11.12.08

Os deputados, esses incompreendidos


Vai um grande pé-de-vento por causa de uma votação na Assembleia da República que podia ter terminado com a derrota dos socialistas em maioria absoluta, se cerca de trinta deputados da oposição não tivessem apressado o fim-de-semana prolongado. Agora, cada pormenor do episódio é dissecado pela comunicação social: que o número de ausentes não bate certo com o número de deputados que votaram; que certos deputados assinaram o ponto e deram à sola antes de votarem o que havia para votar na ordem de trabalhos; até já houve quem vasculhasse nos arquivos do parlamento, descobrindo que suas excelências têm o hábito enraizado de começar a semana mais tarde e antecipar o seu final.


De repente, toda a gente se atirou aos deputados. No rol de acusações, há uma que prende a minha atenção: o absentismo dos parlamentares é inadmissível porque são os representantes políticos dos cidadãos, o que deles exige uma especial responsabilidade. Devem dar o exemplo – o bom exemplo, supõe-se. As atenções da populaça recaem sobre os senhores deputados. Não têm direito ao deslize. Não têm direito a faltar aos trabalhos da assembleia da república. Concluem: quando são os deputados que dão o mau exemplo, que esperar da populaça senão a mesma mediocridade?


Este é um raciocínio atraente. Escorrega, porém, para um populismo simplório. No fim de contas, é um problema de pescadinha de rabo na boca. Os deputados representam "o povo". Se o absentismo, ou pelo menos a preguiça para o trabalho, fazem parte da idiossincrasia indígena, quem fica chocado com o elevado absentismo dos deputados? Quem se sente chocado com a impressão de que os deputados têm escassa predisposição para o trabalho ou é hipócrita ou sofre de miopia mental. Exigir aos parlamentares mais do que se exige ao cidadão anónimo é uma perversão da igualdade por tantos sagrada. Eu punha as coisas noutros termos: entre a gente anónima, cultivam-se expedientes para não se ir trabalhar, ou para amortecer um dia de trabalho intrometendo o ócio nas horas laborais. Não é por acaso que andamos pelos fundilhos do ranking europeu da produtividade do trabalho. À sua maneira, até nisto os deputados são representantes do "povo" que os elege.


Um exemplo para provar a injustiça de que os deputados são vítimas. Quantas vezes sindicatos disto ou daquilo marcam greves antes ou a seguir a um feriado que já estava encostado a um fim-de-semana prolongado? Como tenho o mau hábito de não acreditar em coincidências, tenho a impressão que estas greves são semeadas no calendário a dedo. Os grevistas sempre poderão ter um fim-de-semana muito prolongado, o que equivale a uma mini semana de trabalho. Alguém denuncia esta esperteza saloia? Pelo contrário: os jornalistas andam pela rua, de microfone empunhado à frente do "povo" que é o primeiro sacrificado com estas greves obscenas, e é o próprio "povo" que aplaude a greve. O mesmo "povo" que vai para os cafés e para os transportes públicos atirar-se furiosamente aos deputados que fazem a trouxa mais cedo. Eis como nem todos apanham pela mesma medida. O que dá uma noção dos padrões subvertidos de justiça deste "povo".


Já que se fala em greves, outra interrogação: os deputados podem fazer greve? Imagine-se o burburinho se um dia os deputados, de uma ponta à outra da paisagem partidária, se pusessem de acordo e faltassem ao parlamento, em greve. Seriam crucificados pelo "povo" sedento de justiça – e o "povo" adora ser justiceiro dos que afiança serem mais fortes. Só não entendo o seguinte contra-senso: nas eleições seguintes, o dedicado "povo" vai às urnas escolher a "corja" de deputados que se segue. O "povo" gosta de escolher medíocres que passam a figurar, em pouco tempo, como seus particulares ódios de estimação. Ou o "povo" é optimista, ou vive mergulhado na profunda ignorância, repetindo uma e outra vez a deposição do voto que, mais tarde, leva à fustigação dos que escolheu. Por que vota o "povo", então?


Tenho pena dos deputados. A sua árdua vida não é reconhecida pelo "povo" ignaro. E ainda se expõem à língua viperina de um profundamente ignorante "povo". Eles têm a sua vidinha, como qualquer mortal. E, como qualquer mortal que tenta convencer o chefe a deixá-lo sair mais cedo do trabalho porque vai de fim-de-semana prolongado, quem pode censurar os deputados por anteciparem um fim-de-semana comprido?


Eu acho que os deputados deviam criar um sindicato.


10.12.08

Manifesto (ultra) liberal contra os capitalistas


São a vergonha de um sistema. Os culpados maiores do opróbrio que se abateu sobre o capitalismo. Os capitalistas de duas faces. Os mesmos que tresandam falso liberalismo quando reclamam contra a intrusão do Estado em tudo e em mais alguma coisa. Para, ao primeiro aperto, virem em pose de mendigo, a mão estendida clamando pela piedosa ajuda do paternalista Estado.

São eles que instigam uma doentia cumplicidade entre negócios e política. Amesendam constantemente com políticos, incansáveis nas genuflexões que saciam o ego dos figurões. Perpetuam um sistema podre, o das decisões que trazem dinheiro a ganhar depois de amaciarem o pelo ao tráfico de influências que alimentam pelas veias da dependência estatal. Não têm o decoro de separar as fronteiras entre o privado e o público. São fautores, em compadrio com políticos sequiosos de poder por ostentar, de uma podre intimidade. A certa altura, já só o formalismo mantém a fronteira. A vidinha habitual encarregou-se de esbater as diferenças entre as duas esferas.


Uma casta dependente, tributária da tutela paternal das autoridades sempre farejadas. Não se conseguem emancipar dos políticos. Não homenageiam os antecessores que construíram a afirmação da esfera privada, quando então havia genuína, espontânea acção empreendedora, quando a livre iniciativa fazia todo o sentido. Hoje, apenas restam vestígios de livre iniciativa, sempre contaminada pelo concubinato com os políticos que selam, com a sua assinatura, as dádivas esperadas pelos empresários. Actores menores, manietados por uma letargia incompreensível, a letargia induzida pelo persistente estado de dependência tão do agrado dos políticos imponentes que adoram trazer o grande empresariado debaixo da asa.


Deles, a imagem de um oportunismo que se confunde com parasitismo. Só têm pernas quando se socorrem da milagrosa muleta do Estado. Nem percebem como se prestam a uma insólita, indirecta nacionalização. São a vergonha dos antepassados que souberam construir a pulso, e sem ajudas públicas, rendosos negócios. Agora, o que compensa é traficar influências para conquistar os favores de quem tem o cutelo da decisão entre as mãos. A suspeita de negócios obscuros não lhes retira o sono. Consta que é a única forma de sobrevivência. Todos comem do mesmo prato, por que hão-de os mais rectos fugir da maré dominante se com isso vierem os dissabores, o emagrecimento do negócio pela perda dos favores dos figurões que mandam?


Falta quem tenha coragem de virar a mesa do avesso, dar um murro na mesa e limpar a fétida, densa poeira que se acumulou. Faltam visionários que tragam a iniciativa privada de regresso ao seu lugar, ao lugar de onde nunca devia ter saído não tivesse um dia frutificado a perversa cumplicidade entre negócios e política. Entretanto, esses capitalistas deitam-se na lama que alimentam. E isso importuna-os? Não. Enquanto tiverem assegurado o seu quinhão nos proventos caucionados pela divina decisão dos governantes, toda a ética é letra morta, um arcaísmo. Enquanto os protestos e a figadal inimizade vierem dos detractores habituais, dos que se saciam no altar do marxismo e derivantes, o clamor que os vitupera não faz cócegas nos ouvidos. Enquanto do outro lado da barricada persistir um silêncio cúmplice, estes capitalistas continuarão de cedência em cedência até acordarem cercados por uma espessa teia de aranha salivada por uma seita de políticos que não tardará a abocanhá-los.


