um país como Portugal, mais poder para a União significa mais poder para o Estado português. Por paradoxal que pareça, é essa hoje a densidade da nossa independência. Eis o que alguns haverão por trágico. Seja como for, há coincidências que impressionam: o dia do Tratado de Lisboa é o dia da independência de Portugal. Ou melhor: da restauração da independência..."

Não sou o único a encontrar a coincidência de datas. E a ver nela um simbolismo. Coincidimos na coincidência.

A restauração da independência contada às criancinhas


Uma heresia: pode-se parodiar a data, derriçar o seu significado, interrogar (em jeito de história contrafactual) o que seríamos se nesse longínquo primeiro de Dezembro de 1640 um grupo de conspiradores (na óptica de quem estava no poder) não tivesse desalojado do trono a fraca realeza castelhana? Desconfio que não; nisto da portugalidade que se defende em efemérides carregadas de solenidade e pompa, interrogar o estabelecido soa a heresia. As heresias pertencem ao domínio do religioso. É disso que se trata: com coisas sérias não se brinca e a portugalidade não se belisca, tão possuída de religiosidade idêntica à que consagra os credos.

Para não ofender gente de diversos quadrantes que aclama a portugalidade, não vou às catacumbas desenterrar vestígios que pusessem a pensar se a troca festejada neste feriado foi compensadora. Sempre é um feriado, ao menos. O descanso agradece. E essa serventia não se rejeita.

Não é aos nevoeiros de antanho que pergunto se valeu a pena a troca. Prefiro olhar para o cruzeiro onde se resguarda o futuro. A mania de lançarmos intenso foguetório por ocasião das grandezas de outrora é tique para cegar o presente que somos. Talvez um truque, um necessário truque, para fazer de conta que não chegámos ao que somos, uma pálida imagem que atraiçoa as grandezas dos antepassados que a educação oficial insiste em revelar, fermentando nos petizes as sementes da frustração que hão-de notar quando os olhos se abrirem para a realidade presente. A minha proposta é esta: olhemos para o dia que celebra a restauração da independência pelo azimute do futuro. Por outras palavras, têm utilidade as faustosas celebrações quando hoje entra em vigor do Tratado de Lisboa? Um tratado que – asseguram arautos da desgraça – desafia o sentido das sagradas independências nacionais.

Logo hoje, trezentos e sessenta e nove anos depois da independência resgatada aos fariseus castelhanos. Logo hoje, haveriam de escolher esta data para a entrada em vigor do Tratado de Lisboa. Ó ironia das ironias – bramam os adversários do Tratado: um tratado que carrega o nome de Lisboa, responsável por mais um pedaço de soberania que se vai, a entrar em função num dia em que se celebra a restauração da independência. Não há acasos. A coincidência de efemérides seria como a deposição de uma lápide na saudosa soberania que se foi diluindo (acreditam piamente os velhos do Restelo que desconfiam da União Europeia). Ou seja: trezentos e sessenta e nove anos depois, a independência da pátria entraria em licença sabática.

Não fosse dar-se o caso de serem catastrofistas os que chamam a si o oráculo da desgraça por estarmos na União Europeia e por a União avançar ao passo conhecido, e até fazia sentido. Lamento ser desmancha-prazeres: nada disso aconteceu de supetão, ou vai acontecer apenas porque uma singela revisão dos tratados europeus vê luz do dia. A marcha vem de trás. Para esses velhos do Restelo, mais à sua comezinha forma de ver as coisas, fica este recado (ou provocação, depende da perspectiva): tenho a impressão que o nosso contemporâneo 1 de Dezembro de 1640 aconteceu em 12 de Junho de 1985. Quando assinámos o tratado de adesão às Comunidades Europeias.

Foi nesse dia que nos garantimos. A nossa alforria diante do futuro e da modernidade. Acabaram as ameaças de totalitarismo mascaradas em abomináveis capas de "ditadura do proletariado" (como se algum dia uma ditadura pudesse ser uma democracia). Conquistamos direito (e direitos) ao desenvolvimento, ao bem-estar material que também faz bem às mentes; para miserabilismo tinha chegado a monástica, castrante forma de viver que o casto Salazar tinha imposto, numa perpetuação da miséria e de afocinhamento na ruralidade anquilosada. Entrámos na Europa e passámos a ter uma voz – mas uma voz compatível com a nossa pequenez genética.