É diante destes pobres espécimes que ilustram o capitalismo que percebo a necessidade dos comunismos. São eles que dão alento aos comunistas, e isso não lhes perdoo. De cada vez que leio histórias dos inconfessáveis interesses que unem em comandita grandes empresários e figurões da política, mais entendo a alergia inata de comunistas e afins pela espécie do capitalista indígena, do indigno capitalista. Do capitalista que capitula diante dos que mandam na política e faz disso modo de vida. E depois há quem tresleia o filme que passa diante dos olhos e acuse os governantes de se ajoelharem diante dos empresários. Parece-me que estão a ver o filme às avessas.


O mal é que a roda dentada parece imparável. Um ciclo vicioso, que afunda a perversão de capitalistas enamorados pelo Estado. Nos intervalos do realista oportunismo desta gente, não haverá tempo para uma incursão, por breve que seja, em literatura que refresque os fundamentos do que são e do sistema que representam?


9.12.08

Da inutilidade dos serviços secretos


Passa um filme na televisão. Sobre espiões e serviços secretos, romanceando (ou talvez não) a frieza dos serviços secretos, na constante agressão dos vectores do Estado de direito. O filme narra as aventuras de um espião duplo, habituado a espiar para os Estados Unidos e para a (na altura) União Soviética. Ao fim de muitos anos de perseverança e de um deslize fatal, o seu papel dúbio foi descoberto. Ficou sob ponto de mira. Queriam apanhá-lo em pleno delito, conspirando contra a própria pátria, quando estivesse a entregar segredos ao inimigo. Para ser acusado do pior dos crimes: traição à pátria.


Documentos cifrados provavam a traição suprema do agente duplo. Revelara à KGB a identidade de dois espiões soviéticos infiltrados a soldo dos Estados Unidos. Mortos a sangue frio, os Estados Unidos perderam duas importantes toupeiras dentro do labiríntico KGB, o que não podia ser perdoado ao traidor. Foi então que dei comigo a pensar na inutilidade dos serviços secretos que andam por aí às escondidas, num bas fond que renega os princípios que alicerçam o Estado de direito.


Dizem, os que transigem com serviços secretos, que é no "superior interesse nacional" (ou qualquer fórmula estafada de idêntico calibre) que existe a espionagem com o carimbo do Estado. Os países têm que se espiar uns aos outros, mesmo quando são aliados para todo o sempre, para conhecerem os segredos da casa alheia. Para prevenirem que a própria casa seja arrombada. Esta é uma actividade de elevado risco. Na parafernália da espionagem, quem pode garantir que os seus segredos não foram descobertos por outro serviço secreto? Dizem que a contra-espionagem é tão importante como a espionagem. Tão importante é atacar como defender-se da espionagem dos outros. Só que o complexo mundo da espionagem não se compadece com certezas. A existência de espiões que fazem jogo duplo aumenta os riscos do insucesso. Muitas vezes, o inimigo é um dos "nossos". Quando damos conta que dormimos com o inimigo, já os estragos estão feitos e os segredos deixaram de o ser.


Sei que há países mais poderosos, mais ricos, onde os serviços secretos são mais profissionais. Nem esses países escapam ao vitupério dos espiões duplos. São os mais apetecíveis, por serem os mais poderosos, por serem os que garantem um prémio maior caso os segredos sejam desvendados. Mesmo os países mais pelintras se dão ao luxo de possuírem um arremedo de serviços secretos, nem que seja para ostentarem com orgulho a medalha que é a simples existência de serviços secretos. Que os haja em terras enlameadas em ditaduras não deslustra – é timbre das ditas. Existirem serviços secretos nos países que se gabam de estarem na vanguarda civilizacional, por serem democracias, é inexplicável. Os seus líderes e os gurus que promovem o modelo andam a pregar as respectivas virtudes e, afinal, lá num esconso lugar habitam os serviços secretos que desconhecem os princípios que regem o Estado de direito.


As actividades dos espiões a soldo dos serviços secretos são inqualificáveis. Espiolham, são intrusos em casa alheia, esmeram-se em fazer o oposto do que os progenitores lhes terão ensinado em tenra idade – não vasculhar a intimidade alheia. A espionagem é um voyeurismo com a chancela da autoridade. Aliás, um utensílio que reforça a autoridade. A autoridade é a pior voyeur de todos os voyeurs. Os maus exemplos chegam de onde não deviam chegar – isto na óptica dos que permanecem enfeitiçados pela existência do Estado. As autoridades a braços com o estigma do mau exemplo é um cenário balsâmico para mim: o espelho da desautorização do Estado, confirmando o adágio "não olhes ao que faço, olha para o que eu digo". O Estado, enfim, deseduca pelo punho dos serviços secretos.


Se há tanta espionagem e contra-espionagem, uma teia labiríntica de espiões que nunca se sabe se também ajudam a espiar quem lhes paga o salário, porventura faria sentido os países porem-se todos de acordo para banir os serviços secretos. Tal como a concórdia que proibiu minas anti-pessoais, a lógica faria nascer uma convenção que suprimisse os serviços secretos. Ficaria mais limpo, o mundo. E todos nós, inocentes peões no tabuleiro dos inconfessáveis interesses dos países, mais protegidos contra atropelos em nome de putativos "interesses nacionais".


Sou só eu a sonhar, ingénuo.


8.12.08

Quando o (semi) vegetariano defende o consumo de carne


O consumo de carne pelos outros, bem entendido. Pelos carnívoros que não caem em lírica objecção de consciência, por comiseração com os animais que entram no matadouro só para comprazimento da raça humana (é o caso do autor). Pelos carnívoros que ignoram os apelos compungidos dos castos protectores do ambiente, sempre militantes na pedagogia dos bons comportamentos em homenagem à qualidade do planeta.


Só que há incoerências, deliciosas incoerências, dos zeladores do ambientalismo. Agora terão descoberto que o gado bovino é responsável por um nocivo contributo para a degradação da atmosfera. As vacas e os bois são animais muito dados à flatulência. E de cada vez que se soltam gases intestinais das reses, há uma baforada de gás metano que se perde na atmosfera. Um gás, dizem os entendidos, muito venenoso. Já há algum tempo tinha feito eco de um estudo que divulgou o potencial poluente do gado bovino. O estudo agitou as consciências: os bovinos emitiam mais metano que jipes de alta cilindrada. Na altura, a malta defensora do ambiente denunciou as ligações suspeitas entre os cientistas e a indústria automóvel. Não acreditavam que bois e vacas rivalizassem com os automóveis na contaminação da atmosfera. Acusaram os cientistas de estarem a soldo da indústria automóvel. Um estudo por encomenda, com conclusões esboçadas logo à partida.


Agora, a cruzada ambientalista chegou ao gado bovino. Afinal os cientistas, os mesmos cientistas que haviam sido vilipendiados, estavam cobertos de razão. É mesmo verdade: a elevada actividade flatulenta dos bovinos é um perigo para a atmosfera. Até descobriram mais: a "peugada ecológica" – conceito que está na moda, mais um instrumento para a sensibilização ambiental das gentes – das vacas e dos bois é dantesca. Também por causa da quantidade de água que cada animal consome ao longo da vida, antes de perecer às mãos do carrasco que trabalha no matadouro. Ponto da situação: comer carne bovina é um atentado ao meio ambiente, devido ao metano que os animais expelem e à muita água exigível para os dessedentar.


Convém identificar os tipos de ambientalistas. Há os fundamentalistas da protecção do meio ambiente, aqueles que têm o sonho de varrer o Homem do planeta para a natureza regressar ao seu estado virginal. Há os que rejeitam os excessos do tipo anterior, mas que se insinuam no papel de educadores das massas, ensinando, com inigualáveis doses de presciência, o que os incautos devem fazer para não serem réus no suicídio do planeta. E há os que alinham nas modas – e o ambientalismo está na moda –, muitas vezes apenas para se libertarem do ónus da pessoal consciência, sem haver uma motivação espontânea para a preservação do ambiente, outras vezes apenas porque sabe bem integrar uma vanguarda qualquer.


Agora um pouco de especulação. Se algum dia estas facções representassem a larga maioria, e os apelos dos advogados de defesa do ambiente fizessem um eco audível, que destino estaria traçado para os infelizes bovinos? Se as pessoas deixassem de consumir esta carne, a espécie bovina estaria condenada a desaparecer. A pureza da atmosfera o exigiria. Falaria mais alto do que o (julgava-se) sagrado princípio da biodiversidade, tão amado pelos ambientalistas.


Daqui surge outra interrogação: que estirpe de ambientalistas é esta que preconiza o genocídio bovino? Serão, paradoxalmente, ambientalistas nada amigos dos animais, quando julgávamos que estavam à frente dos demais na defesa dos direitos dos animais. Afinal há animais que merecem ser sacrificados no altar no deus ambiente. Animais que são a ralé da fauna. Ou reféns do oportunismo ambientalista. Não fossem as pitonisas do ambiente adversárias de manipulações genéticas (mais porque são negócio do que por outra razão substancial), aposto que defenderiam o eugenismo dos bovinos. Até um cientista maluco manipular os genes dos bovinos para que deixassem de ser animais habituados à habitual deposição de ventosidades na atmosfera. Ou talvez não: como iriam perder a oportunidade de reeducar as massas, o seu divino desígnio, levando-as a abdicar da carne bovina? As cadeias de hambúrgueres que se acautelem.


Há, de facto, contradições deliciosas. A das pitonisas do ambiente, em cruzada pelo genocídio bovino. E as minhas próprias contradições, em contramão pela estrada dos ambientalistas, defendendo o consumo de carne bovina – pelos outros.


5.12.08

To live fast and die young


Um mito. Urbano, moderno, de mão dada com um certo romantismo. As vidas vividas tão depressa que consomem a própria voracidade do tempo. Ultrapassam o tempo por dentro. Os endemoninhados da veloz vida, depressa exauridos. Depressa se consome a sua então efémera vida. O epitáfio regista a biografia em tonalidades douradas: viveram pouco, decerto, mas muito. Há páginas e páginas de literatura a consagrar o estilo. E um exército de adoradores dos penhores da vida delirante, célere e breve. Poucos, contudo, os que passam do enamoramento das intenções e culminam o pessoal percurso com uma desvairada e breve correria pela existência.


Dizem que é na juventude que o festim da vida se extrai na sua plenitude. É na juventude que residem, intermináveis ao que parece, as energias para os desvarios. Dorme-se pouco. O rosário de excessos, infindável. Mas as cicatrizes dos excessos ficam acumuladas, inexoráveis. Ao início imperceptíveis, enquanto as forças não se exaurem. Todavia, a eternidade é a trémula ilusão que se desfaz em nada com a densa névoa de cicatrizes que testemunham os desmedidos excessos orgulhosamente ostentados.


Desvanecem-se, as forças. É quando o declínio chega de rompante. A rampa da vida na sua tremenda e imparável inclinação. Não há como travar a marcha para a decadência fatal. Morrem, ainda jovens, em corpos ulcerados por todas as cicatrizes que são o lastro orgulhoso dos devaneios incessantes. Morrem envoltos em corpos mirrados, mas imersos numa singular felicidade – a felicidade de quem soube chegar ao tutano da vida sem esperar pelo atroz envelhecimento.


Nessa altura, têm tempo para a contemplação em redor. Por pretexto, ou talvez não, amedronta-os a velhice. Dizem: que o envelhecimento é uma faca que se espeta na decência da vida. No seu leito de morte, não vertem lágrimas de arrependimento pela breve passagem pela vida. Selam pelo seu punho o testamento de uma vida plena, os minutos todos aproveitados, todo o sal, todos os sabores resguardados nas memórias indestrutíveis. No lacre do testamento, a teimosia derradeira: envelhecer seria um inútil desgaste de tempo, uma ofensa à impetuosa existência de outrora. Num paradoxal arrebatamento de lucidez, agradecem que a doença fatal neles tenha repousado tão precocemente. Sentem-se apaziguados com as respostas às perguntas listadas ao longo da vida. Saciados com a excitante forma de vida dos dias em que se insinuavam no tempo e eram eles que o consumiam.


Os adoradores da vida intensa e breve são um insulto à velhice. Um mastro onde hasteia uma bandeira hostil à biologia que embala a chegada da velhice aos corpos já cansados. Se a ordem natural fosse a dos cultores da vida em contra-relógio, a esperança de vida por aí abaixo parando numa cifra sem precedentes. A geriatria perdia o seu lugar no dicionário. E tantos os problemas financeiros que desapareciam com um toque de magia, o beneplácito de uma humanidade convertida ao arroubo de uma vida passada em fast forward.


Não me comovo, não me comovi, com o culto da vida veloz e delirante. Prefiro-a devagar, reter os instantes memoráveis, cultivar uma inacabada curiosidade pelo infinito que fica sempre por conhecer. As angústias do corpo que envelhece não são pretexto para a desilusão pela juventude cujos vestígios já só pertencem às recordações. Porventura será a angústia do ateu a estalar, com fragor, no peito estrangulado pela convicção de que a morte é o fim da existência. O imperativo de prolongar a existência até se tornar tão ténue que encontra o indeclinável fim. Querer que o dia final esteja longínquo, adiado sempre uma e outra vez, o mais que for possível.


Ao contrário dos enamorados pela vida que escorre fulgurante e depressa, não me amedronta o envelhecimento. Não acredito na fábula de uma existência ungida pela bênção da intensidade. Só a espessura do tempo cauciona a degustação do muito que a deambulação pela existência anima.


4.12.08

O préstimo de uma boa polémica


A saudável mania de polemizar. A inquietação intelectual que desvenda o desassossego da monotonia, quando muitos concordam em pensar da mesma maneira. É nessa altura que irrompe um incontrolável desejo de divergir, o metódico impulso de quebrar o enfermo consenso que é um espartilho da inteligência. Perturbam-me as consensualidades necessárias. Mais ainda quando com elas romper significa carregar o opróbrio do acantonamento, o lugar onde tombam as trovoadas dos que pulsam o cansativo pensamento judicioso.


É indomável a vontade de ser o agente provocador. Detesto discussões terminadas. E detesto ainda mais quando, numa discussão, alguém fica com a impressão que a coroou empunhando a harpa triunfal, esmagando o adversário, humilhando-o sob o peso da derrota. É que a verdade não existe. Ou, se existe, é apenas uma verdade circunscrita às fronteiras do nosso ser. Dos contrafortes das verdades que esbarram uma na outra nasce a frutuosa discussão. Por vezes, a polémica intensa quando os argumentos são trocados à mesma velocidade com que se desembainham as pessoais tempestades intelectuais.


Quando entro numa polémica não o faço para comprazimento pessoal, na demanda de um triunfo sobre quem entra no pleito. Não é para dobrar a minha razão sobre a razão do outro, vergando-a ao nada. As discussões que me apetecem são com as pessoas que gravitam em órbitas diferentes. Tenho dois propósitos. Provocar quem partilha comigo a polémica, fazê-lo questionar os seus próprios alicerces. E permitir que a outra pessoa me confronte com as minhas fundações. Se não fosse um lugar-comum, chamava aqui à colação o princípio socrático: "só sei que nada sei". As discussões apetecíveis são aquelas que nos revolvem pelas entranhas através das interpelações que viram do avesso os pessoais pressupostos. O questionamento permanente.