Esse 1 de Dezembro de 1640 deslocado para 12 de Junho de 1985 impediu que este pedaço de terra no fundo da Europa partisse em direcção de África, ou que entrasse em órbita soviética. E garantiu-lhe um direito ao futuro.

30.11.09

Perigoso andar pelas ruas de Lisboa



E não é pelos assaltos, ou pela insegurança nocturna, ou porque as ruas estejam apinhadas de mendigos do leste europeu que, diz-se, se servem do estatuto para perigosas manigâncias. Nada disso. Vindos do nada, podem irromper a uma velocidade alucinante "automóveis oficiais" com grande chinfrineira a avisar da importante figura que segue tão apressada. E pode acontecer, como aconteceu há dias, que se estatelem num acidente de viação de que os ocupantes levam medalhas para contar aos netos.

Onde está a segurança de quem vai na rua e tem o azar de dar de caras com os malabarismos de aprendizes de Fittipaldi que ninguém persegue? Coisa irrelevante que cede perante o atraso, a urgência e a extrema importância de quem pode atropelar cem regras do código da estrada ao fim de um dia. Já não se pode andar sossegado pelas ruas da capital. Ainda se queixam os nortistas dos perversos efeitos do centralismo do Terreiro do Paço. Aqui do Porto, reforço a exortação: regionalização não, obrigado. Depois tínhamos que apanhar com os representantes da região em vertiginosas corridas pelas artérias do Porto, sempre com o coração ao pé da boca até que nos calhasse em azar estar num cruzamento em que duas "viaturas oficiais" faziam ouvidos de mercador a um semáforo vermelho e chocavam com estrépito. Gosto de andar por estas ruas e saber que não apanho um desvairado "veículo oficial" em derrapagem descontrolada.

Quando li a notícia num local insuspeito de dourar a pílula ao governo (não a RTP ou um daqueles órgãos de comunicação social do "amigo Oliveira"), uma testemunha do acidente disse que foi atingida por alguns destroços dos carros entretanto feitos sucata. (Juro que não há ligações conspirativas; já não se pode usar a palavra sucata?) Outra pessoa confirmou que o inspector das polícias terá partido os queixos porque não levava o cinto de segurança e foi projectado. Não digo que esta gente se acha tão importante – tão importante que mergulha na sinecura e no oceano de privilégios que os faz andar de nariz empinado, tão senhores da sua importância – que deixa para os outros o respeito pelas regras? Ponto da situação: não chegava andar a uma velocidade assassina por ruas onde o código da estrada só permite circular a cinquenta quilómetros/hora; ainda por cima, o figurão viajava sem o cinto de segurança.

A rapidez digna de provas automobilísticas com que as "viaturas oficiais" rompem as ruas não é de agora. Quem nunca foi ultrapassado numa auto-estrada por automóveis escuros, escoltados por motas da brigada de trânsito, os pirilampos acesos que afastam a maralha do caminho, tragando o asfalto a mais de duzentos quilómetros/hora? Mal anda isto     que, há que o lembrar, se diz um "Estado de direito", e condescende com a marosca de aos figurões serem permitidas excepções que na gente comum são duramente punidas.

Eu não quero saber que o senhor ministro vá atrasado para a função. Muito menos me importo que o senhor ministro esteja mergulhado em mil e um afazeres que infernizam a sua agenda. Quero que o senhor ministro vá à mesma velocidade que eu posso circular em estradas e auto-estradas. Do fundo da ingenuidade que me amacia, gostava de ver a "comitiva oficial" parada na berma da auto-estrada quando fosse apanhada em excesso de velocidade, e de cada vez que o senhor ministro fosse apanhado na largueza do banco traseiro sem o cinto de segurança apertado. Gostava de ver o polícia de serviço a tirar identificações, a verificar documentos, a passar uma multa.

Gostava que tudo isto não fosse uma ilusão. E nem é que me interesse muito a queixada do inspector das polícias, mas se tudo isso não fosse uma ilusão ao menos o senhor todo-poderoso inspector não estava cheio de dores numa cama do hospital onde foi operado à fractura nos queixos. Menos mal enquanto as "viaturas oficiais" andarem a brincar aos carrinhos de choque entre si e não envolverem mais ninguém.