Só que nem sempre as polémicas se saldam pelo efeito desejado. Raras vezes, para ser franco. Ou porque quem se situa do lado contrário da barricada distorce factos, servindo-se da retórica falaciosa, num contorcionismo que expõe a fragilidade de quem encaixa mal os alicerces mexidos. Tantos os que confundem a pureza da discussão, mesmo quando entra numa apaixonante polémica, com a fátua grandeza de arrematar o pleito com estrondosa vitória. Nessa altura, só conta encaminhar a discussão para o terreno conveniente onde tudo se facilita para aclamar o triunfo cheio de galhardia. Tácticas soturnas, manobras desleais, a irritação que sobe de intensidade, por vezes a razão que se molda à razão da força – e a polémica perde os seus rudimentos.


É quando a discussão parece entrar no fétido território da luta entre políticos, como se houvesse um combate de emproados galos que querem, a qualquer custo, fazer vingar a sua crista cheia de elegância intelectual. Nessas polémicas não me apanham. Que elas só têm soberba, os seus intérpretes enleados no lodaçal dos falsos argumentos, actores que se tornam mestres em truques dignos de um qualquer mangas-de-alpaca. Perece, então, a polémica. Arrefecida no gélido entusiasmo dos que se excitam com o doce trinar da vitória que já se perfila. Não é demissão diante da derrota que se anuncia. É virar as costas a um combate inútil. Nesta coreografia a descompasso, já só sobra um diálogo de surdos. Já só resta o enternecimento ao testemunhar o ar altivo de quem se julga entronizado na sua suprema razão, espezinhada a razão do outro, desfeita numa inócua concha sem conteúdo.


O chamamento das polémicas vem ao de cima quando sinto o frémito de indagar as minhas próprias certezas. Ou de interrogar alguém possuído por indesmentíveis imperativos categóricos. Diante destes, o truque de aparecer como um ingénuo predisposto à catequização. Fazer o ar inocente dos imberbes, dos que julgam saber apenas que nada sabem. Aqueles que, aos olhos dos disseminadores de verdades incontestáveis, são o terreno apetecível para mais doutrinação, para outra rés que deixa de andar tresmalhada. Desses sacerdotes que proclamam imperativos categóricos gosto de ser vítima. É quando frutificam as polémicas mais promissoras. Que, todavia, em breve se desfazem em nada. Os imperativos categóricos aspergidos pelos doutrinadores de verdades várias não aceitam refutação. São alérgicos à enxurrada de interrogações, incapazes para domar o questionamento dos pessoais, ideológicos pressupostos. Detestam ser importunados por agentes provocadores.


As polémicas são um néctar precioso. Uma filigrana que se despedaça ao menor abalo das convicções.


3.12.08

Assim se vê o anacronismo do PC


Não acredito que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço, como era doutrinado no tempo do Estado novo. Mas também recuso a visão romântica do PCP que ainda domina uma certa intelectualidade lusa. Os tempos são de crise para os comunistas lusitanos: perderam a âncora soviética, restando-lhes os gloriosos exemplos que resistem à varridela da história (Cuba, China, Coreia do Norte); e perderam espaço eleitoral, vindo por aí abaixo nas sucessivas eleições. Sobrevivem. De cada vez que ficam a roçar os 10% dos votos é uma tremenda vitória eleitoral. Aliás, é apanágio dos comunistas: seja qual for o resultado que obtêm nas eleições, é sempre uma vitória. Um estranho caso de fair play eleitoral.


Nos antípodas do comunismo, acho contudo que os comunistas devem continuar a ser presença marcante. Há uma certa pedagogia na sua persistência na paisagem partidária. Há por aí muitos críticos que acusam o PCP de ser um caso perdido, parado na história, incapaz de se desprender do dogmatismo ideológico, em suma, um partido anacrónico. Criticam a peculiar concepção de democracia dos comunistas – a visão do que é democracia como modelo de organização da sociedade e a democracia interna do partido comunista.


Começo pelas críticas relacionadas com a democracia. Quem não é militante deste partido não se deve pronunciar sobre a qualidade da democracia interna. Esse é um problema que só diz respeito aos militantes. Se convivem com a atípica concepção de democracia interna, quem os pode censurar? Já subscrevo as críticas ao enviesamento dos comunistas quando empregam a palavra "democracia" como sistema político de que se dizem seguidores. Nem a teimosia de reinterpretarem à sua maneira os atropelos às liberdades que foram cometidos pelos sucessivos governos da sagrada União Soviética os impede de dar lições de democracia. Para eles, "a direita" não anda muito longe do "fascismo" (não acentuar a primeira sílaba, para pronunciar como os comunistas nos habituaram). É o atrevimento de quem se serve de um catecismo ideológico que não renega o totalitarismo. O passado é o legado que os marca. Não só o passado do altar soviético que sempre reverenciaram. Também os episódios de turbulência social e política em que foram protagonistas no Verão quente após a revolução que instaurou a democracia.


Já as críticas que acusam o PCP de anacronismo me parecem desacertadas. Não digo que o PCP esteja parado no tempo, agarrado à ortodoxia ideológica. Só não concordo que isso seja motivo de crítica. Deixá-los ser saudosistas dos idos gloriosos da União Soviética. Deixá-los confessar a admiração pelas maravilhosas democracias que existem em Cuba, na China, na Coreia do Norte. Há melhor confissão dos pergaminhos democráticos dos comunistas caseiros? Existe melhor testemunho do que teriam preparado caso algum dia chegassem ao poder, com o manto totalitário a estender-se na asfixia das liberdades fundamentais? Retomo a ideia: há uma certa pedagogia na existência do PCP.


(A propósito, apetece interrogar a camarada Odete, a figura maior do congresso do último fim-de-semana, quando num comovente discurso pressagiou a proximidade da falência do nefando capitalismo. Camarada Odete: e na adorada China, o capitalismo também tem os dias contados?)


Há dias escutei alguém a sentenciar, do alto da sua sabedoria: que a sobrevivência do PCP, que teima em conquistar deputados e câmaras municipais, é sinal da pequenez da portugalidade. Percebo a tentação de quem assim raciocina: que é como quem diz, ainda há muita gente que aceitaria regressar a uma ditadura. Mas não concordo com a mesquinhez de quem revela tamanha ausência de fair play democrático ao causticar os eleitores do PCP. São os mesmos que têm o despautério de insinuar que o povo é ignaro quando cauciona o triunfo eleitoral de um partido que não preenche os seus gostos pessoais.


O PCP é uma peça de arqueologia política. Que deve ser preservada, para avivar a memória histórica do que foi o comunismo. Tal como não devem ser proibidos os partidos da extrema-direita, no pessoal desacordo com o sectarismo da Constituição que temos. Uns e outros são importante caução a quem entender a democracia como o regime possível, o regime onde, pelo menos, a tolerância e a liberdade de expressão não são cerceadas com o beneplácito do poder e da lei. Esta é a utilidade dos comunistas, como se fossem peças de um museu que, através da sua observação, muito ensinam.


Uma interrogação final: o camarada do "partido irmão" de Cuba, aquele que excitou os congressistas com a oferenda de um retrato dos irmãos Castro, viajou de Cuba em classe executiva?


2.12.08

E o rock and roll trouxe a palavra do senhor (variante evangélica)


Os tempos modernos são uma sucessão vertiginosa de modismos. Efémeros modismos. Uma revoada que aporta ao cais onde são experimentadas as modas do momento. Na maior parte das vezes, os modismos que vingam são os que vêm embrulhados no adocicado papel da surpresa. É que a criatividade esgota-se na nuvem que resguarda os ventos da imaginação. De cada vez que surgem ventos que sopram uma aragem inusitada, os gurus das novas modas ficam excitados e impingem a excitação aos acríticos seguidores.


Vale para as artes, como vale para a moda, até para excitações colectivas que fabricam um exército de seguidores de personalidades que desaguam na paisagem política. Por hoje, umas reflexões sobre um modismo caseiro no panorama da música moderna. Uma vaga de bandas e artistas que, dizem-nos os promotores em estações de rádio, são uma refrescante vaga no panorama musical. Saem do anonimato e emprenham os ouvidos com um insólito rock and roll, ou música de intervenção religiosa na modalidade "cantautor", trazendo a "palavra do senhor" com as vestes da música que nunca se pensaria estar a jeito da disseminação evangélica. Artistas e bandas que começaram a carreira a dar concertos em templos evangélicos, o acto que se segue ao culto. Um após o outro, desprendem-se do anonimato dos templos evangélicos e tomam conta de um quinhão da antena radiofónica e da divulgação na imprensa da especialidade.


Alguns exemplos para a apreciação dos desconhecedores que estejam curiosos. A coqueluche: os Pontos Negros. A gravitar no sucesso desta banda, João Coração, Tiago Guillul, Samuel Uria – correndo o risco de cometer uma injustiça ao ignorar outros nomes na calha para o futuro sucesso. Nos gostos musicais vinga a subjectividade. Como a liberdade de opinião. No que se segue, há o risco de pisar o calo aos admiradores do género bíblico-musical. A menos que resvalem para a cegueira dogmática, aprovem a liberdade de opinião e a diferença de padrões estéticos de quem não se revê no estilo.


Tenho que admitir, para começar, um preconceito. Por um imperativo de honestidade intelectual. O agnosticismo é o obstáculo maior à degustação do rock and roll bíblico. Uma música não é apenas a melodia; as palavras – poemas ou não – que lhe dão uma vestimenta contam, e muito. Naqueles artistas há, em doses variáveis, a disseminação da palavra divina, uma retórica tingida pela moralidade religiosa. Não quero que esta pessoal objecção seja entendida como um clamor para vedar os canais radiofónicos a artistas que trazem a mensagem evangélica através da música. Nem quero que estas palavras, este preconceito, sejam entendidos como uma pessoal obstinação dirigida contra a igreja evangélica. Apenas não me enamorei pelo género, ao contrário de muitos divulgadores que, usando a antena radiofónica e as páginas de jornais, dizem maravilhas daqueles artistas e passam-nos à exaustão, desfazem-se em textos pródigos em elogios.


Interrogo-me: a generosidade dos feitores da moda da moderna música é sintomática de conversão religiosa? Andarão eles pelos templos evangélicos, e decerto não apenas em demanda por novos génios que dedilham as guitarras enquanto entoam loas à metafísica aspergida pelos pastores? Outro tipo de interrogação: o que sinaliza a insólita ingerência da retórica evangélica num género musical que tem sido largamente insensível, até hostil, ao fenómeno religioso? Porventura os horizontes mais abertos da variante evangélica, pelo menos quando se comparam com a anquilosada e tacanha postura da dominante igreja católica, queiram significar algo. Na igreja católica, os ensaios de "modernização" musical resultam em lamentáveis exercícios. Tão anti-estéticos que nunca tiveram o privilégio de chegar à divulgação radiofónica. Na igreja evangélica, a abertura ao modernismo do rock and roll tingido pela retórica bíblica não será um oportuno acto de marketing? Só para atrair os mais jovens aos templos, pois no final vêm os concertos como rebuçado que adoça o culto.


Tenho bom remédio: não consumir o género. Posso retomar o pessoal acto de higiene intelectual. Cercear a entrada de tal música nos ouvidos – a auto-censura que obriga a mudar de canal quando os pessoais ódios de estimação (o primeiro-ministro, o líder do Bloco de Esquerda, o presidente de um clube a contas com a justiça) tomam conta da televisão.


1.12.08

Da ministra da educação, para a galeria dos “tesourinhos deprimentes”


Dizem que o Público é pouco simpático com o notável governo do momento. Dizem alguns que a linha editorial do jornal enveredou por uma tacanha cruzada contra o governo de tão elevadas qualidades e apetências. Estranho o diagnóstico. Na sexta-feira, o jornal serviu uma entrevista em jeito de panegírico à delapidada ministra da educação. Se não era para recuperar a imagem (e a auto-estima?) da senhora, não sei o que seria.


Só que há presentes envenenados. Porventura vão acusar outra vez o jornal de impiedoso ataque a membros do governo. Algures a meio da caritativa entrevista, a senhora confidenciou: "Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, não sei já em que circunstância, e escreveu-me a dizer: 'Quando for grande, vou inscrever-me no PS.' É tocante." Não devia o servil jornalista apagar, com o seu pessoal lápis azul, este sublime e insano momento kitsch da entrevista – será a interrogação retórica dos apaniguados do governo do momento, acusando o Público da enésima orquestração contra o dito governo.


A carta existe? Podia a senhora ministra mostrá-la ao jornalista que, conivente decerto, não terá pedido a sua certificação. Se a carta existe, seria a coroa de glória da senhora – ela que, para infelicidade pessoal, se debate com tantas resistências às reformas que pôs em marcha. Bárbaro povo o que é incauto ao ponto de não se rever na bondade e na excelência da ministra. Ela confessava, ainda: estar cansada. Deve ser a agnosia dos que não prestam a homenagem que ela, no seu íntimo, considerará merecida. Só os predestinados para ecoarem, com insolência, o cansaço do povo ignaro. Talvez seja sinal da duvidosa cultura democrática, dos reduzidos padrões de tolerância, de quem ainda sente saudades da juventude passada nas franjas de semi-clandestinos movimentos anárquicos.


(E aqui o anarquista tem de meter a colherada – o anarquista de outros quadrantes, todavia, que Bakunine e afins não pertencem à minha cartilha. Fico perplexo com a rotação de cento e oitenta graus: de quem navegou nas águas da anarquia e agora se delicia com o sedutor poder outrora vilipendiado. Personagens conhecidas que deram cambalhotas parecidas é o que abunda. Defendem-se: devaneios da juventude, da irascível juventude vivida muito depressa, arrebatada com ideias e causas de apaixonantes radicalismos. Como pode um anarquista de ontem tornar-se detentor do poder anos mais tarde é algo que ultrapassa a minha capacidade de compreensão. E como pode alguém que traz à entrevista nostalgia pela juventude enamorada pelo anarquismo exercer o poder de maneira tão arrogante, tão despótica, causa-me ainda mais espécie.)


Regresso à frase que há-de ficar emblemática quando a senhora for varrida para um canto da história. E à interrogação: a carta do menino existe? Vou supor – mas só supor, que a crença é ténue – que a ministra da educação não estava a mentir quando trouxe a carta do menino para a entrevista. Onde queria ela chegar? Que aquela fatia do povo néscio que ainda não se convenceu que devia votar PS não é merecedora de crédito algum? Que o PS devia ser a nova união nacional? Como é adorável esta insidiosa forma de fazer passar mensagens. Sim, insidiosa: sem revelar a idade do petiz enfeitiçado com a grandeza do PS, em todo o caso, um sobredotado petiz que, ainda na tenra idade, se ocupa já da paisagem política e partidária. Ai de quem ouse desconfiar que a carta não foi lavrada pelo punho da criança embeiçada pelo PS. E ai de quem suspeitar que a carta é um moinho de vento na cabeça da senhora ministra.