27.11.09

“Técnica de relaxamento”


Num preguiçoso passeio de zapping pelos intermináveis canais da televisão por cabo, aterrei num canal que se chama Zen. Sucediam-se imagens de praias paradisíacas, daquelas que enchem folhetos das agências de viagens. Sempre meticulosamente despidas de gente, como se fosse possível à horda de turistas que lá desagua terem uma praia deserta. Logo a seguir, continuaram as imagens de uma água azul-turquesa, suponho que daquelas águas tépidas de que não apetece sair, as areias brancas e muito finas e uma barreira de coqueiros a semear a sombra que protege do intenso, húmido calor.

Começava um programa sobre "técnicas de relaxamento". Uma voz suave e feminina propunha-se ensinar a "técnica de relaxamento" que desata os nós da insónia. À medida que se repetiam as pacatas imagens das praias que por estes dias de anunciada invernia já fazem inveja (nunca estamos satisfeitos com a estação dominante: nem sequer temos inverno e já apetecia passar uns dias num daqueles lugares exóticos), a voz balsâmica ensinava os truques para um sono retemperador assim que o corpo beijasse os lençóis da cama.

A voz feminina exortava a que fizéssemos mais ou menos isto: "ponha-se de pé, bem no meio do compartimento da casa que tiver maior espaço. Grite. Grite bem alto. Não se atemorize: grite com toda a força que os pulmões e as cordas vocais permitirem. Se não se sentir à vontade com o grito, cante qualquer música, mas cante bem alto. Precisa de expelir todas as energias acumuladas dentro de si. Gritar ou entoar a música em voz alta são o melhor remédio para expulsar as energias que retardam o sono. De seguida, termine a expulsão das energias de que já não precisa abanando com vigor os braços, as pernas e a cabeça, de um lado para o outro. Não se acanhe se achar que os movimentos são desengonçados. Quanto mais desengonçados, mais energias inúteis vai libertar. E mais depressa vai adormecer".

Tenho a impressão que esta "técnica de relaxamento" deve valer para quem vive no meio do campo, numa casa isolada do resto. Para a imensa maioria que vive nas cidades, apinhada em apartamentos com excelente qualidade de construção – daqueles que há agora com um isolamento acústico de primeira água, de tal forma que um simples garfo caído no andar de cima troa como se fosse uma bomba a rebentar no tecto –, a "técnica de relaxamento" deve servir para arranjar muitos inimigos entre a vizinhança. Ou então para sermos vistos como dementes que urram furiosamente à hora do deitar.

Também tenho a impressão que duas pessoas que acabam de juntar os trapinhos não podem embarcar nesta bizarra "técnica de relaxamento". Nesses dias de aprendizagem mútua, em que uma febril paixão une os corpos num frémito diário, a descoberta de estranhos urros ao deitar talvez actue como um icebergue a poisar na relação. O que diria um dos apaixonados se visse o outro a contorcer-se numa ensandecida coreografia de gestos disformes do corpo antes de irem para a cama? Aposto que não é o melhor prólogo para uma noite de tórrida paixão.

Às duas por três, pus-me a pensar: e se, um dia destes, ensaiasse esta "técnica de relaxamento"? Não é que dela careça, pois as insónias deixaram de me visitar desde a adolescência. Era só para experimentar a sensação, só para confirmar – como desconfio – que estas "técnicas de relaxamento" não passam de um embuste. E, apesar de não ter vizinhos nos dois andares de cima, não consegui imaginar a função. Admito: talvez por não precisar de qualquer "técnica de relaxamento" quando chega a hora do deitar. Ou será apenas porque me fartei de rir da minha própria figura triste, como se de repente saísse de mim e fosse espectador da minha função de relaxamento?

Sabe-se lá se não se perdem carreiras promissoras no bailado contemporâneo, ou tenores de ópera, ou vocalistas de bandas de heavy metal (depende do timbre da voz) só por as pessoas se intimidarem diante da estranheza do que lhes é sugerido nesta "técnica de relaxamento".