Esta frase, uma "frase Santana Lopes", é epitáfio antes de tempo. A ministra deve andar extenuada, as forças exangues nesta tenebrosa guerrilha com professores e sindicatos. Perdeu o norte e embrulhou-se no diáfano manto da ridicularia. A frase, digna de um programa de humor. Ou de um filme com traços de surrealismo. Ela sentenciou: "é tocante", que o menino (ou alguém por ele; ou apenas a febril imaginação de sua excelência) tenha prometido casamento com o PS ainda em idade tão precoce. Há quem goste de dar coices em si mesmo, não é senhora ministra?


É nestas alturas que vem ao de cima uma pessoal, mas indomável, frustração: não consigo gostar do PS, nem um grama que seja. Por que será?


28.11.08

Vilões sedutores


Pela cidade estão espalhados outdoors que anunciam a "Villain Collection" – uma nova série de relógios de uma conhecida marca. A emprestar a aura de sedutora criminalidade, a imagem de um rufia em pose ameaçadora. Como estou em crer que os publicitários não dão ponto sem nó, pondo cuidado nos estudos de mercado que antecedem uma campanha publicitária, isto sinaliza a predisposição de potenciais consumidores para se deixar levar pelas cantilenas de sofisticados meliantes.


Não é de agora, a atracção por uma casta de vilões sedutores. Não se trata de rufias comuns. Esses, imersos na indiferenciada ralé, merecem o desprezo da populaça. Os adorados são os ladrões sofisticados, que usam a inteligência acima da média para golpes brilhantes. Muitas vezes, trata-se de gente que engana até profissionais polícias habituados a lidar com todo o tipo de criminalidade. Gente que congemina pacientemente os golpes que arrombam o baú que se julgava protegido a sete chaves. O género é pródigo em páginas e páginas de livros, em filmologia abundante.


Ao contrário do convencionado na lírica cinematografia, em que os "bons" levam sempre de vencida os "maus" – numa ingénua visão que não condiz com o mundo que existe –, os sedutores vilões são os heróis do enredo. Têm uma aura de romantismo que arrebata um numeroso exército de seguidores. O que leva a interrogar se não há por aí um também numeroso grupo de potenciais criminosos, que só o não é porque os dotes intelectuais não chegam para arquitectar os fabulosos e infalíveis (ou quase) planos que gizam o golpe. O que também leva a interrogar por onde andam os valores, desmentindo aqueles que ainda insistem na pedagógica a acertada moral, sem sentido a missão evangelizadora que teimam em aspergir sobre incautos e espertalhões.


A imagética do rufia sedutor vem de braço dado com o esplendor dos meios sociais onde repousam os holofotes. Esses rufias têm uma vida passada por luxos diversos, que a sucessão de conseguidos golpes alimenta o ócio e o ninho de luxos. É o que passa diante dos olhos do leitor, diante dos olhos do cinéfilo, quando lê um livro do género, quando assiste a um filme que torna ainda mais reais as sensações da vilania na sua quintessência. São os sonhos de muita gente a falar através das páginas dos livros, das telas dos cinemas: a vida faustosa e, se possível, obtida por meios fáceis. O romantismo dos vilões de primeira água interioriza esses sonhos.


Também conquistam as simpatias de muita gente os vilões que fazem justiça pelas suas próprias mãos. Aqueles que roubam aos ricos e distribuem aos pobres, a versão moderna do Robin dos Bosques, ou do Zé do Telhado, permanecem vivos no imaginário popular. O povo gosta dos justiceiros que, ao arrepio da justiça instituída, heroicamente são fautores da justiça pretendida pelo povo. Se cometem crimes, isso não interessa. Há fins que justificam os meios. É o mesmo povo que faz esperas ruidosas à porta do tribunal onde é julgado alguém acusado de hediondos crimes. O mesmo bravo povo que gostava de fazer linchamentos populares, caucionando a justiça na sua forma pura – já educados para o dogma que ensina que a soberania reside no povo, estranhando que os juízes não sejam eleitos. A coragem, diria a bravura, de muitos a baterem num indefeso: a imagem fiel do cretinismo popular, ou a prova de que não somos tão civilização como é apregoado.


Não tenho a certeza se as duas coisas estão relacionadas – a sedução pelos vilões que são heróis, dos bons vilões, e a tendência para defender a justiça popular. Lá no fundo, há cada vez mais gente a condoer-se pelas injustiças de que é testemunha. As fortunas que nascem de um buraco negro. A corrupção galopante que distorce méritos e leva os fracos e incompetentes a vingarem na fétida espuma de onde emergem. Negócios esconsos, ganância cega, atropelos a quem apareça pela frente, sumiços ditados a obstinados adversários. Quase sempre sem o braço da justiça lá chegar. Uma doença que se espalha, imparável, acometendo sobre mais e mais gente. A adoração de vilões sedutores é muito a atracção por justiceiros. Ou o olho por olho, dente por dente tão querido da populaça.


Admito que a "Villain Collection" daquela marca de relógios vai ter um sucesso estrondoso.

27.11.08

Ontem, o tempo e o modo


Não eram sonhos – que esses cavalgam um tempo ausente. As asas batiam sempre no sentido do tempo de outrora. No demorado voo pelo ontem que se eternizava pelos dias presentes. O ontem entaramelado com os dias vindouros. Era como só interessassem as recordações. A revisitação dos lugares, das pessoas, dos momentos vindos de um ontem, remoto. Os passos atravessavam esta dimensão invisível do tempo. Parecia que os ponteiros do universal relógio tinham aderido à inércia. Hoje, era apenas um teatro com uma larga tela onde desfilavam, ininterruptas, as memórias avivadas pela demissão do tempo corrente.


Talvez sem dar conta, a demissão do tempo desmentia a inércia do relógio. O tempo era voraz, o carrasco da infernal sensação de já ser mais o tempo vivido do que o tempo por viver. Demissão, contudo. Era como se já não contassem, ou tivessem escasso significado, os dias e meses e anos estendidos diante do tapete da vida. Um desperdício, da vida. A adoração compulsiva do ontem, como uma qualquer droga que traz viciação. Entretanto, o torpor instalado. Diria: a interminável contemplação do ontem como hibernação de si. O tempo e o modo eram cultores do ontem, de todos os ontem que se sucediam – dispersos, fragmentos – diante dos olhos ora semi-cerrados ora em pleno sonho acordado.


Já não havia forças para o, agora considerado, inexpugnável terreno. O outrora admirável desconhecido era um hoje um temerário abismo de que não arriscava sequer chegar próximo. Uma resignação malsã. A acomodação aos dias idos, penhora da existência que se resumia a todos os ontem emoldurados na gaveta das memórias. O regresso aos lugares e às pessoas e aos acontecimentos, uma e outra vez – ou a redescoberta de fragmentos de um qualquer ontem ainda não resgatado aos sombrios arquivos da memória. Era a maneira mais expedita de envelhecer. Ou a maneira de deixar a vida mirrar-se diante da sua insignificância actual.


Neste altar só a nostalgia tinha lugar. Era como se o corpo inerte ganhasse raízes no lugar de onde se recusava a sair, por temor dos dias vindouros. Só havia endeusamento de todos os ontem apetecíveis e dos outros ontem que saciavam o apetite pela melancolia. E mesmo que teimasse em admitir o culto do tempo irrepetível, ainda que argumentasse em sua defesa dizendo que traz os olhos abertos ao tempo presente, o desgaste dos pés que teimavam em percorrer os trilhos de outrora era sintomático. Em todos os demorados momentos de contemplação de um ontem metia a existência entre parêntesis.


A adoração do ontem, seria um refúgio? A confortável cápsula que tornava possível enganar o tempo universal que teimava em correr à cadência habitual. Ou os livros, os filmes, a música, os quadros dantes visitados, por vezes à exaustão, e que se o tempo corresse na sua feição não deixava espaço à revisitação. Talvez doesse saber que não regressaria a certos lugares, nem teria a repetição de momentos com algumas pessoas. Nem, decerto, as gratificantes sensações teriam o mesmo sabor se forçadas a repetir-se. Ou que, não fosse forçar a espontaneidade das escolhas, o regresso a livros, filmes, músicas, pinturas só servia como nutriente da demanda por outro tipo de recordações associadas. Era aí que o obstáculo do tempo irrepetível se esmagava, com fragor, no seu peito. Mesmo que rompesse o espelho da espontaneidade, magoava a decepção maior: na revisitação de todos esses ontem, sobravam as sensações diferentes das que o ontem tingira com os seus dedos. Os lugares e as pessoas mudam, expostos ao indomável tempo. É aí que grita tão alto, num rumorejo insuportável, a definitiva sentença: o passado já está feito e não volta a acontecer. Por muito que as memórias se exercitem no simulacro do ontem que não pode voltar.


Essa era a sua consumição mais dolorosa, a impenitente mortificação interior que se esforçava por turvar. Ao dilema, uma de duas respostas. Ou prescindia da nostalgia imberbe, fazendo-se regressar à existência que tinha, deliciando-se, embriagando-se até, nos dias que nasciam todos os dias e ofereciam um banquete singular – o da degustação diária da vida. Ou ensimesmar-se nos muitos ontem que gabava possuir em armazém, fautor de uma vida tão preenchida.


Era comboio que já passara, sem retorno. O inútil devaneio dos adoradores do ontem. A ausência de si, navegando nas águas etéreas do ontem que, contudo, se escapa entre os dedos como acontece a quem insiste em agarrar o vento.


26.11.08

Fogo amigável


Os gangsters, encurralados pela polícia, ensaiam desesperada tentativa de fuga. As suas pistolas disparam contra os polícias, que ripostam. No caótico tiroteio, as balas aleatórias tropeçam nas esquinas do edifício onde estão sitiados. Gangsters e polícias à mercê da lotaria dos projécteis. Quando as balas se esgotaram e o cheio a pólvora testemunhava os corpos que jaziam no chão, uns feridos e outros já sem vida, a contabilidade das baixas. Havia mais baixas entre os criminosos. Mais tarde, dois polícias vão ao hospital visitar um dos gangsters a quem foi retirada uma bala do braço. Pelo calibre, a conclusão simpática da boca de um dos polícias: "fogo amigável".


Só a formidável lógica castrense é que podia inventar a expressão "fogo amigável". Supõe-se que as balas disparadas pelo revólver de um dos companheiros do gangster ferido eram balas doces, balas que ao perfurarem a carne do criminoso não lhe causavam dor. Assim como assim, tratava-se de uma bala amiga. E, acredita-se, os amigos não existem para causar dor.


Já sei: fogo amigável é uma metáfora. Quando o polícia recolheu a bala extraída do braço do patife notou-se a expressão de alívio. Ele não tinha sido atingido por bala disparada por um polícia – como se caíssem os parentes à lama quando um polícia atinge alguém a tiro. Mas o polícia exprimia o sossego interior ao saber que o gangster não fora alvejado por um dos seus. Fora de hipótese ser processado pelo gangster. Aquela bala, que já era prova policial, cuidadosamente enfrascada para o efeito, ganhava uma plácida condição só ao alcance do "fogo amigável". Não era bala; era supositório com os mágicos predicados anestésicos. Uma bala para curar as dores.


Há muitos fogos amigáveis. Há os disparados por balas lancinantes. E há o fogo amigável servido na bandeja das palavras cortantes, das palavras implacáveis, as palavras que são devastadoras. Num assomo de frontalidade, elas destroem a auto-estima de quem as escuta. Diz-se: balsâmica honestidade, que de muito se querer alguém essa pessoa merece escutar as palavras desassombradas, nem que elas sejam um forte abalo telúrico aos alicerces enraizados. Não deixam essas palavras de ser sucedâneo de fogo amigável. As palavras impiedosas estalam no corpo da pessoa a quem se destinam, como se fossem uma granada que a estilhaça em pedaços.


A reacção espontânea do atingido pelo fogo amigável das palavras destemidas é um grito de dor, o protesto contra aquelas palavras julgadas desabridas. Jamais se esperaria que as balas viessem disparadas com o rótulo amigável. Diz-se: que da amizade irrompem os alicerces da confiança e que se exige recíproca compreensão. Respeito é a rima necessária. Quem tudo isto argumenta não está à procura de amigos; apenas de comiseração. Pela piedosa convivência exige-se a caução de todos os actos. As janelas encerram-se aos reparos, até à construtiva crítica, que chegam entoados pela boca de quem se julga pessoa querida. Todas as balas têm o mesmo amargo sabor, na esguia dor que provocam quando se alojam na carne. Venham de onde vierem – sejam fogo amigável, ou troem por mão inimiga.


Fico convencido: faz sentido o fogo amigável. Não na patética troca de balas entre gangsters e polícias, que às balas transviadas não colhe a distinção entre fogo amigável e fogo inimigo. Essas balas, amigas ou não, ferem e matam, ensanguentam tanto umas como outras. As balas que vêm embrulhadas nas palavras que doem ao serem escutadas são, às vezes, a terapêutica necessária. Que só os infatigáveis militantes da frontalidade têm capacidade, e muitas vezes a coragem, de proferir.


Essas balas podem chegar com o fétido odor da pólvora, podem causar feridas que ficam abertas por muito tempo. É na máscara do tempo que as feridas cicatrizam, que o pessoal sofrimento se suaviza. Só então, com o distanciamento do tempo, sobra o discernimento. É então que se percebe que aquelas balas tinham o doce travo amigável. Por vezes, é tarde para reparar os danos do fogo que se julgou pessoal aleivosia quando eram, afinal, amigáveis balas.

25.11.08

A realidade, somos nós que a fabricamos


Revejo Fátima Felgueiras, à saída do tribunal que ditou a sentença na maratona que foi o julgamento por uma mão cheia de crimes de que era acusada. Revejo-a, exultante, triunfante até, a protestar a paradoxal ilibação de quem acabava de ser condenada a pena de prisão suspensa de três anos e três meses. Percebo o contentamento: a senhora livrou-se do crime maior que pesava sobre si, as suspeitas de corrupção. A serem provadas, seria quase insólito no panorama pátrio – que isto de levar ao fim julgamentos de gente acusada de corrupção é uma odisseia que termina com a exculpação do acusado, que ainda sai triunfante, nos ombros dos apaniguados, e muito ofendido pela acusação infundada.


Revejo a autarca de Felgueiras e orar com pujança. Soltou-se-lhe a língua, por fim, ela que se reservara a um monástico silêncio durante o julgamento. Ali estava, de peito feito, um orgulho ímpar, a mostrar a quem a quis escutar – detractores e fiéis seguidores – que a honra estava intacta e assim tinha sido sancionado pelo tribunal. Não reprimiu a habitual pesporrência dos que não foram instruídos para degustar olimpicamente as pessoais vitórias. Havia raiva incontida naquelas palavras. Dirão os mais condescendentes: pudera, provada em tribunal a sua inocência, sobrava o travo amargo de todos estes anos que a senhora carregou o opróbrio dos crimes de que era acusada.


O problema é que a senhora de Felgueiras destilava a bazófia diante das câmaras sendo arquitecta da sua própria realidade. As notícias acabavam de reproduzir a sentença do tribunal: ilibada de quase todos os crimes, excepto um punhado deles, crimes menos graves, é certo (abuso de poder e peculato de uso) – mas a senhora não era ilibada de todos os crimes. O tribunal sentenciou: pena de prisão de três anos e três meses. Contudo, pena suspensa. Por artes das habituais e soturnas "manobras processuais", de braço dado com um novo código não-sei-de-quê mais generoso para gente condenada a pena de prisão, a senhora teve a sorte de ver a condenação remetida à condição de "pena suspensa".


No conto de fadas que a dona Felgueiras contava, de permeio com a raiva que espumava, esqueceu-se de dizer aos néscios que não tinha sido totalmente ilibada. Aquele "totalmente" faz a diferença. A diferença de quem distorce a realidade à medida das suas conveniências. Estará habituada, treinada na escola dos medíocres políticos que são a nota dominante do regime. Só que nem à força de tanto forjar a realidade a senhora consegue transtorná-la. A sentença do tribunal, quando se converter em sentença definitiva (depois de julgados os recursos para os tribunais superiores), há-de deixar uma desagradável impressão digital no registo criminal da senhora. Da sentença de prisão, apesar de suspensa, não se há-de livrar. Cadastrada ficará, a donzela.


Continuam a passar na memória as imagens da oratória inflamada e triunfante da senhora à saída do tribunal lá da terra. Uma mentira contada à exaustão transforma-se em verdade. A senhora de Felgueiras parecia começar a pré-campanha eleitoral para as eleições autárquicas daqui a um ano, ali à porta do tribunal, um exotismo latino-americano que terá trazido de outras andanças. A pose pomposa à porta do tribunal servia para o chamamento dos fiéis seguidores que a reelegeram mesmo depois da vergonhosa fuga que empreendera para o Brasil. Na altura, já no doce exílio onde continuava a receber o salário pago por quem paga impostos, a turista de luxo justificou-se com o incrível argumento de que não lhe passava pela cabeça ter que partilhar cela com criminosas de delito comum. Glosando Orwell, confirma-se que uns são mais iguais que os demais.


Esta santa terrinha dos doces e suaves costumes tem este encanto. As lentes trocadas caucionam como naturais as coisas vistas de pernas para o ar. Gente sem vergonha que se ufana dos feitos e ainda se condói pela injustiça de que é vítima ao dar com os ossos em tribunal. É um ar de terceiro-mundismo latino-americano que nos dá, com frequência. Só nos faltam as praias paradisíacas, o clima exótico, ou o exotismo dos indígenas bolivarismos. No fim de contas, esta terra é uma gargalhada pegada. Um programa de humor incessante. Quem disse que viver aqui é desagradável?


24.11.08

(Tratar da) vidinha


O "bloco central" é muito isto: gente arrivista que sobe a pulso a escadaria do aparelho dos partidos e desagua na grande capital. Vinda de uma parvónia qualquer e, num belo dia, sai a taluda da supina grandeza de funções: chefiar um ministério; se o pessoal apagamento não cauciona tão elevada sinecura, uma secretaria de Estado já é o zénite aceitável para o pessoal garbo. Depois vem a maré que os leva do Terreiro do Paço. Não ficam a perder. Invariavelmente, passam a gravitar no hermético universo da alta finança, senhores de importantes, e bem remunerados, cargos em empresas de renome.


Sem falsos moralismos: não defendo que se devesse pôr um garrote no circuito sanguíneo entre ministérios e empresas e bancos. As pessoas são livres de transitarem por onde quiserem. Às empresas e aos bancos, quem pode censurar o oportunismo de deitar mão a gente que acaba de deixar públicos cargos, sobretudo a gente que se soube abastecer de invejável rede de contactos enquanto servidores da causa pública? Porventura um pouco mais de decoro não fosse mau conselheiro. Para as empresas e bancos, que não se conseguem desprender da imagem de pedintes do poder público. E dos que, mal lavam as lágrimas pela partida da sinecura onde faziam autoridade, logo vão carpir as mágoas para os braços de empresas e bancos que os acolhem contra generosa retribuição.


Outros furam mais longe. Fazem-se banqueiros. Inebriados: com o poder que amealharam enquanto lhes coube em sorte serem governantes; com a densa rede de cumplicidades que souberam tecer, sementeira do nepotismo que cultivam; com os salões da alta finança que passam a pisar, a oligarquia banqueira em embaraçado convívio com os neófitos banqueiros que trazem bênção política. Extasiados com o néon da grande capital, que sempre fora sonho saírem da província beirã que era pequena para a grandeza que, notavam, exalava das suas pessoas.


Um chegou a ser secretário de Estado dos impostos. Depois embarcou para Londres, onde se abarbatou com uma vice-presidência de um banco que gere financiamentos da União Europeia. Terminado o exílio londrino, fundou um banco. Sabe-se agora: o banco deve ter sido um sucesso estrondoso. Nestes anos, amealhou um pecúlio interessante para quem vem do nada: seis milhões e meio de euros de património, é o que consta. As curvas do destino pregaram-lhe uma partida: os próximos tempos serão de cativeiro, tantos os crimes de que é suspeito.


O outro é personagem querida de uma certa corte jornalística e de algumas revistas cor-de-rosa – na expressão do arrivismo social destas criaturas que desaguam vindas da província e se deslumbram com o crepitar da imagem pública exposta diante de uma audiência ávida de voyeurismo. Fez uma pausa na carreira política – dizem muitos, mais situados "à direita", uma promissora carreira política. Nesta sabática da política vai tratando da vidinha, acumulando importantes cargos à frente de empresas. Tão prolífico é no abichar de presidências de conselhos de administração que, julgar-se-ia, é guru da gestão. Só que esta não é uma terra normal, há que o lembrar.


A provar o que se suspeitava, a carreira política deste arremedo de Aznar luso (a colagem era mais evidente quando usava ridículo bigode) está apenas em banho-maria. É que, chamuscado pelo descalabro do banco há dias nacionalizado, e temendo ir na mesma enxurrada que levou o seu companheiro a ver a alvorada através da quadriculada janela dos calabouços, solicitou os bons serviços da televisão pública para pública operação de auto-branqueamento. (E o canal não podia negar o favor a quem fez a pública apresentação da biografia do chefe supremo – o livro docemente intitulado "o menino de ouro do PS". Há cumplicidades que dizem tudo.) Aquela pose de virgem pudica, a pose condoída, as culpas algures mas jamais sobre a sua pessoa, o perfeito sacudir a água do capote. É curioso: parecia um julgamento antes do tempo. Ironia do destino, a pessoa que envolveu como seu pessoal álibi já o desmentiu. Terá o povo razão quando adverte que é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo?


Dias Loureiro, é o nome que muitos "à direita" pronunciam como a noiva prometida para trazer o PSD de volta ao poder. Haveria muito a discutir, a começar por aqueles que deitam estas noivas prometidas algures na "direita", como na "direita" acomodam o PSD. Não é nisto que revejo "direita". E se a "direita" ultrapassa o meu discernimento e é mesmo isto, antevejo longa travessia no deserto a julgar pela qualidade das noivas prometidas que aparecem a cada novo horizonte, e o "Aznar luso" não é excepção. Com Oliveira e Costa, algo em comum: a fronteira entre política e negócios deixou de existir, numa intimidade perversa com os resultados conhecidos. Protótipos da casta cheia de ganância que usa os partidos e o aconchego do poder para fazer pela vidinha, pela sua privada vidinha. No sentido literal da palavra: comezinha vida, mesquinha vida, a destes meirinhos que poluem o serviço da "causa pública" com a pessoal avidez.


Derradeira perplexidade: foi Oliveira e Costa secretário de Estado dos impostos, fazendo-se passar por génio da matéria. Deve ser terrivelmente incompetente: se não, como podia ser acusado do crime de fraude fiscal?